Citações neste tema
Morte e Luto
Mário Quintana
Ainda há gente que, por preço nenhum, se animaria a entrar num cemitério à noite. Bobagem. Somente no Dia de Finados é que exsurge dentre aqueles mármores um que outro fantasma. E mesmo esses poucos não prestam a mínima atenção a qualquer vivente — tão ocupados se acham eles em limpar do limo suas próprias lápides, em roubar de outros defuntos algumas flores para as dispor artisticamente ao pé de seus túmulos esquecidos.
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Mário Quintana
E quando um acidentado acorda, perplexo, no Outro Mundo, e indaga dos Anjos que horas são, muito mais perplexos ficam os Anjos.
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Mário Quintana
Não é só no homicídio que o problema consiste em ocultar ou sonegar o cadáver; sempre nos vemos em igual contingência diante da morte natural. Vivo a sonhar o dia em que os necrológios comecem assim: “Evaporou-se o Sr. desembargador Dioclécio Fagundes.” Ou então: “Volatilizou-se, na madrugada de hoje, a gentil senhorita Celeste Pereira Pinto.” Sim, porque um dia se hão de inventar umas pílulas por assim dizer eterizantes, que nos tornarão de súbito inteiramente solúveis no ar...
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Mário Quintana
Certa vez, tinha eu quinze anos, inventei uma história que principiava assim: “A primeira coisa que fazem os defuntos, depois de enterrados, é abrirem novamente os olhos.” Mas fiquei tão horrorizado com essa espantosa revelação que não me animei a seguir avante e a história gorou no berço, isto é, no túmulo.
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Mário Quintana
Esses que se debruçam no parapeito de uma ponte têm vocação suicida. Apenas vocação. São uns suicidas crônicos.
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Mário Quintana
Seremos fatalistas? Não sei, há uma coisa no entanto que dá para desconfiar... Tenho lido notícias, e até verbetes de dicionários biográficos, impregnados do mais puro fatalismo. Com frases assim: “no dia 31 de julho, tomou um avião para morrer em...” Talvez não passe de mero cacoete de estilo. E quero crer que o próprio S. F., se acaso se desse a esse trabalho, emendaria abespinhado: — Eu não tomei o avião para morrer; eu tomei o avião e morri!
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Mário Quintana
Nem ao menos a morte iguala tudo. Se é verdade que todos terminamos cadáveres, uns são os cadáveres de Einstein, de Aga Khan ou de Marilyn Monroe, e outros os de José Fagundes ou Joaquininha da Silva...
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Mário Quintana
Nada de maior; simples passagem de um estado para outro — assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para o estado de Santa Catarina...
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Mário Quintana
Quando o homem desaparecer, que será das coisas? Morrerão da mesmice de ser. De serem apenas aquele poste ali na esquina, a fonte sorrateira, a bela tabuleta inutilmente colorida, os pacientes relógios sobreviventes. Morrerão da mesmice de serem e não mais parecerem. Quando o homem desaparecer, que será das coisas, que será de Deus?
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Mário Quintana
Tenho pena da morte — cadela faminta — a que deixamos a carne doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos... O resto é indevorável.
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Mário Quintana
Ele chegou ao bar, pálido e trêmulo. Sentou-se. — Por enquanto, nada — desculpou-se ao garçom. — Estou esperando uma amiga. Dali a dois minutos, estava morto. Quanto ao garçom que o atendeu, esse adorava repetir a história, mas sempre acrescentava ingenuamente: — E, até hoje, a “grande amiga” não chegou!
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