Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Angela Santos
Diva
Não
sei se ainda habito
a tua memória
se nada mais que um acidente
um descuido
a cedência de um momento
algo que se apagou
para acalmar a consciência.
Sei que esse foi um tempo
com sabor a estio
na tua boca quente
e que o teu corpo foi meu
em plena primavera
O teu nome no ar paira
e me embebeda ainda
Vida,
um jogo de palavras
que é o teu nome e se te lembro
hoje é ontem ainda …
o breve instante em que tocamos
nossas vidas.
sei se ainda habito
a tua memória
se nada mais que um acidente
um descuido
a cedência de um momento
algo que se apagou
para acalmar a consciência.
Sei que esse foi um tempo
com sabor a estio
na tua boca quente
e que o teu corpo foi meu
em plena primavera
O teu nome no ar paira
e me embebeda ainda
Vida,
um jogo de palavras
que é o teu nome e se te lembro
hoje é ontem ainda …
o breve instante em que tocamos
nossas vidas.
1 047
Angela Santos
Imagem
Não
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
687
Angela Santos
Exercícios de Luz
Na vespertina luz tacteio o corpo branco
riscando a cada lance o sentido prefigurado
para o que emerge e não nomino,
antes sinto-o como um ardor ou uma ânsia
que não aflora às palavras.
Percorro-me, como a vibração na corda
Instrumento às mãos do que sustém todos os sons
onde ensaio, quiçá em vão, dizer.
Sei-me nas ausências e vontades
nos medos e nos sinais
que emergem à tona destes dias
mas não sei se recomeço ou continuo
o traço curvilíneo onde me faz o tempo
conjugando o futuro do que em mim haja sido.
Serpenteando as sombras, a fugaz a aparição da luz
é prenhe de promessas.
Exorcizo a penumbra nos interstícios do meu não ser
e volto a acreditar.
riscando a cada lance o sentido prefigurado
para o que emerge e não nomino,
antes sinto-o como um ardor ou uma ânsia
que não aflora às palavras.
Percorro-me, como a vibração na corda
Instrumento às mãos do que sustém todos os sons
onde ensaio, quiçá em vão, dizer.
Sei-me nas ausências e vontades
nos medos e nos sinais
que emergem à tona destes dias
mas não sei se recomeço ou continuo
o traço curvilíneo onde me faz o tempo
conjugando o futuro do que em mim haja sido.
Serpenteando as sombras, a fugaz a aparição da luz
é prenhe de promessas.
Exorcizo a penumbra nos interstícios do meu não ser
e volto a acreditar.
702
Angela Santos
Entre Mundos
Que afago virá
sossegar-me o coração
e que luz por entre as brumas
me fará, por fim, saber
o sentido inaudito
do que me ata aos dias.....
eu que nada sei
eu que acordei com o sopro
e me disse com o primeiro grito
eu que resisti ao mundo,
antes de o saber azul e bordado de fragas
e entranhado de lume
não sei o que virá acordar-me
do sossego se vier ...
e que caminho acharei depois de ter caminhado
por entre urzes e gritos e o desatino do mundo.
E depois o que virá ?Sabe-lo de que me serve
se hoje é o tempo todo e isto que sou e sinto
o que devo sentir e ser.
sossegar-me o coração
e que luz por entre as brumas
me fará, por fim, saber
o sentido inaudito
do que me ata aos dias.....
eu que nada sei
eu que acordei com o sopro
e me disse com o primeiro grito
eu que resisti ao mundo,
antes de o saber azul e bordado de fragas
e entranhado de lume
não sei o que virá acordar-me
do sossego se vier ...
e que caminho acharei depois de ter caminhado
por entre urzes e gritos e o desatino do mundo.
E depois o que virá ?Sabe-lo de que me serve
se hoje é o tempo todo e isto que sou e sinto
o que devo sentir e ser.
1 065
Angela Santos
Nega-Entropia
O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
1 515
Angela Santos
Às Voltas
Com o Tempo
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
1 083
Angela Santos
Olhar e Ver, eis
a Questão
Da
riqueza do imprevisível, esse reduto do indecifrável acontecer,
pouco se diz. A pobreza, a repetição enfadonha do quotidiano,
os hábitos cristalizados a que nos apegamos, ou se apegam a gente,
limitam-nos para a capacidade de ver o novo que nos desafia a cada momento.
O panorama do certo, do que se espera acontecer, nos dá esse
cinzento tom à vida e a torna pouco a pouco essa coisa enfadonha
e repetitiva que veste nossos dias.
Mas
há esse fundo inexplicável, onde se entretecem teias,
que nos ligam e conduzem a coisas novas. Um encontro casual, que não
esperamos, nem provocamos, uma palavra, uma frase que nos conduz no
meio da comunicação com os outros à descoberta
de metas paralelas, de universos partilhados; um gesto inesperado que
nos revela algo, todo esse fundo não pré-concebido, onde
nos movemos onde se cozinham as coisas, aparentemente insignificantes,
que podem alterar o curso de uma vida.
O
que falta é essa capacidade atentiva para decifrar o código
do aparentemente vulgar, de vermos o novo onde só víamos
o mesmo. Ver de novo, de novo sentir vem afinal da capacidade de se
abrir à revelação, diante de nós a cada
instante.
Não
é o apelo ao deixar-se ir na corrente, é antes o ser capaz
de perceber que há uma corrente. Não é a apologia
da passividade, ao puro entregar-se do acontecer, é saber que
continuamente estamos mergulhados no acontecer. O homem define-se pela
acção, pela escolha, pela assunção de caminhos,
que levam à total expressão da sua individualidade.
Imperioso
será a abertura da alma, a disponibilidade do coração,
desse olhar interior quantas vezes impedido de ver pela ganga com que
nos revestimos, pela presença quotidiana da norma, de que não
nos podemos descartar; pelo cumprimento de horários, o frenesim
que não nos deixa tempo para parar, respirar fundo e voltar a
sentir como isso é bom; o ficar só olhando com olhos abobalhados
qualquer coisa sem estar olhando em direcção nenhuma,
simplesmente sendo levado pelo pensamento, parar e escutar alguém
que de repente ao nosso lado começa a falar, gente que não
conhecemos mas que naquele momento nos escolhe para dizer algo, porque
precisa falar, ou antes ser escutado.
Deixamos
de ter tempo...sofregamente o tempo tomou conta da gente. E Deus meu
como precisamos parar, aquietar nossos passos em constante correria,
dar férias ao nosso coração que começa a
dar sinais de estar farto da batida acelerada a que o obrigamos, de
parar num jardim numa manhã de sol e sentir a vida á solta
por ali; segurar a mão do filho e leva-lo a um lugar qualquer
onde ainda pule a fantasia e embarcar junto com ele na viagem. Como
precisamos urgentemente de parar, de regressar ao centro de nossa vida
para fazermos de novo a viagem pelo lado de dentro das coisas que deixamos
de ver e sentir.
Ler
os sinais por aí á solta, e esperar despertar com eles
e para eles, quem sabe não é um caminho. Talvez que as
lentes com que a vida olhamos estejam desajustadas a nossa visão.
Quem sabe se o segredo não residirá tão só
em a voltar a olhar tudo com o olhar de um menino, como se pela primeira
vez o mundo nos entrasse pelos olhos da alma.
Da
riqueza do imprevisível, esse reduto do indecifrável acontecer,
pouco se diz. A pobreza, a repetição enfadonha do quotidiano,
os hábitos cristalizados a que nos apegamos, ou se apegam a gente,
limitam-nos para a capacidade de ver o novo que nos desafia a cada momento.
O panorama do certo, do que se espera acontecer, nos dá esse
cinzento tom à vida e a torna pouco a pouco essa coisa enfadonha
e repetitiva que veste nossos dias.
Mas
há esse fundo inexplicável, onde se entretecem teias,
que nos ligam e conduzem a coisas novas. Um encontro casual, que não
esperamos, nem provocamos, uma palavra, uma frase que nos conduz no
meio da comunicação com os outros à descoberta
de metas paralelas, de universos partilhados; um gesto inesperado que
nos revela algo, todo esse fundo não pré-concebido, onde
nos movemos onde se cozinham as coisas, aparentemente insignificantes,
que podem alterar o curso de uma vida.
O
que falta é essa capacidade atentiva para decifrar o código
do aparentemente vulgar, de vermos o novo onde só víamos
o mesmo. Ver de novo, de novo sentir vem afinal da capacidade de se
abrir à revelação, diante de nós a cada
instante.
Não
é o apelo ao deixar-se ir na corrente, é antes o ser capaz
de perceber que há uma corrente. Não é a apologia
da passividade, ao puro entregar-se do acontecer, é saber que
continuamente estamos mergulhados no acontecer. O homem define-se pela
acção, pela escolha, pela assunção de caminhos,
que levam à total expressão da sua individualidade.
Imperioso
será a abertura da alma, a disponibilidade do coração,
desse olhar interior quantas vezes impedido de ver pela ganga com que
nos revestimos, pela presença quotidiana da norma, de que não
nos podemos descartar; pelo cumprimento de horários, o frenesim
que não nos deixa tempo para parar, respirar fundo e voltar a
sentir como isso é bom; o ficar só olhando com olhos abobalhados
qualquer coisa sem estar olhando em direcção nenhuma,
simplesmente sendo levado pelo pensamento, parar e escutar alguém
que de repente ao nosso lado começa a falar, gente que não
conhecemos mas que naquele momento nos escolhe para dizer algo, porque
precisa falar, ou antes ser escutado.
Deixamos
de ter tempo...sofregamente o tempo tomou conta da gente. E Deus meu
como precisamos parar, aquietar nossos passos em constante correria,
dar férias ao nosso coração que começa a
dar sinais de estar farto da batida acelerada a que o obrigamos, de
parar num jardim numa manhã de sol e sentir a vida á solta
por ali; segurar a mão do filho e leva-lo a um lugar qualquer
onde ainda pule a fantasia e embarcar junto com ele na viagem. Como
precisamos urgentemente de parar, de regressar ao centro de nossa vida
para fazermos de novo a viagem pelo lado de dentro das coisas que deixamos
de ver e sentir.
Ler
os sinais por aí á solta, e esperar despertar com eles
e para eles, quem sabe não é um caminho. Talvez que as
lentes com que a vida olhamos estejam desajustadas a nossa visão.
Quem sabe se o segredo não residirá tão só
em a voltar a olhar tudo com o olhar de um menino, como se pela primeira
vez o mundo nos entrasse pelos olhos da alma.
676
Angela Santos
Os Olhos do Tempo
Espraiam-se
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar
Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado
E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…
Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta
Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma
meus gestos
insinuando desejos que se calam à passagem
do tempo em mim,
mas teimo ainda ser e acreditar
Desfio esperas e no meu regaço
silencio suspiros,
e é na brancura de um certo vazio
que ensaio abraços
perdidos na noite
que se deita a meu lado
E fico pensando
num pássaro que risca
breve o imenso espaço,
quisera eu planar
e voar assim também…
Mas meu coração,
hoje agrilhoado
prende-me a este instante…
quero o que me enche,
quero o que me falta
tenho o que não quero
tenho o que me farta
Olho o tempo e sinto-me
ser a fiandeira do irrepetível
momento que passa
e sinto crescer dentro do meu peito
como prenhe ventre
a imensa a saudade
que não sei se mata
ou aviva a alma
1 016
Angela Santos
Longitudinal
Olhamos
os seres da gestação
espaço de chegada e de onde partimos,
viscosos restos de vidas vagas
desprendem-se da memória
lâmina
Nostálgicos retratos
do futuro adiante,
um adeus expresso em nossas vidas
longitudinal e sem remédio
roem interiores
os vermes da ausência
esse tanto que quisemos
esse pouco que logramos
esse nada que soubemos
da inexplicável presença.
os seres da gestação
espaço de chegada e de onde partimos,
viscosos restos de vidas vagas
desprendem-se da memória
lâmina
Nostálgicos retratos
do futuro adiante,
um adeus expresso em nossas vidas
longitudinal e sem remédio
roem interiores
os vermes da ausência
esse tanto que quisemos
esse pouco que logramos
esse nada que soubemos
da inexplicável presença.
708
Angela Santos
Fragilidade
Como
uma borboleta
frágil
apanhada de imprevisto
na perpendicular do tempo
assim me sinto
Borboleta
instante de ser alado
meu breve instante de infinito
lembras-me o tempo
fraccionado, ou indiviso?
Danço e rodopio
na luz, minha armadilha,
e só me detenho se chega a exaustão
sabendo que ali é o fim do voo
anseio ainda minhas leves asas
para me lançar na imensidão.
uma borboleta
frágil
apanhada de imprevisto
na perpendicular do tempo
assim me sinto
Borboleta
instante de ser alado
meu breve instante de infinito
lembras-me o tempo
fraccionado, ou indiviso?
Danço e rodopio
na luz, minha armadilha,
e só me detenho se chega a exaustão
sabendo que ali é o fim do voo
anseio ainda minhas leves asas
para me lançar na imensidão.
1 279
Angela Santos
Os Cinco Sentidos
Olho a nuvem
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
que lesta se move
em direcção a quê?…
de que me vale saber
se noutro lugar é já água
que sobre a terra árida que vive à espera
se derrama
Sinto o vento que passa
e os meus cabelos desgrenha.
De onde vem?
de que me serve a resposta
Se a penso não sentirei
o que como uma carícia
se roça em mim no momento
em que senti e não pensei
Conto as horas…
é isso o tempo?
como vê-lo aprisionado
e medi-lo passo a passo
num mecanismo fechado
Provo o fruto amadurado
e dos meus cinco sentidos
ensaio aquele que chega
pela via do palato
As mãos sentem e provam
os olhos falam e sentem
os ouvidos prendem e ecoam
memórias, lugares e sons
O olfacto lembra e desenha
uma cama, um corpo trémulo que suspira
que me leva a esquecer porquês
e no tempo me perder
lembrando outra vez o vento
quando era só uma carícia
Se esta é a vibração
que nos devolve ao que somos
é ela a justa medida
que em cada gesto pulsa,
e celebrando os sentidos
dá o próprio sentido à Vida
687
Angela Santos
Tear do Tempo
De
noites de mil sóis se fazem os dias
e na berma dos sentidos
corre o desassossego de um corpo sôfrego
e a alma se aviva a cada sobressalto,
do acto consentido que atravessa o corpo
Paira uma leveza sobre os nossos dias
que leva a pensar se em nossas vidas
só ficam as marcas do fugaz presente,
e se me pergunto a alma entoa
um canto que rasga a fundura do tempo
E fico suspensa
no ponto intermédio onde me toca o futuro
e a História me alcança
Desse promontório onde o tempo interroga,
vivo as dimensões todas que há em mim
pretérito, futuro, continuo presente
a lembrar que sou
caminho, vontade, corpo chão, raiz ,
e que a cada instante do tempo que passa
ensaio a busca , de chegar mais perto
da razão que seja o tempo em si
Olho o corpo e vejo ser a dimensão
que o tempo atravessa e marca a passagem,
o corpo navio que sulca esse instante
onde ajo , penso, desejo, decido
e a alma o baú que guarda as memórias
do que fiz, pensei quis e desejei
Pesa-me a leveza que este tempo vive
que escolhe a amnésia como atitude,
pesa-me e contudo por vivê-la anseio
sem esquecer que fui e navego sonhos
e ter sido conjugo com o que serei
A vida me acena aqui e agora
no tempo e lugar onde urge cumprir
o presente e o futuro que incrustados vivem
na raiz da memória que me fez e sou,
raiz donde parto em direcção a mim
Por isso os meus dias, mesmo os banais,
são instantes únicos
que busco olhar na sua inteireza
para viver à proa o tempo que é o meu,
tempo transversal que me atravessa
tempo a dimensão que me interpela
a viver instantes de total urgência.
noites de mil sóis se fazem os dias
e na berma dos sentidos
corre o desassossego de um corpo sôfrego
e a alma se aviva a cada sobressalto,
do acto consentido que atravessa o corpo
Paira uma leveza sobre os nossos dias
que leva a pensar se em nossas vidas
só ficam as marcas do fugaz presente,
e se me pergunto a alma entoa
um canto que rasga a fundura do tempo
E fico suspensa
no ponto intermédio onde me toca o futuro
e a História me alcança
Desse promontório onde o tempo interroga,
vivo as dimensões todas que há em mim
pretérito, futuro, continuo presente
a lembrar que sou
caminho, vontade, corpo chão, raiz ,
e que a cada instante do tempo que passa
ensaio a busca , de chegar mais perto
da razão que seja o tempo em si
Olho o corpo e vejo ser a dimensão
que o tempo atravessa e marca a passagem,
o corpo navio que sulca esse instante
onde ajo , penso, desejo, decido
e a alma o baú que guarda as memórias
do que fiz, pensei quis e desejei
Pesa-me a leveza que este tempo vive
que escolhe a amnésia como atitude,
pesa-me e contudo por vivê-la anseio
sem esquecer que fui e navego sonhos
e ter sido conjugo com o que serei
A vida me acena aqui e agora
no tempo e lugar onde urge cumprir
o presente e o futuro que incrustados vivem
na raiz da memória que me fez e sou,
raiz donde parto em direcção a mim
Por isso os meus dias, mesmo os banais,
são instantes únicos
que busco olhar na sua inteireza
para viver à proa o tempo que é o meu,
tempo transversal que me atravessa
tempo a dimensão que me interpela
a viver instantes de total urgência.
1 086
Angela Santos
Profecias
Vêm
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa
milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.
vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene
insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa
milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.
vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene
insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.
811
Odylo Costa Filho
Soneto da Tarde
Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.
Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.
O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.
Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.
Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.
O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.
Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
1 575
Angela Santos
Instante
Fluir
com o tempo
inventar um tempo
colher esse instante
de ser.
O futuro é destino
e a viagem não dura senão
o momento do acontecer da vida.
com o tempo
inventar um tempo
colher esse instante
de ser.
O futuro é destino
e a viagem não dura senão
o momento do acontecer da vida.
1 105
Angela Santos
Aguarela
Matizes
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
1 034
Nauro Machado
O Piano dos Afogados
Reténs
a forma para um outro espaço.
Nascem de ti as estranhas madrugadas.
Noturnas chuvas, dos céus mais órfãos,
banham-te as teclas de álgidos artelhos.
Nasce de ti a roupagem das vertentes
que a primeira mulher se despe intacta
para a ressurreição da sua inocência.
Ó azulejo, ó piano de outras mãos:
retém meu mundo pela última vez!
retém meu tempo que esgarça outro tempo!
Retém meu sopro de fugacidade.
a forma para um outro espaço.
Nascem de ti as estranhas madrugadas.
Noturnas chuvas, dos céus mais órfãos,
banham-te as teclas de álgidos artelhos.
Nasce de ti a roupagem das vertentes
que a primeira mulher se despe intacta
para a ressurreição da sua inocência.
Ó azulejo, ó piano de outras mãos:
retém meu mundo pela última vez!
retém meu tempo que esgarça outro tempo!
Retém meu sopro de fugacidade.
1 350
Mauricio Segall
Lento, curto o momento
Lento,
curto o momento
quando vedas as tochas de felino
e tudo em ti
se reduz ao enleio dos teus lábios
(entre parênteses).
São pêssegos misto de maça e amora
raviólis com recheio cheio
quarto crescente e quarto minguante
sorvedouro e onda
corrente e areia
arco e flecha,
serpente e piano
imã e espora,
nascente e vento,
ventosa e piranha.
Contemplo e questiono
esta voracidade
de morder a carne
macerar as frutas
esmagar a lua
queimar o sol
afogar a tempestade
beber o mar
comer a areia
e afrontar os perigos do rio e da montanha.
Entre o furacão e a calmaria
poente e aurora
orvalho e pântano
da prosa só resta a poesia
curto o momento
quando vedas as tochas de felino
e tudo em ti
se reduz ao enleio dos teus lábios
(entre parênteses).
São pêssegos misto de maça e amora
raviólis com recheio cheio
quarto crescente e quarto minguante
sorvedouro e onda
corrente e areia
arco e flecha,
serpente e piano
imã e espora,
nascente e vento,
ventosa e piranha.
Contemplo e questiono
esta voracidade
de morder a carne
macerar as frutas
esmagar a lua
queimar o sol
afogar a tempestade
beber o mar
comer a areia
e afrontar os perigos do rio e da montanha.
Entre o furacão e a calmaria
poente e aurora
orvalho e pântano
da prosa só resta a poesia
808
Nauro Machado
A Rosa Total
Amo, como
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
1 644
Millôr Fernandes
Poeminha de Louvos ao Strip-Tease
Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!
A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!
As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.
Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!
A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!
As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.
Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!
1 136
Hilda Hilst
V
O Nunca
Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).
O Nunca
Mais é de planície e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.
Nem é
corvo ou poema o Nunca Mais.
Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tempo não.
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).
O Nunca
Mais é de planície e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.
Nem é
corvo ou poema o Nunca Mais.
1 289
Carlos Nejar
Testamento
Testamento
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.
Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.
Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.
Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.
O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.
Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.
Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.
Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.
Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.
Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.
O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.
Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.
Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.
1 125
Carlos Nejar
Chegamento
Até aqui
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
1 198
Lya Luft
Tão Sutilmente
Tão subtilmente
em tantos breves anos
Foram se trocando sobre os muros
Mais que desigualdades, semelhanças
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
O filho que se faz, uma arvore plantada,
O tempo gotejando no telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
O pó de um cotidiano desencanto..
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
Que uma em outra pode se trocar,
Sem que alguém de for a o percebesse nunca.
em tantos breves anos
Foram se trocando sobre os muros
Mais que desigualdades, semelhanças
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
O filho que se faz, uma arvore plantada,
O tempo gotejando no telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
O pó de um cotidiano desencanto..
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
Que uma em outra pode se trocar,
Sem que alguém de for a o percebesse nunca.
1 547