Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Carlos Drummond de Andrade
Perguntas
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
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Carlos Drummond de Andrade
Perguntas
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço,
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que a navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
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1
Carlos Drummond de Andrade
Romaria
A Milton Campos
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.
Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.
Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
1 884
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Carlos Drummond de Andrade
Romaria
A Milton Campos
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.
Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.
Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados.
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.
No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
As coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.
Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanta algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.
No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.
Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.
Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.
Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.
Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.
Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.
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1
Carlos Drummond de Andrade
O Fim Das Coisas
Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(Amadurecerei um dia?)
Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,
maior, mais americano, mais isso e aquilo.
Quero é o derrotado Cinema Odeon,
o miúdo, fora de moda Cinema Odeon.
A espera na sala de espera. A matinê
com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.
A primeira sessão e a segunda sessão da noite.
A divina orquestra, mesmo não divina,
costumeira. O jornal da Fox. William S. Hart.
As meninas de família na plateia.
A impossível (sonhada) bolinação,
pobre sátiro em potencial.
Exijo em nome da lei ou fora da lei
que se reabram as portas e volte o passado
musical, waldemarpissilândico, sublime agora
que para sempre submerge em funeral de sombras
neste primeiro lutulento de janeiro
de 1928.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(Amadurecerei um dia?)
Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,
maior, mais americano, mais isso e aquilo.
Quero é o derrotado Cinema Odeon,
o miúdo, fora de moda Cinema Odeon.
A espera na sala de espera. A matinê
com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.
A primeira sessão e a segunda sessão da noite.
A divina orquestra, mesmo não divina,
costumeira. O jornal da Fox. William S. Hart.
As meninas de família na plateia.
A impossível (sonhada) bolinação,
pobre sátiro em potencial.
Exijo em nome da lei ou fora da lei
que se reabram as portas e volte o passado
musical, waldemarpissilândico, sublime agora
que para sempre submerge em funeral de sombras
neste primeiro lutulento de janeiro
de 1928.
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Carlos Drummond de Andrade
Visão 1944
Meus olhos são pequenos para ver
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.
Meus olhos são pequenos para ver
luzir na sombra a foice da invasão
e os olhos no relógio, fascinados,
ou as unhas brotando em dedos frios.
Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.
Meus olhos são pequenos para ver
a bateria de rádio prevenindo
vultos a rastejar na praia obscura
aonde chegam pedaços de navios.
Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
.de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.
Meus olhos são pequenos para ver
o corpo pegajento das mulheres
que foram lindas, beijo cancelado
na produção de tanques e granadas.
Meus olhos são pequenos para ver
a distância da casa na Alemanha
a uma ponte na Rússia, onde retratos,
cartas, dedos de pé bóiam em sangue.
Meus olhos são pequenos para ver
uma casa sem fog'o e sem janela,
sem meninos em roda, sem talher,
sem cadeira, lampião, catre, assoalho.
Meus olhos são pequenos para ver
os milhares de casas invisíveis
na planície de neve onde se erguia
uma cidade, o amor e uma canção.
Meus olhos são pequenos para ver
as fábricas tiradas do lugar,
levadas para longe, num tapete,
funcionando com fúria e com carinho.
Meus olhos são pequenos para ver
na blusa do aviador esse botão
que balança no corpo, fita o espelho
e se desfolhará no céu de outono.
Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.
349-
Meus olhos são pequenos para ver
os coqueiros rasgados e tombados
entre latas, na areia, entre formigas
incompreensivas, feias e vorazes.
Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro — e o muro é branco.
Meus olhos são pequenos para ver
essa fila de carne em qualquer parte,
de querosene, sal ou de esperança
que fugiu dos mercados deste tempo.
Meus olhos são pequenos para ver
a gente do Pará e de Quebec
sem notícia dos seus e perguntando
ao sonho, aos passarinhos, às ciganas.
Meus olhos são pequenos para ver
todos os mortos, todos os feridos,
e este sinal no queixo de uma velha
que não pôde esperar a voz dos sinos.
Meus olhos são pequenos para ver
países mutilados como troncos,
proibidos de viver, mas em que a vida
lateja subterrânea e vingadora.
Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.
Meus olhos são pequenos para ver
toda essa força aguda e martelante,
a rebentar do chão e das vidraças,
ou do ar, das ruas cheias e dos becos.
Meus olhos são pequenos para ver
tudo que uma hora tem. quando madura,
tudo que cabe em ti, na tua palma,
ó povo! que no mundo te dispersas.
Meus olhos são pequenos para ver
atrás da guerra, atrás de outras derrotas,
essa imagem calada, que se aviva,
que ganha em côr, em forma e profusão.
Meus olhos são pequenos para ver
tuas sonhadas ruas, teus objetos,
e uma ordem consentida (puro canto,
vai pastoreando sonos e trabalhos).
Meus olhos são pequenos para ver
essa mensagem franca pelos mares,
entre coisas outrora envilecidas
e agora a todos, todas ofertadas.
Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo,
— mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados.
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.
Meus olhos são pequenos para ver
luzir na sombra a foice da invasão
e os olhos no relógio, fascinados,
ou as unhas brotando em dedos frios.
Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.
Meus olhos são pequenos para ver
a bateria de rádio prevenindo
vultos a rastejar na praia obscura
aonde chegam pedaços de navios.
Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
.de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.
Meus olhos são pequenos para ver
o corpo pegajento das mulheres
que foram lindas, beijo cancelado
na produção de tanques e granadas.
Meus olhos são pequenos para ver
a distância da casa na Alemanha
a uma ponte na Rússia, onde retratos,
cartas, dedos de pé bóiam em sangue.
Meus olhos são pequenos para ver
uma casa sem fog'o e sem janela,
sem meninos em roda, sem talher,
sem cadeira, lampião, catre, assoalho.
Meus olhos são pequenos para ver
os milhares de casas invisíveis
na planície de neve onde se erguia
uma cidade, o amor e uma canção.
Meus olhos são pequenos para ver
as fábricas tiradas do lugar,
levadas para longe, num tapete,
funcionando com fúria e com carinho.
Meus olhos são pequenos para ver
na blusa do aviador esse botão
que balança no corpo, fita o espelho
e se desfolhará no céu de outono.
Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.
349-
Meus olhos são pequenos para ver
os coqueiros rasgados e tombados
entre latas, na areia, entre formigas
incompreensivas, feias e vorazes.
Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro — e o muro é branco.
Meus olhos são pequenos para ver
essa fila de carne em qualquer parte,
de querosene, sal ou de esperança
que fugiu dos mercados deste tempo.
Meus olhos são pequenos para ver
a gente do Pará e de Quebec
sem notícia dos seus e perguntando
ao sonho, aos passarinhos, às ciganas.
Meus olhos são pequenos para ver
todos os mortos, todos os feridos,
e este sinal no queixo de uma velha
que não pôde esperar a voz dos sinos.
Meus olhos são pequenos para ver
países mutilados como troncos,
proibidos de viver, mas em que a vida
lateja subterrânea e vingadora.
Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.
Meus olhos são pequenos para ver
toda essa força aguda e martelante,
a rebentar do chão e das vidraças,
ou do ar, das ruas cheias e dos becos.
Meus olhos são pequenos para ver
tudo que uma hora tem. quando madura,
tudo que cabe em ti, na tua palma,
ó povo! que no mundo te dispersas.
Meus olhos são pequenos para ver
atrás da guerra, atrás de outras derrotas,
essa imagem calada, que se aviva,
que ganha em côr, em forma e profusão.
Meus olhos são pequenos para ver
tuas sonhadas ruas, teus objetos,
e uma ordem consentida (puro canto,
vai pastoreando sonos e trabalhos).
Meus olhos são pequenos para ver
essa mensagem franca pelos mares,
entre coisas outrora envilecidas
e agora a todos, todas ofertadas.
Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo,
— mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados.
3 963
1
Carlos Drummond de Andrade
Tempo de Ipê
Não quero saber de IPM, quero saber de IP.
O M que se acrescentar não será militar,
será de Maravilha.
Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
Este me dá as boas-vindas e apresenta:
— Aqui é o ipê-rosa.
Mais adiante, seu irmão, o ipê-branco.
Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro,
mas tiveram pena de nós e se anteciparam
para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação,
mortes.
Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipê, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem, não me deem
dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê. Tempo de glória.
11/08/1981
O M que se acrescentar não será militar,
será de Maravilha.
Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
Este me dá as boas-vindas e apresenta:
— Aqui é o ipê-rosa.
Mais adiante, seu irmão, o ipê-branco.
Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro,
mas tiveram pena de nós e se anteciparam
para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação,
mortes.
Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipê, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem, não me deem
dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê. Tempo de glória.
11/08/1981
3 920
1
Natasha Tinet
A segunda ilha
para Julia Raiz
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
686
1
Natasha Tinet
A segunda ilha
para Julia Raiz
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
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Natasha Tinet
A segunda ilha
para Julia Raiz
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
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Natasha Tinet
A segunda ilha
para Julia Raiz
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
Eu te desafio a roubar o corpo do cavalo marinho
com os dedos despidos dos anéis, a liberdade
derruba a taça de cristal sobre o granito
lapida pétalas de ausências.
Onde você esteve essa noite?
Urubus duvidam da sua capacidade de amar,
curvam-se gordos em tronos de galhos retorcidos.
O sangue veio antes, tão delicado quanto a pele
de um bebê morto com a qual você se delicia
com as patas besuntadas em óleo de rícino
os ratos marcham pelo forro da casa
sabem que são imortais, pois a assassina
está presa em um pesadelo, um filme violento
que se vê amarrada no assento da primeira fila.
não há nada que você possa fazer além
de acordar e incendiar ao sol, cantar
sempre a mesma música até que as sereias
enlouqueçam, caminhar no mar gelado
até a primeira ilha, a segunda não,
pelo amor de deus, ele diz sem saber
que sua poesia mora onde os azuis se tocam
muito além da segunda ilha
um garoto chamado Romeu descobre a melancolia
das raízes expostas ao tempo, observa a imensidão
a voracidade dos ossos que se expandem
durante o sono, as estrelas se advinham mortas
sonhamos com oráculos e nomeamos um falso futuro.
não quero guardar o grande segredo, eu preciso te dizer que
no dia em que o primeiro robô comer um hambúrguer
ele não te deixará roubar as batatas fritas
no dia em que o primeiro robô formular as perguntas certas
você as responderá como um vestido que se usa no dia errado.
O que está acontecendo com a gente é um pianista anônimo
tocando Erik Satie no saguão da rodoviária, enquanto
os viajantes checam seus tickets e ignoram
que há milhões de anos,
fomos batizadas com o magma da solidão
somos pequenas vulcões abissais,
nascidas no inconsciente dos deuses
jamais pertencidas a qualquer continente.
686
1
Wisława Szymborska
Vermeer
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
1 067
1
Wisława Szymborska
Vermeer
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
“Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011
1 067
1
António Ramos Rosa
Sim
Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
1 327
1
António Ramos Rosa
Sim
Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
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1
António Ramos Rosa
Sim
Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
1 327
1
Carlos Drummond de Andrade
O Amor Determina
A Matilde e Mário da Silva Brito
L’amour veut qu’aujourd’hui mon ami
André Salmon se marie
APOLLINAIRE
O amor determina hoje que se casem
minha amiga Matilde e meu amigo Mário.
Sua lei é sagrada. Cumpra-se com música
de clavicórdios, clavicímbalos, espinetas,
tiorbas, violas d’amore, harpas davídicas,
sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais,
e o saçaricante pinho carioca,
mesmo que tais instrumentos não figurem
ostensivamente no ato. Estarão soando
no ar interior que respiram os enamorados conscientes.
E seja esta quinta-feira de perfeita claridade
e sombra mais suave a acarinhar os noivos
de refletida vontade e lúcida escolha.
Emoldure-os a luz. Doure-os o maravilhoso silêncio
entranhado no som,
em que a alegria do amor-conhecimento se entreabre
à feição de flor nascida
do chão mesmo da vida.
E cantemos todos, em torno deles,
em musical ciranda:
M de Matilde
M de Mário
M do centro da palavra amor.
L’amour veut qu’aujourd’hui mon ami
André Salmon se marie
APOLLINAIRE
O amor determina hoje que se casem
minha amiga Matilde e meu amigo Mário.
Sua lei é sagrada. Cumpra-se com música
de clavicórdios, clavicímbalos, espinetas,
tiorbas, violas d’amore, harpas davídicas,
sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais,
e o saçaricante pinho carioca,
mesmo que tais instrumentos não figurem
ostensivamente no ato. Estarão soando
no ar interior que respiram os enamorados conscientes.
E seja esta quinta-feira de perfeita claridade
e sombra mais suave a acarinhar os noivos
de refletida vontade e lúcida escolha.
Emoldure-os a luz. Doure-os o maravilhoso silêncio
entranhado no som,
em que a alegria do amor-conhecimento se entreabre
à feição de flor nascida
do chão mesmo da vida.
E cantemos todos, em torno deles,
em musical ciranda:
M de Matilde
M de Mário
M do centro da palavra amor.
1 199
1
Carlos Drummond de Andrade
Instante
Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,
mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.
A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.
E que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava um coice,
mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.
A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.
E que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.
2 336
1
António Ramos Rosa
Um Pequeno Vulcão
Aproximo a boca de um pequeno vulcão
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
1 166
1
António Ramos Rosa
Um Pequeno Vulcão
Aproximo a boca de um pequeno vulcão
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
1 166
1
Francisco Mallmann
II
fernando chegou até mim a informação
de que você está decepcionado com minha
excursão pela poesia pois segundo consta
você considera meus materiais muito ruins
e segundo consta pela manuela você disse
que eu destinaria pouco ou nada ao mistério
e que segundo consta por quem não digo
você considera minha poesia imprestável pois
fernando me poupe foi você quem não soube
me reconhecer quando eu era o puro mistério
inteira misteriosa foi tu sim foi você não me
venha com esses arrependimentos serei
poeta acostume-se
de que você está decepcionado com minha
excursão pela poesia pois segundo consta
você considera meus materiais muito ruins
e segundo consta pela manuela você disse
que eu destinaria pouco ou nada ao mistério
e que segundo consta por quem não digo
você considera minha poesia imprestável pois
fernando me poupe foi você quem não soube
me reconhecer quando eu era o puro mistério
inteira misteriosa foi tu sim foi você não me
venha com esses arrependimentos serei
poeta acostume-se
709
1
Natasha Tinet
Monika e o futuro
no coração do King Kong bate
uma mariposa seduzida pelas luzes de Manhatan
sua boneca platinada vestida em cetim não grita mamãe
sente no estômago o aperto e soluça gim-tônica
chorando lágrimas de fosfeno, reflexos de neons retrofuturistas
[ela não sabe que na verdade é uma androide com memórias implantadas
metade hollywood, metade discovery channel.]
Você sabia?
Que um gato quando anda
pousa a pata traseira na memória
do passo que a pata dianteira criou?
É assim o futuro.
Monika comprou um casaco novo com o dinheiro do aluguel
acende seu cigarro no cigarro do amante e encara a câmera
como Antoine Doinel na praia, mas o filme não acaba
ainda escorre pela boca como saquê e baba
no Japão o feijão é doce, as mulheres são infiéis
em pensamento, respiram mal pelos septos estreitos
carregam nas bolsas dos olhos
grampos de cabelo
papéis de bala
planos de fuga
e desejos.
uma mariposa seduzida pelas luzes de Manhatan
sua boneca platinada vestida em cetim não grita mamãe
sente no estômago o aperto e soluça gim-tônica
chorando lágrimas de fosfeno, reflexos de neons retrofuturistas
[ela não sabe que na verdade é uma androide com memórias implantadas
metade hollywood, metade discovery channel.]
Você sabia?
Que um gato quando anda
pousa a pata traseira na memória
do passo que a pata dianteira criou?
É assim o futuro.
Monika comprou um casaco novo com o dinheiro do aluguel
acende seu cigarro no cigarro do amante e encara a câmera
como Antoine Doinel na praia, mas o filme não acaba
ainda escorre pela boca como saquê e baba
no Japão o feijão é doce, as mulheres são infiéis
em pensamento, respiram mal pelos septos estreitos
carregam nas bolsas dos olhos
grampos de cabelo
papéis de bala
planos de fuga
e desejos.
770
1
Dalton Trevisan
Cantar 2
Oh não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?
como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?
se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?
maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua
não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego
como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados
é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?
Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar
oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada
sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile
quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?
me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?
quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente
como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?
ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas
desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes
vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua
eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita
lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?
como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?
se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?
maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua
não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego
como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados
é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?
Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar
oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada
sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile
quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?
me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?
quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente
como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?
ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas
desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes
vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua
eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita
lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só
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Dalton Trevisan
Cantar 2
Oh não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?
como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?
se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?
maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua
não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego
como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados
é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?
Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar
oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada
sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile
quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?
me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?
quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente
como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?
ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas
desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes
vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua
eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita
lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?
como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?
se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?
maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua
não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego
como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados
é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?
Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar
oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada
sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile
quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?
me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?
quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente
como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?
ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas
desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes
vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua
eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita
lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
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