Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Afonso Mendes de Besteiros
Dom Foão, Que Eu Sei Que Há Preço de Livão
Dom Foão, que eu sei que há preço de livão,
vedes que fez ena guerra - daquesto sõo certão:
sol que viu os genetes, come boi que fer tavão,
sacudiu-se [e] revolveu-se, al-
çou rab'e foi sa via a Portugal.
Dom Foão, que eu sei que há preço de ligeiro,
vedes que fez ena guerra - daquesto som verdadeiro:
sol que viu os genetes, come bezerro tenreiro,
sacudiu-se [e] revolveu-se, al-
çou rab'e foi sa via a Portugal.
Dom Foão, que eu sei que há prez de liveldade,
vedes que fez [e]na guerra - sabede-o por verdade:
sol que viu os genetes, come cam que sal de grade,
sacudiu-se [e] revolveu-se, al-
çou rab'e foi sa via a Portugal.
vedes que fez ena guerra - daquesto sõo certão:
sol que viu os genetes, come boi que fer tavão,
sacudiu-se [e] revolveu-se, al-
çou rab'e foi sa via a Portugal.
Dom Foão, que eu sei que há preço de ligeiro,
vedes que fez ena guerra - daquesto som verdadeiro:
sol que viu os genetes, come bezerro tenreiro,
sacudiu-se [e] revolveu-se, al-
çou rab'e foi sa via a Portugal.
Dom Foão, que eu sei que há prez de liveldade,
vedes que fez [e]na guerra - sabede-o por verdade:
sol que viu os genetes, come cam que sal de grade,
sacudiu-se [e] revolveu-se, al-
çou rab'e foi sa via a Portugal.
1 874
1
Daniel Jonas
OSSÉTIA
Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.
Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.
De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.
O inconsolável.
O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.
Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.
De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.
O inconsolável.
O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.
1 098
1
Golgona Anghel
Vem, noite coisíssima e pindérica
Vem, noite coisíssima e pindérica!
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
Vem, noite de copos, noite de loucos,
estou só e sem inspiração.
Chamemos a lucidez e a sua escola de dactilografia
para ditar uns carmes.
Vem, Senhora, mulher sócia da compaixão,
vem pingar-me uma gota de Dostoiewhisky na goela.
Noite de Natal, noite de cristal,
noite dos Óscares, noite da Iguana,
noite dos museus,
apanha o primeiro táxi e vem.
Vem semear piolhos de ouro na juba deste boémio.
Vamos os dois corrigir o mundo
com moscatéis e valeriana.
Confia em mim.
Sou forte, sou vigoroso, Senhora!
O deboche sabe-me de cor.
O meu nome é Simão, o apelido Budoar.
Os meus olhos, duas alfaces.
Sou jovem, um bezerro, Madame!
Tenho por alimento mamilos de galáxias.
Por Deus, um computador.
Assim, sem roupa, pareço perigoso.
Mas se me vir de robe,
não passo de um criminoso meigo
que faz cócegas à sua presa
e sabe canções de embalar.
1 095
1
João Garcia de Guilhade
Amigas, Que Deus Vos Valha, Quando Veer Meu Amigo
Amigas, que Deus vos valha, quando veer meu amigo,
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
falade sempr'ũas outras enquant'el falar comigo,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
Sei eu que por falar migo chegará el mui coitado,
e vós ide-vos chegando lá todas per ess'estrado,
ca muitas cousas diremos
que ante vós nom diremos.
810
1
Daniel Jonas
OPACIDADE
Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
728
1
Daniel Jonas
OPACIDADE
Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
728
1
João Filho
NAUFRÁGIOS
Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
824
1
João Filho
NAUFRÁGIOS
Podemos naufragar dentro de casa,
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
à mesa do café, num feriado;
num braço de sofá desconfortável,
enquanto o dia gira as suas facas;
icebergs nos esperam degelados
nos pratos de um banquete sem palavras;
é preciso afiar velhas verdades
fiapos que pros náufragos são tábuas,
tornar o desconforto navegável,
e surfar quando a brasa for inata,
fazer do fundo o impulso para o nado,
e afogar tubarões debaixo d’água.
824
1
Fernando Sabino
Certeza
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
2 099
1
D. Dinis
Que Prazer Havedes, Senhor,
Que prazer havedes, senhor,
de mi fazerdes mal por bem
que vos quig'e quer'? E por en
peç'eu tant'a Nostro Senhor:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Prazer havedes do meu mal
pero vos amo mais ca mi;
e por en peç'a Deus assi,
que sabe quant'é o meu mal:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Muito vos praz do mal que hei,
lume daquestes olhos meus;
e por esto peç'eu a Deus,
que sab'a coita que eu hei,
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes tam sem razom.
E se vo-lo mudar, entom
poss'eu viver [e] se nom, nom.
de mi fazerdes mal por bem
que vos quig'e quer'? E por en
peç'eu tant'a Nostro Senhor:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Prazer havedes do meu mal
pero vos amo mais ca mi;
e por en peç'a Deus assi,
que sabe quant'é o meu mal:
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes, tam sem razom.
Muito vos praz do mal que hei,
lume daquestes olhos meus;
e por esto peç'eu a Deus,
que sab'a coita que eu hei,
que vos mud'esse coraçom
que mi havedes tam sem razom.
E se vo-lo mudar, entom
poss'eu viver [e] se nom, nom.
1 521
1
Francesca Angiolillo
A última boa ação
A última boa ação do ano
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
781
1
Eucanaã Ferraz
VIDA E OBRA
Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
795
1
Cida Pedrosa
Urbe
hoje na minha boca
não cabem girassóis
cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe
um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril
um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem
hoje na minha boca
cabe apenas o poema
o poema hóspede da agonia
não cabem girassóis
cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe
um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril
um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem
hoje na minha boca
cabe apenas o poema
o poema hóspede da agonia
870
1
Manuel Bandeira
O Palacete dos Amores
Um dia destes a saudade
(Saudade, a mais triste das flores)
Me deu da minha mocidade
No Palacete dos Amores.
O Palacete dos Amores
Criação que a força de vontade
Do velho Gomes, em verdade,
Atestava. Linhas e cores.
Compunham quadro de um sainete
Tal, que os amores eram mato
Nos três pisos do palacete.
Mato, não — jardim: por maiores
Que fossem, sempre houve recato
No Palacete dos Amores.
(Saudade, a mais triste das flores)
Me deu da minha mocidade
No Palacete dos Amores.
O Palacete dos Amores
Criação que a força de vontade
Do velho Gomes, em verdade,
Atestava. Linhas e cores.
Compunham quadro de um sainete
Tal, que os amores eram mato
Nos três pisos do palacete.
Mato, não — jardim: por maiores
Que fossem, sempre houve recato
No Palacete dos Amores.
1 651
1
Manuel Bandeira
O Palacete dos Amores
Um dia destes a saudade
(Saudade, a mais triste das flores)
Me deu da minha mocidade
No Palacete dos Amores.
O Palacete dos Amores
Criação que a força de vontade
Do velho Gomes, em verdade,
Atestava. Linhas e cores.
Compunham quadro de um sainete
Tal, que os amores eram mato
Nos três pisos do palacete.
Mato, não — jardim: por maiores
Que fossem, sempre houve recato
No Palacete dos Amores.
(Saudade, a mais triste das flores)
Me deu da minha mocidade
No Palacete dos Amores.
O Palacete dos Amores
Criação que a força de vontade
Do velho Gomes, em verdade,
Atestava. Linhas e cores.
Compunham quadro de um sainete
Tal, que os amores eram mato
Nos três pisos do palacete.
Mato, não — jardim: por maiores
Que fossem, sempre houve recato
No Palacete dos Amores.
1 651
1
Charles Bukowski
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 331
1
Charles Bukowski
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 331
1
Charles Bukowski
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 331
1
Charles Bukowski
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
630
1
Charles Bukowski
Amor Esmagado Como Mosca Morta
em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
630
1
Manuel Bandeira
O Silêncio
Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
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1
Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
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Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
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Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
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