Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
Lume
Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguía.
Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr'a o além era o mais perto
e pr'a voltar a mim o mais distante.
Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.
Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguía.
Apagou-se, por fim, o lume incerto...
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr'a o além era o mais perto
e pr'a voltar a mim o mais distante.
Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.
Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.
770
Eucanaã Ferraz
FOI-SE A VONTADE DE IR AO EGITO
Todos foram unânimes: precisava parar de fumar.
Foi o que fez.
Com isso parou também de amar o próximo
como a si mesmo e passou a duvidar
de que um dia tenha amado a si mesmo.
Nunca se viu outra vez com sua mãe
e seu pai na fotografia em que parecia amar
e ser amado muito antes de haver fumado
mas quem sabe pressentisse com a pureza
do sorriso o fumante que seria.
Em parar de fumar seu cabelo perdeu
a graça e suas piadas perderam o brilho.
Perdeu amigos sem sentir pena. Perdeu
esboços de poemas e o pudor de dizer não.
Disse adeus ao prazer físico e místico de olhar
as nuvens pela janela do avião como anéis
de fumaça. Arruinou-se sobretudo certo dom
de estar feliz que não excedia a simplicidade
necessária para que o bem gratuito
não se quebrasse — mas agora as horas
parecem porcelanas raras estilhaçando
num daqueles espetáculos em que o mal
abarista equilibra pratos no alto de uma vara
que ele pousa na ponta do queixo
ao som de uma música chim, algo assim.
Foi-se a vontade de ir ao Egito.
Perdeu o gosto das aves e da companhia dos cães.
Mas, sobretudo, passou a sonhar insistentemente
com rãs que invadem seus pulmões sua casa.
Foi o que fez.
Com isso parou também de amar o próximo
como a si mesmo e passou a duvidar
de que um dia tenha amado a si mesmo.
Nunca se viu outra vez com sua mãe
e seu pai na fotografia em que parecia amar
e ser amado muito antes de haver fumado
mas quem sabe pressentisse com a pureza
do sorriso o fumante que seria.
Em parar de fumar seu cabelo perdeu
a graça e suas piadas perderam o brilho.
Perdeu amigos sem sentir pena. Perdeu
esboços de poemas e o pudor de dizer não.
Disse adeus ao prazer físico e místico de olhar
as nuvens pela janela do avião como anéis
de fumaça. Arruinou-se sobretudo certo dom
de estar feliz que não excedia a simplicidade
necessária para que o bem gratuito
não se quebrasse — mas agora as horas
parecem porcelanas raras estilhaçando
num daqueles espetáculos em que o mal
abarista equilibra pratos no alto de uma vara
que ele pousa na ponta do queixo
ao som de uma música chim, algo assim.
Foi-se a vontade de ir ao Egito.
Perdeu o gosto das aves e da companhia dos cães.
Mas, sobretudo, passou a sonhar insistentemente
com rãs que invadem seus pulmões sua casa.
678
Eucanaã Ferraz
A BELA E A FERA I
Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
638
Eucanaã Ferraz
A BELA E A FERA II
Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro
de sua couraça
o besouro
absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se
atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha
o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto
ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
de sua couraça
o besouro
absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se
atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha
o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto
ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
636
Manuel Gusmão
As mãos da noite
As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.
Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite : as figuras quebradas.
A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou
a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde
O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.
Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite : as figuras quebradas.
A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou
a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde
O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa
1 520
Júlio Maria dos Reis Pereira
Nua
I
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...
Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!
Roseira que enflora...!
Desflorada por tanta gente...
II
Teu corpo,
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve
o sonho que alonguei...
Asas em voo,
quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!
Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!
Quem destrançou os teus cabelos de oiro?
IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...
Tão macio,
tão modelado...
Beijos... Beijos... Beijos...
V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...
Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...
Apenas nos cabelos
um azulado laço...
E assim enlaço
a imagem sua...
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...
Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!
Roseira que enflora...!
Desflorada por tanta gente...
II
Teu corpo,
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve
o sonho que alonguei...
Asas em voo,
quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!
Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!
Quem destrançou os teus cabelos de oiro?
IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...
Tão macio,
tão modelado...
Beijos... Beijos... Beijos...
V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...
Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...
Apenas nos cabelos
um azulado laço...
E assim enlaço
a imagem sua...
718
Júlio Maria dos Reis Pereira
A Minha Hora
Que horas são? O meu relógio está parado,
Há quanto tempo!...
Que pena o meu relógio estar parado
E eu não poder marcar esta hora extraordinária!
Hora em que o sonho ascende, lento, muito lento,
Hora som de violino a expirar... Hora vária,
Hora sombra alongada de convento...
Hora feita de nostalgia
Dos degredados...
Hora dos abandonados
E dos que o tédio abate sem cessar...
Hora dos que nunca tiveram alegria,
Hora dos que cismam noite e dia,
Hora dos que morrem sem amar...
Hora em que os doentes de corpo e alma,
Pedem ao Senhor para os sarar...
Hora de febre e de calma,
Hora em que morre o sol e nasce o luar...
Hora em que os pinheiros pela encosta acima,
São monges a rezar...
Hora irmã da caridade
Que dá remédio aos que o não têm...
Hora saudade...
Hora dos Pedro Sem...
Hora dos que choram por não ter vivido,
Hora dos que vivem a chorar alguém...
Hora dos que têm um sonho águia mas... ai!
Águia sem asas para voar...
Hora dos que não têm mãe nem pai
E dos que não têm um berço p'ra embalar...
Hora dos que passam por este mundo,
De olhos fechados, a sonhar...
Hora de sonhos... A minha hora
- 'Stertor's de sol, vagidos de luar -
Mas... ai! a lua lá vem agora...
- Senhora lua, minha senhora,
Mais um minuto para a minha hora,
Mais um minuto para sonhar...
Há quanto tempo!...
Que pena o meu relógio estar parado
E eu não poder marcar esta hora extraordinária!
Hora em que o sonho ascende, lento, muito lento,
Hora som de violino a expirar... Hora vária,
Hora sombra alongada de convento...
Hora feita de nostalgia
Dos degredados...
Hora dos abandonados
E dos que o tédio abate sem cessar...
Hora dos que nunca tiveram alegria,
Hora dos que cismam noite e dia,
Hora dos que morrem sem amar...
Hora em que os doentes de corpo e alma,
Pedem ao Senhor para os sarar...
Hora de febre e de calma,
Hora em que morre o sol e nasce o luar...
Hora em que os pinheiros pela encosta acima,
São monges a rezar...
Hora irmã da caridade
Que dá remédio aos que o não têm...
Hora saudade...
Hora dos Pedro Sem...
Hora dos que choram por não ter vivido,
Hora dos que vivem a chorar alguém...
Hora dos que têm um sonho águia mas... ai!
Águia sem asas para voar...
Hora dos que não têm mãe nem pai
E dos que não têm um berço p'ra embalar...
Hora dos que passam por este mundo,
De olhos fechados, a sonhar...
Hora de sonhos... A minha hora
- 'Stertor's de sol, vagidos de luar -
Mas... ai! a lua lá vem agora...
- Senhora lua, minha senhora,
Mais um minuto para a minha hora,
Mais um minuto para sonhar...
808
Vítor Silva Tavares
Como se alguém teimosamente mudo
Como se alguém teimosamente mudo
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
660
Ademir Assunção
JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA
sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
1 011
Ademir Assunção
O Anjo do Ácido Elétrico
o anjo sujo, esfarrapado
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
780
José Paulo Paes
Outro Retrato
O laço de fita
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.
Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.
Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.
Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.
Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.
1 244
Salgado Maranhão
VULTO 1
Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
734
José Paulo Paes
À TINTA DE ESCREVER
Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
648
Tatiana Faia
o mistério dos homens adormecidos
alguns jazem no plaino abandonado
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano
alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto
alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada
enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart
alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição
adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico
e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente
Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano
alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto
alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada
enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart
alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição
adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico
e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente
Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
663
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 083
Charles Bukowski
Notas Sobre o Aspecto Linhoso:
uma florzinha do John F. Kennedy bate à minha porta é atingida no
pescoço;
os gladíolos se reúnem às dúzias ao redor da extremidade da
Índia
pingando no Ceilão;
dúzias de ostras[12] leem Germaine Greer.
enquanto isso, minha excitação vai da conversa fiada dos filisteus
ao olho do peixinho
o peixinho sendo devorado pelos sonhos cumulativos de
Simon Bolívar. Ó,
a liberdade da limitação angular da distância seria
delicioso.
a guerra é perfeita,
o que é sólido pinga e se dispersa,
Schopenhauer riu por 72 anos,
e um homúnculo em Nova York me disse
certa tarde numa
casa de penhores:
“Cristo conseguiu atrair mais atenção que eu
mas eu fui mais longe com menos...”
bem, a distância entre 5 pontos é a mesma assim como a
distância entre 3 pontos é a mesma distância
entre um ponto:
tudo é tão cordial como um bombom:
tudo isso em que estamos
envolvidos:
os eunucos são mais precisos que o sono
o selo postal é louco, Indiana é ridículo
o camaleão é a última flor ambulante.
pescoço;
os gladíolos se reúnem às dúzias ao redor da extremidade da
Índia
pingando no Ceilão;
dúzias de ostras[12] leem Germaine Greer.
enquanto isso, minha excitação vai da conversa fiada dos filisteus
ao olho do peixinho
o peixinho sendo devorado pelos sonhos cumulativos de
Simon Bolívar. Ó,
a liberdade da limitação angular da distância seria
delicioso.
a guerra é perfeita,
o que é sólido pinga e se dispersa,
Schopenhauer riu por 72 anos,
e um homúnculo em Nova York me disse
certa tarde numa
casa de penhores:
“Cristo conseguiu atrair mais atenção que eu
mas eu fui mais longe com menos...”
bem, a distância entre 5 pontos é a mesma assim como a
distância entre 3 pontos é a mesma distância
entre um ponto:
tudo é tão cordial como um bombom:
tudo isso em que estamos
envolvidos:
os eunucos são mais precisos que o sono
o selo postal é louco, Indiana é ridículo
o camaleão é a última flor ambulante.
592
Charles Bukowski
Saboreio As Cinzas de Tua Morte
as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
1 095
Charles Bukowski
O Maior Fracassado do Mundo
ele costumava vender jornais ali em frente:
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
1 190
Charles Bukowski
Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa
na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.
gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.
quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.
“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”
“você acha mesmo?”
“claro.”
agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 191
Charles Bukowski
Roído Por Maçante Crise
não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
1 057
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 051
Charles Bukowski
Como Um Mata-Moscas
escreva ao presidente
está chegando
tudo está chegando
um dia você beijará cães na rua
um dia todo o dinheiro de que precisará vai ser
você mesmo
será tão fácil que ficaremos completa ou
aparentemente loucos e
cantaremos por horas
criando mundos e rindo
doce menino jesus
o sonho está tão próximo
dá pra tocá-lo que nem um
mata-moscas
enquanto forçamos caminho pelas paredes rumo ao
sepultamento
a Bomba em si não terá importância
azulões de manteiga de amendoim rebentados perante seus olhos não terão
importância
é só
a conformação de luz e ideia e passos largos tudo
amontoado
em bando
caminhando
uma puta noite poderosa
um puta caminho poderoso
é tão fácil
um dia vou entrar numa jaula com um urso
sentar e acender um cigarro
olhar para Ele
e Ele vai sentar e chorar,
40 bilhões de pessoas assistindo sem som
enquanto o céu vira de ponta-cabeça e
racha fundo a
espinha dorsal.
está chegando
tudo está chegando
um dia você beijará cães na rua
um dia todo o dinheiro de que precisará vai ser
você mesmo
será tão fácil que ficaremos completa ou
aparentemente loucos e
cantaremos por horas
criando mundos e rindo
doce menino jesus
o sonho está tão próximo
dá pra tocá-lo que nem um
mata-moscas
enquanto forçamos caminho pelas paredes rumo ao
sepultamento
a Bomba em si não terá importância
azulões de manteiga de amendoim rebentados perante seus olhos não terão
importância
é só
a conformação de luz e ideia e passos largos tudo
amontoado
em bando
caminhando
uma puta noite poderosa
um puta caminho poderoso
é tão fácil
um dia vou entrar numa jaula com um urso
sentar e acender um cigarro
olhar para Ele
e Ele vai sentar e chorar,
40 bilhões de pessoas assistindo sem som
enquanto o céu vira de ponta-cabeça e
racha fundo a
espinha dorsal.
1 028
Charles Bukowski
A Coisa
bem longe dentro da noite do azulão
está uma coisa poderosa que poderia nos salvar:
lá embaixo da ponte ela repousa
metendo fósforos embaixo das unhas,
depois os acendendo;
ela tem lábios iguais aos do meu pai
os olhos de um macaco assustado
e em suas costas
5 selos de correio estão colados
aleatoriamente;
essa coisa sabe falar mas não fala,
pode correr mas prefere ficar sentada,
pode cantar mas acha melhor grunhir;
ela intimida formigas, aspira besouros
para dentro do nariz;
ela chora, ri, peida;
às vezes de noite ela
se aproxima da nossa cama e arranca um
pelo de uma das nossas orelhas;
deleita-se na estupidez essencial,
não sabe dar nó;
recorda coisas esquisitas como
cascas de banana onduladas e secas
caídas de latas de lixo;
é tímida por covardia
e valente apenas em rápidos lampejos;
não sabe dirigir um carro
nem
nadar
multiplicar
somar ou
dividir;
cheira os dedos dos pés
sonha com pipoca e sapos-de-vidro;
poderia nos salvar mas não salva;
não quer saber de nós;
um dia invadirá o sol;
mas agora ficamos em nossos quartos esperando,
paramos em semáforos esperando,
fazemos sexo esperando,
não fazemos sexo esperando.
ela ri quando choramos,
ela chora quando rimos;
ela espera conosco.
está uma coisa poderosa que poderia nos salvar:
lá embaixo da ponte ela repousa
metendo fósforos embaixo das unhas,
depois os acendendo;
ela tem lábios iguais aos do meu pai
os olhos de um macaco assustado
e em suas costas
5 selos de correio estão colados
aleatoriamente;
essa coisa sabe falar mas não fala,
pode correr mas prefere ficar sentada,
pode cantar mas acha melhor grunhir;
ela intimida formigas, aspira besouros
para dentro do nariz;
ela chora, ri, peida;
às vezes de noite ela
se aproxima da nossa cama e arranca um
pelo de uma das nossas orelhas;
deleita-se na estupidez essencial,
não sabe dar nó;
recorda coisas esquisitas como
cascas de banana onduladas e secas
caídas de latas de lixo;
é tímida por covardia
e valente apenas em rápidos lampejos;
não sabe dirigir um carro
nem
nadar
multiplicar
somar ou
dividir;
cheira os dedos dos pés
sonha com pipoca e sapos-de-vidro;
poderia nos salvar mas não salva;
não quer saber de nós;
um dia invadirá o sol;
mas agora ficamos em nossos quartos esperando,
paramos em semáforos esperando,
fazemos sexo esperando,
não fazemos sexo esperando.
ela ri quando choramos,
ela chora quando rimos;
ela espera conosco.
1 045
Charles Bukowski
Tonalidades
os soldados marcham sem armas
as covas estão vazias
pavões rebrilham na chuva
abaixo das escadarias marcham grandes homens sorridentes
há bastante comida e bastante para o aluguel e
bastante tempo
nossas mulheres não envelhecerão
eu não envelhecerei
vagabundos trazem diamantes nos dedos
Hitler aperta a mão de um judeu
o céu tem cheiro de carne assada
sou uma cortina em chamas
sou água que se faz vapor
sou uma cobra sou um caco de vidro que corta
sou sangue
sou esta lesma ardente
rastejando para casa.
as covas estão vazias
pavões rebrilham na chuva
abaixo das escadarias marcham grandes homens sorridentes
há bastante comida e bastante para o aluguel e
bastante tempo
nossas mulheres não envelhecerão
eu não envelhecerei
vagabundos trazem diamantes nos dedos
Hitler aperta a mão de um judeu
o céu tem cheiro de carne assada
sou uma cortina em chamas
sou água que se faz vapor
sou uma cobra sou um caco de vidro que corta
sou sangue
sou esta lesma ardente
rastejando para casa.
1 017