Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Roberto Pontes
Chula da Rendeira
Na ponta dos teus dez dedos
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
987
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Roberto Pontes
Chula da Rendeira
Na ponta dos teus dez dedos
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
tem uma perna de fio
de fio feito de nata
e bilros que vão batendo
a toada da matraca.
A cada passe um ponto
A cada ponto uma peça
uma angústia, um susto, um sarro
a flor seca da alvorada
e a tristeza em cada venda.
Em todo canto mil olhos
olhos postos na almofada
neles fervem pesadelos
neles moram sonhos pardos
das almas dos miseráveis.
Na renda moureja um anjo
em luta contra os maus fados
que têm nome de gente
a dureza dos diamantes
e o dorso nu das navalhas.
Zumbindo nos teus ouvidos
um diabo chamado fome
reúne seus comandados
e atiça seus humores
pra que não resistas tanto.
Pedaço da própria pele
quem disse merece preço?
Da rendeira faz-se uso
pois renda é pra ser trocada
por um pouco de sobejo.
Tem uma perna de fio
sem um pingo de beleza
nem ao menos como aquela
de uma teia de aranha
na ponta dos teus dez dedos.
(De Verbo Encarnado. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996)
987
1
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
É Urgente o Amor
A luz que a chama me prende
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
1 207
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Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
É Urgente o Amor
A luz que a chama me prende
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
1 207
1
Renato Russo
A Fonte
O que há de errado comigo ?
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
1 925
1
Renato Russo
A Fonte
O que há de errado comigo ?
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
1 925
1
Renato Russo
A Fonte
O que há de errado comigo ?
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
Não consigo encontrar abrigo
Meu país é campo inimigo
E você que finge que vê, mas não vê
Lave suas mãos que é à sua porta que irão bater
Mas antes você verá seus pequenos filhos
Trazendo novidades
Quantas crianças foram mortas dessa vez ?
Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver
E isso dá câncer
Não sei mais do que sou capaz
Esperança, teus lençóis têm cheiro de doença
E veja que da fonte
Sou os quil"metros adiante
Celebro todo dia
Minha vida e meus amigos
Eu acredito em mim
E continuo limpo
Você acha que sabe
Mas você não vê que a maldade é prejuízo
O que há de errado comigo ?
Eu não sei de nada e continuo limpo
Do lado do cipreste branco
À esquerda da entrada do inferno
Está a fonte do esquecimento
Vou mais além, não bebo dessa água
Chego ao lago da memória
Que tem água pura e fresca
E digo aos guardiões da entrada:
- Sou filho da Terra e do Céu
Dai-me de beber, que tenho uma sede sem fim
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
Me tira essa vergonha
Me liberta dessa culpa
Me arranca esse ódio
Me livra desse medo
Olhe nos meus olhos, sou o Homem-Tocha
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
E esta é uma canção de amor
1 925
1
Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
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Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
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Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
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1
Nelson Ascher
Hölderlin
p/ Antonio Medina Rodrigues
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.
Luz não se vê tão límpida
quanto, inundando a casa,
aquela que extravasa
fugaz de qualquer lâmpada
que, de repente, exalte-
-se e atinja, por um átimo,
à beira do blecaute
mais último, seu ótimo.
Cega ao fulgor, a orelha
talvez capte de esguelha
um ultra-som que, esgar-
çador como um lamento,
provém do filamento
no afã de se queimar.
988
1
Paula Nei
Fortaleza
Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
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Paula Nei
Fortaleza
Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
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Natália Correia
Comunicação
Como um poente congestionado
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas
Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada
Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos
Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais
As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas
Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória
Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição
As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes
Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas
Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada
Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos
Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais
As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas
Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória
Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição
As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes
Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
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Natália Correia
Comunicação
Como um poente congestionado
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas
Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada
Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos
Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais
As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas
Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória
Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição
As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes
Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas
Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada
Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos
Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais
As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas
Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória
Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição
As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes
Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
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Luís Palma Gomes
Natação
Os olhos ardem-me,
quando afloram o limiar verde das coisas,
as abelhas, a película correctíssima dos teus.
Perdoa-me, Amor,
se deixei fugir o prazo
para reclamar o espólio herdado
e requerido em papel selado
na conservatório do registo predial...
Aqui, de onde te escrevo,
não há princípios, nem fins,
e até o tráfego estagnou
retratando-se temporariamente
na superfície morta do lado municípal...
quando afloram o limiar verde das coisas,
as abelhas, a película correctíssima dos teus.
Perdoa-me, Amor,
se deixei fugir o prazo
para reclamar o espólio herdado
e requerido em papel selado
na conservatório do registo predial...
Aqui, de onde te escrevo,
não há princípios, nem fins,
e até o tráfego estagnou
retratando-se temporariamente
na superfície morta do lado municípal...
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Papiniano Carlos
Canção
Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
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Papiniano Carlos
Canção
Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
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Fernando Rocha Peres
Gregório de Mattos, 360 Anos
Por Fernando da Rocha Peres
Insinua-se nas dobras do tempo, a obra de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695), a despeito de jamais ter sido autografada pelo poeta. Sombras encobriram os escritos hoje atribuídos ao baiano filho de portugueses, entre o século XVII, quando ele viveu e circularam seus poemas satíricos pregados às escondidas por anônimos nas paredes de prédios públicos, e o século XVIII, no qual copistas os perenizaram em códices apógrafos. Neste final do século XX, já há mais luzes sobre a vida e o legado gregorianos. Cronista da sociedade seiscentista, intérprete crítico do seu tempo, religioso, lírico, herético, Gregório de Mattos e Guerra estava longe de ser figura unânime na sociedade seiscentista. O que, como defende João Carlos Teixeira Gomes, estudioso da obra do poeta, talvez o tenha impedido publicar em Portugal seus poemas "bem comportados". Tais desmedidas motivaram preconceitos contra a poesia satírica, erótica e escatológica de Gregório de Mattos até o início deste século, como observa o historiador Fernando da Rocha Peres. O resgate do corpus gregoriano só viria a ocorrer com o lançamento de Gregório de Mattos — Obra Poética, organizada por James Amado, em 1968, hoje disponível em dois volumes pela editora Record. As portas do século XXI, Gregório de Mattos está em voga, através de mídias inimagináveis no período em que viveu. Ele navegará no cyberspace da Internet através de uma home-page, com textos sobre o poeta, poemas em português e vertidos para o alemão, chinês e italiano, bibliografia básica e material iconográfico. Seus poemas ganharam o suporte de um compact disc, na voz da atriz Nilda Spencer. Seu nome foi refrão de um rap defendido pelo cineasta Edgard Navarro num festival de música popular. Proliferam as publicações acerca do poeta e sua obra, tendo sido a mais recente de autoria da professora da UFBA e dramaturga Cleise F. Mendes. Há 360 anos de seu nascimento, Gregório de Mattos e Guerra é, mais do que nunca, personagem para o futuro. Em torno da data e com o tema o poeta renasce a cada ano. No evento, serão lançados carimbo comemorativo da data, o livro Sete poemas, de amor e desespero, de Maria dos Povos, à partida do poeta Gregório de Mattos para o degredo em Angola, de Myriam Fraga (edições Macunaíma) e o CD Boca do Inferno, coordenado por Maria da Conceição Paranhos, com interpretação de Nilda Spencer e música de Nico Rezende (edições Cidade da Luz). Organizador do evento, o historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que a aproximação temática entre a obra do poeta do século XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
F.R.P. - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos? O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
F.R.P. - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1865. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
F.R.P. - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia, estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas dá Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi Procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram Publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
E sobre o magistrado Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em Portugal — na Torre do Tombo ou na Biblioteca Nacional de Lisboa. É o caso do documento do casamento dele em Lisboa, que era absolutamente ignorado. É um documento autógrafo no qual ele diz ter 25 anos, em 1661, o que resolveu a questão da data de nascimento. Outro documento precioso é o de batismo de uma filha natural que ele teve em Lisboa, com uma mulher chamada Francisca. Os arquivos portugueses são organizados. No Brasil, lamentavelmente, não guardaram essa documentação dos séculos XVI e XVII. Está quase toda ela destruída pelo tempo, pela umidade, pelos insetos, pelos fungos, pelo desleixo.
Há pesquisadores portugueses debruçados sobre a biografia de Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre a biografia, não que eu saiba. Está havendo hoje em Portugal e, podemos dizer, em grande parte da Europa — na Itália, Alemanha, Noruega, Espanha — um interesse pela obra do poeta. Pela obra apógrafa que ficou guardada nos manuscritos existentes em Portugal, no Brasil, na Biblioteca Nacional, e pelo manuscrito agora existente na Bahia, datado de 1775. São manuscritos feitos por copistas portugueses ou baianos. Acredito que os documentos fundamentais já estejam suficientemente assentados, levantados. Mas, poderá surgir, em um ou outro arquivo ainda não organizado, público ou particular, uma documentação que venha a esclarecer determinados detalhes da vida de Gregório de Mattos.
Há uma polêmica entre críticos, quanto a situar Gregório de Mattos com poeta brasileiro. É possível que expressões do nosso vernáculo e a incorporação de vocábulos africanos e indígenas — elementos presentes nos poemas de Gregório — tenham ocorrido nos apógrafos e não partido do poeta?
F.R.P. - Não, evidentemente estes poemas, na sua grande maio
Insinua-se nas dobras do tempo, a obra de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695), a despeito de jamais ter sido autografada pelo poeta. Sombras encobriram os escritos hoje atribuídos ao baiano filho de portugueses, entre o século XVII, quando ele viveu e circularam seus poemas satíricos pregados às escondidas por anônimos nas paredes de prédios públicos, e o século XVIII, no qual copistas os perenizaram em códices apógrafos. Neste final do século XX, já há mais luzes sobre a vida e o legado gregorianos. Cronista da sociedade seiscentista, intérprete crítico do seu tempo, religioso, lírico, herético, Gregório de Mattos e Guerra estava longe de ser figura unânime na sociedade seiscentista. O que, como defende João Carlos Teixeira Gomes, estudioso da obra do poeta, talvez o tenha impedido publicar em Portugal seus poemas "bem comportados". Tais desmedidas motivaram preconceitos contra a poesia satírica, erótica e escatológica de Gregório de Mattos até o início deste século, como observa o historiador Fernando da Rocha Peres. O resgate do corpus gregoriano só viria a ocorrer com o lançamento de Gregório de Mattos — Obra Poética, organizada por James Amado, em 1968, hoje disponível em dois volumes pela editora Record. As portas do século XXI, Gregório de Mattos está em voga, através de mídias inimagináveis no período em que viveu. Ele navegará no cyberspace da Internet através de uma home-page, com textos sobre o poeta, poemas em português e vertidos para o alemão, chinês e italiano, bibliografia básica e material iconográfico. Seus poemas ganharam o suporte de um compact disc, na voz da atriz Nilda Spencer. Seu nome foi refrão de um rap defendido pelo cineasta Edgard Navarro num festival de música popular. Proliferam as publicações acerca do poeta e sua obra, tendo sido a mais recente de autoria da professora da UFBA e dramaturga Cleise F. Mendes. Há 360 anos de seu nascimento, Gregório de Mattos e Guerra é, mais do que nunca, personagem para o futuro. Em torno da data e com o tema o poeta renasce a cada ano. No evento, serão lançados carimbo comemorativo da data, o livro Sete poemas, de amor e desespero, de Maria dos Povos, à partida do poeta Gregório de Mattos para o degredo em Angola, de Myriam Fraga (edições Macunaíma) e o CD Boca do Inferno, coordenado por Maria da Conceição Paranhos, com interpretação de Nilda Spencer e música de Nico Rezende (edições Cidade da Luz). Organizador do evento, o historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que a aproximação temática entre a obra do poeta do século XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
F.R.P. - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos? O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
F.R.P. - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1865. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
F.R.P. - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia, estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas dá Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi Procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram Publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
E sobre o magistrado Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em Portugal — na Torre do Tombo ou na Biblioteca Nacional de Lisboa. É o caso do documento do casamento dele em Lisboa, que era absolutamente ignorado. É um documento autógrafo no qual ele diz ter 25 anos, em 1661, o que resolveu a questão da data de nascimento. Outro documento precioso é o de batismo de uma filha natural que ele teve em Lisboa, com uma mulher chamada Francisca. Os arquivos portugueses são organizados. No Brasil, lamentavelmente, não guardaram essa documentação dos séculos XVI e XVII. Está quase toda ela destruída pelo tempo, pela umidade, pelos insetos, pelos fungos, pelo desleixo.
Há pesquisadores portugueses debruçados sobre a biografia de Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre a biografia, não que eu saiba. Está havendo hoje em Portugal e, podemos dizer, em grande parte da Europa — na Itália, Alemanha, Noruega, Espanha — um interesse pela obra do poeta. Pela obra apógrafa que ficou guardada nos manuscritos existentes em Portugal, no Brasil, na Biblioteca Nacional, e pelo manuscrito agora existente na Bahia, datado de 1775. São manuscritos feitos por copistas portugueses ou baianos. Acredito que os documentos fundamentais já estejam suficientemente assentados, levantados. Mas, poderá surgir, em um ou outro arquivo ainda não organizado, público ou particular, uma documentação que venha a esclarecer determinados detalhes da vida de Gregório de Mattos.
Há uma polêmica entre críticos, quanto a situar Gregório de Mattos com poeta brasileiro. É possível que expressões do nosso vernáculo e a incorporação de vocábulos africanos e indígenas — elementos presentes nos poemas de Gregório — tenham ocorrido nos apógrafos e não partido do poeta?
F.R.P. - Não, evidentemente estes poemas, na sua grande maio
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Roberval Pereyr
A Quem e a Quê
ao que morde o vento
ao que come coca
ao que acorda triste
ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto
ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo
ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.
al curso de los ríos
aos tristes camaradas
à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola
à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society
ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro
ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre
à pequena que come
o fácil chocolate
ao que come coca
ao que acorda triste
ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto
ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo
ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.
al curso de los ríos
aos tristes camaradas
à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola
à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society
ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro
ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre
à pequena que come
o fácil chocolate
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Roberval Pereyr
A Quem e a Quê
ao que morde o vento
ao que come coca
ao que acorda triste
ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto
ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo
ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.
al curso de los ríos
aos tristes camaradas
à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola
à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society
ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro
ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre
à pequena que come
o fácil chocolate
ao que come coca
ao que acorda triste
ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto
ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo
ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.
al curso de los ríos
aos tristes camaradas
à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola
à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society
ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro
ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre
à pequena que come
o fácil chocolate
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Osvaldo Alcântara
Ressaca
Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.
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Newton de Freitas
Amo a Luz
Deixa! que a luz invada o meu quarto todinho.
Deixai! Nem que a chuva inunde este campo em redor;
Nem que o vento frio açoite o meu corpo cansado;
Nem que a luz me beije demoradamente.
Eu amo a luz que é ósculo de Deus;
A luz, que é ciência e liberdade!
Sorrio à noite quando um raio de luar
Vem enfeitar o meu sono,
intruso que salta pela minha janela
Porque sabe, talvez, que eu tenho a alma grande
E adoro as ilusões abençoadas.
Quando eu estiver morrendo, direi como Goethe
"Mais luz", e os que me assistirem hão de abrir as janelas
Senão eu os amaldiçoarei no derradeiro instante.
Mas quem sabe como será o meu momento final?
Quem sabe se haverá sol na minha última hora?
Deixai que a luz invada o meu quarto todinho;
A luz que é o beijo de Deus a tocar-me nos olhos,
A luz que traz a poesia para os meus sonhos,
Deixai que a luz espante esta minha tristeza.
Deixai! Nem que a chuva inunde este campo em redor;
Nem que o vento frio açoite o meu corpo cansado;
Nem que a luz me beije demoradamente.
Eu amo a luz que é ósculo de Deus;
A luz, que é ciência e liberdade!
Sorrio à noite quando um raio de luar
Vem enfeitar o meu sono,
intruso que salta pela minha janela
Porque sabe, talvez, que eu tenho a alma grande
E adoro as ilusões abençoadas.
Quando eu estiver morrendo, direi como Goethe
"Mais luz", e os que me assistirem hão de abrir as janelas
Senão eu os amaldiçoarei no derradeiro instante.
Mas quem sabe como será o meu momento final?
Quem sabe se haverá sol na minha última hora?
Deixai que a luz invada o meu quarto todinho;
A luz que é o beijo de Deus a tocar-me nos olhos,
A luz que traz a poesia para os meus sonhos,
Deixai que a luz espante esta minha tristeza.
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