Poemas neste tema
Amor Romântico
Luiz Felipe Coelho
Fora da História
Loucos
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.
Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.
Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.
Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.
Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).
Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?
E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?
Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.
Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.
Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.
Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.
Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.
Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).
Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?
E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?
Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.
Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.
952
Lívia Araújo
Senta e Espera
A angústia
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.
Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.
É então que me alimentas a chama.
Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.
Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.
É então que me alimentas a chama.
Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.
839
Zazé
Lembranças
Lembro-me de como batia
No meu peito, o coração enquanto te esperava
Lembro-me das mãos suadas,
Do primeiro olhar trocado,
Do beijo terno á chegada
Lembro-me do calor das tuas mãos nas minhas,
De como falámos, de mim, de ti
Sem nos darmos conta do tempo;
Lembro-me dos primeiros beijos
Ainda receosos do que estava por vir
Lembro-me depois como nos abraçámos
Como nos despimos na ânsia e na pressa
De nos encontrarmos no branco da cama
pele na pele, toque electrizante;
Do teu cheiro, do teu sabor
Magicamente já conhecidos.
Lembro-me como sentimos
Que aquela não era a nossa primeira vez,
Como antecipámos cada toque, cada gesto
Um do outro;
Como me senti, como te senti em mim
Sabendo que ali era o meu lugar
Lembrando-me de nunca te esquecer
Lembranças vivas na minha memória
Como tu
Como nós!!
No meu peito, o coração enquanto te esperava
Lembro-me das mãos suadas,
Do primeiro olhar trocado,
Do beijo terno á chegada
Lembro-me do calor das tuas mãos nas minhas,
De como falámos, de mim, de ti
Sem nos darmos conta do tempo;
Lembro-me dos primeiros beijos
Ainda receosos do que estava por vir
Lembro-me depois como nos abraçámos
Como nos despimos na ânsia e na pressa
De nos encontrarmos no branco da cama
pele na pele, toque electrizante;
Do teu cheiro, do teu sabor
Magicamente já conhecidos.
Lembro-me como sentimos
Que aquela não era a nossa primeira vez,
Como antecipámos cada toque, cada gesto
Um do outro;
Como me senti, como te senti em mim
Sabendo que ali era o meu lugar
Lembrando-me de nunca te esquecer
Lembranças vivas na minha memória
Como tu
Como nós!!
996
Marcelo Ribeiro
Armas da Paixão
Removes
a poeira fina de minha alma
E sopras toda melancolia para fora
Tomas o Sol por tua tocha
E a Lua como espada
Te aquartelas em meus sonhos
E fechas as estradas da discórdia
Vestes o manto da paixão
E pelejas contra o mundo;
Em vão...
Rende-se ao que sinto
Amando-te, traspassado pelo fogo da razão
Não minto!
Vejo-te soltar as armas
Despir-se parva
Entregando-se, por fim
Amada
Desnuda-te o espírito
Cumprindo-se ao rito
Acabando por seres minha;
Nua, cândida, alva...
a poeira fina de minha alma
E sopras toda melancolia para fora
Tomas o Sol por tua tocha
E a Lua como espada
Te aquartelas em meus sonhos
E fechas as estradas da discórdia
Vestes o manto da paixão
E pelejas contra o mundo;
Em vão...
Rende-se ao que sinto
Amando-te, traspassado pelo fogo da razão
Não minto!
Vejo-te soltar as armas
Despir-se parva
Entregando-se, por fim
Amada
Desnuda-te o espírito
Cumprindo-se ao rito
Acabando por seres minha;
Nua, cândida, alva...
958
Zazé
Espelho Meu
Vejo a minha imagem
reflectida no espelho
e ele devolve-me um olhar baço,
triste, de saudade;
Aflora então aos meus ouvidos
o som da tua voz,
arrepia-se-me a pele
pela lembrança do teu toque,
pela emoção do sentimento que há em nós;
E o espelho
parecendo adivinhar,
reflecte então
o brilho do meu olhar!!
reflectida no espelho
e ele devolve-me um olhar baço,
triste, de saudade;
Aflora então aos meus ouvidos
o som da tua voz,
arrepia-se-me a pele
pela lembrança do teu toque,
pela emoção do sentimento que há em nós;
E o espelho
parecendo adivinhar,
reflecte então
o brilho do meu olhar!!
942
Reinaldo Ferreira
A tua mão é que desperta Abril
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
1 560
Reinaldo Ferreira
Do campo dos mortos
Do campo dos mortos
Em terra estrangeira
Por onde passámos
Absortos os dois,
Saímos ilesos de melancolia,
Por irmos tão vivos, tão livres
E juntos os dois.
Em vão sobre as campas
Dos mortos estrangeiros
Visível olvido
Na terra sem rosas votivas
Chamava por nós.
Nós íamos indo,
Felizes, felizes,
E o ventre da terra
Sonhava raízes
À volta de nós.
Nós íamos indo
Na hora que, breve, passava,
Vivendo-a sòmente.
E a nossa presença encarnava
No campo dos mortos em terra estrangeira
- Passado, passado -
O presente.
Em terra estrangeira
Por onde passámos
Absortos os dois,
Saímos ilesos de melancolia,
Por irmos tão vivos, tão livres
E juntos os dois.
Em vão sobre as campas
Dos mortos estrangeiros
Visível olvido
Na terra sem rosas votivas
Chamava por nós.
Nós íamos indo,
Felizes, felizes,
E o ventre da terra
Sonhava raízes
À volta de nós.
Nós íamos indo
Na hora que, breve, passava,
Vivendo-a sòmente.
E a nossa presença encarnava
No campo dos mortos em terra estrangeira
- Passado, passado -
O presente.
1 560
Rogério Bessa
Soneto da Amada
vou perdido e achado em ti
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
962
Nelson Motta
Amare, Há Mares
te amar suave e silenciosamente
como o vento às velas,em movimento
como o fogo à vela, luzente
como a planta à terra:semente
navios iluminados nos teus olhos-cais
paisagem erótica
no ventre do vento
uma chuva enxuta
aguarda o arco-íris.
por ele se molha e se derrama
se enterra na terra
sob um céu celestial.
querer & poder
os casais,
sejam de opostos ou iguais,
quanto mais se querem,
mais são anti-sociais,
e é natural que assim seja:
o apaixonado deseja
nada além de dois e sonha
com de dois fazer um, sós.
como o poder, que pretende,
suprimindo as diferenças,
tornar uma só vontade
a de todos
os casais.
como o vento às velas,em movimento
como o fogo à vela, luzente
como a planta à terra:semente
navios iluminados nos teus olhos-cais
paisagem erótica
no ventre do vento
uma chuva enxuta
aguarda o arco-íris.
por ele se molha e se derrama
se enterra na terra
sob um céu celestial.
querer & poder
os casais,
sejam de opostos ou iguais,
quanto mais se querem,
mais são anti-sociais,
e é natural que assim seja:
o apaixonado deseja
nada além de dois e sonha
com de dois fazer um, sós.
como o poder, que pretende,
suprimindo as diferenças,
tornar uma só vontade
a de todos
os casais.
1 038
Nelson Motta
Dados Sobre um Lance
um lance do acaso
não abolirá jamais
o amor dado,
dizia o mallarmado.
4 de 8
mar morto
sol posto
teu rosto
meu porto
identidade perigosa
por ser eu a sua
e você(no fundo e dentro)
a minha cara,
o nosso drama
e nossa irônica aventura rara:
o tanto que nos une
é o mesmo que nos separa.
não abolirá jamais
o amor dado,
dizia o mallarmado.
4 de 8
mar morto
sol posto
teu rosto
meu porto
identidade perigosa
por ser eu a sua
e você(no fundo e dentro)
a minha cara,
o nosso drama
e nossa irônica aventura rara:
o tanto que nos une
é o mesmo que nos separa.
849
Nana Corrêa de Lima
Medo
Medo
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
887
Rogério Bessa
Do Canto VII:
Viagem de Retorno e Reencontro de SI, Seu Lenitivo:
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
A Cilada
o mar ruge assombroso,
o marujo rege o leme
e a estória do caramujo
semelha amor desses mares,
esses mares com seus homens,
esses homens caravelas
dizem desse amor de nada
com arestas sem avenas.
amor desconhece cláusulas
e cláusulas são clausuras,
que acerbam agudas arestas
no nascente amor de tudo.
999
Nelson Motta
Cara
Para Cora
Você é uma mulher cara,
minha cara,
caríssima:
o coração endividado até a alma
pede concordata, quebra e
fale,
diga:
prisioneiros do desejo
teu desejo é cadeia que enleia
elo que soma nosso ele e ela,
o meu desejo é sempre ir e vir
para teu corpo como planta à terra.
enterra esses teus fundos olhos dentros meus
e dá-te a mim, mata-me, possui-me
para que seja eu as asas do teu vôo
que sou eu, teu, o tanto quanto és tua.
Você é uma mulher cara,
minha cara,
caríssima:
o coração endividado até a alma
pede concordata, quebra e
fale,
diga:
prisioneiros do desejo
teu desejo é cadeia que enleia
elo que soma nosso ele e ela,
o meu desejo é sempre ir e vir
para teu corpo como planta à terra.
enterra esses teus fundos olhos dentros meus
e dá-te a mim, mata-me, possui-me
para que seja eu as asas do teu vôo
que sou eu, teu, o tanto quanto és tua.
1 152
Madi
Um Dia
Um Dia
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
878
Madi
Louca
Louca
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
1 123
Madi
Eu sei
Eu sei
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
687
Leão Vasconcelos
In Solitudine
Quando o jardim se ensombra e a noite desce,
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
878
Madi
Cacto e Violeta
Cacto e Violeta
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
1 210
Madi
Se eu pudesse
Se eu pudesse
Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa
Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia
Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta
Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir
Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa
Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia
Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta
Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir
1 045
Madi
Ficar
Ficar
Pra ficar com você, pensei numa tarde. É pouco
Pensei numa noite. Também é pouco
Pensei num dia inteiro. Não é suficiente
O meu amor não é amor de uma tarde,
de uma noite e nem de um dia
É amor para todas as tardes, todas as noites
e todos os dias de uma vida inteira
Pra ficar com você, pensei numa tarde. É pouco
Pensei numa noite. Também é pouco
Pensei num dia inteiro. Não é suficiente
O meu amor não é amor de uma tarde,
de uma noite e nem de um dia
É amor para todas as tardes, todas as noites
e todos os dias de uma vida inteira
915
Luis Fernando Verissimo
Declaração de Amor
Declaração de Amor
Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber
falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e dpois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de resaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma
almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palapitações:
No mal-me-quer, bem-me quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
Mata! Mata! por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
Se não me segurarem faço um soneto
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o
asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado: era PC
Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber
falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e dpois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de resaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma
almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palapitações:
No mal-me-quer, bem-me quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
Mata! Mata! por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
Se não me segurarem faço um soneto
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o
asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado: era PC
2 957
Madi
Novo Amor
Novo Amor
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
905
Madi
Ontem
Ontem
Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
802
Júlio Maciel
Jacarecanga
Rebelde e forte, aqui, outrora se implantava
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.
Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!
E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —
Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.
Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!
E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —
Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!
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