Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Eduardo Pitta
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
656
Bernardo Pinto de Almeida
Hotel Spleen 2
Não. Não a ferida — dor de nós mesmos
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
676
Valter Hugo Mãe
o homem que já não sou
não me olhes agora que estou
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão
esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto
deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
mais velho e não correspondo em
nada ao homem que
amaste, procura encarar a tristeza
sem me incluíres, seria demasiado
cruel que me usasses para a
dor. para ti
quis trazer as coisas mais belas
e em tudo o que fiz pus o
cuidado meticuloso de quem
ama. não me obrigues a cortar os
pulsos quando fores num minuto ao
jardim com o cão
esta noite, sem notares, sustive a
respiração e quase morri. não deste
por nada. julgaste que voltei a
ressonar e até terás esboçado um
sorriso. e se eu pudesse morrer
enquanto sorris, pergunto
deixo para depois, ou talvez
desista. mas não pode ser se
tu me olhares em busca de tudo o que
já não existe. não pode ser, levo a
faca maior para debaixo do meu
travesseiro, juro-te que me
mato se continuares assim
771
Bernardo Pinto de Almeida
Melancolia
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
686
Pero da Ponte
Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora
Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
700
Pero da Ponte
Se Eu Podesse Desamar
Se eu podesse desamar
a quem me sempre desamou
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom poss'eu enganar
meu coraçom que m'enganou,
per quanto mi fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dórmio eu,
porque nom poss'eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais rog'a Deus que desampar
a quem m'assi desamparou,
ou que podess'eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass'en preguntar
a quem me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mi cuidou;
e por esto lazeiro eu:
porque nom posso coita dar
a quem me sempre coita deu.
a quem me sempre desamou
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom poss'eu enganar
meu coraçom que m'enganou,
per quanto mi fez desejar
a quem me nunca desejou.
E por esto nom dórmio eu,
porque nom poss'eu coita dar
a quem me sempre coita deu.
Mais rog'a Deus que desampar
a quem m'assi desamparou,
ou que podess'eu destorvar
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass'en preguntar
a quem me nunca preguntou,
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mi cuidou;
e por esto lazeiro eu:
porque nom posso coita dar
a quem me sempre coita deu.
1 386
Pero da Ponte
Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
586
Nuno Fernandes Torneol
Quando Mi Agora For E Mi Alongar
Quando mi agora for e mi alongar
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
de vós, senhor, e nom poder veer
esse vosso fremoso parecer,
quero-vos ora por Deus preguntar:
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E dizede-m': em que vos fiz pesar,
por que mi assi mandades ir morrer?
Ca me mandades ir alhur viver!
E pois m'eu for e me sem vós achar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
E nom sei eu como possa morar
u nom vir vós, que me fez Deus querer
bem, por meu mal; por en quero saber:
[e] quando vos nom vir, nem vos falar,
senhor fremosa, que farei entom?
Dized', ai coita do meu coraçom!
900
Fernão Garcia Esgaravunha
N?Um Conselho, Senhor, Nom Me Sei
Nẽum conselho, senhor, nom me sei
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
u vos vejo, fremosa mia senhor,
que farei já des que m'eu daqui for?
636
Fernão Garcia Esgaravunha
Que Grave Cousa, Senhor, D'endurar
Que grave cousa, senhor, d'endurar
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.
A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.
E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.
A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.
E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
684
Nuno Fernandes Torneol
Ai Eu! E de Mim Que Será?
Ai eu! e de mim que será?
Que fui tal dona querer bem
a que nom ouso dizer rem
de quanto mal me faz haver!
E feze-a Deus parecer
melhor de quantas no mund'há!
Mais em grave dia naci,
se Deus conselho nom mi der;
ca destas coitas qual xe quer
m'é-mi mui grave d'endurar:
como nom lh'ousar a falar
e ela parecer assi.
Ela, que Deus fez por meu mal!
Ca já lh'eu sempre bem querrei
e nunca end'atenderei
com que folg'o meu coraçom,
que foi trist', há i gram sazom,
polo seu bem, ca nom por al.
Que fui tal dona querer bem
a que nom ouso dizer rem
de quanto mal me faz haver!
E feze-a Deus parecer
melhor de quantas no mund'há!
Mais em grave dia naci,
se Deus conselho nom mi der;
ca destas coitas qual xe quer
m'é-mi mui grave d'endurar:
como nom lh'ousar a falar
e ela parecer assi.
Ela, que Deus fez por meu mal!
Ca já lh'eu sempre bem querrei
e nunca end'atenderei
com que folg'o meu coraçom,
que foi trist', há i gram sazom,
polo seu bem, ca nom por al.
1 355
Pero da Ponte
Meus Olhos, Gram Coita D'amor
Meus olhos, gram coita d'amor
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.
[...]
me dades vós, que sempr'assi
chorades; mais já des aqui,
meus olhos, por Nostro Senhor,
nom choredes, que vejades
a dona por que chorades.
[...]
303
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
519
Nuno Fernandes Torneol
Trist'anda, Mia Madr[E], o Meu Amigo
Trist'anda, mia madr[e], o meu amigo,
e eu triste por el, bem vo-lo digo,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
E morrerá por mi, tant'é coitado,
e vós perderedes meu gasalhado,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
e eu triste por el, bem vo-lo digo,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
E morrerá por mi, tant'é coitado,
e vós perderedes meu gasalhado,
e, se m'el morrer, morrer-vos-ei eu.
712
Nuno Fernandes Torneol
Ai Mia Senhor! U Nom Jaz Al
Ai mia senhor! U nom jaz al,
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
de que seredes, mia senhor
fremosa, de mim pecador!
656
Nuno Fernandes Torneol
Que Bem Que M'eu Sei Encobrir
Que bem que m'eu sei encobrir
com mia coita e com meu mal!
Ca mi o nunca pod'hom'oir.
Mais que pouco que mi a mim val!
Ca nom quer'eu bem tal senhor
que se tenha por devedor
algũa vez de mi o gracir.
Pero faça como quiser,
ca sempre a eu servirei
e quanto a negar poder,
todavia negá-la-ei.
Ca eu por que hei a dizer
o por que m'hajam de saber
quam gram sandece comecei
e de que me nom há quitar
nulha cousa, se morte nom?
(pois Deus, que mi a fez muit'amar,
nom quer, nen'o meu coraçom)
Mais a Deus rogarei por en
que me dê cedo dela bem,
ou morte, se m'est'há durar.
E bem dev'eu ant'a querer
mia morte ca viver assi,
pois me nom quer Amor valer,
e a que eu sempre servi
me desama mais doutra rem.
Pero fui home de mal sem
porque, d'u ela é, saí!
com mia coita e com meu mal!
Ca mi o nunca pod'hom'oir.
Mais que pouco que mi a mim val!
Ca nom quer'eu bem tal senhor
que se tenha por devedor
algũa vez de mi o gracir.
Pero faça como quiser,
ca sempre a eu servirei
e quanto a negar poder,
todavia negá-la-ei.
Ca eu por que hei a dizer
o por que m'hajam de saber
quam gram sandece comecei
e de que me nom há quitar
nulha cousa, se morte nom?
(pois Deus, que mi a fez muit'amar,
nom quer, nen'o meu coraçom)
Mais a Deus rogarei por en
que me dê cedo dela bem,
ou morte, se m'est'há durar.
E bem dev'eu ant'a querer
mia morte ca viver assi,
pois me nom quer Amor valer,
e a que eu sempre servi
me desama mais doutra rem.
Pero fui home de mal sem
porque, d'u ela é, saí!
592
Nuno Fernandes Torneol
Que Coita Tamanha Hei a Sofrer
Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
740
Pero da Ponte
Por Deus, Amig', E Que Será de Mi
Por Deus, amig', e que será de mi,
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
pois me vós ides com el-rei morar?
A como me vós soedes tardar,
outro conselh', amigo, nom sei i
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Ides-vos vós ora e tam grand'afã
leixades mi com o meu coraçom
que mi nom jaz i al, se morte nom,
ca bom conselho nom sei i de pram,
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Pois me vos ides, vedes que será,
meu amigo, des que vos eu nom vir:
os meus olhos nom poderám dormir,
nem bem deste mundo nom mi valrá
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
Aquesta ida tam sem meu prazer,
por Deus, amigo, será quando for,
mais, pois vos ides, amig'e senhor,
nom vos poss'eu outra guerra fazer
senom morrer, e pois nom haverei
a gram coita que ora por vós hei.
714
Nuno Fernandes Torneol
Assi Me Traj'ora Coitad'amor
Assi me traj'ora coitad'Amor
que nunca lh'home vi trager tam mal;
e vivo com el ũa vida tal
que já mia morte seria melhor.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E pera qual terra lh'eu fugirei
log'el saberá mandado de mi,
ali u for; e pois me tever i
em sa prisom, sempr'eu esto direi:
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E a mim faz hoj'el maior pesar
de quantos outros seus vassalos som
e a [e]ste mal nom lh'hei defensom:
u me tem em poder, quer-me matar.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
que nunca lh'home vi trager tam mal;
e vivo com el ũa vida tal
que já mia morte seria melhor.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E pera qual terra lh'eu fugirei
log'el saberá mandado de mi,
ali u for; e pois me tever i
em sa prisom, sempr'eu esto direi:
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
E a mim faz hoj'el maior pesar
de quantos outros seus vassalos som
e a [e]ste mal nom lh'hei defensom:
u me tem em poder, quer-me matar.
Nostro Senhor, nom me leixe viver,
se estas coitas nom hei a perder!
498
Rui Queimado
Sempr'ando Cuidando Em Meu Coraçom
Sempr'ando cuidando em meu coraçom
com'eu iria mia senhor veer
e em como lh'ousaria dizer
o gram bem que lh'eu quer'; e sei que nom
lh'ousarei end'eu dizer nulha rem;
mais vee-la-ei pouco e irei en
com mui gram coita no meu coraçom.
Tal que, se a vir, quantas cousas som
eno mundo nom mi ham de guarecer
de morte, pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh'eu quero. E por en nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prol m'é d'ir i, se nom; e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.
E assi guaresc'há mui gram sazom,
cuidando muit'e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh'eu quero, tenho que nom
é mia prol d'ir i; mais sei al por en:
que morrerei, se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?
Eu e nom outrem, porque me nom tem
por seu! E moir', assi Deus me perdom!
com'eu iria mia senhor veer
e em como lh'ousaria dizer
o gram bem que lh'eu quer'; e sei que nom
lh'ousarei end'eu dizer nulha rem;
mais vee-la-ei pouco e irei en
com mui gram coita no meu coraçom.
Tal que, se a vir, quantas cousas som
eno mundo nom mi ham de guarecer
de morte, pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh'eu quero. E por en nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prol m'é d'ir i, se nom; e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.
E assi guaresc'há mui gram sazom,
cuidando muit'e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh'eu quero, tenho que nom
é mia prol d'ir i; mais sei al por en:
que morrerei, se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?
Eu e nom outrem, porque me nom tem
por seu! E moir', assi Deus me perdom!
665
Pedro Amigo de Sevilha
Nom Sei No Mundo Outro Homem Tam Coitado
Nom sei no mundo outro homem tam coitado
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
666
Pedro Amigo de Sevilha
Meus Amigos, Tam Desaventurado
Meus amigos, tam desaventurado
me fez Deus, que nom sei hoj'eu quem
fosse no mund'em peor ponto nado,
pois ũa dona [mi] fez querer gram bem,
fea e velha, nunca eu vi tanto;
e esta dona puta é já quanto,
por que eu moir', amigos, mal pecado.
[Ca] esta dona de pram há jurado,
meus amigos, por que perca meu sem,
que jasca sempre, quand'houver guisado,
ela com outr', e nom dê por mim rem;
e, com tod'aquesto, se Deus mi valha,
jasc'eu morrendo d'amor, e sem falha,
polo seu rostro velh'e enrugado.
E desta dona moito bem diria,
se mi val[vesse]...
me fez Deus, que nom sei hoj'eu quem
fosse no mund'em peor ponto nado,
pois ũa dona [mi] fez querer gram bem,
fea e velha, nunca eu vi tanto;
e esta dona puta é já quanto,
por que eu moir', amigos, mal pecado.
[Ca] esta dona de pram há jurado,
meus amigos, por que perca meu sem,
que jasca sempre, quand'houver guisado,
ela com outr', e nom dê por mim rem;
e, com tod'aquesto, se Deus mi valha,
jasc'eu morrendo d'amor, e sem falha,
polo seu rostro velh'e enrugado.
E desta dona moito bem diria,
se mi val[vesse]...
628
Paio Gomes Charinho
Ora Me Venh'eu, Senhor, Espedir
Ora me venh'eu, senhor, espedir
de vós, a que muit'há que aguardei;
e ora me quero de vós partir
sem galardom de camanho temp'hei
que vos servi, e quero-m'ir viver
em atal terra, u nunca prazer
veja, nem cante, nem possa riir.
Ca sõo certo, des que vos nom vir,
que outro prazer nunca veerei;
e, mal que haja, nom hei de sentir
senom o voss'; e assi andarei
triste, cuidando no vosso parecer,
e, chorando, muitas vezes dizer:
- Senhor, já nunca vos posso servir!
E do meu corpo que será, senhor,
quand'el d'alá o vosso desejar?
E que fará quem vos há tal amor
e vos nom vir, nem vos poder falar?
Ca vejo vós e por vós morr'aqui
- pois que farei ou que será de mim
quand'em terra u vós fordes nom for?
Ora com graça de vós, a melhor
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;
e vós ficades de mim pecador,
ca vos servi muit'e galardoar
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,
d'u eu tanto lazerei e servi,
buscar u viva pouc'e sem sabor.
E, mia senhor, tod'est'eu mereci
a Deus; mais vós, de como vos servi,
mui sem vergonha irei per u for
- ora com graça de vós, mia senhor.
de vós, a que muit'há que aguardei;
e ora me quero de vós partir
sem galardom de camanho temp'hei
que vos servi, e quero-m'ir viver
em atal terra, u nunca prazer
veja, nem cante, nem possa riir.
Ca sõo certo, des que vos nom vir,
que outro prazer nunca veerei;
e, mal que haja, nom hei de sentir
senom o voss'; e assi andarei
triste, cuidando no vosso parecer,
e, chorando, muitas vezes dizer:
- Senhor, já nunca vos posso servir!
E do meu corpo que será, senhor,
quand'el d'alá o vosso desejar?
E que fará quem vos há tal amor
e vos nom vir, nem vos poder falar?
Ca vejo vós e por vós morr'aqui
- pois que farei ou que será de mim
quand'em terra u vós fordes nom for?
Ora com graça de vós, a melhor
dona do mundo – ca muit'hei d'andar;
e vós ficades de mim pecador,
ca vos servi muit'e galardoar
nom mi o quisestes; e vou-m'eu daqui,
d'u eu tanto lazerei e servi,
buscar u viva pouc'e sem sabor.
E, mia senhor, tod'est'eu mereci
a Deus; mais vós, de como vos servi,
mui sem vergonha irei per u for
- ora com graça de vós, mia senhor.
628
Paio Gomes Charinho
Par Deus, Senhor, E Meu Lume E Meu Bem
Par Deus, senhor, e meu lume e meu bem
e mias coitas e meu mui grand'afã
e meus cuidados, que mi coitas dam,
por mesura, dizede-m'ũa rem:
se mi queredes algum bem fazer;
se nom já mais nom vos poss'atender.
Mui fremosa, que eu por meu mal vi
sempre, mias coitas, par Deus, ca nom al,
meu coraçom e meu bem e meu mal
dizede-mi, por quanto vos servi:
se mi queredes algum bem fazer,
se nom, já mais nom vos poss'atender.
Mui fremosa e muit'aposta senhor,
sempre mui mansa e de boa razom
melhor falar de quantas outras som,
dizede-mi, das bõas a melhor:
se mi queredes algum bem fazer,
se nom, já mais nom vos poss'atender.
e mias coitas e meu mui grand'afã
e meus cuidados, que mi coitas dam,
por mesura, dizede-m'ũa rem:
se mi queredes algum bem fazer;
se nom já mais nom vos poss'atender.
Mui fremosa, que eu por meu mal vi
sempre, mias coitas, par Deus, ca nom al,
meu coraçom e meu bem e meu mal
dizede-mi, por quanto vos servi:
se mi queredes algum bem fazer,
se nom, já mais nom vos poss'atender.
Mui fremosa e muit'aposta senhor,
sempre mui mansa e de boa razom
melhor falar de quantas outras som,
dizede-mi, das bõas a melhor:
se mi queredes algum bem fazer,
se nom, já mais nom vos poss'atender.
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