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Poemas neste tema

Morte e Luto

Nauro Machado

Nauro Machado

Contumácia

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação".

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

1 600
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Caminhavam sobre meu corpo

Caminhavam sobre meu corpo as de Goiás e do
Piemonte
uma delas costumava fincar
a lança de seu pé no sítio
do coração — outra
rodopiava sobre o pênis taciturno
e num salto certeiro
cravava as ancas ao grito lancinante
e engolia nas entranhas o príncipe fremente:
florescia em suas bocas
compunha o lábio formoso
e a língua estudiosa
mas não pisavam minha pele — ego poeta
em floretes de sopro as sustentava e a sombra
de suas pernas
tecia túnica a meu corpo.

Os que sabem de mim me lembram como um pequeno
rei arteiro e moribundo entre amantes de todas
as raças. Todas elas me possuíram ao longo das
noites. E a noiva sérvia, as crinas do Danúbio
sobre os ombros — e a princesa de Túnis com seus
olhos de avelã e a puta de Araguari com seus seios
salubres — todas me possuíram
por dias e noites e anos me possuíram.

E fui eu mesmo meu próprio preço:
por isso tantas vezes me resgatei — e nunca as
possuí — nem mesmo
a pequena alemã de Blumenau nas noites de setembro.
E Isabella era Lúcia Isabella. Quando
pensei tê-la afinal dominada e possuída, metamorfoseou-se
em rosa — melancólica rosa amarela num jarro de porcelana.
De outras, desapareceram o rosto e o peito, todo o corpo
transformado num pequeno sexo na palma da mão, uma crisálida,
uma borboleta ou uma pomba, e fugiram voando para o teto
da igreja de São Paulo. Outras ainda se transformaram em
defuntas e eu
as sepultei chorando num monte de lírios desolados
—no entanto, eu as criara, ego poeta,
de meu barro e meu sopro,
pois antes de mim não existiam:
quando sílaba à sílaba alguma noite pronunciei seus nomes
Ma — da — le — na
Ma — ri — e — le — na
I — sa — be — la
só então elas se ergueram
com seus umbigos vertiginosos
e nada mais pude dizer
e seus nomes
me esgotaram as veias e os pulmões.
E quando eu lhes perguntava de onde vinham,
para onde viajavam, de
que pessoas ou lugares traziam ou buscavam notícias,
respondiam simplesmente:
— Apolo —
e quando diziam o nome santo, voltavam de repente ao
que eram: Isabella
se incorporava em sua rosa amarela, a puta
de Araguari se erguia de sua borboleta ou de sua pomba
e as defuntas, sacudindo os lírios dos cabelos,
se punham de pé sobre seus caixões azuis. —
E todas me possuíam de novo

Possesso delas — ego poeta
produzia o vinho e o vinho
produzia o bêbado — e o bêbado
produzia a música e a música
produzia a regência
do ser em dança sobre os tornozelos
em tomo delas — pois seus olhos
guardavam o rosto de um deus e sua boca um nome
— Apolo —
e ao sagrado nome novamente
se metamorfoseavam
e a pequena alemã de Blumenau
era uma égua ruça e a puta de Araguari uma poldra baia
e emparelhadas com arreios de prata arrastavam
entre as constelações o carro do deus.

Entre Alpha e Beta de Capricómio o deus
era arrastado pelas
potrancas vertiginosas. O galope sideral atravessava
as flechas do Sagitário, as rodas do
carro de ouro deslisavam sobre o ruivo riacho
da Coma de Berenice e as éguas se empinavam
afinal, de narinas ciumentas, na colinas de
Delfos onde Lúcia Isabella transfigurada,
em Maira la Perra transfigurada,
lambia a mão do deus com sua astúcia
de irish-setter. E de repente assumiam outras
formas e brotavam dos agapantos e dos
crótons e luxuosas serpentes coleavam
na relva com seus crótalos pressagos. Pois Lúcia lsabella era
uma verde cascavel de olhos dourados,
vertical e longa, meneando a cabeça e a puta
de Araguari armava o bote de
sua pele malhada e Jéssica e Elisabeth
enrolavam o lustroso coral de seu dorso,
enquanto Adriana e as outras lambiam
os dentes perigosos.

Ego, poeta,
tenho a mão sagaz e arteira
do Serpentário
e empunho o sustento e encanto as serpentes
enroladas no pênis em meu leito de rosas
pois as rosas
sideradas vão con-
siderando o ouro e a praia das serpentes
na mão do Serpentário
onde ainda uma vez
a cabeça dourada de Isabella.
volta à antiga flor de seu sorriso
pois et nunc et semper as auroras
devolvem Lúcia Isabella
do sítio da memória à ilha
do coração de Apolo.

Por isso peregrino a memória
ego, poeta, romeiro do coração
adonde parti retomo — e estudo
minha esperança:
de minha própria esperança estudioso
sobre a podridão das horas
planto a rosa e a maçã e habito a distância
de sua primavera e seu outono:
pois do lombo de capricórnio salto — ego, poeta
a galope neste Monte Real
la belle province
e guardo sempre a língua — e é bom morrer
restam algumas horas de vida — tant mieux
pois não verei o estrangeiro
plantar sua palavra onde plantei teu nome
ao vento da montanha repetido
entre as folhas do érable:
pois ao morrer teu nome em minha boca
terei cumprido a minha própria morte:
na língua estou vivendo
here lived and labored
e os turistas atônitos
e Agnes e Carole e as outras
ouvirão do porteiro do hotel
a evocação do poeta:
from here sailed out to die
as verdes águas escrevendo na vela
as letras lancinantes de teu nome

alí — satélites — meus olhos
pois de Águas Be L as e Pa L mares e Pa L meira
dos Indios
a Be L grado me voy
e eras o vale e o céu de Ia Be LL e Province
e eras o nome de la Be LL e Province
e a noite de Guatema L a e a lua
de teus seios enluarava as laranjas
nos jardins maduros de Teguciga L pa
Teguciga L pa!
en el cerro de plata
tres mejülas de oro
à janela dessa calle del Olvido
rias o riso de cristal e prata
de Tegucipalga
e as colinas
estudavam ali teus seios teus quadris e o vento
aprendeu a mover-se em teus quadris
e assim por Montes Claros e Diamantina onde bailavam
nas suas manjeronas rescendentes
Cristina e Júha.

Por esta flor passou um beija-flor
por esta relva um calcanhar
por este lago uns pés:
na flor na relva na água
crescera o calcanhar
da raiz do rastro
teu talhe de palmeira
desde
até.

1 241
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pange língua gloriosi

Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.

Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor

Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias

As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo

E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno

no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"

escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome

In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde

no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope

a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até

1 254
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New

Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:

Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.

Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:

pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea

Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas

pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.

1 123
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Divididos os idos in dimidio dierum meorum

Divididos os idos in dimidio dierum meorum
vadam ad portas inferi
in dimidio dierum midnight
she knocked at the door in Chelsea à porta
do coração — nos assombrados olhos
tacebit pupfila in oculo meo
e bato à porta do inferno e bato
ad portam paradisi
e aos surdos anjos e aos demônios surdos
emudece no olho a pupila — a minha —
e de olho a olho
sidera
considera:

considerei os astros, Musa,
Musa, Palatini referamus Apollinis aedem:
ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder
entre os lençóis de linho e os limões verdes
floresciam as sardas ao redor de teus seios
tua beleza ferruginosa suplicava
os ruivos travesseiros:
chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua
chegava por Santa Clara
Ariston
in dimidio dierum meorum:
pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite
per talos
me Veneram quaerente:
e era uma vez a Infanta do crepúsculo
seus cabelos pesavam nove libras de ouro — e era uma vez
o céu de Coritiba e o vestido escocês
e era sempre Isabella
e o vento vindo de novembro pelo Paraná
me Venerem quaerente
pois quérulo me vou pelas veredas
buscando Vênus:
e onde tornozelos
— ancas
onde ancas
— tua cintura fina
onde tua cintura
— a dança
onde a dança
— Afrodite
e por ali
rastro de Apolo
poetae Venerem quaerenti — Apolo
no inventado rosto
inventa o coração

Chegávamos de junho e julho e agosto
vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes
cavalgávamos serras de saudades — outras
partíamos da noite enluarada
e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu
na saudação ao poeta:

palmilhado o silêncio
no rumo da palavra
e onde sua sílaba
por alí Apolo
ludum ludendum ludens

e quando a madrugada explica a rosa
se explica o coração na pálpebra explicada:
mas ai de ti, Louis,
Louis Alphonse Donatien
na boca encarcerada morde
o cerrado botão da rosa muda — e queima
nos olhos moribundos queima a antífona
do próprio requiem —
mas Apolo
desabrocha à lira
a louvação da flor:
a corola celebra teus cabelos
a virilha celebra nome e nume
e este é o ludus do amor
a delta digo ao teu ouvido D e fundo
o alfabeto
em Lambda Delta Beta Kappa:
e assim te chama a língua sábia
o lábio o seio o umbigo a orquídea
a curva pígia
— por isso
uma noite me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado
e à negra relva o milagre de teu sopro
o ergueu de novo
e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos comiam as rodelas decepadas
mas és mágica e cem vezes
mil vezes
traziam das entranhas e entre antúrios
em seu pendão de cana florescia de novo
a cabeça do príncipe perene
no júbilo do orvalho entre os antúrios

E muita noite
quebrada a flauta
não cessava a melodia — tenho lábios
viciosos de música e de sopro
entre os dedos

teu corpo no ar
e de horizonte a horizonte
modulada canção se desferia
da fonte do desejo — pois ali
nessa clave de lua era soprada a rosa:

E sopro a flauta a rosa súplice
e a canção te compõe e decompõe
de seio a seio

Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha
toureio o touro da palavra
picador banderilheiro
no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba
do coração — e os olhos
guardam gota a gota
a espada matadora
pois tourovelha toureirotouro
arrebanha rebanho vivo
rebanho à morte —
e um dia
há de restar de mim o pranto de Erifânia.

Erifânia!. Erifânia!

Pois busco ovelha por ovelha
e touro a touro enfrento
y me aúlla la perra
Maira la perra
um morto um vivo um touro —
e salto
picador de ditongos e tritongos
sou o amante das Fúrias Eríneas
Eumênidas
Eumênidas
pica —
dor
me castraram de novo
e me busco no ventre das Eríneas
e encontro ao ladrido da perra
Erígona
e Erifânia —
— Erifânia
canta a dor adorada — picador do touro
pica as fúrias amadas
entre as doces ovelhas ao ladrido
de la perra Maira farejando
dissílabos trissílabos tetrassílabos
e chego ao pentassílabo per talos

a brisa violeteira violava
os irados cabelos dessa Moira
e ela ao vento favônio
— Musae, favete —
lavava o favo das pupilas de mel:
mas quem se esqueceria de teus olhos
Isabela Isavela
quem desse verde navegado pelas
borboletas em cio?

Pela perra Maira
a língua varada pela lança
por Maira e Moira
por Erígena e Erifânia e as Eumênídas
Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas
vou lendo o chão.

1 137
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Nascia o gerifalte sobre os ombros

Nascia o gerifalte sobre os ombros
na testa brotavam o louro e a madressilva
a cintura gerava o boldrié de Orion
e a flecha e o arco inteiravam as mãos
o cavalo baio decorria das coxas e das ancas
e nos olhos levantava-se a estrela:
Phaeton! Phaeton!

A caça caça o caçador

A sombra assusta o corpo
mas Apolo
não teme seu fantasma
e o cavalo baio
galopa seu galope
junto ao gerifalte à flecha à estrela
Phaeton! Phaeton!

Pois me nutrias quando
a mão celeste ordenhava as estrelas
apojadas de azul
poeta sum
a boca cheia
dos gomos luminosos
e da Vega da Lira e de Cassiopéia
por isso — Fratello Sole, digo,
Sorella Luna
doce incesto noturno
tu Pythia, tu Phebéia, tu Delphinia
Artemis Artemísia
quia nocte quasi dies
in diebus diabola

Bêbados de estrelas
rolávamos sobre as constelações
no lagar capitoso
Phaeton! Phaeton
Incestuosa —
de nós mesmos nascíamos
e éramos naquele tempo nossa própria fábula
e a mesma flama nos torneia agora
o corpo fulgurante no coração da lenda

Pois quem te lembra nua
empinado el culo quando
ardiam nos lençóis as sarças peludas —
eras a mera lenda
e em tua virilha lendária
fabulava o odor
do pênis mitológico —
Phaeton! Phaeton!

Os cavalos nitrian no pântano, dos astros
e seus cascos
golpeavam os planetas — a espuma
dos meteoros no focinho:
os que Zeus derruba das alturas
deixam no firmamento a Via-Láctea
Phaeton! Phaeton!
teu rastro
Pyrie eleison.

Sob plátanos brancos de uma ilha sepulcral
oficiava ao crepúsculo tua beleza, amor
Phanes Phanus Phalena
Phales Phalerus Phales
Phalanthus Phaletusa
Phaeton Phalanthus Phalus
De falernos
na cavalgada embriagada conhecemos
as veias da manhã e os ossos da noite
pois transpusemos
a aurora e seu crepúsculo
e do tempo regido ao casco dos cavalos falernos
apeei-me à fronteira
da eternidade
Atymnios —
da heroica louvação insaciado

Bebi o vinho do tempo —
e a eternidade
é minha embriaguez
pois não existo mais senão
no coração da lenda — e sou
eu mesmo a minha própria lenda
Phaeton
heroicis laudibus non satiatus
non satiatus
insaciável
inefável
inconsolável
pontífice e histrião
mordia os rins do planeta
e fincando as rosetas das esporas chibateava o lombo
da galáxia
com meu cometa coruscante
Phaeton!
Phaeton!

um trevo nos calcanhares
o rastro dos pés inapagável
dizia norte e sul e leste e oeste
com a rosa-dos-ventos sob os tornozelos
ego poeta
vou caminhando como o som caminha
desde
por
para
até
ubi unde quo qua
et usque quousque
quam diu.

1 145
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Violava as borboletas e as violetas

Violava as borboletas e as violetas
lhe floresciam onde
as abelhas cercavam a sagrada colmeia:
Laura celebrava os ritos
e as outras concelebravam — pois
as bochechas cheias de esperma
Salústia e Beatriz borrifavam as alfaias
— manejava Mônica o estrangulado príncipe
com as sementes leitosas aspergindo
pupila umbigo e seio
orvalhavam gotas de opalina as axilas peludas
mas Laura
celebrava os ritos:
ao clarão do falus
ao mergulho litúrgico
celebrava os ritos
na rua Paula Freitas
sacrifício de lírios e verbenas
nas tardes pluviais
serviço de Perséfone e Afrodite
esmagada na relva a boca
na boca a relva:
o macho à fêmea a fêmea ao macho
imolados à súbita Ginandra

vinham cantando à primeira semente
de Apolo Ginandreu
— pois Laura
celebrava os ritos
nos quadris em flor

E deitado no mel das brisas flamejantes
ego poeta começo o canto e digo:
— "já nada mais existe, Apolo, e apenas somos
na primavera do tempo
quadris em flor" — e Laura
celebrava os ritos.

Quando
as borboletas violavam as violetas
inauguravam os áugures o augúrio
e as palavras pereciam no lábio
esquecidas de si mesmas
a sós contigo, Apolo,
e com a ninfa da vida e com a ninfa da morte
murmurei o sopro da inefável canção:
— pois somos celebrados enquanto
Laura celebra os ritos.

Mestre de cerimônias o poeta oficia
a cerimônia do silêncio:
o canto é seu ofício — mas
o imolador se imola enquanto
Laura celebra os ritos

Um a um vêm os deuses chegando
ao banquete da própria morte
e da ressurreição — pois Laura
moribunda e nascitura Laura
agoniza a agonia de nascer de novo
e ao ritmo e à tempestade de seu corpo o poeta
celebra os ritos —
e ali
começa a nossa coisa cosa nostra, Apolo,
de nossa raça:
ego poeta sacerdote e vítima
celebrado celebro a celebrante
e o espaço
perde a sua medida
e o tempo
perde a sua duração
pois Laura
celebra os ritos:
brota de minha cabeça o cometa
de seus cabelos e sob
a torrente de seus cabelos meus olhos
fitam o príncipe erguer
da maçã de seus oasis de relva
a cabeça da rosa
e ali
a derradeira súplica o suspiro e o pranto
pois Laura
despetalada
recompõe a rosa — Laura
celebra os ritos.

Desaprendi teus outros nomes
e na sabedoria do esquecimento
invento as novas sílabas
— Laura te digo
e à minha língua sábia
de teu próprio humus de tuas folhas te ergues — Laura
celebrando os ritos

Então começa — então termina
Laura
então se perde —então se busca
Laura
e neste chão o meu sepulcro e a minha fonte
de minha morte jorro e piso
minhas pupilas derelictas:
pois no rastro de Apolo
Laura celebra os ritos.

1 085
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pois José Cupertino cantava na praça

Pois José Cupertino cantava na praça de
São Luís do Maranhão
já não entravam os deuses em seu negro
corpo — e as mãos
imploravam sobre a cabeça branca: — "um Deus
é um sopro" — e José Cupertino
soprava na praça à tarde de São Luís
— "sem o sopro eu sou um pneu vazio
já não me ouvem os deuses não me querem"
e requebrava e chorava e cantava:
—"Eu trepei na ponte
a ponte quebrou
sou moço bonito
desembargador" — e se embargava
a voz — e os deuses
não olhavam sua beleza
nas calçadas de São Luís:
— "sou moço bonito
desembargador" —

Canta o concrís canta a gamarra canta
o galo-de-campina ao céu
de Campina Grande — e ali
bêbada e bela pereceu Clarice
os cabelos de ouro numa poça de sangue:
resta uma cruz na estrada e esse aroma
de jasmins e maracujá na tarde
de Campina Grande
e a tua lira, Apolo, resta
onde canto o aroma a flor a morte ensangüentada
e adorno a morte
com flores e seus frutos
o jambo o dáctilo o espondeu
e os verdes anapestos

Pois vejo o anjo a verbena o verso o verbo
transitivo
florescido nas vozes e nos tempos e nos modos
finitos e infinitos — e Apolo
ensina a fonte de jorrar
o infinitivo dos intransitivos.

O amante de si mesmo beija as águas — mas Apolo
ergue das ondas deusas calipígias e onde
era espuma onde água verde brotam
em suas mãos
as cabeças castanhas
e as avelãs
as tuas avelãs
amada
de cintura fina e de redondo seio.

Nascido em minhas mãos um nome busco
para teu seio — Mirabelos —
um nome-próprio
para a touceira
de madressilvas
de tuas coxas — Delta-Delphulvia

Aqui, Apolo, venho
fundar o nome das partes de seu corpo
onde fundaste
teu tempo e teu país
e aqui
em tua data e em teu sítio
queimado o calendário se lerão nas cinzas
minha data e meu solo
pois sou datado e minha data
é a data da Sibila dos profetas hebreus
no chão do Apocalipse, Patmos,
entranhas de Capricórnio — e ali
arúspice de si mesmo
o poeta se lê — e a decifrada vítima
imola o imolador e entre
os outros deuses
ocupa o seu lugar:
pois somos, Dionísios,
Apolo, somos
as ovelhas de Deus e o deus que tange
os cordeiros nos montes da Tessália:
e em mar e, monte

e em ribeira e rio
vou profetizando a profecia
pois inventei o verbo depoente
e seu modo e seu tempo
e é este o depoimento:
profissão
— Inventor da palavra — Edi —
a voz ativa a voz passiva
reflexa perifrástica
Afrodite
germ
herm
afro
ditirambo

A flor a profecia
do fruto na corola
aos ventos inclementes
despetalada —
Pois posso a aurora e a noite
arconte epônimo da lua e das estrelas
Posso o azul posso o verde
posso as vogais e as consoantes
a cana-rosa
o cabrito montês o touro a égua
a ipecacuanha o cravo
a peroba a canela a cascavel o acônito:
— mas quem pode deter pupila e pálpebra?
pois meus olhos não posso
e neles vai crescendo a morte sua planta
florescido no talhe de meus filhos
já altos entre outros rapazes.

Mas posso a flor e a profecia
do fruto na corola
— Scardanelli —
pois tenho, Apolo, o prumo
da flor sobre seu fruto.

e José Cupertino cantava na praça de São Luís do
Maranhão e às vezes
por sua boca por seus ouvidos por seus poros
pelos buracos de seu corpo
entrava um deus em seu corpo — e ali
aprendi sua visita nas entranhas
e o possesso possui a possessão de um deus
e à chama de sua língua na boca acesa
arde o clarão de teu nome
e em Lambda e Léa
digo amor
nos lábios crepitares

Venho de um deus e
só do que me esqueci me vou lembrando
e só o que perdi procuro e acho
na touceira de relva e de cidreira
cidra
romã
respondem de teu corpo
aromas formas formaromas
assim chamados:
pois comedor de deuses
Abol
Apfel
Apple
Apolón
e um dia, Apolo,
os deuses serão fêmeas e na praça
de São Luís do Maranhão
o sopro e o sumo e a polpa
fruta à fruta o coração se nutra
da cidra e da romã:
pois
Apfel
Apple
Apolo e Apoléa —
seio por seio.

1 179
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Vem, formosa mulher, camélia pálida

Vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
tu que ousaste com teus olhos verdes conhecer
a margem do caminho
quem sabe tu de torna-volta
Maria Helena do pais de Eleusis
do anjo da morte houveras aprendido
o mapa do sepulcro
o equador guardado e a latitude
onde a sibila dorme e a palavra
do sortilégio e da ressurreição:
os deuses a conhecem
e Lázaro acordou à sua sílaba
vinho da uva, água da fonte, luz da estrela
emanação do amor ela se diz
ao ouvido dos mortos
e eles estremecem
desatados da morte e do silêncio.

Não a ouviste talvez em tua morte tu
maestra del amor y de la muerte?
Sábio de lembrar-me de seus olhos
dela — sábia do amor, sábia da morte
sobre as areias do coração
não desmanchou a lágrima
a planta de seu pé:
e nesse rastro vamos
e uma noite qualquer é sua voz
o pomo do mistério partido em nossas mãos
o oráculo.

Madame Sosostris, Eliot, T. S. Eliot, o Major seu Né das Águas Belas
eram de profissão adivinhões:
ela era de profissão a minha amante
aprendiz na oficina de seus olhos
o oráculo da morta nos espanta
e quem se nós clamássemos nos ouviria mais que ela?
e atrás de seu caminho de mãos dadas
vai nosso amor mais forte do que a morte.

No solo las estrellas tienen el pulso del zenith
Léa
nas mãos dadas apertamos a estrela
e a minha profissão é o teu amor
e a tua profissão é o meu afago
pousa o dedo no lábios da cigana
e surge
musa única musa vera
única mais bela — morena e magnífica —
sobre o dorso dos ventos que deitam o canavial
sobre o lombo das novghas matinais em que te ensaias
para a doce viagem nos meus ombros
à ilha de cravo e mel
daquela estrela.

1 472
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Tu me pediste notícias da Grécia:

Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.

E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?

Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.

E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas

e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:

respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —

‘E AEYOEPÍA

e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:

de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.

Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.

Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.

Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.

pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
1 150
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Quem de vocês matou o uruguaio

"Quem de vocês matou o uruguaio?"
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.

O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".

"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.

As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.

"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."

E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.

1 001
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Era uma vez

Era uma vez
Maria Alves Feitosa, da raça de minha avó, e era mulher de Francisco Feitosa
e o marido amava
as violas doces e as aguardentes ásperas
e Maria, quando rezava suas novenas na igreja — conta Leonardo — tinha por costume
mandar os grupos de escravas, que eram as cantoras,
entoarem cânticos da igreja até a casa de sua residência e uma tarde
no momento em que partiam da igreja
e as negras começavam o cântico
veio Francisco embriagado e esbofeteou o rosto de Dona Maria Feitosa e as negras
como sapo quando se bate nágua
calaram-se e pararam: e a senhora
ordenou-lhes marchassem e cantassem: não fora nada,
sendo por seu marido, não era agravo e o vigor
dos machos é sempre doce ao coração das fêmeas
na raça dos Mourões
e entre alcova e templo ao tom das ladainhas e ao canto das escravas
aprendemos o touro e as raparigas aprendem
o arrebatado amor e Mariana
mulher de Eufrásio, senhor do Cococi
mandou surrar e tonsurar a rapariga
e o Capitão-Mor puxou da bota uma faca aparelhada de prata e lavada de sangue e sempre
a morte se nutriu do amor
e o vigário do Cococi excomungou o Coronel: surrara, debaixo do altar-mor
onde se escondera,
O vilão que ousara versos a Joana, sua irmã, da raça dos Mourões e só
para alcova de Mourões eleita
e o Bispo de Olinda retirou-lhe a excomunhão:
matasse feras em vez de matar homens
e os Feitosa entravam a galope na cidade
com uma onça sangrenta na garupa e um deles
matou noventa e seis onças sem armadilhas, sem armas de fogo, sem mundéu,
sem gangorra e sem curral
apenas com sua faca de Pajeú e os três cachorros Elefante,
Corujo e Mosquete:
na boca da última delas deixou o couro da cabeça e o escravo fiel
deixou a mão, a faca encravada e a implacável morte

tanto me atendem à cítara

como à ponta do punhal

e Leonor ficou viúva e um dia
a casa de Leonor amanheceu fechada
e Leonor havia desaparecido
e Leonor era — conta Leonardo — uma viúva nova e muito formosa depois se soube:
fora raptada pelo Major Eufrásio Feitosa e por ele situada numa casa em um alto
e ainda hoje ali se chama
o Alto de Sa Leonor e os montes
e os rios e as devezas e as várzeas
guardam, da Serra da Joaninha ao Riacho do Sangue,
o nome com que os machos
nomearam amor e nomearam morte
no país dos Mourões

tanto me atendem à citara
como à ponta do punhal,
tanto a meu punho se deitam
os vencidos na macega
como a meu canto as mulheres
na ribanceira do rio:
explica, Maria Helena,
como esta doçura é forte
e o vigor desta bravura:
chama a princesa e estremeçam
seus seios na minha mão:
não sou Teseu nem Orfeu,
os dois são Mello Mourão.

Nünca houve nesta raça
homem não raparigueiro
e nela não se conhece
uma casada infiel:
no couro dos Mourões sobeja o macho
a ti domava a citara
a outras o músculo.

... deixa-me pastar a erva em tua mão.

E tu,
que não morres de mim, vives de mim

a ti e só a ti
ofereci a melodia a um tempo
de citara e de músculo e só tu
saberias dizer o contraponto
do canto que inventei aos teus ouvidos
e à doçura
de sua força
arrebatada no meu lombo e no êxtase
ela acenderá no crepúsculo
a estrela da manhã:
sob o ventre pentélicon
pentagrama de ouro!

1 397
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Coronel, estou vendo neste momento

Coronel, estou vendo neste momento os
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore

e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.

O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.

Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Hoje é dia de louras, Abdias

Hoje é dia de louras, Abdias,
telefona e amanhã
quero Wanda Moreno, quero Hilda, quero Rosa e depois
quero de novo a ruiva da Barata Ribeiro, quero Néa,
quero Paula da casa de Arabela e Lourdes com Marina e quero todas
da casa de Helenita:

meu avô passou nos peitos todas as filhas dos moradores do engenho
os Mourões raparigueiros há trezentos anos:

eram cinqüenta mulheres
à noite no cabaret
entre elas uma francesa
sentada num canapé
Raimundo Mourão brigava
com o vigário da Sé
trazia o diabo no couro
quando entrou no cabaret
as mulheres quando o viram
ficaram todas em pé.

Deixara em baixo o Marreira
no cabresto do alazão
na cinta o coldre bordado
e unia chibata na mão
parecia um cangaceiro
do bando do Lampeão
a parnaíba nos quartos
vinte léguas de sertão
cantador Nertan Macedo
afina já teu bordão
matéria-prima do verso
este é um Mello Mourão
valente rico e faceiro
dançador e fanfarrão
tanto bebe como canta
como atira que nem cão
mulheres no porta-seios
segurem o coração
"couro bando papaceia
o chão imemorial
o bode o cavalo o boi
o sentimento mortal
o homem caça dileta
refletida no punhal"
tanta tesão entre as coxas
como balas no embornal
A noite se encheu de tiros
começou a confusão
não ficou homem na sala
pois quem enfrenta um Mourão?
as luzes levando chumbo
virou tudo escuridão
provou as cinqüenta fêmeas
pôs a mão no coração
e sentiu que ele no peito
não se fartara inda não
não encontrava em Francisca
os seios de Conceição
nem em Antônia a cadência
que as ancas de Isaura dão:
só mesmo teus olhos verdes
dariam a ordenação
capaz na noite e no dia
de saciar um Mourão
mas antes que tu chegasses
um punhal na escuridão
deixou morto aquele macho
banhado em sangue no chão:
caça dileta do amor
tombou Raimundo Mourão
herdei-lhe a espora de prata
o rebenque e o alazão
relógio de ouro maciço
de corrente e medalhão
trinta e dois de carga dupla
o clavinote alemão
e na bainha de couro
o punhal de estimação
dezoito pentes de bala
cartucheira e cinturão
os olhos concupiscentes
a aguardente e a perdição
o gosto de mulher boa
procurada com paixão
e atrás de ti pelo mundo
abandonei o sertão.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Raul Young, capitão de longo curso, Godo,

Raul Young, capitão de longo curso, Godo,
vai marinhando um barco de cedro por Buenos Aires
ao vento fluvial — e alí
inaugurei o Paraná e o pampa
e os adolescentes se repetiram
no Richmond de Florida onde um dia
o espaço suplicou a forma de teu corpo:
Joana
Joana de Aragão
— te chamamos —
e acenaste um sorriso entre os cristais
e ali ainda agora
estão os teus cabelos governando o vento
pois para sempre
estarás onde estiveste: — viaja
a estrela imóvel
todos os céus
do capitão de longo curso

Trinta anos chorava o poeta a mesma lágrima
no bar do Richmond de Florida:
muitas vezes te encontrei e uma vez
te alongavas entre as mesas do bar
e crescias e recolhias
o bandoneon de teu corpo:
sobre esta mesa embaralho
os naipes do tempo e preciso
de muitos tempos no espaço desta mesa — de muitos
espaços antigos e futuros
para tuas chegadas e partidas

outra vez tua beleza
era uma lança fulgurante
de Belgrano a Corrientes:
janta Leopoldo Marechal com Juan Domingo entre choférs
no restaurante de La Boca:
por la cabeza de los dirigentes
ou
con la cabeza de los dirigentes
salta Güemes
de su tierra salteña
los gauchos degolladores
— e te lembras? —
Carbajal
servia numa terrina de prata
a cabeça sangrenta do capitão
e as taças
espumavam à saúde
vinho ou sangue
pois tênsil é o dia
e trazes o arco tenso e a lira
de cordas tensas e buscar-te
é desferir a flecha e desferir o som
por teus signos teus rastros caminhamos
caçadores da vida caçadores da morte caçadores do amor
e assim se caça a liberdade e assim recolho
em batalhas de amor campos de plumas, dom Luís,
a rosa por botim —
e ou vinho ou sangue
à saúde, Apolo.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pelas águas clementes e inclementes navegar

Pelas águas clementes e inclementes navegar
e navegar o chão, a fêmea, a cajazeira
com vento leste sair fora da barra
debaixo da capitânia de Martim Afonso
com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho
antes da era de Úrsula, Alexandre, José e outras
matriarcas e outros patriarcas e aí
começa o labirinto de Gerardo — na era
de Dom Manuel, o Venturoso, pois
por ventura aventura e desventura
ia de capitão de hua armada o governador
da terra do Brasil.

E de que me terei esquecido? Não, por certo,
daquele medo, não daquela dor notuma e as
vacas mugindo
no terror à solidão
de teus pastos e teus céus.

Ficaram num cinzeiro os olhos azuis de Catarina
no cinzeiro de um bar — e de tantas
tantas outras coisas me lembro dia e noite
aquela noite o canto das prostitutas encarceradas
— e o coração,
Demóstenes Gonzalez, o teu, hecho pedazos

e o pedaço de lua aquela noite
no chão do calabouço — e às vezes
Pedro Mota — a morte de Pedro Mota
fulminado quando
cantava sob o chuveiro uma ópera italiana
e a corneta comprada no Ipu e a cartola de meu
pai, a garrucha de bronze de meu avô
e o céu
aberto, mas de súbito
e entra Pedro Mota e sorri
com a cartola de meu pai na delicada mão
e entra Edgar com uma bala no fígado
os santos inocentes acolhidos acenam
e saúdam a gentileza da morte
ao hino de Araci naquela tarde:
não, não me diga adeus.

E de que me terei esquecido? Não, por certo
do tempo em que reinou a calmaria podre
e sem ventar bafo de vento
era mais grosso o mar e ao mar
lancei o prumo e perguntei o fundo
e tomei o fundo com cinqüenta e cinco braças
Tenerife! Tenerife!
tomamos as monetas e mais que o dia
já podia a noite
e pairamos a noite toda até o quarto dalva
demorava-me o Cabo das Tormentas a leste e
depois
barlaventeamos outra noite sem poder cobrar nada
por não poder fazer caminho
e não me esqueço, por certo,
do quintal do Encantado, ribeira e casa
de Araci de Almeida onde o canto dos galos
alongou tua morte
no alanceado coração — e como esqueceria
teus seios olorosos — e da cova deles
bem que rescendiam
e do cravo e da morte os suspeitos aromas:
e ainda cantarei de ti (agora tenho apenas o grande
mar por ló dessa lembrança)
nem mais vela que traquete e mezena
e muito trabalho na capitânia
porque não governava e não governa.
E amainamos a vela e fomos
correndo ao som do mar — até que foi de dia.

E de que me terei esquecido? Não, por certo,
de um cavalo soluçando às estrelas do céu e às
éguas do terreiro
a dor aguda do grande pênis negro
e os cascos do alazão na ladeira da serra
de São Gonçalo dos Mourões
e o bandoneon de Gesu Melo — ou de Josa? —
e a camisa escocesa e a cartucheira e o punhal
e os luminosos olhos
de José Mourão retinindo esporas de prata
na estação de Cratéus — ali a casa de Solon Faria
e a arte de calcular por meio de algarismos
e em sua mão de sábio da comarca ardia um giz
e tantos anos depois, Solon Faria Fllho doutrinava
sobre
a arte de f azer mel por meio das palavras e as
abelhas
rodeavam seus olhos. E de que me terei esquecido?
Não,
por certo, de uma gravata azul
de Aretusa dançando e os seios
de Carmen começando ao olor dos jasmineiros
Maria entre cajus vermelhos e amarelos
D. José Tupinambá da Frota, bispo-conde de Sobral
regendo o sólio e o maestro com sua clarinete
regendo
os tornozelos de Aretusa
e um bonde
varando a madrugada na Tijuca
e tantas outras coisas — e contemplei tremendo
a arte de fazer amor por meio de mágica - o polaco Tadeu
chupando ajoelhado aos pés do marinheiro crioulo
e um carneiro pastando a flor do bogari no quintal
do vigário
e o coldre viril do Colt no cinturão de meu tio e a
elegância
da taça de cristal na poderosa mão de meu avô
e tantas outras coisas — já não sei
se coisas ou lembranças:
possuídas um dia possuíram
o pulso do poeta
inventado e inventor
da memória inventora — e quem soubera
ao andar de Piehin vir de seu corpo
a graça a seu vestido — ou dele
florescer a beleza ao quadril
naquela adolescência?

Não te enxugue em espádua e anca e coxa
a água de beleza em que estes olhos
lavaram tua pele:
vem formosa mulher, camélia pálida,
já do salgado mar a espuma viva
prateia-me a pupila:
é preciso partir e na mão grossa
a enxárcia a vela a cordoalha pedem
um jeito de monção — e à chibata
dos ventos na garupa o barco pede
uma estrela no céu para o caminho à noite:
tu com teus olhos, Vega da Lyra, gema da Coroa
Boreal, estrelas verdes
e de Andrômeda e da Cassiopéia.

Luís de Gonzaga não conhecia o rosto
de Branca de Castela, sua mãe:
nunca fitara um rosto de mulher — os olhos —
ensinava ó Mestre asceta — são
janela da alma e por ali
entram as tentações — e pelos meus
entraram todas:

pungido por olhares fui crescendo:
o melancólico olhar do bisavô em seu retrato
pintado pelo pincel municipal de Raul
Catunda
e a morte na pupila do primo agonizante
e os olhos tristes — o quem te memorem —
desse conde alemão no Castelo de Kronberg, em
Frankfurt
e os teus boiando
constelados de verde à sombra de ouro
da Coroa Boreal de teus cabelos
dorida Berenice
hão de levar os meus por noite e mar. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
na penugem de teu braço quando
atrás de tua orelha era um perfume
farejado; e é preciso desfrutar
a luz, e aos olhos não negar nada na vida e
não perder
cova de seio, pedra de rua, axila e nuca tonsurada
e andorinhas ao céu
de agosto foragidas e dormir
sobre o catálogo palpitante. E de que
me terei esquecido? Não,
por certo, do arrepio
de Claude e Sylvianne e as outras cimitarras
fulgurantes:
aos fascinados olhos transpassavam
de um golpe o coração e tudo
era roteiro — os cegos tocando viola
na feira de Várzea Formosa
os soldados de mosquetão na estrada de Alagoas
e Arlette
ruiva e nua em seu bordel e nas noites de maio
a grinalda da Virgem e os anjos de novena e longa
túnica
e tudo era roteiro e de que banda
do mundo é o sítio do desejo, Capitão?
Soubesse dele e o não cantara
na sanfona saudosa o marinheiro Lorenz
e em sua voz marulhada o dalmata do cargueiro
grego
naquele outubro.

E à quarta do nordeste e à quarta daloeste
pode haver outra vista de terra e por isso
aprendi a pairar a noite toda até o quarto dalva
e também Dalva pairava
as monetas ao léu e o seio em boia e então
barlaventeávamos até o caroço da noite:
no coração marsupial todas as horas
eram nutridas
e volta-se a ampulheta e voltam sempre
os grãos de areia e os grãos
desses nomes de coisas e lugares e pessoas
plantados nas entranhas:
a um tiro da abombarda estão sempre suas ilhas
ao alimpar-se a névoa —
oblivionem oblitus me esqueci de esquecer-me
e aos meus mortos
em vão imolo os bodes vigorosos
e os cantos fúnebres:
do ninho de seus túmulos levantam-se
e ao redor do atônito poeta
cantam a letra
dos próprios epitáfios:
nos alqueires do Inferno ningué
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