Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Moreira Campos
Registro Civil
Quando nasci,
minha mãe não
deixou que meu pai me registrasse.
Temia que o governo
(mandão como ele é),
de posse de meu nome
e minha data,
me convocasse para o exército
e para a guerra,
remota naquele tempo,
mas hoje tão freqüente, minha mãe.
Espécie de sonegação,
não de imposto,
que os bens de minha mãe
vinham só do coração.
Claro que depois,
quando moço me fiz,
o registro me deu trabalho grande,
com custas, testemunhas e cartório.
De qualquer modo,
restou-me o carinho dessa proteção.
minha mãe não
deixou que meu pai me registrasse.
Temia que o governo
(mandão como ele é),
de posse de meu nome
e minha data,
me convocasse para o exército
e para a guerra,
remota naquele tempo,
mas hoje tão freqüente, minha mãe.
Espécie de sonegação,
não de imposto,
que os bens de minha mãe
vinham só do coração.
Claro que depois,
quando moço me fiz,
o registro me deu trabalho grande,
com custas, testemunhas e cartório.
De qualquer modo,
restou-me o carinho dessa proteção.
1 590
2
Nauro Machado
Pequena Ode a Tróia
Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
2 828
2
Nauro Machado
Pequena Ode a Tróia
Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.
2 828
2
Luís Veiga Leitão
Manhã
— Bom-dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.
Vômito insuportável de ironia
Bom-dia, por que bom-dia?
Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom-dia lá fora
porque lá fora é que é dia!
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.
Vômito insuportável de ironia
Bom-dia, por que bom-dia?
Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom-dia lá fora
porque lá fora é que é dia!
1 876
2
Mário Donizete Massari
Ópera do Operário
A ópera
do operário
é um grito sem fim.
É um grito de paz
a ópera do
operário
que é poeta.
Poeta
que rima
a dor à agonia
seu salário à família.
Operário
poeta maior
de todos os dias.
Poeta da vida
do operário
é um grito sem fim.
É um grito de paz
a ópera do
operário
que é poeta.
Poeta
que rima
a dor à agonia
seu salário à família.
Operário
poeta maior
de todos os dias.
Poeta da vida
1 099
2
Mário Donizete Massari
Ópera do Operário
A ópera
do operário
é um grito sem fim.
É um grito de paz
a ópera do
operário
que é poeta.
Poeta
que rima
a dor à agonia
seu salário à família.
Operário
poeta maior
de todos os dias.
Poeta da vida
do operário
é um grito sem fim.
É um grito de paz
a ópera do
operário
que é poeta.
Poeta
que rima
a dor à agonia
seu salário à família.
Operário
poeta maior
de todos os dias.
Poeta da vida
1 099
2
Neimar de Barros
No Vento Livre do Seu Arbítrio
No Vento Livre do Seu Arbítrio
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou tá vivendo de gorgeta?
Sim, porque depois dos 50, é gorgeta.
Neste mundo poluído, conturbado,
Passar dos 50 é fazer 13 pontos...
Quantos anos você tem?
Você tem idade para saber o que é certo
Ou você só tem idade para viver o que é errado?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para tomar vergonha
Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para enfrentar, assumir e realizar
Ou você só tem idade para entrar na onda?
Você é um rato ou um homem?
Você prefere queijo ou amor?
Você está na ratoeira da massificação
Ou está no vento livre do seu arbítrio?
Quantos anos você tem?
Você sabe que não existe presente?
Que o "que" desta linha já é passado
E o futuro é o "que" que não escrevi?
Quantos anos você tem?
Você sabe que o presente não é deste mundo,
O presente é a eternidade vivida.
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?
O que é que você já fez?
Atravessou cego na rua?
Deu esmola?
Pô, isso qualquer escoteiro faz!...
Quantos anos você tem de GENTE?
Você já despertou como GENTE?
Você já andou como GENTE?
Ou até agora foi um instrumento de repetição?
Você sabe o seu papel no mundo,
Ou é um espermatozóide crescido,
Na eterna espera de um óvulo?
Quem é você?
Quantos anos você tem?
Olha, só a sua consciência pode responder isso!
Hoje, eu sei quem eu sou,
Sei minha idade,
Mas já fui um autômano como você,
Felizmente, me encontrei,
Me encontrei, no vento livre do meu arbítrio!
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou tá vivendo de gorgeta?
Sim, porque depois dos 50, é gorgeta.
Neste mundo poluído, conturbado,
Passar dos 50 é fazer 13 pontos...
Quantos anos você tem?
Você tem idade para saber o que é certo
Ou você só tem idade para viver o que é errado?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para tomar vergonha
Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?
Quantos anos você tem?
Você tem idade para enfrentar, assumir e realizar
Ou você só tem idade para entrar na onda?
Você é um rato ou um homem?
Você prefere queijo ou amor?
Você está na ratoeira da massificação
Ou está no vento livre do seu arbítrio?
Quantos anos você tem?
Você sabe que não existe presente?
Que o "que" desta linha já é passado
E o futuro é o "que" que não escrevi?
Quantos anos você tem?
Você sabe que o presente não é deste mundo,
O presente é a eternidade vivida.
Quantos anos você tem?
15, 20, 30 ou está vivendo de gorjeta?
O que é que você já fez?
Atravessou cego na rua?
Deu esmola?
Pô, isso qualquer escoteiro faz!...
Quantos anos você tem de GENTE?
Você já despertou como GENTE?
Você já andou como GENTE?
Ou até agora foi um instrumento de repetição?
Você sabe o seu papel no mundo,
Ou é um espermatozóide crescido,
Na eterna espera de um óvulo?
Quem é você?
Quantos anos você tem?
Olha, só a sua consciência pode responder isso!
Hoje, eu sei quem eu sou,
Sei minha idade,
Mas já fui um autômano como você,
Felizmente, me encontrei,
Me encontrei, no vento livre do meu arbítrio!
3 161
2
Marta Gonçalves
Poema da Alemanha
Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
2 429
2
Manuel da Fonseca
Romance do Terceiro Oficial de Finanças
Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!
As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe os segredos dos grandes silêncios
— os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...
(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia nomarar-te...)
Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada na vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!
— isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!
As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe os segredos dos grandes silêncios
— os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...
(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia nomarar-te...)
Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada na vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!
— isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...
1 958
2
Al Berto
Resposta à Emile
A guerra daqui não mata - mas abre fissuras
Nos nervos - é o que te posso dizer
Deste país que escolhi para definhar
A cidade é u amontoado de lixo de tapumes
De sucata e de casas que se desmoronam
A realidade estragou os olhos das crianças
No fim do corpo em que me escondo espalhou-se
A treva onde
Guardo a corola azulínea de tua ausência
E o marulho nítido de um mar que canta
E um calor sísmico nos lábios que beijaste
É - me difícil continuar a escrever-te
O que me destrói - sei que estou fodido
E tu já não és meu
Preparo-me para entreabrir os olhos e
Deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
E das coisas tristes.
Nos nervos - é o que te posso dizer
Deste país que escolhi para definhar
A cidade é u amontoado de lixo de tapumes
De sucata e de casas que se desmoronam
A realidade estragou os olhos das crianças
No fim do corpo em que me escondo espalhou-se
A treva onde
Guardo a corola azulínea de tua ausência
E o marulho nítido de um mar que canta
E um calor sísmico nos lábios que beijaste
É - me difícil continuar a escrever-te
O que me destrói - sei que estou fodido
E tu já não és meu
Preparo-me para entreabrir os olhos e
Deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
E das coisas tristes.
6 180
2
Al Berto
Resposta à Emile
A guerra daqui não mata - mas abre fissuras
Nos nervos - é o que te posso dizer
Deste país que escolhi para definhar
A cidade é u amontoado de lixo de tapumes
De sucata e de casas que se desmoronam
A realidade estragou os olhos das crianças
No fim do corpo em que me escondo espalhou-se
A treva onde
Guardo a corola azulínea de tua ausência
E o marulho nítido de um mar que canta
E um calor sísmico nos lábios que beijaste
É - me difícil continuar a escrever-te
O que me destrói - sei que estou fodido
E tu já não és meu
Preparo-me para entreabrir os olhos e
Deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
E das coisas tristes.
Nos nervos - é o que te posso dizer
Deste país que escolhi para definhar
A cidade é u amontoado de lixo de tapumes
De sucata e de casas que se desmoronam
A realidade estragou os olhos das crianças
No fim do corpo em que me escondo espalhou-se
A treva onde
Guardo a corola azulínea de tua ausência
E o marulho nítido de um mar que canta
E um calor sísmico nos lábios que beijaste
É - me difícil continuar a escrever-te
O que me destrói - sei que estou fodido
E tu já não és meu
Preparo-me para entreabrir os olhos e
Deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas
E das coisas tristes.
6 180
2
Manuel Lopes
Postal
deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
2 171
2
Manuel Lopes
Postal
deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
ma a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:
o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.
cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.
brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.
gente vem ver São Luís!
2 171
2
Manuel Lopes
A palavra
te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
2 635
2
Manuel Lopes
A palavra
te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
palavra / pão
polida pedra
de construção
do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,
te esculpo e bruno
verbo/canção
no diário labor
de artesão.
te louvo lume
e pedra dara
com que ergo o templo
da flor mais cara
e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia
as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas
a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,
a fé o cansaço
desta luta brava
a fartura a poucos
de muitos tomada
o chão proibido
a água negada
o amor que rareia e
a festa sonhada
.....................................
palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,
te lavo e lavro
verbo / canção
te louvo lume
poema / pão
manhã sonhada
meu sim/meu não.
2 635
2
Luís Veiga Leitão
Não
Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
2 033
2
Luís Veiga Leitão
Não
Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
2 033
2
Luís Veiga Leitão
Não
Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas
Não queremos o sangue dos jovens
cobrindo o frio das Baionetas
— morto lume verde sobre a neve
Mas correndo a arder nas noites pretas
para que as manhãs cantem breve...
2 033
2
Joaquim Namorado
Legenda para a vida de um vagabundo
Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.
O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.
O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
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Joaquim Namorado
Legenda para a vida de um vagabundo
Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.
O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.
O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
3 293
2
Martins Fontes
Ser Paulista
Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
4 326
2
Guilherme de Almeida
Flor do Asfalto
Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...
Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...
Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!
Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...
Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...
Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...
Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!
Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...
Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!
4 047
2
Helena Amin
Manhã
Estais de volta!
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
795
2
Ferreira Gullar
João Boa Morte
Cabra Marcado para Morrer
..................................................
Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
..................................................
Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
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