Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Alexandre Guarnieri
calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
541
Mailson Furtado Viana
a nuvem
a nuvem
não tem nome
é e é
e pronto
não mais
não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária
é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser
: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)
se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será
não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são
não tem nome
é e é
e pronto
não mais
não vence
_____se enlata
_____ou adula vigilância sanitária
é
antes de ser
foi
antes de nunca
ser
: elefante
guarda-chuva
uma guerra dos mundos
(sob o mar de Copacabana)
se destila nela mesma
e nunca batizou
_______vermes
_______larvas
nem mesmo a ferida de Ícaro
que morreu nele mesmo
como nuvem
que sempre foi a mesma
e nunca também
e nunca mais
será
não num avião
que as rebaixam
a terra
a terra de ninguém
a meros pedaços
__________cortados
__________guardados
numa janela
numa foto de www
como terras são guardadas
em gavetas de cartório
e cabem todas
as nuvens também
que não tem nome
__________três-por-quatro
e
já não são
784
Simone Brantes
Errou o homem
Errou o homem cujo calo lhe gritou
ardendo dentro do sapato
amanhã choverá. E também o cara
(ou aquilo dentro dele) que previu:
cem mil diminutos relâmpagos
se desatarão do corpo da garota
na minha direção
Não que não tenha relampejado
mas porque um só relâmpago
(fora daquele céu) foi necessário
para abatê-lo. E agora sabe
o quanto (ainda mais que nós
que sabemos do homem com seu calo
ardendo ainda dentro do sapato)
o nosso corpo é essa antiga máquina
falaciosa de premonições
ardendo dentro do sapato
amanhã choverá. E também o cara
(ou aquilo dentro dele) que previu:
cem mil diminutos relâmpagos
se desatarão do corpo da garota
na minha direção
Não que não tenha relampejado
mas porque um só relâmpago
(fora daquele céu) foi necessário
para abatê-lo. E agora sabe
o quanto (ainda mais que nós
que sabemos do homem com seu calo
ardendo ainda dentro do sapato)
o nosso corpo é essa antiga máquina
falaciosa de premonições
735
Alexandre Guarnieri
Mágoa no sal
enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
642
Alexandre Guarnieri
ilha na névoa
cercada pela tempestade que ameaça
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
721
Alexandre Guarnieri
o barco na garrafa
que vento, tormenta, qual
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?
terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?
pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;
haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?
embargo causado pelo caos
atravessou o aço deste barco?
qual a história de seu rapto,
de sua carcaça aprisionada
ao arrecife, pelo casco?
terá afundado em álcool
— em rum, a nau afogada -,
no premente e estrepitoso
jorro da única talagada?
terá sido enfeitiçado
o capitão embriagado
pelo canto da sereia
ou pela água envenenada?
pois saibam, sujos marujos,
que até assim se naufraga,
e onde esperaríamos o gênio
realizando desejos, resta a
miniatura delicada da fragata
prensada através do gargalo,
presa ao interior da garrafa;
haverá outra escolha ( brinquedo
camuflando o medo – mero modelo )
senão estilhaçá-la ao peso
do arremesso ( pequena parcela
do mar ou a própria alma
sequestrada ) a singela peça
do artesanato naval, minuciosamente
trabalhada ou frágil granada
lançada contra a parede da sala?
491
Maria Lúcia Dal Farra
Sylvia Plath
Com o planeta da minha mente
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
724
Maria Lúcia Dal Farra
Sylvia Plath
Com o planeta da minha mente
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
vejo negras as árvores. Frias e cinzas
erguidas num sonho mau.
Há vapor do dia em vias de nascer
que (em barreira transparente)
me separa de pra onde quero ir.
Branca de cartilagem (esparadrapo
a cobrir-lhe a ferida)
a lua ainda goza seu pleno direito –
vem chupando o mar, a última de suas tarefas noturnas.
Fundo de panela, alumínio machucado ao alto.
Melhor: tampa redonda de forno a gás.
No quintal as roupas do varal se encontram
em desconforto. Repõem
suas manchas, o sangue menstrual.
Expõem o uso, o amassado do afeto
o invisível gesto que ali se busca
enxugar.
Há manejos de armas brancas
por baixo da planura das palavras.
724
Paulo Teixeira
Heaven underneath the arches
O medo, o cansaço dos sismos quotidianos
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
620
Stella Carr
A corrente
Um rio imita
o Tempo.
Quanto passa,
caminho de água
na margem da água,
corrente,
minuto impossível
— elo.
Um rio corta
veia
rua
cadeia-viva
a hora-morta
de
nem hoje ou amanhã.
Um dia-tempo
não, luz.
Um rio flui
infinito,
cordilheiras, planícies,
movimento no fundo
do aquário redondo
— rotação-translação.
Um rio-rua
com holofotes
nos olhos fortes
de luzes
— tráfego —
de milhões de seres
transeuntes.
Passam, postes, pastam
— rebanhos
enrolam a lã
luminosa,
uns atrás dos outros.
O rio imita a rua.
O mar imita a terra.
O peixe imita o homem.
o Tempo.
Quanto passa,
caminho de água
na margem da água,
corrente,
minuto impossível
— elo.
Um rio corta
veia
rua
cadeia-viva
a hora-morta
de
nem hoje ou amanhã.
Um dia-tempo
não, luz.
Um rio flui
infinito,
cordilheiras, planícies,
movimento no fundo
do aquário redondo
— rotação-translação.
Um rio-rua
com holofotes
nos olhos fortes
de luzes
— tráfego —
de milhões de seres
transeuntes.
Passam, postes, pastam
— rebanhos
enrolam a lã
luminosa,
uns atrás dos outros.
O rio imita a rua.
O mar imita a terra.
O peixe imita o homem.
759
Carlos Soulié do Amaral
O livre na paisagem
Um gaturamo é mais nada
do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.
Canta porque quer, pousa
onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.
Em verdade um gaturamo
só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.
do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.
Canta porque quer, pousa
onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.
Em verdade um gaturamo
só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.
784
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
701
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
701
Maria Lúcia Dal Farra
A música
Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
682
Paulo Teixeira
A segunda Pessoa
To count the loves one has grown out of
W. H. Auden
Tu reincides sem nome na lembrança,
presença não conhecida mas desejada
além do véu das estações e dos anos,
distante como dia de sol na bruma,
guardam-te em vão silêncios e demoras;
ao papel vens como lição não decorada,
perdido em missas vazias e solenes,
tu, forma de despedaçamento no meu corpo,
tu, dilaceração sem marca sobre a pele.
A espera queimou já meio caminho
desta vida e para o ar que respiro
não há mão incensaria, estrelas
em vigília na funda noite das galáxias,
sóis negros e prestas nebulosas
que correm para o avesso de Deus.
Lâmpadas e a lua foram guardas destas noites,
sem enlevo e sem futuro, exaladas por uma alma
presa na armação dos últimos laços.
Um desejo pode ser agora o pavor de um anseio
teu tumultuando o sangue em trânsito
pelas moradas do corpo quando esse adejo,
sei, as deixa suspensas na varanda dos sentidos.
Inquiro essa vontade que fez de ti um ser
inacessível a todos os vaticínios, invalidado
em nome e corpo, esboroando-se entre os dedos
como estátua mensurável outrora num desejo
e cinzelada de um sopro contra a luz.
W. H. Auden
Tu reincides sem nome na lembrança,
presença não conhecida mas desejada
além do véu das estações e dos anos,
distante como dia de sol na bruma,
guardam-te em vão silêncios e demoras;
ao papel vens como lição não decorada,
perdido em missas vazias e solenes,
tu, forma de despedaçamento no meu corpo,
tu, dilaceração sem marca sobre a pele.
A espera queimou já meio caminho
desta vida e para o ar que respiro
não há mão incensaria, estrelas
em vigília na funda noite das galáxias,
sóis negros e prestas nebulosas
que correm para o avesso de Deus.
Lâmpadas e a lua foram guardas destas noites,
sem enlevo e sem futuro, exaladas por uma alma
presa na armação dos últimos laços.
Um desejo pode ser agora o pavor de um anseio
teu tumultuando o sangue em trânsito
pelas moradas do corpo quando esse adejo,
sei, as deixa suspensas na varanda dos sentidos.
Inquiro essa vontade que fez de ti um ser
inacessível a todos os vaticínios, invalidado
em nome e corpo, esboroando-se entre os dedos
como estátua mensurável outrora num desejo
e cinzelada de um sopro contra a luz.
679
António Carlos Cortez
Este é o canto mais perfeito da noite
este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
705
Paulo Teixeira
Monge na orla do mar
I
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
708
Paulo Teixeira
Monge na orla do mar
I
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.
Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,
o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço
espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.
Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
708
António Carlos Cortez
Um barco no rio
Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
792
Paulo Teixeira
Carta do Pacífico
Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
697
Paulo Teixeira
Carta do Pacífico
Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
697
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
708
António Carlos Cortez
Lente
De tarde tudo começava
e lá fora a elipse do vento
desenhava a casa e circulava
um perímetro maior de desalento
Era como se a poesia me ofuscasse
e o corpo em suspensão se mantivesse
à espera da morte ou regressasse à vida
depois do amor que se fizesse
Era a lente de aumentar essa paisagem
quase familiar mas indiferente
de rostos junto ao teu
Mas a imagem diminui
agora o mundo lentamente
e lá fora a elipse do vento
desenhava a casa e circulava
um perímetro maior de desalento
Era como se a poesia me ofuscasse
e o corpo em suspensão se mantivesse
à espera da morte ou regressasse à vida
depois do amor que se fizesse
Era a lente de aumentar essa paisagem
quase familiar mas indiferente
de rostos junto ao teu
Mas a imagem diminui
agora o mundo lentamente
639
Paulo Teixeira
Cidade ao nascer da lua
A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
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