Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Ruy Belo
Fundação de Roma
Grande te chamo cidade. Ainda há
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias
Jerusalém é o teu nome de cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias
Jerusalém é o teu nome de cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
1 961
1
Nuno Júdice
Memória
Lembro uma respiração apressada,
uns olhos que se fecham quando o céu se abre,
penas caídas numa corrente de palavras,
um bater de asas num erguer de braços,
o sol posto num fechar de pálpebras,
e o sol que nasce num abrir de olhos;
os cabelos soltos nos ombros
em ondas de um mar de setembro,
os lábios que suspendem o murmúrio
à passagem de um rio sem margem,
o riso que se espera e sonha
na boca onde a tarde perdura;
lembro o que é tão vivo
que já a vida o levou:
mão pousada e leve
no ramo que a ave deixou
ao ver, tão breve,
o amor que ali ficou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 102 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
uns olhos que se fecham quando o céu se abre,
penas caídas numa corrente de palavras,
um bater de asas num erguer de braços,
o sol posto num fechar de pálpebras,
e o sol que nasce num abrir de olhos;
os cabelos soltos nos ombros
em ondas de um mar de setembro,
os lábios que suspendem o murmúrio
à passagem de um rio sem margem,
o riso que se espera e sonha
na boca onde a tarde perdura;
lembro o que é tão vivo
que já a vida o levou:
mão pousada e leve
no ramo que a ave deixou
ao ver, tão breve,
o amor que ali ficou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 102 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 374
1
Pier Paolo Pasolini
Versos do testamento
A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
2 127
1
Pier Paolo Pasolini
Versos do testamento
A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
2 127
1
Nuno Júdice
Distância
Entro no teu quarto como se
entrasse no mar. Um temporal de perguntas
enrola os teus cabelos. Lanças-te
contra as ondas de um sonho antigo,
e abres a porta da varanda
para te sentares à cadeira
do oriente, apanhando o vento
da tarde. "Não te levantes, digo,
e deixe que os teus olhos se libertem
de sombra, depois de uma noite
de amor, para me abrigarem
da luz estéril da madrugada". Mudas
de posição, como se me tivesses
ouvido; e o teu corpo enche-se
de palavras, como se fosses
a taça da estrofe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 99 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
entrasse no mar. Um temporal de perguntas
enrola os teus cabelos. Lanças-te
contra as ondas de um sonho antigo,
e abres a porta da varanda
para te sentares à cadeira
do oriente, apanhando o vento
da tarde. "Não te levantes, digo,
e deixe que os teus olhos se libertem
de sombra, depois de uma noite
de amor, para me abrigarem
da luz estéril da madrugada". Mudas
de posição, como se me tivesses
ouvido; e o teu corpo enche-se
de palavras, como se fosses
a taça da estrofe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 99 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 664
1
Edmir Domingues
Louvado a Manuel Bandeira
À sua maneira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
690
1
Nuno Júdice
Nascimento de Vénus
A página pode estar vazia, como este mar que
tenho pela frente; pode obrigar-me a ficar
em terra, esperando que o céu se volte a abrir;
ou pode fechar-se, com o vento, impedindo-me
de escrever. Mas se aproveitar o intervalo
da maré, o instante único em que uma palavra
se deixa ver no horizonte, como a vela desejada
pelo náufrago, e usar a matéria prima
que emerge da onda empurrada pelo desejo
de um deus cego, o poema seguirá o rumo
dos cabelos que se derramam na espuma
do amor. Descobrirei o teu rosto, ainda
encoberto pela palidez da madrugada; e
atravessarei o átrio dos teus seios, ouvindo
a música de uma respiração de anjos
num eco de abóbada. E se não acordares,
espreitarei o fundo das tuas pálpebras,
onde escondes as imagens da noite; e
colhê-las-ei, uma a uma, como os frutos
do verão que o teu corpo anuncia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 110 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
tenho pela frente; pode obrigar-me a ficar
em terra, esperando que o céu se volte a abrir;
ou pode fechar-se, com o vento, impedindo-me
de escrever. Mas se aproveitar o intervalo
da maré, o instante único em que uma palavra
se deixa ver no horizonte, como a vela desejada
pelo náufrago, e usar a matéria prima
que emerge da onda empurrada pelo desejo
de um deus cego, o poema seguirá o rumo
dos cabelos que se derramam na espuma
do amor. Descobrirei o teu rosto, ainda
encoberto pela palidez da madrugada; e
atravessarei o átrio dos teus seios, ouvindo
a música de uma respiração de anjos
num eco de abóbada. E se não acordares,
espreitarei o fundo das tuas pálpebras,
onde escondes as imagens da noite; e
colhê-las-ei, uma a uma, como os frutos
do verão que o teu corpo anuncia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 110 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 954
1
Nuno Júdice
Amor
Bêbedo da luz pálida dos teus olhos,
esvazio ainda o teu copo; e voltas a enchê-lo,
sabendo que é inesgotável esta sede!
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 41 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esvazio ainda o teu copo; e voltas a enchê-lo,
sabendo que é inesgotável esta sede!
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 41 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Nuno Júdice
Amor
Bêbedo da luz pálida dos teus olhos,
esvazio ainda o teu copo; e voltas a enchê-lo,
sabendo que é inesgotável esta sede!
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 41 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
esvazio ainda o teu copo; e voltas a enchê-lo,
sabendo que é inesgotável esta sede!
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 41 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 699
1
Martha Medeiros
Depois
Convencemo-nos que a vida será melhor depois...
depois de acabar os estudos,
depois de arranjar trabalho,
depois de casarmos,
depois de termos um filho,
depois de termos outro filho.
Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são
suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixarem de ser crianças.
Depois, desesperamos porque são adolescentes,insuportáveis.
Pensamos: "Seremos mais felizes quando esta fase acabar!".
Então, decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso
companheiro ou companheira estiver realizado...
Quando tivermos um carro melhor...
Quando pudermos ir de férias...
Quando conseguirmos uma promoção...
Quando nos reformarmos...
A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA!
Se não for agora, então quando será?
A vida está cheia de depois...
É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há
um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!
Deixa de esperar até que acabes os estudos...
até que te apaixones...
até que encontres trabalho...
até que te cases...
até que tenhas filhos...
até que eles saiam de casa...
até que te divorcies...
até que percas esses 10kg...
até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã...
até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras...
para decidires então que não há melhor momento do que justamente ESTE para seres feliz!
A felicidade é um trajecto, não um destino.
Trabalha como se não precisasses de dinheiro...
Ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse ver!
depois de acabar os estudos,
depois de arranjar trabalho,
depois de casarmos,
depois de termos um filho,
depois de termos outro filho.
Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são
suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixarem de ser crianças.
Depois, desesperamos porque são adolescentes,insuportáveis.
Pensamos: "Seremos mais felizes quando esta fase acabar!".
Então, decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso
companheiro ou companheira estiver realizado...
Quando tivermos um carro melhor...
Quando pudermos ir de férias...
Quando conseguirmos uma promoção...
Quando nos reformarmos...
A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA!
Se não for agora, então quando será?
A vida está cheia de depois...
É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há
um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!
Deixa de esperar até que acabes os estudos...
até que te apaixones...
até que encontres trabalho...
até que te cases...
até que tenhas filhos...
até que eles saiam de casa...
até que te divorcies...
até que percas esses 10kg...
até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã...
até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras...
para decidires então que não há melhor momento do que justamente ESTE para seres feliz!
A felicidade é um trajecto, não um destino.
Trabalha como se não precisasses de dinheiro...
Ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse ver!
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1
Martha Medeiros
Depois
Convencemo-nos que a vida será melhor depois...
depois de acabar os estudos,
depois de arranjar trabalho,
depois de casarmos,
depois de termos um filho,
depois de termos outro filho.
Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são
suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixarem de ser crianças.
Depois, desesperamos porque são adolescentes,insuportáveis.
Pensamos: "Seremos mais felizes quando esta fase acabar!".
Então, decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso
companheiro ou companheira estiver realizado...
Quando tivermos um carro melhor...
Quando pudermos ir de férias...
Quando conseguirmos uma promoção...
Quando nos reformarmos...
A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA!
Se não for agora, então quando será?
A vida está cheia de depois...
É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há
um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!
Deixa de esperar até que acabes os estudos...
até que te apaixones...
até que encontres trabalho...
até que te cases...
até que tenhas filhos...
até que eles saiam de casa...
até que te divorcies...
até que percas esses 10kg...
até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã...
até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras...
para decidires então que não há melhor momento do que justamente ESTE para seres feliz!
A felicidade é um trajecto, não um destino.
Trabalha como se não precisasses de dinheiro...
Ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse ver!
depois de acabar os estudos,
depois de arranjar trabalho,
depois de casarmos,
depois de termos um filho,
depois de termos outro filho.
Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são
suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixarem de ser crianças.
Depois, desesperamos porque são adolescentes,insuportáveis.
Pensamos: "Seremos mais felizes quando esta fase acabar!".
Então, decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso
companheiro ou companheira estiver realizado...
Quando tivermos um carro melhor...
Quando pudermos ir de férias...
Quando conseguirmos uma promoção...
Quando nos reformarmos...
A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA!
Se não for agora, então quando será?
A vida está cheia de depois...
É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há
um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!
Deixa de esperar até que acabes os estudos...
até que te apaixones...
até que encontres trabalho...
até que te cases...
até que tenhas filhos...
até que eles saiam de casa...
até que te divorcies...
até que percas esses 10kg...
até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã...
até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras...
para decidires então que não há melhor momento do que justamente ESTE para seres feliz!
A felicidade é um trajecto, não um destino.
Trabalha como se não precisasses de dinheiro...
Ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse ver!
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1
Nuno Júdice
Solidão
Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 020
1
Nuno Júdice
Solidão
Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 25 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 020
1
Ruy Belo
Os estivadores
Só eles suam mas só eles sabem
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 | Editorial Presença Lda., 1984
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 | Editorial Presença Lda., 1984
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1
Nuno Júdice
O que aprendi contigo
O desencontro das tardes, uma febre
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.
Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.
E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 115 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.
Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.
E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 115 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Nuno Júdice
O que aprendi contigo
O desencontro das tardes, uma febre
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.
Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.
E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 115 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
de profecia, a sede de sal dos lábios
sequiosos, a ferida tranquila de um espinho
de rosa, o amor que acontece, as águas da noite
quando os rios se calam, o olhar vigilante
de uma lua sem céu.
Às vezes, ouvia-te no corredor
sem fim, como se os passos da sombra
pudessem ecoar na minha cabeça; e
abria-te a porta, para que uma ausência
branca entrasse no quarto em que te
esperava, para um sempre que nunca foi.
E sentavas-te na cadeira do fundo,
atrás de mim, pedindo-me que te olhasse
no espelho obscuro da memória. Mas
não me voltei, para não ver o lugar vazio
que deixaste na casa solitária do inverno,
sob o véu nupcial que as aranhas teceram.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 115 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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1
Martha Medeiros
Quem você pensa que é?
"Quem você pensa que é?"
perguntou pra mim de queixo em pé...
Sou forte,
fraca,
generosa,
egoísta,
angustiada,
perigosa,
infantil,
astuta,
aflita,
serena,
indecorosa,
inconstante,
persistente,
sensata e corajosa,
como é toda mulher,
poderia ter respondido,
mas não lhe dei essa colher.
perguntou pra mim de queixo em pé...
Sou forte,
fraca,
generosa,
egoísta,
angustiada,
perigosa,
infantil,
astuta,
aflita,
serena,
indecorosa,
inconstante,
persistente,
sensata e corajosa,
como é toda mulher,
poderia ter respondido,
mas não lhe dei essa colher.
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1
Ruy Belo
Um prato de sopa
Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
1 675
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Ruy Belo
Um prato de sopa
Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
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1
Nuno Júdice
Natureza viva
Um pintassilgo desce pelas escadas
da canção, empoleira-se nos seus versos,
estende o bico para que o canto
não se perca pelo chão. Ainda bem que é
para o céu que ele está a olhar:assim,
não vê os teus cabelos que se espalham
por entre ervas e ramos, nem os teus
braços que se apoiam ao declive da
encosta. No entanto, a tua respiração
canta com ele; e só quando o vento
o enxuta do ramo é que o silêncio
se faz para que, de dentro dele, nasçam o
bater de asas do seu voo e o teu riso, ao
veres um pássaro saltar de dentro do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 18 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
da canção, empoleira-se nos seus versos,
estende o bico para que o canto
não se perca pelo chão. Ainda bem que é
para o céu que ele está a olhar:assim,
não vê os teus cabelos que se espalham
por entre ervas e ramos, nem os teus
braços que se apoiam ao declive da
encosta. No entanto, a tua respiração
canta com ele; e só quando o vento
o enxuta do ramo é que o silêncio
se faz para que, de dentro dele, nasçam o
bater de asas do seu voo e o teu riso, ao
veres um pássaro saltar de dentro do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 18 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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1
Ruy Belo
Em legitima defesa
Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 28 e 29 | Editorial Presença Lda., 1981
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 28 e 29 | Editorial Presença Lda., 1981
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1
Martha Medeiros
O jeito deles
O que é que faz a gente se apaixonar por alguém? Mistério misterioso. Não é só porque ele é esportista, não é só porque ela é linda, pois há esportistas sem cérebro e lindas idem, e você, que tem um, não vai querer saber de descerebrados. Mas também não basta ser inteligente, por mais que a inteligência esteja bem cotada no mercado. Tem que ser inteligente e... algo mais. O que é este algo mais? Mistério decifrado: é o jeito.
A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis: é o jeito dele de dizer versos em voz alta como se ele mesmo os tivesse escrito pra nós; é o jeito dela de piscar demorado seus lindos olhos azuis, como se estivesse em câmera lenta.
O jeito de caminhar. O jeito de usar a camisa pra fora das calças. O jeito de passar a mão no cabelo. O jeito de suspirar no final das frases. O jeito de beijar. O jeito de sorrir. Vá tentar explicar isso.
Pelo meu primeiro namorado, me apaixonei porque ele tinha um jeito de estar nas festas parecendo que não estava, era como se só eu o estivesse enxergando. O segundo namorado me fisgou porque tinha um jeito de morder palitos de fósforo que me deixava louca – ok, pode rir. Ele era um cara sofisticado, e por isso mesmo eu vibrava quando baixava nele um caminhoneiro. O terceiro namorado tinha um jeito de olhar que parecia que despia a gente: não as roupas da gente, mas a alma da gente. Logo vi que eu jamais conseguiria esconder algum segredo dele, era como se ele me conhecesse antes mesmo de eu nascer. Por precaução, resolvi casar com o sujeito e mantê-lo por perto.
E teve aqueles que não viraram namorados também por causa do jeito: do jeito vulgar de falar, do jeito de rir – sempre alto demais e por coisas totalmente sem graça –, do jeito rude de tratar os garçons, do jeito mauricinho de se vestir: nunca um desleixo, sempre engomado e perfumado, até na beira da praia. Nenhum defeito nisso. Pode até ser que eu tenha perdido os caras mais sensacionais do universo.
Mas o cara mais sensacional do universo e a mulher mais fantástica do planeta nunca irão conquistar você, a não ser que tenham um jeito de ser que você não consiga explicar. Porque esses jeitos que nos encantam não se explicam mesmo.
A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis: é o jeito dele de dizer versos em voz alta como se ele mesmo os tivesse escrito pra nós; é o jeito dela de piscar demorado seus lindos olhos azuis, como se estivesse em câmera lenta.
O jeito de caminhar. O jeito de usar a camisa pra fora das calças. O jeito de passar a mão no cabelo. O jeito de suspirar no final das frases. O jeito de beijar. O jeito de sorrir. Vá tentar explicar isso.
Pelo meu primeiro namorado, me apaixonei porque ele tinha um jeito de estar nas festas parecendo que não estava, era como se só eu o estivesse enxergando. O segundo namorado me fisgou porque tinha um jeito de morder palitos de fósforo que me deixava louca – ok, pode rir. Ele era um cara sofisticado, e por isso mesmo eu vibrava quando baixava nele um caminhoneiro. O terceiro namorado tinha um jeito de olhar que parecia que despia a gente: não as roupas da gente, mas a alma da gente. Logo vi que eu jamais conseguiria esconder algum segredo dele, era como se ele me conhecesse antes mesmo de eu nascer. Por precaução, resolvi casar com o sujeito e mantê-lo por perto.
E teve aqueles que não viraram namorados também por causa do jeito: do jeito vulgar de falar, do jeito de rir – sempre alto demais e por coisas totalmente sem graça –, do jeito rude de tratar os garçons, do jeito mauricinho de se vestir: nunca um desleixo, sempre engomado e perfumado, até na beira da praia. Nenhum defeito nisso. Pode até ser que eu tenha perdido os caras mais sensacionais do universo.
Mas o cara mais sensacional do universo e a mulher mais fantástica do planeta nunca irão conquistar você, a não ser que tenham um jeito de ser que você não consiga explicar. Porque esses jeitos que nos encantam não se explicam mesmo.
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