Poemas neste tema
Solidão
Renato Russo
Natália
Vamos falar de pesticidas
E de tragédias radioativas
De doenças incuráveis
Vamos falar de sua vida
Preste atenção ao que eles dizem
Ter esperança é hipocrisia
A felicidade é uma mentira
E a mentira é a salvação
Beba desse sangue imundo
E você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo
Somos os animais na jaula
Mas você só quer algodão-doce
Não confunda ética com éter
Quando penso em você eu tenho febre
Mas quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
É complicado estar só
Quem está sozinho que o diga
Quando a tristeza é sempre o ponto de partida
Quanto tudo é solidão
É preciso acreditar num novo dia
Na nossa grande geração perdida
Nos meninos e meninas
Nos trevos de uqtro folhas
A escuridão ainda é pior que essa luz cinza
Mas estamos vivos ainda
E quem sabe um dia
Eu escrervo uma canção pra você
E de tragédias radioativas
De doenças incuráveis
Vamos falar de sua vida
Preste atenção ao que eles dizem
Ter esperança é hipocrisia
A felicidade é uma mentira
E a mentira é a salvação
Beba desse sangue imundo
E você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo
Somos os animais na jaula
Mas você só quer algodão-doce
Não confunda ética com éter
Quando penso em você eu tenho febre
Mas quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
É complicado estar só
Quem está sozinho que o diga
Quando a tristeza é sempre o ponto de partida
Quanto tudo é solidão
É preciso acreditar num novo dia
Na nossa grande geração perdida
Nos meninos e meninas
Nos trevos de uqtro folhas
A escuridão ainda é pior que essa luz cinza
Mas estamos vivos ainda
E quem sabe um dia
Eu escrervo uma canção pra você
1 240
Renato Russo
Perdidos no Espaço
Escrevi prá você e você não respondeu
Também não respondi quando você me escreveu
Anotei seu telefone num pedaço de papel
E calculei seu ascendente no recibo do aluguel
Esqueci seu sobrenome, mas me lembro de você
E a rotina crescia como planta
E engulia a metade do caminho
E a mudança levou tempo por ser tão veloz
Enquanto estávamos a salvo
Ficamos suspensos
Perdidos no espaço
E era como se jogassem Space Invaders
Perdendo mais dinheiro de muitas maneiras
Vivendo num planeta perdido como nós
Quem sabe ainda estamos a salvo
Ficamos suspensos
Perdidos no espaço
Também não respondi quando você me escreveu
Anotei seu telefone num pedaço de papel
E calculei seu ascendente no recibo do aluguel
Esqueci seu sobrenome, mas me lembro de você
E a rotina crescia como planta
E engulia a metade do caminho
E a mudança levou tempo por ser tão veloz
Enquanto estávamos a salvo
Ficamos suspensos
Perdidos no espaço
E era como se jogassem Space Invaders
Perdendo mais dinheiro de muitas maneiras
Vivendo num planeta perdido como nós
Quem sabe ainda estamos a salvo
Ficamos suspensos
Perdidos no espaço
815
Raul Seixas
Eu Preciso de Ajuda
Para todos os insonemaníacos da Terra
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda
Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda
Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda
Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda
Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.
1 183
Renato Russo
Giz
E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém
Aparecer ou quando quero
Desenho toda a calçada
Acaba o giz tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesse me ver
Es parte ainda do que me faz forte
E, prá ser honesto
Só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
tudo bem
tudo bem
Lá vem lá vem lá vem
De novo:
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti não me esquecerei
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém
Aparecer ou quando quero
Desenho toda a calçada
Acaba o giz tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesse me ver
Es parte ainda do que me faz forte
E, prá ser honesto
Só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
tudo bem
tudo bem
Lá vem lá vem lá vem
De novo:
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti não me esquecerei
1 359
Renato Russo
Há Tempos
Parece cocaína mas é só tristeza
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso
Os sonhos vêm
E os sonhos vão
O resto é imperfeito
Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse: - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa
Talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro não me lembro
Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso
Os sonhos vêm
E os sonhos vão
O resto é imperfeito
Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira
E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse: - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa
1 275
Renato Russo
A ordem dos templários (Instrumental)
A montanha mágica
Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Ficou logo o que tinha ido embora
Estou só um pouco cansado
Não sei se isto termina logo
Meu joelho dói
E não há nada a fazer agora
Para que servem os anjos ?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem
Um outro agora vive minha vida
Sei o que ele sonha, pensa e sente
Não é coincidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mas estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina ?
O que fizemos de nossas próprias vidas ?
O mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes -
Agora só artesanato:
Os restos são escombros
Mas é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui
Cada criança com seu próprio canivete
Cada líder com seu próprio .38
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Chega - vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol num copo dágua
Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Ficou logo o que tinha ido embora
Estou só um pouco cansado
Não sei se isto termina logo
Meu joelho dói
E não há nada a fazer agora
Para que servem os anjos ?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem
Um outro agora vive minha vida
Sei o que ele sonha, pensa e sente
Não é coincidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Es o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mas estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina ?
O que fizemos de nossas próprias vidas ?
O mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes -
Agora só artesanato:
Os restos são escombros
Mas é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui
Cada criança com seu próprio canivete
Cada líder com seu próprio .38
Minha papoula da India
Minha flor da Tailândia
Chega - vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol num copo dágua
875
Renata Trocoli
Sem Titulo VII
Meu coração se despedaça...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...
806
Renato Russo
A Via Láctea
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor
Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia não é
Eu nem sei por que me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou
Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim
(Carro-chefe do último disco da Legião Urbana
– A Tempestade – recém-lançado,
A Via Láctea tem letra e música de Renato Russo).
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor
Mas não me diga isso
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia não é
Eu nem sei por que me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou
Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim
(Carro-chefe do último disco da Legião Urbana
– A Tempestade – recém-lançado,
A Via Láctea tem letra e música de Renato Russo).
2 622
Roberto Pontes
Se a Esmo a Apatia Te Acudir
Se a esmo a apatia te acudir
e a casa ficar triste e desbotada
será preciso lembrar a aflição
de quem te pensa e sempre silencia.
E quando a minha ausência sufocar
teu ser, sem lenitivo,
urge saber que assim eu te maltrato
e sofro longe esta dor comum.
Quando a solidão fingir que te domina
e a vida parecer um desespero
bom é que penses apenas no tesouro
contido ali no coração que ama.
Mas se nada suplantar a minha falta,
estejas certa que não sou teu deus,
certeza tenhas que não sou o sol,
porque navego os mesmos sentimentos.
e a casa ficar triste e desbotada
será preciso lembrar a aflição
de quem te pensa e sempre silencia.
E quando a minha ausência sufocar
teu ser, sem lenitivo,
urge saber que assim eu te maltrato
e sofro longe esta dor comum.
Quando a solidão fingir que te domina
e a vida parecer um desespero
bom é que penses apenas no tesouro
contido ali no coração que ama.
Mas se nada suplantar a minha falta,
estejas certa que não sou teu deus,
certeza tenhas que não sou o sol,
porque navego os mesmos sentimentos.
830
Rosa Bruno
Senor Montado
Senhor da solidão, da soledade, Senhor Montado!...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
874
Paulo Augusto Rodrigues
Espanto
É o silêncio que te choca?
Ver meu rosto contraído,
Meu copo vazio,
Meu estado de abandono.
Minha insônia,
Meus tremores,
Os vacilos de memória.
Ver minha bílis escarrada,
Meu desânimo latente,
Meu amargo desumor,
Meus suores quando durmo,
O volume do cinzeiro,
O escritório em desalinho,
A ausência do querer.
Me faltam as respostas.
É quando calo.
Agora, me diga,
É o silêncio que te choca?
Ver meu rosto contraído,
Meu copo vazio,
Meu estado de abandono.
Minha insônia,
Meus tremores,
Os vacilos de memória.
Ver minha bílis escarrada,
Meu desânimo latente,
Meu amargo desumor,
Meus suores quando durmo,
O volume do cinzeiro,
O escritório em desalinho,
A ausência do querer.
Me faltam as respostas.
É quando calo.
Agora, me diga,
É o silêncio que te choca?
973
Ricardo Madeira
Frio e Só
(COMO SEMPRE)
A criança alegre e divertida
Deixou de acreditar no Pai Natal,
As prendas na sua longa lista não foram recebidas,
E o fiel cão jaz espalmado na estrada.
O espelho mostra algo de errado,
O adolescente espreme da cara a borbulha,
Mas nada muda.
O reflexo não mente, falta algo na sua vida,
Certifica-se que ainda o tem entre as pernas
E deixa a barba crescer...
Não resulta...
Homem sem amigos,
Achados e perdidos,
Gastando tudo o que pode
(Não necessariamente por ordem alfabética)
Em bebida e mulheres.
O velho ainda não sabe o que é a vida,
Chora sobre cabelo caído
Enquanto coça os genitais
(Agora, lamentavelmente, só com função urinária),
Desejando...
A morte...
Autópsia, médicos
Procuram estupefactos no peito frio cadáver
Um músculo há muito atrofiado,
Que nunca bateu...
O nome na sepultura
Por nenhum dos nove filhos bastardos lembrado,
Deixado abandonado para apodrecer
Frio e só...
Como sempre...
A criança alegre e divertida
Deixou de acreditar no Pai Natal,
As prendas na sua longa lista não foram recebidas,
E o fiel cão jaz espalmado na estrada.
O espelho mostra algo de errado,
O adolescente espreme da cara a borbulha,
Mas nada muda.
O reflexo não mente, falta algo na sua vida,
Certifica-se que ainda o tem entre as pernas
E deixa a barba crescer...
Não resulta...
Homem sem amigos,
Achados e perdidos,
Gastando tudo o que pode
(Não necessariamente por ordem alfabética)
Em bebida e mulheres.
O velho ainda não sabe o que é a vida,
Chora sobre cabelo caído
Enquanto coça os genitais
(Agora, lamentavelmente, só com função urinária),
Desejando...
A morte...
Autópsia, médicos
Procuram estupefactos no peito frio cadáver
Um músculo há muito atrofiado,
Que nunca bateu...
O nome na sepultura
Por nenhum dos nove filhos bastardos lembrado,
Deixado abandonado para apodrecer
Frio e só...
Como sempre...
871
Paulo Augusto Rodrigues
Vida
Vem vida,
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
983
Rita de Cássia
Deserto
Contemplo vaga imensidão ao meu redor
E tão sozinha encontro-me aqui, novamente
Simples e sempre andarilha deste deserto
Esta mesma, que você não quis, e somente...
Só e mente sempre são as minhas imagens,
Visíveis nesta poeira bege e infinita;
Nesta poesia tão amargamente escrita
Para que então, assim lesse a minha miragem
Ah... Que mensagem tão inutilmente dita,
Só porque os seus ouvidos não me escutarão
E tão simplesmente pelos seus olhos vistas,
Pois dentre os caminhos perdidos, vagarão...
E talvez, palavras que não foram escritas
Eram a chave-mestra do seu coração...
E tão sozinha encontro-me aqui, novamente
Simples e sempre andarilha deste deserto
Esta mesma, que você não quis, e somente...
Só e mente sempre são as minhas imagens,
Visíveis nesta poeira bege e infinita;
Nesta poesia tão amargamente escrita
Para que então, assim lesse a minha miragem
Ah... Que mensagem tão inutilmente dita,
Só porque os seus ouvidos não me escutarão
E tão simplesmente pelos seus olhos vistas,
Pois dentre os caminhos perdidos, vagarão...
E talvez, palavras que não foram escritas
Eram a chave-mestra do seu coração...
546
Ribeiro Couto
No Jardim em Penumbra
Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.
Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.
Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.
E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.
Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.
Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.
E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.
3 709
Ribeiro Couto
Chuva
A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria...
Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.
Chove dentro de nós... Chove melancolia...
1 286
Ricardo Madeira
D Roga
Por entre a tua escuridão,
Dois olhos brilham mais negro,
Nas veias, espesso e em ebulição,
Teu sangue não mais arde vermelho.
Mais uma vez, a agulha viola a carne,
Com a alegria de quem impala um coração,
O sorriso nos lábios roxos do enforcado,
A gargalhada do cadáver na exumação.
Sonhos, tal cristais que se quebram,
Tua fome saciada pelo vidro partido,
Dormência nos membros gangrenosos,
Larvas em defunto apodrecido.
Como um peixe que mordeu anzol,
Forçado sorri, arrastado para terra,
E ri ao ver metal em brasa, possante,
Que pulsa e na carne se enterra.
Solidão alimenta a melancolia,
A agulha cura a dor em alegria,
Outra promessa nunca cumprida,
Morte não é objectivo da vida.
Dois olhos brilham mais negro,
Nas veias, espesso e em ebulição,
Teu sangue não mais arde vermelho.
Mais uma vez, a agulha viola a carne,
Com a alegria de quem impala um coração,
O sorriso nos lábios roxos do enforcado,
A gargalhada do cadáver na exumação.
Sonhos, tal cristais que se quebram,
Tua fome saciada pelo vidro partido,
Dormência nos membros gangrenosos,
Larvas em defunto apodrecido.
Como um peixe que mordeu anzol,
Forçado sorri, arrastado para terra,
E ri ao ver metal em brasa, possante,
Que pulsa e na carne se enterra.
Solidão alimenta a melancolia,
A agulha cura a dor em alegria,
Outra promessa nunca cumprida,
Morte não é objectivo da vida.
922
Paulo Augusto Rodrigues
Dor
As cinzas queimando sozinhas
O gelo derretendo na álcool que resta.
O mundo girando afogado,
Na fumaça e na penumbra.
Pela fresta,
O primeiro raio de vida
Se assusta ao entrar.
O cheiro acre do bafo,
Esconde o desgosto.
Despido de tudo,
Morto até acordar
Vive sem sonhos,
A imagem do desânimo.
Suando em lágrimas,
Chora um coração rejeitado.
Sofre,
O sopro de vida,
Que ainda resta naquele raio solar.
Desmancham-se líquidas,
Esperanças e forças.
Abrem-se tristes os olhos,
Perdidos em si,
Contemplando o infinito.
A podridão interior,
Deteriora o sangue
Tornando venoso,
Respirar.
O ar carregado estoura no peito
E a mente capta,
Dor...
O gelo derretendo na álcool que resta.
O mundo girando afogado,
Na fumaça e na penumbra.
Pela fresta,
O primeiro raio de vida
Se assusta ao entrar.
O cheiro acre do bafo,
Esconde o desgosto.
Despido de tudo,
Morto até acordar
Vive sem sonhos,
A imagem do desânimo.
Suando em lágrimas,
Chora um coração rejeitado.
Sofre,
O sopro de vida,
Que ainda resta naquele raio solar.
Desmancham-se líquidas,
Esperanças e forças.
Abrem-se tristes os olhos,
Perdidos em si,
Contemplando o infinito.
A podridão interior,
Deteriora o sangue
Tornando venoso,
Respirar.
O ar carregado estoura no peito
E a mente capta,
Dor...
874
Rosani Abou Adal
Código Morse
Bolhas de espuma boiam sobre a água,
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
código morse da espécie Beta
comunicando que é adulto
e precisa uma fêmea para acasalar.
Olhos tristes e pequenos
protestam a solidão aquática.
No fundo do aquário, sem mover nadadeiras,
sonha com a azulzinha, a vermelhinha
para compartilhar carinho e afeto.
Seu coração vazio e infeliz.
Fala português e portunhol
com suas guelras.
Ninguém entende a mensagem.
Tenta outra vez,
o código sem tradução.
O Beta codifica a solidão oculta
- a companheira invisível
surge do outro lado do aquário.
1 031
Rosani Abou Adal
Aquário
Tudo frio na madrugada.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
Teu corpo ausente dos meus braços,
o colchão vazio e distante.
Repouso a cabeça no travesseiro de pedra,
sonho contigo de olhos abertos.
Voas como um gavião para o desconhecido.
O quarto escuro e triste.
O peixe no aquário solitário
sente meus sinais e movimentos.
Nada, mergulha e me observa
com seus olhinhos miúdos.
Somos dois, cercados de quadros e livros,
em harmonia como dois eremitas.
Na cama, meu corpo nu.
No aquário, o peixinho carente
pede com suas guelras
uma companheira para repartir
seu espaço e pequenino coração.
Entendo a mensagem e psicografo
pelo vidro com um toque sereno.
Ele dorme aliviado ao sentir
carinho e afeto através das fibras mortas.
O silêncio toma conta da noite,
as obras de arte perdem a cor,
os livros, sem títulos e autoria,
as páginas em branco emudecem.
Dentro de minhalma uma tempestade de neve
esquenta meu corpo,
um inverno latente me acolhe.
O peixe estático dorme
tranqüilo e esperançoso.
Em sua cor de fogo, uma infinita paz.
823
Rosani Abou Adal
Templo de Zeus
A solidão invade a noite do sábado,
o silêncio toma conta das ruas.
Não escuto cachorros latindo,
apenas o escapamento solto da motocicleta
voando sobre o asfalto como um relâmpago.
Aguardo uma eternidade teu chamado mudo,
o telefax e secretária eletrônica se calaram.
Tento me comunicar contigo por telepatia,
não entendes meus códigos.
Viajo pelo túnel do tempo rumo à terra de Homero
para ouvir tua voz e codificar meus sinais.
Percorro o Bosque Sagrado do Olimpo,
Parthenon, Palácio Cnosso, Pórtico de Cariátides,
Acrópole de Lindos, Templo de Apolo,
Templo de Posêidon, o Templo de Zeus,
e assumo formas de touro, cisne, anfitrião,
chuva de ouro para me aproximar de ti
como fizera Zeus com Europa, Leda, Danae e Alcmene.
Zeus mais feliz que eu com as mortais,
de suas aproximações surgiram Perseu, Pólux e Helena.
A máquina do tempo me traz de volta
ao silêncio do fim de semana.
Nada valeu me transformar em cisne,
touro branco, chuva de ouro e anfitrião.
O aparelho de Graham Bell se calou no tempo.
o silêncio toma conta das ruas.
Não escuto cachorros latindo,
apenas o escapamento solto da motocicleta
voando sobre o asfalto como um relâmpago.
Aguardo uma eternidade teu chamado mudo,
o telefax e secretária eletrônica se calaram.
Tento me comunicar contigo por telepatia,
não entendes meus códigos.
Viajo pelo túnel do tempo rumo à terra de Homero
para ouvir tua voz e codificar meus sinais.
Percorro o Bosque Sagrado do Olimpo,
Parthenon, Palácio Cnosso, Pórtico de Cariátides,
Acrópole de Lindos, Templo de Apolo,
Templo de Posêidon, o Templo de Zeus,
e assumo formas de touro, cisne, anfitrião,
chuva de ouro para me aproximar de ti
como fizera Zeus com Europa, Leda, Danae e Alcmene.
Zeus mais feliz que eu com as mortais,
de suas aproximações surgiram Perseu, Pólux e Helena.
A máquina do tempo me traz de volta
ao silêncio do fim de semana.
Nada valeu me transformar em cisne,
touro branco, chuva de ouro e anfitrião.
O aparelho de Graham Bell se calou no tempo.
942
Rodrigo Guidi Peplau
Poêmio
Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
1 132
Rosani Abou Adal
Auto-Retrato
Estou tão só dentro de mim
que até as estrelas emudeceram.
Não escuto o cantar dos pássaros,
que se inquietaram diante do meu silêncio.
Não consigo psicografar frases de amor,
minhas mãos se fecharam para o tempo,
a única palavra que ecoa no meu peito é a solidão.
Não sei porque me sinto só.
Um mihão de pessoas ao meu redor,
não vejo um sorriso sequer.
Meu sorriso se calou,
não o vejo no espelho.
Estou triste e feliz.
Feliz na companhia da solidão,
triste porque não tenho um sorriso
e tudo é pausa ao meu redor.
Estou ficando duplamente triste,
a solidão vai me abandonando neste instante.
Olho a multidão e a felicidade
desponta no sorriso de uma criança.
que até as estrelas emudeceram.
Não escuto o cantar dos pássaros,
que se inquietaram diante do meu silêncio.
Não consigo psicografar frases de amor,
minhas mãos se fecharam para o tempo,
a única palavra que ecoa no meu peito é a solidão.
Não sei porque me sinto só.
Um mihão de pessoas ao meu redor,
não vejo um sorriso sequer.
Meu sorriso se calou,
não o vejo no espelho.
Estou triste e feliz.
Feliz na companhia da solidão,
triste porque não tenho um sorriso
e tudo é pausa ao meu redor.
Estou ficando duplamente triste,
a solidão vai me abandonando neste instante.
Olho a multidão e a felicidade
desponta no sorriso de uma criança.
1 000
Rosani Abou Adal
Nua
Sinto-me como um cabide
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
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