Poemas neste tema
Silêncio
Tomas Tranströmer
Um artista no Norte
Eu Edward Grieg passeei-me como um homem livre entre os homens.
De trato fácil li jornais viajei por aqui e por ali.
Regi a orquestra.
O auditório com as luzes cintilando de triunfo como um navio
de comboios
quando se põe em marcha.
Levei-me para aqui para me fechar no silêncio.
É pequeno o meu estúdio.
O piano aninhado como a andorinha no beiral.
O mais das vezes as belas e íngremes encostas nada dizem.
Não há saída possível
mas às vezes uma pequena fresta abre-se
e uma luz incide directamente do assombro.
Reduzir!
E as pancadas dos martelos na montanha vêm
vêm
vêm
vêm numa noite de primavera ao nosso quarto
disfarçadas de batimentos do coração.
Um ano antes de morrer lançarei quatro hinos para chegarem até Deus.
Mas é aqui que tudo começa.
Uma canção do que está próximo.
Do que está próximo.
O nosso campo de batalha
onde nós os Ossos dos Mortos
lutamos para nos tornarmos vivos.
De trato fácil li jornais viajei por aqui e por ali.
Regi a orquestra.
O auditório com as luzes cintilando de triunfo como um navio
de comboios
quando se põe em marcha.
Levei-me para aqui para me fechar no silêncio.
É pequeno o meu estúdio.
O piano aninhado como a andorinha no beiral.
O mais das vezes as belas e íngremes encostas nada dizem.
Não há saída possível
mas às vezes uma pequena fresta abre-se
e uma luz incide directamente do assombro.
Reduzir!
E as pancadas dos martelos na montanha vêm
vêm
vêm
vêm numa noite de primavera ao nosso quarto
disfarçadas de batimentos do coração.
Um ano antes de morrer lançarei quatro hinos para chegarem até Deus.
Mas é aqui que tudo começa.
Uma canção do que está próximo.
Do que está próximo.
O nosso campo de batalha
onde nós os Ossos dos Mortos
lutamos para nos tornarmos vivos.
659
Tomas Tranströmer
O PALÁCIO
Entrámos. Uma única sala gigante
silenciosa e vazia onde a superfície do soalho jazia
como uma pista de patinagem abandonada.
Todas as portas fechadas. O ar cinzento.
Quadros nas paredes. Vimos imagens
mortas que formigavam: placas, pratos de
balança, peixes, figuras lutando num
mundo surdo - mudo no outro lado.
Uma escultura foi exibida no vazio:
sozinho , no meio da sala, estava um cavalo
mas só nos apercebemos disso
depois de todo o vazio nos ter capturado.
os ruídos e as vozes da cidade ouviam-se,
mais fracos do que os rumores numa concha,
circulando neste espaço estéril,
murmurantes , à procura de um poder.
Também outra coisa. Alguma coisa obscura
que ficou nos limiares dos nossos cinco
sentidos, sem os atravessar.
A areia escorria nos copos silenciosos.
Chegou a hora de nos movimentarmos.
Caminhamos na direcção do cavalo. Ele era enorme,
negro como o ferro. Uma imagem do poder
que restou depois dos príncipes terem partido.
O cavalo disse: “ eu sou o único.
O vazio, que me montava, deitei-o fora.
Este é o meu estábulo. Eu cresço devagar.
E aqui dentro, devoro o silêncio. “
silenciosa e vazia onde a superfície do soalho jazia
como uma pista de patinagem abandonada.
Todas as portas fechadas. O ar cinzento.
Quadros nas paredes. Vimos imagens
mortas que formigavam: placas, pratos de
balança, peixes, figuras lutando num
mundo surdo - mudo no outro lado.
Uma escultura foi exibida no vazio:
sozinho , no meio da sala, estava um cavalo
mas só nos apercebemos disso
depois de todo o vazio nos ter capturado.
os ruídos e as vozes da cidade ouviam-se,
mais fracos do que os rumores numa concha,
circulando neste espaço estéril,
murmurantes , à procura de um poder.
Também outra coisa. Alguma coisa obscura
que ficou nos limiares dos nossos cinco
sentidos, sem os atravessar.
A areia escorria nos copos silenciosos.
Chegou a hora de nos movimentarmos.
Caminhamos na direcção do cavalo. Ele era enorme,
negro como o ferro. Uma imagem do poder
que restou depois dos príncipes terem partido.
O cavalo disse: “ eu sou o único.
O vazio, que me montava, deitei-o fora.
Este é o meu estábulo. Eu cresço devagar.
E aqui dentro, devoro o silêncio. “
424
Tomas Tranströmer
Solidão
I
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.
O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.
Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital.
Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.
Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.
Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.
II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.
Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.
Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.
O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.
Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
Aqui, estive a ponto de morrer numa noite de Fevereiro.
O carro patinou no gelo, derrapou de lado e seguiu
na faixa contrária. Os carros aproximando-se –
os seus faróis – cada vez mais perto.
O meu nome, as minhas filhas, o meu emprego
desprenderam-se e ficaram para trás em silêncio
cada vez mais para trás. Eu estava anónimo,
como uma criança num pátio de colégio cercada de inimigos.
Era poderosa a luz do tráfego aproximando-se.
Iluminava-me à medida que girava e girava
o volante num medo transparente agitado como clara de ovo.
Os segundos dilatavam-se – ocupando mais espaço –
engrandeciam como edifícios de hospital.
Podia-se quase ficar à vontade
e um tudo nada descontraído
antes do choque se dar.
Então surgiu terra firme: veio em socorro um grão de areia
ou uma rajada súbita de vento. O carro agarrou-se
derrapou, atravessou a estrada.
Elevou-se um poste e quebrou-se – um som vibrante
juntou-se à escuridão.
Até que chegou o silêncio. Sentado e seguro pelo cinto
vi alguém caminhar no turbilhão da neve
para ver o que restava de mim.
II
A caminhar durante horas
pelos campos gelados da Suécia
não consegui ver ninguém.
Noutras partes do mundo
pessoas nascem, vivem e morrem
em perpétua multidão.
Ser constantemente visível – viver
num enxame de olhos –
deixa marcas no rosto.
Sulcos revestidos de pó.
O murmúrio que sobe e desce
enquanto dividem entre si
o céu, as sombras, os grãos de areia.
Tenho de estar a sós
dez minutos pela manhã
dez minutos pela tarde.
- Sem fazer nada.
Todos fazem fila à porta de todos.
Muitos.
Um.
423
Tomas Tranströmer
Vermeer
Não é um mundo seguro. O ruído começa ali,
do outro lado da parede
onde está a estalagem
com risos e refregas, rixas de dentes, lágrimas,
o seu retinir de sinos
e o cunhado insano, o assassino, que faz com
que na sua presença todos sintam temor.
A grande explosão e o tropel do resgate que chega atrasado
os barcos exibindo-se nos canais, o dinheiro correndo
para o bolso do homem malvado
ultimatos atrás de ultimatos
flores encarnadas abertas ressoando premonições de guerra.
E exactamente dali através da parede
para o estúdio de luz
e os segundos a quem autorizaram viver séculos.
Quadros com nomes próprios “A Lição de Música”
ou “Mulher de Azul Lendo uma Carta”.
Está grávida de oito meses, dois corações que batem dentro dela.
Na parede atrás vê-se um mapa enrugado da Terra Incognita.
Respira apenas. Um material azul que se desconhece está pregado às cadeiras.
Os rebites de ouro voaram com incrível rapidez
e pousaram ali abruptamente
como se não fossem outra coisa senão silêncio.
Os ouvidos zumbem, talvez do abismo talvez do cume.
É a pressão do outro lado da parede
A pressão que faz flutuar os factos
e firmar o pincel.
Atravessar as paredes faz sofrer, faz adoecer
mas não temos outra escolha.
O mundo é um. Mas as paredes ….
As paredes são parte de ti –
Ou se sabe ou não se sabe embora seja assim para todos
excepto para as crianças. Para elas não há paredes.
O céu limpo tomou o seu lugar e encostou-se à parede.
É como uma prece ao vazio.
E o vazio volta o seu rosto para nós
E murmura
“Não sou vazio, sou aberto”.
do outro lado da parede
onde está a estalagem
com risos e refregas, rixas de dentes, lágrimas,
o seu retinir de sinos
e o cunhado insano, o assassino, que faz com
que na sua presença todos sintam temor.
A grande explosão e o tropel do resgate que chega atrasado
os barcos exibindo-se nos canais, o dinheiro correndo
para o bolso do homem malvado
ultimatos atrás de ultimatos
flores encarnadas abertas ressoando premonições de guerra.
E exactamente dali através da parede
para o estúdio de luz
e os segundos a quem autorizaram viver séculos.
Quadros com nomes próprios “A Lição de Música”
ou “Mulher de Azul Lendo uma Carta”.
Está grávida de oito meses, dois corações que batem dentro dela.
Na parede atrás vê-se um mapa enrugado da Terra Incognita.
Respira apenas. Um material azul que se desconhece está pregado às cadeiras.
Os rebites de ouro voaram com incrível rapidez
e pousaram ali abruptamente
como se não fossem outra coisa senão silêncio.
Os ouvidos zumbem, talvez do abismo talvez do cume.
É a pressão do outro lado da parede
A pressão que faz flutuar os factos
e firmar o pincel.
Atravessar as paredes faz sofrer, faz adoecer
mas não temos outra escolha.
O mundo é um. Mas as paredes ….
As paredes são parte de ti –
Ou se sabe ou não se sabe embora seja assim para todos
excepto para as crianças. Para elas não há paredes.
O céu limpo tomou o seu lugar e encostou-se à parede.
É como uma prece ao vazio.
E o vazio volta o seu rosto para nós
E murmura
“Não sou vazio, sou aberto”.
497
Tomas Tranströmer
O som
O melro soprou o seu canto nos ossos dos mortos.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
De pé, debaixo de uma árvore, sentíamos o tempo descer e descer.
O pátio da escola e o pátio da igreja encontraram-se e espraiaram-se
um no outro como duas tempestades no mar.
O som dos sinos da igreja elevou-se , levado pela alavanca suave
do planador.
Deixaram para trás um silêncio poderoso na terra
e os passos calmos de uma árvore, os passos calmos de uma árvore.
658
Tomas Tranströmer
Prelúdios
1
Recuo diante de uma coisa que se arrasta de lado pela
tempestade de neve.
Fragmento do que está para vir.
Uma parede esboroando-se. Uma coisa sem olhos. Rija.
Um rosto de dentes.
Uma parede solitária. Ou é uma casa que ali está
embora a não consiga ver?
O futuro … um exército de casas vazias
tacteando o caminho pela neve que cai.
2
Duas verdades aproximam-se uma da outra. Uma vem de dentro,
outra de fora,
e onde se encontram é possível ter um indício
de nós.
O homem que vê o que está para acontecer grita desvairado
“Alto!
Seja o que for, desde que não tenha de me conhecer a mim mesmo.”
E há um barco que se quer amarrar à terra – insiste mesmo
aqui –
de facto insistirá ainda milhares de vezes.
Da escuridão dos bosques surge um longo arpão,
irrompe pela janela aberta
entre os convidados que aquecem dançando.
3
O apartamento onde vivi metade da minha vida tem de ficar vazio. Já não tem nada. A âncora tem
de subir – apesar do peso da tristeza, é o apartamento mais leve de toda a cidade. A verdade não
precisa de nenhuma mobília. A minha vida fechou agora um grande círculo e voltou ao ponto de
partida: uma sala vazia. Coisas que nela vivi tornam-se visíveis nas paredes iguais a pinturas
egípcias, murais duma câmara funerária. Imagens esbatendo-se devido a uma luz excessiva. As
janelas mais largas. O apartamento vazio é um grande telescópio apontado ao céu. É silencioso
como um ritual Quaker. Tudo o que podes escutar são as pombas nas traseiras, o arrulhar delas.
Recuo diante de uma coisa que se arrasta de lado pela
tempestade de neve.
Fragmento do que está para vir.
Uma parede esboroando-se. Uma coisa sem olhos. Rija.
Um rosto de dentes.
Uma parede solitária. Ou é uma casa que ali está
embora a não consiga ver?
O futuro … um exército de casas vazias
tacteando o caminho pela neve que cai.
2
Duas verdades aproximam-se uma da outra. Uma vem de dentro,
outra de fora,
e onde se encontram é possível ter um indício
de nós.
O homem que vê o que está para acontecer grita desvairado
“Alto!
Seja o que for, desde que não tenha de me conhecer a mim mesmo.”
E há um barco que se quer amarrar à terra – insiste mesmo
aqui –
de facto insistirá ainda milhares de vezes.
Da escuridão dos bosques surge um longo arpão,
irrompe pela janela aberta
entre os convidados que aquecem dançando.
3
O apartamento onde vivi metade da minha vida tem de ficar vazio. Já não tem nada. A âncora tem
de subir – apesar do peso da tristeza, é o apartamento mais leve de toda a cidade. A verdade não
precisa de nenhuma mobília. A minha vida fechou agora um grande círculo e voltou ao ponto de
partida: uma sala vazia. Coisas que nela vivi tornam-se visíveis nas paredes iguais a pinturas
egípcias, murais duma câmara funerária. Imagens esbatendo-se devido a uma luz excessiva. As
janelas mais largas. O apartamento vazio é um grande telescópio apontado ao céu. É silencioso
como um ritual Quaker. Tudo o que podes escutar são as pombas nas traseiras, o arrulhar delas.
709
Tomas Tranströmer
SOLSTÍCIO DE INVERNO
Um brilho azul
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
890
Fernando Echevarría
Quando é Grande o Poderio da Solidão
Quando é grande o poderio
da solidão, ao seu lado
estanca a aura exterior do brilho
que a fica aí preservando.
Às vezes, outra se avizinha. O sítio
da vizinhança contamina o espaço.
E uma como que luz que antecedesse o espírito
remove o vácuo,
de forma a ele se ir constituindo
espera de verbo. Âmbito
a iluminar-se recinto
aonde as solidões, aproximando-
-se a frequência aumentassem do alto poderio
e estancassem ao bordo granítico do canto.
da solidão, ao seu lado
estanca a aura exterior do brilho
que a fica aí preservando.
Às vezes, outra se avizinha. O sítio
da vizinhança contamina o espaço.
E uma como que luz que antecedesse o espírito
remove o vácuo,
de forma a ele se ir constituindo
espera de verbo. Âmbito
a iluminar-se recinto
aonde as solidões, aproximando-
-se a frequência aumentassem do alto poderio
e estancassem ao bordo granítico do canto.
702
Armando Cortes-Rodrigues
Vozes da Noite
Vozes na Noite! Quem fala
Com tanto ardor, tanto afã?
Falou o Grilo primeiro,
Logo depois foi a Rã.
Pobre loucura dos homens
Quando julgam entendê-las…
Só eles pasmam os olhos
Neste encanto das estrelas…
Lá no silêncio dos campos
Ou no mais ermo da serra,
Na voz das rãs dala a àgua,
Na voz dos grilos a Terra.
Só eles cantam a vida
Com amor e singeleza,
Por ser descuidada, alegre;
Por ser simples, com beleza.
Pudesse agora dizer-te,
Sem ser por palavras vãs,
O que diz a voz dos grilos,
O que diz a voz das rãs.
Com tanto ardor, tanto afã?
Falou o Grilo primeiro,
Logo depois foi a Rã.
Pobre loucura dos homens
Quando julgam entendê-las…
Só eles pasmam os olhos
Neste encanto das estrelas…
Lá no silêncio dos campos
Ou no mais ermo da serra,
Na voz das rãs dala a àgua,
Na voz dos grilos a Terra.
Só eles cantam a vida
Com amor e singeleza,
Por ser descuidada, alegre;
Por ser simples, com beleza.
Pudesse agora dizer-te,
Sem ser por palavras vãs,
O que diz a voz dos grilos,
O que diz a voz das rãs.
736
Fernando Guimarães
ACERCA DE UMA ARANHA
O que se pode dizer? Falemos da sua leveza, dessa espécie de gesto
que a sustenta no ar. Permanece sozinha, para que se encontre
a si mesma. À sua frente estão múltiplos caminhos, mas escolhe
apenas um. Ela procura o centro de qualquer coisa. Aí fica
à espera, atenta como nós quando lemos um livro. Talvez esteja perto
daquilo que há muito se ignorava, de um segredo que a teia
lhe pode revelar quando estremece. Solta-se dela um fio
maior para que a luz venha ao seu encontro. Oscila um pouco
e afasta-se lentamente. É outra a página que se lê agora.
que a sustenta no ar. Permanece sozinha, para que se encontre
a si mesma. À sua frente estão múltiplos caminhos, mas escolhe
apenas um. Ela procura o centro de qualquer coisa. Aí fica
à espera, atenta como nós quando lemos um livro. Talvez esteja perto
daquilo que há muito se ignorava, de um segredo que a teia
lhe pode revelar quando estremece. Solta-se dela um fio
maior para que a luz venha ao seu encontro. Oscila um pouco
e afasta-se lentamente. É outra a página que se lê agora.
1 262
Fernando Echevarría
O Tempo Vive
O tempo vive, quando os homens, nele,
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.
se esquecem de si mesmos,
ficando, embora, a contemplar o estreme
reduto de estar sendo.
O tempo vive a refrescar a sede
dos animais e do vento,
quando a estrutura estremece
a dura escuridão que, desde dentro,
irrompe. E fica com o uivo agreste
espantando o seu estrondo de silêncio.
620
Fernando Echevarría
A Nossa Inteligência as Está Vendo
A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.
777
Fernando Guimarães
Página
Principiamos a ler. O rosto inclina-se. Ainda separadas,
algumas das letras estremeceram. Tudo aquilo que se sente
é a respiração que fica à sua volta. O ar destina-se às palavras
e também ao silêncio. A luz que chega pode explicar-nos
melhor o que se passa. Os olhos sabem-no. Daí a pressa
com que se aproximaram dela, até se tornar o que se leu
mais nosso. Depois repousamos um pouco. Uma das mãos
estende-se e vai ao encontro de outra página. Esta será maior.
algumas das letras estremeceram. Tudo aquilo que se sente
é a respiração que fica à sua volta. O ar destina-se às palavras
e também ao silêncio. A luz que chega pode explicar-nos
melhor o que se passa. Os olhos sabem-no. Daí a pressa
com que se aproximaram dela, até se tornar o que se leu
mais nosso. Depois repousamos um pouco. Uma das mãos
estende-se e vai ao encontro de outra página. Esta será maior.
798
Fernando Echevarría
Qualquer Coisa de Paz
Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
654
Júlio Maria dos Reis Pereira
O Silêncio
Peço apenas o teu silêncio,
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua alma se embrulha, friorenta,
trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressonâncias de antigas primaveras,
de outonos descoloridos
e da chuva a cair no negrume da noite.
- Vá, motorista de táxi,
transporta-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua alma se embrulha, friorenta,
trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressonâncias de antigas primaveras,
de outonos descoloridos
e da chuva a cair no negrume da noite.
- Vá, motorista de táxi,
transporta-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!
533
Manuel Gusmão
um risco na página
um risco na página
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento
873
Manuel de Freitas
CENTRO COMERCIAL I I
Uma hipótese de morte com fato de treino
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
990
Grazia Deledda
Nós somos sardos
Somos espanhóis, africanos, fenícios, cartagineses,
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
710
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
629
João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
662
Diogo Brandão
Os que logo decrararam
Os que logo decrararam
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
confessaram.
Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
confessaram.
Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
563
Frei Agostinho da Cruz
elegia II
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
682
Charles Bukowski
Um Grande Escritor
um grande escritor fica na cama
cortinas cerradas
não quer ver mais ninguém
não quer escrever mais nada
não quer tentar mais nada;
os editores e donos de editora se admiram:
alguns dizem que ele está louco
alguns dizem que ele morreu;
sua mulher agora responde a toda a correspondência:
"ele não quer..."
e alguns outros até dão voltas
pelo lado de fora da sua casa
olham para as cortinas
cerradas;
alguns até sobem e tocam a
campainha.
ninguém responde.
o grande escritor não quer ser
incomodado. será que o grande escritor não está
em casa? será que o grande escritor foi
embora?
mas todos querem saber a verdade,
ouvir sua voz, ficar sabendo de algum bom
motivo para tudo isso.
se ele tem um motivo
não o revela.
talvez não haja nenhum
motivo?
estranhos e perturbadores acertos são
feitos; seus livros e quadros são silenciosamente
leiloados;
nenhum trabalho novo apareceu em
anos.
no entanto, o público não quer aceitar seu
silêncio -
se ele está morto
eles querem saber; se ele está
louco eles querem saber; se ele tem um
motivo, por favor, nos conte!
eles passam por sua casa
escrevem cartas
tocam a campainha
eles não podem entender e não irão
aceitar
O jeito como as coisas são.
eu prefiro
assim.
cortinas cerradas
não quer ver mais ninguém
não quer escrever mais nada
não quer tentar mais nada;
os editores e donos de editora se admiram:
alguns dizem que ele está louco
alguns dizem que ele morreu;
sua mulher agora responde a toda a correspondência:
"ele não quer..."
e alguns outros até dão voltas
pelo lado de fora da sua casa
olham para as cortinas
cerradas;
alguns até sobem e tocam a
campainha.
ninguém responde.
o grande escritor não quer ser
incomodado. será que o grande escritor não está
em casa? será que o grande escritor foi
embora?
mas todos querem saber a verdade,
ouvir sua voz, ficar sabendo de algum bom
motivo para tudo isso.
se ele tem um motivo
não o revela.
talvez não haja nenhum
motivo?
estranhos e perturbadores acertos são
feitos; seus livros e quadros são silenciosamente
leiloados;
nenhum trabalho novo apareceu em
anos.
no entanto, o público não quer aceitar seu
silêncio -
se ele está morto
eles querem saber; se ele está
louco eles querem saber; se ele tem um
motivo, por favor, nos conte!
eles passam por sua casa
escrevem cartas
tocam a campainha
eles não podem entender e não irão
aceitar
O jeito como as coisas são.
eu prefiro
assim.
685
Charles Bukowski
Inacreditável
tenho ido às corridas há
décadas
mas vi algo novo
hoje.
2 cavalos derrubaram seus cavaleiros.
normalmente quando um cavalo derruba
o cavaleiro dele ou dela
ele (ou ela) continua a correr
na mesma direção que
os outros cavalos.
mas
dessa vez
os dois cavalos se viraram
e começaram a correr na
direção contrária.
em outras palavras,
na direção do bloco
que estava vindo.
era uma pista de 5/8 de
milha
e eles estavam se aproximando bem
rápido.
o locutor avisou
os cavaleiros
e quando eles passaram
pela última curva
na direção da reta
lá vieram os outros
2 cavalos bem na direção
deles.
não houve gritos.
houve um silêncio
mortal.
dava para ouvir as ferraduras
pisoteando a terra.
então um dos cavalos desviou
em uma curva bem aberta
e saiu da
pista.
o outro avançou direto
naquilo
e atravessou direto
entre os outros
cavalos.
os outros cavalos alcançaram
a chegada.
o meu havia ganhado.
mas os juízes procederam a
um inquérito e foi
declarada
anulação.
eu estava
me lixando.
continuava a ver aquele cavalo
disparando pelo prado
e passando direto,
intocado.
um milagre.
décadas
mas vi algo novo
hoje.
2 cavalos derrubaram seus cavaleiros.
normalmente quando um cavalo derruba
o cavaleiro dele ou dela
ele (ou ela) continua a correr
na mesma direção que
os outros cavalos.
mas
dessa vez
os dois cavalos se viraram
e começaram a correr na
direção contrária.
em outras palavras,
na direção do bloco
que estava vindo.
era uma pista de 5/8 de
milha
e eles estavam se aproximando bem
rápido.
o locutor avisou
os cavaleiros
e quando eles passaram
pela última curva
na direção da reta
lá vieram os outros
2 cavalos bem na direção
deles.
não houve gritos.
houve um silêncio
mortal.
dava para ouvir as ferraduras
pisoteando a terra.
então um dos cavalos desviou
em uma curva bem aberta
e saiu da
pista.
o outro avançou direto
naquilo
e atravessou direto
entre os outros
cavalos.
os outros cavalos alcançaram
a chegada.
o meu havia ganhado.
mas os juízes procederam a
um inquérito e foi
declarada
anulação.
eu estava
me lixando.
continuava a ver aquele cavalo
disparando pelo prado
e passando direto,
intocado.
um milagre.
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