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Rubem Alves

Rubem Alves

Caro sr Roberto Marinho

São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar

Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.
Explico-me.
Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.
O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.
Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.
Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.
Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.
Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.
Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?
Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.
Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.
O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.
Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.
Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?
O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.
Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.
Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.
Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.
Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.
Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...
Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...
Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?
Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...
Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.

in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.

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Fernando Rocha Peres

Fernando Rocha Peres

Gregório de Mattos, 360 Anos

Por Fernando da Rocha Peres
Insinua-se nas dobras do tempo, a obra de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695), a despeito de jamais ter sido autografada pelo poeta. Sombras encobriram os escritos hoje atribuídos ao baiano filho de portugueses, entre o século XVII, quando ele viveu e circularam seus poemas satíricos pregados às escondidas por anônimos nas paredes de prédios públicos, e o século XVIII, no qual copistas os perenizaram em códices apógrafos. Neste final do século XX, já há mais luzes sobre a vida e o legado gregorianos. Cronista da sociedade seiscentista, intérprete crítico do seu tempo, religioso, lírico, herético, Gregório de Mattos e Guerra estava longe de ser figura unânime na sociedade seiscentista. O que, como defende João Carlos Teixeira Gomes, estudioso da obra do poeta, talvez o tenha impedido publicar em Portugal seus poemas "bem comportados". Tais desmedidas motivaram preconceitos contra a poesia satírica, erótica e escatológica de Gregório de Mattos até o início deste século, como observa o historiador Fernando da Rocha Peres. O resgate do corpus gregoriano só viria a ocorrer com o lançamento de Gregório de Mattos — Obra Poética, organizada por James Amado, em 1968, hoje disponível em dois volumes pela editora Record. As portas do século XXI, Gregório de Mattos está em voga, através de mídias inimagináveis no período em que viveu. Ele navegará no cyberspace da Internet através de uma home-page, com textos sobre o poeta, poemas em português e vertidos para o alemão, chinês e italiano, bibliografia básica e material iconográfico. Seus poemas ganharam o suporte de um compact disc, na voz da atriz Nilda Spencer. Seu nome foi refrão de um rap defendido pelo cineasta Edgard Navarro num festival de música popular. Proliferam as publicações acerca do poeta e sua obra, tendo sido a mais recente de autoria da professora da UFBA e dramaturga Cleise F. Mendes. Há 360 anos de seu nascimento, Gregório de Mattos e Guerra é, mais do que nunca, personagem para o futuro. Em torno da data e com o tema o poeta renasce a cada ano. No evento, serão lançados carimbo comemorativo da data, o livro Sete poemas, de amor e desespero, de Maria dos Povos, à partida do poeta Gregório de Mattos para o degredo em Angola, de Myriam Fraga (edições Macunaíma) e o CD Boca do Inferno, coordenado por Maria da Conceição Paranhos, com interpretação de Nilda Spencer e música de Nico Rezende (edições Cidade da Luz). Organizador do evento, o historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que a aproximação temática entre a obra do poeta do século XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
F.R.P. - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos? O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
F.R.P. - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1865. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
F.R.P. - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia, estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas dá Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi Procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram Publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
E sobre o magistrado Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em Portugal — na Torre do Tombo ou na Biblioteca Nacional de Lisboa. É o caso do documento do casamento dele em Lisboa, que era absolutamente ignorado. É um documento autógrafo no qual ele diz ter 25 anos, em 1661, o que resolveu a questão da data de nascimento. Outro documento precioso é o de batismo de uma filha natural que ele teve em Lisboa, com uma mulher chamada Francisca. Os arquivos portugueses são organizados. No Brasil, lamentavelmente, não guardaram essa documentação dos séculos XVI e XVII. Está quase toda ela destruída pelo tempo, pela umidade, pelos insetos, pelos fungos, pelo desleixo.
Há pesquisadores portugueses debruçados sobre a biografia de Gregório de Mattos?
F.R.P. - Sobre a biografia, não que eu saiba. Está havendo hoje em Portugal e, podemos dizer, em grande parte da Europa — na Itália, Alemanha, Noruega, Espanha — um interesse pela obra do poeta. Pela obra apógrafa que ficou guardada nos manuscritos existentes em Portugal, no Brasil, na Biblioteca Nacional, e pelo manuscrito agora existente na Bahia, datado de 1775. São manuscritos feitos por copistas portugueses ou baianos. Acredito que os documentos fundamentais já estejam suficientemente assentados, levantados. Mas, poderá surgir, em um ou outro arquivo ainda não organizado, público ou particular, uma documentação que venha a esclarecer determinados detalhes da vida de Gregório de Mattos.
Há uma polêmica entre críticos, quanto a situar Gregório de Mattos com poeta brasileiro. É possível que expressões do nosso vernáculo e a incorporação de vocábulos africanos e indígenas — elementos presentes nos poemas de Gregório — tenham ocorrido nos apógrafos e não partido do poeta?
F.R.P. - Não, evidentemente estes poemas, na sua grande maio
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Pinto de Monteiro

Pinto de Monteiro

Peleja de Pinto com Milanês

Severino Milanês da Silva

Milanês estava cantando em vitória de Santo Antão chegou Severino Pinto nessa mesma ocasião em casa de um marchante travaram uma discussão.

M - Pinto, você veio aqui
se acabar no desespero
eu quero cortar-lhe a crista
desmantelar seu poleiro
aonde tem galo velho
pinto não canta em terreiro

P - mas comigo é diferente
eu sou um pinto graúdo
arranco esporão de galo
ele corre e fica mudo
deixa as galinhas sem dono
eu tomo conta de tudo

M - Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que agüente

P - Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.

M - Pinto, cantador de fora
aqui não terá partido
tem que ser obediente
cortês e bem resumido
ou rende-me obediência
ou então é destruído

P - Meu passeio nesta terra
foi acabar sua fama
derribar a sua casa
quebrar-lhe as varas da cama
deixar os cacos na rua
você dormindo na lama

M - Quando vier se confesse
deixe em casa uma quantia
encomende o ataúde
e avise a feguezia
que é para ouvir a sua
missa do sétimo dia

P - Ainda eu estando doente
com uma asa quebrada
o bico todo rombudo
e a titela pelada
aonde eu estiver cantando
você não torna chegada

M - O pinto que eu pegar
pélo logo e não prometo
vindo grande sai pequeno
chegando branco sai preto
sendo de aço eu envergo
sendo de ferro eu derreto

P - No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço

M - No dia que dou um grito
estremece o ocidente
o globo fica parado
o fruto não dá semente
a terra foge do eixo
o sol deixa de ser quente

P - Eu sou um pinto de raça
o bico é como marreta
onde bate quebra osso
sai felpa que dá palheta
abre buraco na carne
que dá pra fazer gaveta

M - Eu pego um pinto de raça
e amolo uma faquinha
faço um trabalho com ele
depois pesponto com linha
ele vivendo cem anos
não vai perto de galinha

P - Milanês, você comigo .
desaparece ligeiro
eu chego lá tiro raça
me aposso do poleiro
e você dorme no mato
sem poder vir no terreiro

M - Pinto, agora nós vamos
cantar em literatura
eu quero experimentá-lo
hoje aqui em toda altura
você pode ganhar esta
porém com grande amargura

P - pergunte o que tem vontade
não desespere da fé
do oceano, rio e golfo
estreito, lago ou maré
hoje você vai saber
pinto cantando quem é

M - Pinto, você me responda
de pensamento profundo
sem titubear na fala
num minuto ou num segundo
se leu me diga qual foi
a primeira invenção do mundo

P - Respondo porque conheço
vou dar-lhe minha notícia
foi o quadrante solar
pelo povo da Fenícia
os babilônios também
gozaram a mesma delícia

M - Como você respondeu-me
não merece disciplina
hoje aqui não há padrinho
que revogue a sua sina
se você souber me diga
quem inventou a vacina?

P - Não pense que com pergunta
enrasca a mim, Milanês
foi a vacina inventada
no ano noventa e seis
quem estuda bem conhece
que foi Jener Escocês

M - Sua resposta foi boa
de vocação verdadeira
mas queira Deus o colega
suba agora essa ladeira
me diga quem inventou
o relógio de algibeira?

P - No ano mil e quinhentos
Pedro Hélio com façanha
em Nuremberg inventou
essa obra tão estranha
cidade da Baviera
que pertence a Alemanha

M - Pinto, cantando não gosto
de amigo nem camarada
se conhece a história
Roma onde foi fundada?
o nome do fundador
e a data comemorada?

P - Em l7 e 53
antes de Cristo chegar
nas margens do Rio Tibre
isso eu posso lhe provar
Rômulo ali fundou Roma
a 15 milhas do mar

M - Pinto, eu na poesia
quero mostrar-lhe quem sou
relativo o avião
perguntando ainda vou
diga o primeiro balão
quem foi que inventou?

P - Em mil seiscentos e nove
Bartolomeu de Gusmão
no dia oito de agosto
fez o primeiro balão
hoje no mundo moderno
chama-se o mesmo avião

M - Pinto estou satisfeito
já de você eu não zombo
mas não pense que com isto
atira terra no lombo
disponha de Milanês
pra ver se ele agüenta o tombo

P - Milanês, você comigo
ou canta ou perde o valor
você me responda agora
seja que de forma for
de quem foi a invenção
do primeiro barco a vapor?

M - Eu quero lhe explicar
digo não muito ruim
a 16 a 87
você não desmente a mim
o inventor desse barco
foi o sábio Diniz Papim

P - Em que ano inaugurou-se
da Europa ao Brasil
a linha pra esse barco
a vapor e mercantil?
Se não souber dê o fora
vá soprar em um funil

M - Foi um navio inglês
que levantou a bandeira
em 18 a 51
veio a terra brasileira
sendo a nove de janeiro
fez a viagem primeira

P - E qual foi a 1a guerra
feita a barco a vapor?
Você ou diz ou apanha
da surra muda de cor
quebra a viola e deserta
nunca mais é cantador

M - Em l8 e 65
a esquadra brasileira
dentro do Riachuelo
içou a sua bandeira
na guerra do Paraguai
foi a batalha primeira

P - Milanês, você comigo
ou canta muito ou emperra
não pode se defender
salta, pula, chora e berra
qual foi a primeira estrada
de ferro, na nossa terra?

M - Foi quando Pedro II
tinha aqui poderes mil
em 18 e 54
no dia trinta de abril
inaugurou-se em Mauá
a primeira do Brasil

P - Milanês, você é fraco
não agüenta o desafio
eu ainda estou zombando
porque estou de sangue frio
me diga quem inventou
o telégrafo sem fio?

M - Pinto, você não pense
que meu barco vai a pique
em mil seiscentos e oito
na cidade de Munique
Suemering inventou
este aparelho tão chique

P - Eu já vi que Milanês
não responde cousa à toa
se ainda quiser cantar
hoje um de nós desacoa
puxe por mim que vai ver
um pinto de raça boa

M - Pinto, o seu pensamento
pra todo lado manobra
mas eu não conheço medo
barulho pra mim não sobra
é fogo queimando fogo
é cobra engolindo cobra

P - Do pessoal do salão
levantou-se um cavalheiro
dizendo: quero que cantem
pelo seguinte roteiro
Milanês pergunta a Pinto
como passa sem dinheiro

M - Oh! Pinto, você precisa
dum palitó jaquetão
uma manta, um cinturão
uma calça, uma camisa
está de algibeira lisa
não encontra um cavalheiro
que forneça ao companheiro
pra fazer-lhe um beneficio
olhe aí o precipício
como compra sem dinheiro?

P - Eu recomendo a mulher
que compre na prestação
um palitó jaquetão
a camisa se tiver
quando o cobrador vier
ela estej
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