Temas
Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Santos Revisitado

I.

SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.

II.

Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.

III.

Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.

IV.

Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.

V.

Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
872
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Viajantes

Recordo a fina cinza celeste que se desprendia
caindo em teus olhos, cobrindo a veste celeste,
azul, extrazul azulado era o céu desnudo
e o ouro era azul nos seios sagrados com que Samarkanda
entornava suas taças azuis sobre tua cabeça
dando-te o prestígio de um vento enterrado que volta à vida
derramando presentes azuis e frutos de pompa celeste.

Eu escrevo a lembrança, o recente viajante, a perdida
homenagem
que minha alma traçou navegando as duras regiões
em que se encontraram os séculos mais velhos, cobertos de pó e de sangue,
com a irrigação florescente das energias:
tu sabes, amor, que pisamos a estepe recém-entregada ao cravo;
recém amassavam o pão os que ordenam que cantem as águas;
recém se deitavam ao lado do rio inventado por eles
e vimos chegar o aroma depois de mil anos de ausência.

Acordo na noite, acordas de noite, perdido na paz cinzenta
daquelas cidades que tombam a tarde com torres de ouro
e em cima cachos de mágicas cúpulas onde a turquesa
forjou um hemisfério secreto e sagrado de luz feminina
e tu no crepúsculo, perdida em meu sonho repetes
com dois cereais dourados o sonho do céu perdido.

O novo que traçam os homens, o riso do claro engenheiro
que deu-nos a provar o produto orgulhoso nascido na
estepe maldita
talvez esqueçamos tecendo no sonho a continuidade do silêncio
porque assim determina o viajante que aquela cinza sagrada,
as torres de guerra, o hotel dos deuses calados,
tudo aquilo que ouviu os galopes guerreiros, o grito
do agonizante enredado na cruz ou na roda,
tudo aquilo que o tempo acendeu com sua lâmpada e depois
tremeu no vazio e gastou a corrente infinita de outonos e luas
parece no sonho mais vivo que todos os vivos
e quando este ovo, este mel, este hectare de linho,
este assado de reses que pastam as novas pradarias,
este canto de amor kolkosiano na água que corre
parecem irreais, perdidos no meio do sol de Bukhara,
como se a terra sedenta, violada e nutritiva,
quisesse estender o mandato, e o punho vazio
de cúpulas, tumbas, mesquitas, e de seu esplendor angustiado.
596
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Solidões

Estava redonda a lua e estático o círculo negro
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.

Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?

E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.

E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
762
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Índia, 1951

Na Índia
de novo,
outra vez
o aroma
de frutas mortas, o
grasnido
de corvos.
Senti que se oprimia
dentro de um vaso quebrado
meu coração, ouvi
passos,
passos que morreram,
passos.
Ramagem
de raças e de túnicas,
Índia,
materna, entrelaçada,
angusta, cruel, remota,
eras a mesma.
Os grandes rios sepultando corpos,
a cor de açafrão nas colinas,
mas agora
não era minha juventude, minha solitária adolescência vagante.
Agora
as flores me esperavam,
caíram em meu colo,
e um nome,
uma carta,
uma simples sílaba
vinha
lá do cárcere para reconhecer-me.
 
Terras de Telenghana,
mártires, criaturas
colhidas entre
dois fogos,
as metralhadoras do governo,
os cárceres
do Nizam de Hyderabad.
Camponeses caídos
nas que já creram
terras suas,
agora
com Parlamento próprio,
sem ingleses,
e a velha miséria,
a fome
ululando nas aldeias.
Esperando,
esperando
sempre viveu a Índia,
sentada
junto ao rio do tempo,
esperando.
 
Passavam os guerreiros
de pés ensanguentados,
os príncipes
comedores de pérolas,
os ingleses
impassíveis,
os sacerdotes frios
como sáurios,
estudando o umbigo
da terra e do céu,
todos
devorando-te algo,
passageiros, piratas, mercenários,
e tu, mãe do mundo,
sentada junto ao rio
do tempo
fiando e esperando.
 
Agora os poetas,
Sirdard Jaffris ou o outro,
o magro ou o barbudo,
saíam do cárcere.
A poesia
na Índia
entrava no calabouço,
saía e regressava,
aprendendo
a liberdade entre os prisioneiros,
conhecendo
as penas,
os dialetos, as dores,
as palavras secretas
dos ensimesmados camponeses,
a queixa dolorosa,
as abertas feridas,
a doçura rebelde
que avança levantando seu estandarte
de estrelas e pombas.
 
Útero da terra, território
fechado em que fermentam
as uvas da História.
Antiga irmã
dos velhos planetas,
eu soube agora,
escutando os cantos nos povoados,
as iras debulhadas,
os punhos no vento,
soube
que se levantarão tuas estaturas,
que se acumulará teu poderio,
que darás a teu povo
o pão que lhe negavas,
e que já não veremos
passar detrás do ouro,
cruzar detrás do rito
deslumbrador da teogonia,
a fome com sua escova
varrendo pobres ossos e sujeiras
no lado do caminho.
 
Índia, levanta
tua juventude, incita
teu relógio para marcar a hora que vem.
Adianta-te e colhe
no horário o alto meio-dia.
São antigas tuas flechas.
Sobe-as à tua testa e crava
no horário teu destino.
1 194
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ode Com Um Lamento

Oh menina entre as rosas, oh pressão de pombas,
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.

Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.

Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.

Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.

Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.

Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
1 527