Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
468
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
468
Mário-Henrique Leiria
CONFRATERNIZAÇÃO
A anca bem tostada
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
462
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
631
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
631
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
631
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
631
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
631
Álvaro Guerra
antimemória
Viemos do mundo para o mundo
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
1 060
Renato Rezende
[Re-Nato]
O poder da respiração—entrando e saindo do corpo
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
995
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
1 121
Francesca Angiolillo
Etiópia, Etiópia
Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
726
Francesca Angiolillo
Etiópia, Etiópia
Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
726
Renato Rezende
[Hosana]
Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
1 005
Francesca Angiolillo
Parêntesis
(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
582
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
988
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
1 001
Sérgio Medeiros
Tudo para atiçar o riso dos…
Coça-se o passarinho num fio diante do mar
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
783
Sidónio Muralha
Já não há mordaças
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
871
Sidónio Muralha
Já não há mordaças
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
871
Sidónio Muralha
Já não há mordaças
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
871
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
970
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
970