Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Wanda Cristina
Babugem de Esperança
Este soneto que sai a boca,
salgado e amargo, exalando dor,
é a babugem da esperança louca,
que desbotou em lágrimas de amor.
Inúteis foram as noites acordadas,
poemas tristes, olhos que choraram:
inúteis foram as dores suicidadas
nos meus carinhos que te desculparam,
Estou sozinha com a minha mão.
E estes meus dedos que te compreenderam
puseram a culpa no meu coração.
E as saudades que me envelheceram,
presas em jaulas de ingratidão,
insistem em viver, mas já morreram.
salgado e amargo, exalando dor,
é a babugem da esperança louca,
que desbotou em lágrimas de amor.
Inúteis foram as noites acordadas,
poemas tristes, olhos que choraram:
inúteis foram as dores suicidadas
nos meus carinhos que te desculparam,
Estou sozinha com a minha mão.
E estes meus dedos que te compreenderam
puseram a culpa no meu coração.
E as saudades que me envelheceram,
presas em jaulas de ingratidão,
insistem em viver, mas já morreram.
894
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
952
Alcides Freitas
O Bambu
Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
1 898
Maria Thereza Noronha
Ontem
Ontem, partiu-se a lua em duas foices
e decepou o chifre do unicórnio.
Tingiu-se o céu de um rubro tom de esbórnia
e a vasta terra em vasto céu mirou-se.
Ontem, partiu-se a lua em duas foices.
Meias-luas gentis pudesse a córnea
entrever, entre arcanjos, no céu morno.
Mas não. Soltou-se a lua no ar, aos coices.
Bem sei que voltará a ser esfera.
Refundidas as faces, lua cheia,
reverterá o gume de ouro e fera.
Posto que é sempre a mesma lua, a meia
ou toda. E assim constante, assim pudera
ser poema, antes que punhal na veia.
e decepou o chifre do unicórnio.
Tingiu-se o céu de um rubro tom de esbórnia
e a vasta terra em vasto céu mirou-se.
Ontem, partiu-se a lua em duas foices.
Meias-luas gentis pudesse a córnea
entrever, entre arcanjos, no céu morno.
Mas não. Soltou-se a lua no ar, aos coices.
Bem sei que voltará a ser esfera.
Refundidas as faces, lua cheia,
reverterá o gume de ouro e fera.
Posto que é sempre a mesma lua, a meia
ou toda. E assim constante, assim pudera
ser poema, antes que punhal na veia.
1 046
Vitor L. Mendes
Solidão
Todos os dias, ao cair da noite,
A solidão vem e deita-se ao meu lado.
Fico observando, calado.
Ela acende um cigarro e, silenciosamente,
Brinca com os desenhos que a fumaça descreve no ar.
Seus movimentos lentos, sua indiferença.
Seu rosto é pálido e seu olhos parecem estar fitando
Algum ponto além das paredes do quarto.
Percebo que ela é bonita... O que estará ela pensando?
Jamais vou saber (...) Mas o que importa?
Ela está aqui. Como estará também no outro dia - quem sabe?
Acho que aprendi a gostar dela, como uma doce companhia.
Se ela demora a chegar, fico impaciente - Quem diria?
Se não vier, me sentirei só...
A solidão vem e deita-se ao meu lado.
Fico observando, calado.
Ela acende um cigarro e, silenciosamente,
Brinca com os desenhos que a fumaça descreve no ar.
Seus movimentos lentos, sua indiferença.
Seu rosto é pálido e seu olhos parecem estar fitando
Algum ponto além das paredes do quarto.
Percebo que ela é bonita... O que estará ela pensando?
Jamais vou saber (...) Mas o que importa?
Ela está aqui. Como estará também no outro dia - quem sabe?
Acho que aprendi a gostar dela, como uma doce companhia.
Se ela demora a chegar, fico impaciente - Quem diria?
Se não vier, me sentirei só...
719
Vespasiano Ramos
Ânsia Maldita
Ninguém mais do que tu saberá quanto
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minhaalma apagar-se, neste pranto,
Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!
Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minhalma, do Amor contra os escolhos,
Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minhaalma apagar-se, neste pranto,
Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!
Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minhalma, do Amor contra os escolhos,
Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!
1 461
Vitor Casimiro
Só Não Seja um Mendigo
Um mendigo
Cruza meu caminho
Alguns o ignoram
Outros o amaldiçoam,
em silêncio.
Nenhuma palavra
Parece merecer
Só o desprezo
Basta
Por enfiar suas
Unhas sujas no pão
Que, por sorte,
Conseguiu.
Ou pelo cheiro
Que poucos narizes
Suportariam.
E aquelas, garrafas,
latas, coisas sem valor.
Lixo
O que ele quer?
Dinheiro?
Então Roube.
Quer Felicidade?
Se vire,
E beba álcool, durma
Desapareça.
Só não seja mais
Um mendigo
A cruzar meu caminho.
Cruza meu caminho
Alguns o ignoram
Outros o amaldiçoam,
em silêncio.
Nenhuma palavra
Parece merecer
Só o desprezo
Basta
Por enfiar suas
Unhas sujas no pão
Que, por sorte,
Conseguiu.
Ou pelo cheiro
Que poucos narizes
Suportariam.
E aquelas, garrafas,
latas, coisas sem valor.
Lixo
O que ele quer?
Dinheiro?
Então Roube.
Quer Felicidade?
Se vire,
E beba álcool, durma
Desapareça.
Só não seja mais
Um mendigo
A cruzar meu caminho.
1 028
Vitor Casimiro
Mais um Desesperado
Algum dia já sentistes
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes
só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade
Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes
só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade
Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade
879
Valdir L. Queiroz
Monalisa do Sertão
De cativante
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
1 127
Valdir L. Queiroz
Dissertação
Tenho medo
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
medo de flor do deserto
que teme o olhar do jardineiro
e ama os olhos do abutre.
tenho amor
amor de flor que "nasce"
no asfalto;
amor de peixe que "vive"
em aquário;
amor de pássaro que "morre"
em gaiola;
amor de gente que espera
outrora.
780
Viviane Gehlen
Mar
Mar
O céu, cinza
Cinza também o mar....
A praia, vazia
vazio também meu olhar....
A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...
sou onda,
sou espuma,
sou nada.
Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.
meu coração renasce
meus olhos sorriem
Um veleiro cruza o horizonte....
09-01-97
O céu, cinza
Cinza também o mar....
A praia, vazia
vazio também meu olhar....
A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...
sou onda,
sou espuma,
sou nada.
Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.
meu coração renasce
meus olhos sorriem
Um veleiro cruza o horizonte....
09-01-97
1 000
Tristão da Cunha
Virgem Primitiva
A pobre Ofélia deu-lhe os tristes olhos mansos
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados,
De tarde, a meditar nos eternos descansos.
Há idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vem dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.
Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros,
Noiva morta de amor na primeira manhã...
Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astros,
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados,
De tarde, a meditar nos eternos descansos.
Há idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vem dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.
Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros,
Noiva morta de amor na primeira manhã...
Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astros,
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...
952
Tristão da Cunha
Itervm
Há muito tempo já que eu vou perdendo
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
— Sangue dum anho ingênuo, cor de arminho,
De calvário em calvário perecendo...
No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.
Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!
Sobre esta alma de dúvida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
— Sangue dum anho ingênuo, cor de arminho,
De calvário em calvário perecendo...
No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.
Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!
Sobre esta alma de dúvida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...
994
Salette Tavares
Enigma Lua
Esqueceste
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
1 575
Sílvia Rocha
Haicai
chuva de verão
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
transito no trânsito
chora coração
solidão
não te come não te mata
te retrata
1 012
Sinésio Cabral
Destinos Iguais
Eu leio em teu semblante desenhada
na sua plenitude a própria vida
de quem se sente em vida desolada,
sem sol e sem calor, desiludida.
Decerto, contrafeita, amargurada,
por vezes, entre amigas, esquecida,
tu ficas em silêncio, ó bem-amada,
e eu fico a contemplar-te, assim, querida.
E Deus nos fala pela voz dos sinos.
Ao lusco-fusco, sinto em tua prece
fervor e contrição. A noite desce.
Perdidos no tumulto dos destinos
traçados para todos os mortais,
parece que nós dois somos iguais.
na sua plenitude a própria vida
de quem se sente em vida desolada,
sem sol e sem calor, desiludida.
Decerto, contrafeita, amargurada,
por vezes, entre amigas, esquecida,
tu ficas em silêncio, ó bem-amada,
e eu fico a contemplar-te, assim, querida.
E Deus nos fala pela voz dos sinos.
Ao lusco-fusco, sinto em tua prece
fervor e contrição. A noite desce.
Perdidos no tumulto dos destinos
traçados para todos os mortais,
parece que nós dois somos iguais.
878
Rodrigo Carvalho
Madrugada
Sinto-me só.
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.
Salvador, 07 de novembro de 1996
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.
Salvador, 07 de novembro de 1996
885
Scarlett Maciel
Variações
De novo,
Me vem à alma essa fome de palavras
Que não existe em mim.
Essa busca envolvida na tão companheira insônia.
Vazio repleto de ânsia.
Pelo quê?
Mundo?
Vida?
E é sempre o amor que vem de mim.
Por mim,
Pela minha alma.
Não existe outra base.
Acabo de ver Rimbaud.
Todos os escritores deveriam nascer mortos!
Será a felicidade,
Exatamente escondida,
À espera do bote,
Atrás da loucura, insanidade d’alma?
Me vejo em tantas coisas, lugares.
Principalmente palavras e sentimentos alheios.
Dentro de loucura, depressão, tristeza...
Sempre isso.
Não muda.
E é sempre a mesma fome por o desconhecido.
Vontade de falar o que não sinto.
Mostrar e fazer brilhar no coração do mundo
A minha ever confusa pessoa.
Tão cheia de teorias
Que nunca acham o caminho da prática.
E o desespero não vem!
Será você o meu anjo,
que dorme agora?
Essa fúria de pensar...
Mas não me sai nada
E o coração já não agüenta.
Precisa de ar.
O frio lá de fora não me atinge a alma nesse segundo.
Parado no tempo
Sei que não resiste.
É muito!
E com toda esta fome o medo não vem.
Estou só (sem ele)
Pela mesma sentença de sempre.
Carregar a fome das palavras nas costas
E devorá-las sem tomar.
Nem eu vejo.
É ato superior.
Me vem à alma essa fome de palavras
Que não existe em mim.
Essa busca envolvida na tão companheira insônia.
Vazio repleto de ânsia.
Pelo quê?
Mundo?
Vida?
E é sempre o amor que vem de mim.
Por mim,
Pela minha alma.
Não existe outra base.
Acabo de ver Rimbaud.
Todos os escritores deveriam nascer mortos!
Será a felicidade,
Exatamente escondida,
À espera do bote,
Atrás da loucura, insanidade d’alma?
Me vejo em tantas coisas, lugares.
Principalmente palavras e sentimentos alheios.
Dentro de loucura, depressão, tristeza...
Sempre isso.
Não muda.
E é sempre a mesma fome por o desconhecido.
Vontade de falar o que não sinto.
Mostrar e fazer brilhar no coração do mundo
A minha ever confusa pessoa.
Tão cheia de teorias
Que nunca acham o caminho da prática.
E o desespero não vem!
Será você o meu anjo,
que dorme agora?
Essa fúria de pensar...
Mas não me sai nada
E o coração já não agüenta.
Precisa de ar.
O frio lá de fora não me atinge a alma nesse segundo.
Parado no tempo
Sei que não resiste.
É muito!
E com toda esta fome o medo não vem.
Estou só (sem ele)
Pela mesma sentença de sempre.
Carregar a fome das palavras nas costas
E devorá-las sem tomar.
Nem eu vejo.
É ato superior.
832
Saturnino de Meireles
Tédio
Tudo se acaba aos nossos olhos perto
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.
E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.
Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.
E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.
E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.
Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.
E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...
1 026
Rodrigo Carvalho
Súplica
É noite.
Deitei-me triste e vazio.
Procurei uma fuga,
no vasto mundo dos sonhos.
Enganei-me.
Minha vida não mudou enquanto eu dormia.
Estou entregue à amargura, ao sofrimento.
Minha alma agora sofre,
meu coração está sedento.
Como dói relembrar cada momento!
A minha vontade, agora, é de gritar.
Gritar minhas desesperanças!
Gritar minhas desgraças!
Mas a vida é breve, a vida é vã,
como uma borboleta que passa. . .
Mas tenho que sofrer sem um murmúrio sequer.
Meus olhos banham-se na pureza de minhas lágrimas.
E faço silêncio.
Um silêncio tão intenso,
a ponto de perder-me,
na minha mudez aterrorizada.
Entenda, mundo insano!!
Hoje, respiro um ar sôfrego
e expiro tristeza.
A decepção dói no meu corpo.
Poupem-me, ainda que por um momento!!
Não afastem-se de mim,
temendo a minha revolta!
Não retirem-se da minha presença,
desprezando o meu silêncio,
pois que neste silêncio,
revela-se o mal da minha existência. . .
Deitei-me triste e vazio.
Procurei uma fuga,
no vasto mundo dos sonhos.
Enganei-me.
Minha vida não mudou enquanto eu dormia.
Estou entregue à amargura, ao sofrimento.
Minha alma agora sofre,
meu coração está sedento.
Como dói relembrar cada momento!
A minha vontade, agora, é de gritar.
Gritar minhas desesperanças!
Gritar minhas desgraças!
Mas a vida é breve, a vida é vã,
como uma borboleta que passa. . .
Mas tenho que sofrer sem um murmúrio sequer.
Meus olhos banham-se na pureza de minhas lágrimas.
E faço silêncio.
Um silêncio tão intenso,
a ponto de perder-me,
na minha mudez aterrorizada.
Entenda, mundo insano!!
Hoje, respiro um ar sôfrego
e expiro tristeza.
A decepção dói no meu corpo.
Poupem-me, ainda que por um momento!!
Não afastem-se de mim,
temendo a minha revolta!
Não retirem-se da minha presença,
desprezando o meu silêncio,
pois que neste silêncio,
revela-se o mal da minha existência. . .
981
Silva Avarenga
A Roseira
Rondó LII
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.
Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.
Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
1 141
Rodrigo Carvalho
Sozinho
Que será que surge em mim neste momento?
Que inquietação é essa que é quase uma agonia?
Há alguma coisa que atormenta minha alma,
que neste momento inquieto,
torna-se sombria.
Porque, na solidão desta tarde que parece morrer,
sinto o coração bater,
em fortes pancadas de medo?
Não tenho medo.
Tenho que viver, crer e reerguer,
uma vida que todos pensam nada ser.
Porque pensei em minha mãe, agonizante?
Deveria pensar?
Deveria pensar em uma pessoa que faz parecer
a minha vida errante?
Deveria?
Como a casa é deserta!
E como a tarde é fria!
Surge cada vez mais o tormento. . .
E agora,
nessa hora,
o que permanece em minha alma?
Desesperança. . . Desalento. . . Desânimo. . .
Que me importa agora o passado?
A minha natureza repugna essa volúpia enorme
de fracasso.
E pergunto-me:
Que passado ruinaria só de belezas?
A partir de agora,
eu abomino a estupidez momentânea
e atitudes infâmias,
que fazem denegrir a auto-estima.
Que atos podem vir a destruir um ser?
Que sejam desconhecidos,
que perdure o vil alívio. . .
Que inquietação é essa que é quase uma agonia?
Há alguma coisa que atormenta minha alma,
que neste momento inquieto,
torna-se sombria.
Porque, na solidão desta tarde que parece morrer,
sinto o coração bater,
em fortes pancadas de medo?
Não tenho medo.
Tenho que viver, crer e reerguer,
uma vida que todos pensam nada ser.
Porque pensei em minha mãe, agonizante?
Deveria pensar?
Deveria pensar em uma pessoa que faz parecer
a minha vida errante?
Deveria?
Como a casa é deserta!
E como a tarde é fria!
Surge cada vez mais o tormento. . .
E agora,
nessa hora,
o que permanece em minha alma?
Desesperança. . . Desalento. . . Desânimo. . .
Que me importa agora o passado?
A minha natureza repugna essa volúpia enorme
de fracasso.
E pergunto-me:
Que passado ruinaria só de belezas?
A partir de agora,
eu abomino a estupidez momentânea
e atitudes infâmias,
que fazem denegrir a auto-estima.
Que atos podem vir a destruir um ser?
Que sejam desconhecidos,
que perdure o vil alívio. . .
747
Rodrigo Carvalho
Pensamentos
Pensei em tirar-me a vida.
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.
830
Rodrigo Carvalho
No Espelho
Vi as marcas do tempo em meu rosto.
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.
Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...
Salvador, 08 de janeiro de 1997
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.
Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...
Salvador, 08 de janeiro de 1997
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