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Poemas neste tema

Datas e Celebrações

Diamond

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Casca de ovo

Lembro bem lá da fazenda
Inaugurava a manha, no retiro
A canção dos latões ávidos de leite
Bezerrada apartada, um mugido de saudade
Cheiro forte de café, assando broa de milho
Queijo de coalho Estrela do Sul, estrela dalva já se foi
A dança das cozinheira, os psiu, psiu...silencio
Crianças ainda dormem, mas devem estudar
Mamãe toda zelosa comanda um pelotão
Chinelo não faz barulho, sete horas acordar
Arde no nariz, a fumaça do carro que nos vai levar
Os meninos para a escola, preparando seu futuro
E o boi vai pra degola, nem pensar em chorar
O cachorro preguiçoso se estica na varanda
Se ajeita pra esperar a gurizada voltar

Ai que saudade eu tenho, deste cantinho celeste
Do amor do meu cachorro, da varanda de chão frio
Da curva da estradinha, por onde eu via chegar
Meu Pai levantando poeira, na guia do Chevrolet
Bolso cheio de balas para a molecada agradar
O café, o cavalo e o boi, personagens do lugar

Pena que o tempo passou, que ausências tão doidas
Dos chinelos da mamãe, da canção do luar
Da cozinheira assustada, os quitutes e empadinhas
Que só o forno de lenha sabia formar. As mangueiras do pomar
Para doer e maltratar, por vezes esqueço como o rosto do Pai
Das fogueiras de São João, do domingo lá na missa.
Incenso, sol e sininho da capela branquinha

Restou-me a saudade, num prédio em frente ao mar
Daqueles a quem mais amei, daquele singelo lugar
Bem perto da porteira que ainda vai pro cafezal,
três cruzes resumem tudo
Guardam estórias, amores e cuidados. Não perdi tudo porem
Divina Generosidade, entendendo a minha dor
Me restaram três porta retratos e o direito de sonhar

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João Maimona

João Maimona

Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas

Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas

no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima

1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.

2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.

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