Poemas neste tema
Arte
Guy Corrêa
Um País
Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se
Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis
Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.
843
Flávio Villa-Lobos
Mistério
Uma só palavra tua
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.
e o viver monótono
que me acompanha
ganhará as cores do arco-íris,
subirá as montanhas
do Nepal,
atravessará
a Cordilheira dos Andes,
cruzará o Canal da Mancha
e se perderá
no Triângulo das Bermudas.
Uma só palavra tua
e meus sentidos irão explorar
a Floresta Amazônica,
fotografar
o olho do furacão americano,
visualizar preces no Monte Sinai,
conferir a Muralha da China,
admirar as quedas do Niágara,
visitar as águas da romântica Veneza
e alcançar
as neves do Kilimanjaro.
Uma só palavra tua
e o muro de Berlim que me rodeia
cairá por terra,
libertando-me das garras
do inferno de Java,
abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
e, queimando meus temores,
fará pousar meus amores
na clareira recém-aberta, desenhada
pelo teu eterno sorriso
de Mona Lisa.
884
Georges Emmanuel Clancier
Surrealismo: Revolta e Conquista
O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
902
Gabriel Archanjo de Mendonça
Virtuose
Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
826
Francisco Nóbrega
Ode ao Aleijadinho
Na sorte amarga que curtiste outrora,
pisando a dor a todo momento,
a mim restou de tua memória
uma grandeza imensa ante o sofrimento.
Quisera a vida retornasse seus passos,
e que pudéssemos refazer a história;
arrastaria de ti esta cruz pesada,
e só tua obra restaria em glória.
Poeta foste de cinzel em riste,
tuas imagens são épicos, em nós, gravadas,
e tua famosa arte, em si embala,
comove o alegre e enleva o triste.
O amor acendrado à tua arte,
manteve vida no teu corpo decomposto;
não te deteve a sombra de atroz morte,
nem o sofrimento a que te viste exposto.
No adro da igreja de Matosinhos
deixaste impresso em divino bailado,
nas pedras que dançam e tangem
os profetas, de luz e beleza inebriados.
Na via-sacra tua e do divino
mestre em cedro reveladas,
mais nos consterna o coração
as duas dores tão identificadas.
Expressão maior da raça brasileira,
em ti colheste nossas sagradas auras;
num meio hostil foste a bandeira
de uma belíssima e radiosa causa.
pisando a dor a todo momento,
a mim restou de tua memória
uma grandeza imensa ante o sofrimento.
Quisera a vida retornasse seus passos,
e que pudéssemos refazer a história;
arrastaria de ti esta cruz pesada,
e só tua obra restaria em glória.
Poeta foste de cinzel em riste,
tuas imagens são épicos, em nós, gravadas,
e tua famosa arte, em si embala,
comove o alegre e enleva o triste.
O amor acendrado à tua arte,
manteve vida no teu corpo decomposto;
não te deteve a sombra de atroz morte,
nem o sofrimento a que te viste exposto.
No adro da igreja de Matosinhos
deixaste impresso em divino bailado,
nas pedras que dançam e tangem
os profetas, de luz e beleza inebriados.
Na via-sacra tua e do divino
mestre em cedro reveladas,
mais nos consterna o coração
as duas dores tão identificadas.
Expressão maior da raça brasileira,
em ti colheste nossas sagradas auras;
num meio hostil foste a bandeira
de uma belíssima e radiosa causa.
865
Frei Avertano de Santa Maria
Soneto
Este extático Apolo que está tísico
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?
Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.
Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:
Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?
Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.
Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:
Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.
402
António Ferreira
Carta
Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
1 905
Fábio Afonso de Almeida
Estética
Formas coleantes, uma nuca distante
Pano de fundo de uma paisagem patética
Liquidez perfeita e impressões cotidianas
Nas ruas, nos carros, nas mesas.
Caminho só, passo a passo
Mão nos bolsos, cabeça no céu
Sorriso fraco, assobio distante
Intenção lenta no andar, a esperar
Como espero, sem medo e sem pressa
Mensagens sutis de um querer por querer
Mas querer somente o belo, se possível
O sonho e a visão de uma forma estética.
Se não der, volto amanhã e depois
Assobio mais baixo, a cabeça ironiza
As formas que fogem, quase sem ética (sorrio):
Às vezes são uns olhos, uma boca, umas pernas.
Pano de fundo de uma paisagem patética
Liquidez perfeita e impressões cotidianas
Nas ruas, nos carros, nas mesas.
Caminho só, passo a passo
Mão nos bolsos, cabeça no céu
Sorriso fraco, assobio distante
Intenção lenta no andar, a esperar
Como espero, sem medo e sem pressa
Mensagens sutis de um querer por querer
Mas querer somente o belo, se possível
O sonho e a visão de uma forma estética.
Se não der, volto amanhã e depois
Assobio mais baixo, a cabeça ironiza
As formas que fogem, quase sem ética (sorrio):
Às vezes são uns olhos, uma boca, umas pernas.
726
Urhacy Faustino
exposição de desmotivos ou imposição de motivos
Não há porque amar Dante
se é Rilke quem me seduz.
Não há porque amar Michelangelo
se são Monet, Miró e Van Gogh
que fascinam as meninas
— dos meus olhos.
Não há porque amar Charllote
se é Emily que me tem por horas.
Não há porque explicar a obra de arte.
Muito menos o amor.
se é Rilke quem me seduz.
Não há porque amar Michelangelo
se são Monet, Miró e Van Gogh
que fascinam as meninas
— dos meus olhos.
Não há porque amar Charllote
se é Emily que me tem por horas.
Não há porque explicar a obra de arte.
Muito menos o amor.
792
Eolo Yberê Líbera
Barroco de Minas
O espírito de Bach sobre Ouro Preto
Vivaldi pairando sobre o portal do Carmo
(os três anjos do Aleijadinho saem correndo
chamando o mestre)
Vivaldi pairando sobre o portal do Carmo
(os três anjos do Aleijadinho saem correndo
chamando o mestre)
948
Efer Cilas dos Santos Junior
Cinema
John Ford,John Huston e também o Preminger,
Howard Hawks,Michael Curtiz,Henry King,
Billy Wilder,René Clement e Wyler,
Stanley Donen,Cukor,Victor Fleming,
Robert Wise,Coppola,Milos Forman,
King Vidor,B.Mile,Raoul Walsh,
Woody Allen,Sergio Leone e Kasdan
Stanley Kubrick,Buñuel,Aldrich.
Todos são nomes imortais,honrosos,
Assim como seus filmes grandiosos,
Que,para sempre,entre nós,ficarão.
E as gerações futuras encantadas,
Assistirão a tudo emocionadas
E aqueles nomes memorizarão!
Howard Hawks,Michael Curtiz,Henry King,
Billy Wilder,René Clement e Wyler,
Stanley Donen,Cukor,Victor Fleming,
Robert Wise,Coppola,Milos Forman,
King Vidor,B.Mile,Raoul Walsh,
Woody Allen,Sergio Leone e Kasdan
Stanley Kubrick,Buñuel,Aldrich.
Todos são nomes imortais,honrosos,
Assim como seus filmes grandiosos,
Que,para sempre,entre nós,ficarão.
E as gerações futuras encantadas,
Assistirão a tudo emocionadas
E aqueles nomes memorizarão!
871
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
1 014
João de Deus de Nogueira Ramos
Omissão
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"
1 613
Carla Dias
Azul
O que vê, são pedras que o tempo cuidou para que se transformassem numa "obra além da arte".
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.
O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.
As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,
apoiada,
escondendo-se os vestígios de seu olhar.
Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.
A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.
Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.
Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.
As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.
A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!
A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.
Queria ultrapassar.
Ele bebia sua bebida com gosto de nada.
A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.
A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.
Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.
Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!
Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!
Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.
Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...
o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.
E havia aquele que optava pela inerte indiferença.
Ele queria a provocante sensação de existir.
Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,
sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,
o gosto,
o gozo.
Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.
O que há entre seu dia e sua noite?
Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!
Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...
e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.
Há um baú cheio de revelações e,
apesar da necessidade de revira-lo,
jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.
E eu,
passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!
É que eu amo ...
E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.
Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.
Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.
Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios
e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.
Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.
Então, amo um sonho inquieto,
um homem que vive a caminhar ...
ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.
Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.
Ele a pega,
beleza ressequida e de essência medieval,
visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,
lá está estampada!
Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.
O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.
Pousam olhares azuis de "ele"
que ama e confunde-se ao sentir
o beijo que não aconteceu.
Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!
Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.
O quadro umedece a seca e estéril realidade.
Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.
Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.
Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.
A vida fere e cura.
Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...
tecendo sonhos ...
colhendo luas ....
olhando o céu ... azul.
1 138
Carlos Newton Júnior
Pantera
Jamais a vi verdadeira
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
— o hálito quente e o frio olhar —
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
952
Cludia Nobre de Oliveira
Poetas
Toda beleza que Deus criou o homem só pode alcançar por palavras
suas eternas companheiras bem como seu coração
para expressar e soar aos sentidos alheios toda essa vibração
e ecoar no fundo da alma aquilo que se tem de melhor a emoção
que leva a campos floridos, mares abertos vidas e seres complexos
dessa natureza só bem escrita e bem trabalhada pelas mãos do poeta
maior Deus criador dessa beleza e o homem pequenino ser dessa
reprodução divina.
de, sede de vida.
suas eternas companheiras bem como seu coração
para expressar e soar aos sentidos alheios toda essa vibração
e ecoar no fundo da alma aquilo que se tem de melhor a emoção
que leva a campos floridos, mares abertos vidas e seres complexos
dessa natureza só bem escrita e bem trabalhada pelas mãos do poeta
maior Deus criador dessa beleza e o homem pequenino ser dessa
reprodução divina.
de, sede de vida.
822
Cleonice Rainho
Lição de Mitologia
Era deus com d pequeno
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
1 084
Chico Buarque
Choro bandido
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons
1 607
Pe. Osvaldo Chaves
Culto de Ricardo Reis
A um infiel
Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.
Horácio é um rio...
Batiza-te, infiel, nas santas águas,
Receberás o espírito!
Mergulha de uma vez,
Terás em plenitude
A graça e a saúde
Para entender e amar Ricardo Reis.
949
José Castello
Depois da inútil excitação
Não quero polemizar com Caetano Veloso. Não tenho cacife para isso e, além do mais, correria o risco de ferir a mim mesmo. Desde muito cedo, Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa ocupam postos de honra em minha mitologia pessoal. Não é confortável polemizar com mitos. Gil é zen, Gal é doce e silenciosa, sobra Caetano que, de vez em quando, gosta de dar um bote.
Algo me diz que Caetano Veloso é o mais importante poeta brasileiro desse fim de século. É que ainda não temos clareza para ver. Mas o crítico literário Wilson Martins não merece as palavras desastradas que Caetano, em entrevistas recentes, lhe destinou. Não sou amigo de Wilson Martins, com quem estive uma única vez em um encontro profissional. Ele me pareceu um homem tímido, que fala baixo e raramente sorri, e que desarma na origem qualquer tentativa de envolvimento. Sinto- me, portanto, livre para escrever.
Wilson Martins leu e não gostou de Estorvo, o romance de Chico Buarque. Coerente, escreveu a respeito e exibiu sua coleção de argumentos. Caetano leu a crítica de Wilson Martins e não gostou do que leu. Até aqui, nada demais: ambos exerceram seus direitos de ler e de não gostar. É assim que as idéias circulam e se alimentam.
Não li Estorvo. Não li também, a célebre História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Tenho a esperança tola de que minhas carências literárias se transformem, agora, em uma vantagem. Outro dia, ouvi Mauro Rasi dizer que já passou da época em que se sentia obrigado a "ler" tudo. Foi a partir daí que pôde escutar melhor a própria voz - e escrever peças formidáveis como Pérola. Enquanto puder ouvir minha voz com mitidez já estarei bem contente.
Sou, como quase todo mundo, um admirador de Chico Buarque. Leio, e quase sempre gosto das colunas literárias que Wilson Martins assina na imprensa. Continuo a admirar ambos, apesar de Wilson não ter gostado do romance de Chico. Bem, eu sou um homem comum e isso me resguarda, posso ter a chance de não me envolver no que não é meu.
Já gostei de polêmicas, que me pareciam exercícios esplêndidos para dinamizar o mundo, mas de uns tempos para cá elas passaram a me desinteressar. Agora, quando me defronto com uma controvérsia pública, prefiro me apegar a uma sentença escrita, certa vez, por Hélio Pellegrino. Enfiado à força em uma polêmica entre Eduardo Mascarenhas e José Guilherme Merchior a respeito da validade científica da psicanálise, e decidido a não se envolver, Hélio escreveu no Jornal do Brasil um célebre artigo cuja força maior estava no título: "Comigo não, violão". Não era preciso uma só linha a mais.
Polêmicas são bichos vorazes, que sugam tudo à sua volta. São máquinas de extorsão intelectual. Se lhes damos ouvidos, nem percebemos e já fomos enfiados em uma posição. Pellegrino entendeu que a grande saída, meio inerte, e que os crédulos podem atribuir ao comodismo, está na independência. Está em desprezar as saídas e dar preferências às portas de entrada.
Reconheço nos polemistas, apesar disso, uma grande fibra. Sempre me espanto quando vejo um homem como Bruno Tolentino a bramir solitário suas idéias contra a vileza reinante. Precisamos, eu acho, de homens ferozes e indignados que agitem a mornidão dos hipócritas. Mas o cntrário da mornidão é o desprezo malévolo. Tolentino, quando polemiza, e apesar de seu estilo impetuoso, ampara-se sempre em sólidos argumentos. Podemos concordar, ou discordar, mas ficamos obrigados a ouvi-lo.
Caetano, que é um poeta ágil e refinado, se deixa tomar às vezes por uma desnecessária ânsia de exposição. Nessas horas, despreza os argumentos e apenas rosna. É isso o mais decepcionante: que alguém tão sábio, tão desperto, precise se amparar no vazio das sentenças categóricas.
Eu me pergunto, no fim das contas, de que servem essas manifestações de ira. Me parece que elas não servem para nada. Temos, por algum tempo, o sentimento reconfortante de uma grande agitação, como se enfim o mundo estivesse andando. Mas, e depois, o que sobra além da inútil excitação?
É uma pena que o principal - um debate em torno da produção literária contemporânea, tendo Estrvo como âncora - nos tenha escapado. Diante das vozes peremptórias, o livro ficou esquecido.
Ainda vou ler Estorvo. Vou continuar também a ouvir as canções irrepreensíveis de Caetano Veloso e a ler as críticas severas de Wilson Martins. Polêmicas não me impressionam mais. A vida não é um duelo de espadas.
Vale, aqui, lembrar de Leila Diniz. Diante da pergunta "do que você se arrepende", ela não vacilou. "Não me arrependo de nada do que fiz. Só me arrependo do que não fiz."
(in O Estado de São Paulo, Caderno 2, 20.05.96)
Algo me diz que Caetano Veloso é o mais importante poeta brasileiro desse fim de século. É que ainda não temos clareza para ver. Mas o crítico literário Wilson Martins não merece as palavras desastradas que Caetano, em entrevistas recentes, lhe destinou. Não sou amigo de Wilson Martins, com quem estive uma única vez em um encontro profissional. Ele me pareceu um homem tímido, que fala baixo e raramente sorri, e que desarma na origem qualquer tentativa de envolvimento. Sinto- me, portanto, livre para escrever.
Wilson Martins leu e não gostou de Estorvo, o romance de Chico Buarque. Coerente, escreveu a respeito e exibiu sua coleção de argumentos. Caetano leu a crítica de Wilson Martins e não gostou do que leu. Até aqui, nada demais: ambos exerceram seus direitos de ler e de não gostar. É assim que as idéias circulam e se alimentam.
Não li Estorvo. Não li também, a célebre História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Tenho a esperança tola de que minhas carências literárias se transformem, agora, em uma vantagem. Outro dia, ouvi Mauro Rasi dizer que já passou da época em que se sentia obrigado a "ler" tudo. Foi a partir daí que pôde escutar melhor a própria voz - e escrever peças formidáveis como Pérola. Enquanto puder ouvir minha voz com mitidez já estarei bem contente.
Sou, como quase todo mundo, um admirador de Chico Buarque. Leio, e quase sempre gosto das colunas literárias que Wilson Martins assina na imprensa. Continuo a admirar ambos, apesar de Wilson não ter gostado do romance de Chico. Bem, eu sou um homem comum e isso me resguarda, posso ter a chance de não me envolver no que não é meu.
Já gostei de polêmicas, que me pareciam exercícios esplêndidos para dinamizar o mundo, mas de uns tempos para cá elas passaram a me desinteressar. Agora, quando me defronto com uma controvérsia pública, prefiro me apegar a uma sentença escrita, certa vez, por Hélio Pellegrino. Enfiado à força em uma polêmica entre Eduardo Mascarenhas e José Guilherme Merchior a respeito da validade científica da psicanálise, e decidido a não se envolver, Hélio escreveu no Jornal do Brasil um célebre artigo cuja força maior estava no título: "Comigo não, violão". Não era preciso uma só linha a mais.
Polêmicas são bichos vorazes, que sugam tudo à sua volta. São máquinas de extorsão intelectual. Se lhes damos ouvidos, nem percebemos e já fomos enfiados em uma posição. Pellegrino entendeu que a grande saída, meio inerte, e que os crédulos podem atribuir ao comodismo, está na independência. Está em desprezar as saídas e dar preferências às portas de entrada.
Reconheço nos polemistas, apesar disso, uma grande fibra. Sempre me espanto quando vejo um homem como Bruno Tolentino a bramir solitário suas idéias contra a vileza reinante. Precisamos, eu acho, de homens ferozes e indignados que agitem a mornidão dos hipócritas. Mas o cntrário da mornidão é o desprezo malévolo. Tolentino, quando polemiza, e apesar de seu estilo impetuoso, ampara-se sempre em sólidos argumentos. Podemos concordar, ou discordar, mas ficamos obrigados a ouvi-lo.
Caetano, que é um poeta ágil e refinado, se deixa tomar às vezes por uma desnecessária ânsia de exposição. Nessas horas, despreza os argumentos e apenas rosna. É isso o mais decepcionante: que alguém tão sábio, tão desperto, precise se amparar no vazio das sentenças categóricas.
Eu me pergunto, no fim das contas, de que servem essas manifestações de ira. Me parece que elas não servem para nada. Temos, por algum tempo, o sentimento reconfortante de uma grande agitação, como se enfim o mundo estivesse andando. Mas, e depois, o que sobra além da inútil excitação?
É uma pena que o principal - um debate em torno da produção literária contemporânea, tendo Estrvo como âncora - nos tenha escapado. Diante das vozes peremptórias, o livro ficou esquecido.
Ainda vou ler Estorvo. Vou continuar também a ouvir as canções irrepreensíveis de Caetano Veloso e a ler as críticas severas de Wilson Martins. Polêmicas não me impressionam mais. A vida não é um duelo de espadas.
Vale, aqui, lembrar de Leila Diniz. Diante da pergunta "do que você se arrepende", ela não vacilou. "Não me arrependo de nada do que fiz. Só me arrependo do que não fiz."
(in O Estado de São Paulo, Caderno 2, 20.05.96)
986
José Castello
Projeto literário é muito coerente e afinado
Pode-se não gostar de suas ficções, por vezes excessivamente cifradas e retorcidas, mas
jamais roubar-lhe a singularidade e a obstinação - ele tem a medida precisa das limitações
do fazer literário
Autran Dourado é um escritor imune às ilusões do tempo, aos apelos da moda e à voracidade dos críticos. Essa atitude solitária não significa, porém, desinteresse pela técnica e pela perfeição. Muito ao contrário. Talvez nenhum outros escritor brasileiro vivo tenha um projeto literário tão coerente e afinado quanto ele. Pode-se não gostar das ficções de Autran Dourado, por vezes excessivamente cifradas e retorcidas, mas jamais roubar-lhe a singularidade e a obstinação.
Há pouco tempo, Autran reescreveu seu primeiro romance, Tempo de Amar, de 1952. O resultado dessa viagem rumo a quarenta e tantos anos atrás, Ópera dos Fantoches, publicado no verão de 1995, é antes de tudo um atestado de que a literatura é, para ele, um ofício interminável, que não pode ser aferido pelas tabelas sensatas, mas inúteis, do tempo lógico.
Ópera dos Fantoches, a reprise moderna de Tempo de Amar, é ainda um romance imperfeito, que desperta ainda mais insatisfação e que, por isso mesmo, não cessa de desafiar seus leitores. Não se pode lê-lo distraidamente; ou o leitor se engaja, ou o deixa de lado. É, como todos os grandes livros, uma obra sem solução. O livro se torna um emblema da confiança que Autran Dourado deposita na imperfeição. O escritor perfeito, à moda dos pesadelos de Borges, é um homem eternamente insatisfeito, que se dedica a escrever uma obra sem fim, que ninguém lerá. A perfeição pertence à ordem do impossível. Transplantada para a realidade, ela se transforma, apenas, em uma muralha de vaidade e um obstáculo.
Autran Dourado, ao contrário, tem a medida precisa das limitações do fazer literário. Sabe que lida com um artifício e que escrever é, em última instância, falsificar. Suas ficções são, antes de tudo, respostas originais a questões técnicas que ele não se cansa de reformular. A cada livro, Autran constrói para si mesmo novos problemas e depois escreve para resolvê-los. Seus personagens, ele já disse isso uma vez, têm seus destinos ligados à solução dessas charadas teóricas. São filhos da técnica e, justamente por isso, conseguem tocar o humano.
Em Autran Dourado, a técnica é a grande protagonista. Com a postura de um vigia incansável, ele chega a comparecer pessoalmente à trama mascarado como João da Fonseca Nogueira, escritor como ele, personagem duplo e perigoso, que circula por livros como O Risco do Bordado, A Serviço Del-Rey e Um Artista Aprendiz. Nogueira, o lugar-tenente de Autran, tem porém a visão desfocada pelo moralismo, o que o distancia irremediavelmente de seu criador, um artista para quem a ficção é um universo sem limites que tem a técnica como única fronteira moral.
A leitura dos livros de Autran Dourado desmente os temores daqueles que julgam que a racionalidade vem apenas matar a imaginação. Seus livros comprovam que só sobre um forro lógico consistente, com suas leis espessas, valores firmes e limites, a imaginação pode de fato imperar. A imaginação pura não pode ser dita. Nenhum livro a comporta. Fosse o contrário, e todas as crianças seriam romancistas.
"in" O Estado de S. Paulo - Caderno 2
jamais roubar-lhe a singularidade e a obstinação - ele tem a medida precisa das limitações
do fazer literário
Autran Dourado é um escritor imune às ilusões do tempo, aos apelos da moda e à voracidade dos críticos. Essa atitude solitária não significa, porém, desinteresse pela técnica e pela perfeição. Muito ao contrário. Talvez nenhum outros escritor brasileiro vivo tenha um projeto literário tão coerente e afinado quanto ele. Pode-se não gostar das ficções de Autran Dourado, por vezes excessivamente cifradas e retorcidas, mas jamais roubar-lhe a singularidade e a obstinação.
Há pouco tempo, Autran reescreveu seu primeiro romance, Tempo de Amar, de 1952. O resultado dessa viagem rumo a quarenta e tantos anos atrás, Ópera dos Fantoches, publicado no verão de 1995, é antes de tudo um atestado de que a literatura é, para ele, um ofício interminável, que não pode ser aferido pelas tabelas sensatas, mas inúteis, do tempo lógico.
Ópera dos Fantoches, a reprise moderna de Tempo de Amar, é ainda um romance imperfeito, que desperta ainda mais insatisfação e que, por isso mesmo, não cessa de desafiar seus leitores. Não se pode lê-lo distraidamente; ou o leitor se engaja, ou o deixa de lado. É, como todos os grandes livros, uma obra sem solução. O livro se torna um emblema da confiança que Autran Dourado deposita na imperfeição. O escritor perfeito, à moda dos pesadelos de Borges, é um homem eternamente insatisfeito, que se dedica a escrever uma obra sem fim, que ninguém lerá. A perfeição pertence à ordem do impossível. Transplantada para a realidade, ela se transforma, apenas, em uma muralha de vaidade e um obstáculo.
Autran Dourado, ao contrário, tem a medida precisa das limitações do fazer literário. Sabe que lida com um artifício e que escrever é, em última instância, falsificar. Suas ficções são, antes de tudo, respostas originais a questões técnicas que ele não se cansa de reformular. A cada livro, Autran constrói para si mesmo novos problemas e depois escreve para resolvê-los. Seus personagens, ele já disse isso uma vez, têm seus destinos ligados à solução dessas charadas teóricas. São filhos da técnica e, justamente por isso, conseguem tocar o humano.
Em Autran Dourado, a técnica é a grande protagonista. Com a postura de um vigia incansável, ele chega a comparecer pessoalmente à trama mascarado como João da Fonseca Nogueira, escritor como ele, personagem duplo e perigoso, que circula por livros como O Risco do Bordado, A Serviço Del-Rey e Um Artista Aprendiz. Nogueira, o lugar-tenente de Autran, tem porém a visão desfocada pelo moralismo, o que o distancia irremediavelmente de seu criador, um artista para quem a ficção é um universo sem limites que tem a técnica como única fronteira moral.
A leitura dos livros de Autran Dourado desmente os temores daqueles que julgam que a racionalidade vem apenas matar a imaginação. Seus livros comprovam que só sobre um forro lógico consistente, com suas leis espessas, valores firmes e limites, a imaginação pode de fato imperar. A imaginação pura não pode ser dita. Nenhum livro a comporta. Fosse o contrário, e todas as crianças seriam romancistas.
"in" O Estado de S. Paulo - Caderno 2
842
Castro Alves
Soneto
Á artista a Sra. D. JESUFNA MONTÁNI
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
DE GIOVANI na noite do espetáculo
em favor do Monte Pio da Bahia.
MOTE
"Das almas grandes a nobreza é esta."
GLOSA
AQUI, onde o talento verdadeiro
Não nega o povo o merecido preito;
Aqui onde no público respeito
Se conquista o brasão mais lisonjeiro.
Aqui onde o gênio sobranceiro
E, de torpes calúnias, ao efeito,
Jesuína, dos zoilos a despeito,
És tu que ocupas o lugar primeiro!
Repara como o povo te festeja...
Vê como em teu favor se manifesta,
Mau grado a mão, que, oculta, te apedreja!
Fazes bem desprezar quem te molesta;
Ser indif’rente ao regougar da inveja,
"Das almas grandes a nobreza é esta."
1 439
Castro Alves
A Eugênia Câmara
AINDA UMA VEZ tu brilhas sobre o palco,
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
Ainda uma vez eu venho te saudar...
Também o povo vem rolando aplausos
Às tuas plantas mil troféus lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A estrela-dalva pelo céu rasgou...
Errante estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal venceste?
Chorar!... que importa, se afinal sorris?
A tempestade se não rompe a estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.
Ouves o aplauso deste povo imenso,
Lava, que irrompe do poplar vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos
Referve ardente do porvir na mão.
O povo o povo
Maldiz as trevas, abençoa a luz
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:
— Pra ti altares, não do poste a cruz.
Que queres? Ouve! — são mil palmas férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às plantas,
Toca no fronte — coroada estás.
Descansa, pois, como o condor nos Andes,
Pairando altivo sobre terra e mar,
Pousa nas nuvens pra arrogante em breve
Distante ... longe ... mais além voar.
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