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Poemas neste tema

Morte e Luto

Maria Braga Horta

Maria Braga Horta

A Moça da Praça Mauá

I
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?

Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.

A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).

São eles que vêm e vão...

Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente

lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.

II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.

Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.

Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.

III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.

Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.

A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.

De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.

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Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Adeus de Pituca

Pituca chegou como uma semente de sol. Era mansa, peluda. Os olhos, de ferrugem. Crescia Pituca nas manhãs de chuva. Crescia o riso nos lábios de Gerlanda. Tantas foram as gracinhas de Pituca. Conhecia as mãos de sua dona, o coração, a lágrima. Se a alma era cinza de Gerlanda, a de Pituca suspirava pelos cantos da casa. Havia um olhar sofrido no olho amarelo de Pituca vendo os sonhos desfeitos de sua dona. Pituca amava. Ouvia música. Imaginava um mundo melhor navegado de cardumes vermelhos. Andava claudicando e arranhava as portas. Pituca era a estrela de mercúrio. Pássaro sem asas, borboleta marrom na janela. Carinhos, conversas no adentrado da noite. Companheira de um tempo perdido. O biscoito mordido, brinquedo de Pituca. Segredos marcados no ponteiro do relógio. A melodia do fim amanhou a doença. O amor era verde no coração de Pituca. Amor que só os cães trazem no afago. Gerlanda guardava na concha das mãos o choro, o latido, o andar, o riso, o pelo de Pituca. Foram idades, aniversários, Natais, Pituca.
Abril mês charmoso, cativante. Mês de flores, quaresmeiras, ipês amarelos. Mês em que o sol aquece a face e banha de alfazema a pele. Mês escolhido para a canção de despedida. Em abril Pituca se foi ao país dos duendes. Deixou lembranças, um choro doído, um aperto no coração de Gerlanda. Anjinhos lilases tocavam blues e Pituca levava no corpo o mundo de Gerlanda.
No inverno o vento traz o choro vestido de ausência.
Pituca habita uma estrela azul e sonha
com Gerlanda.

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Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Retrato de Biel

(Em memória do Poeta e Professor
Gabriel Archanjo de Mendonça)

Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.

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