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Poemas neste tema

Árvores, florestas e montanhas

Florisvaldo Mattos

Florisvaldo Mattos

Sistema Agrário

Meu canto gravado de um saber oculto de águas
esquecidas fabricarei no campo com suor
de rudes trabalhadores, na chuva sepultando-se
de búzios pontuais, lamentos e desgraças.
Forçosamente rústico caindo sobre troncos,
pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo
sobre plantações. Sobre homens caindo. Não os sei
com metralhadoras e mortes pesadas flutuando
em suas mãos calosas de sonho e agricultura.
Senão com amargo clamor ao meio-dia, quando
com rijas ferraduras rubro sol golpeia-lhes
decisivo o tórax sombrio. De sangue a sua
permanência rural de árvore e vento.

Materiais e diários, continuamente os vejo
por frios vales e serras recolhendo incertezas
e dores unânimes, pontes que lhes pesam úmidas,
como rios perduráveis, sobre o rosto seguro (banhados
tão por cinzentos rios, girassóis destroçados
vigiando rebanhos e metais decadentes
revisando no tempo em sonora aliança), como
estranhas biografias e equipagens
de passados cavaleiros, em derrota.

Impossuídas colheitas vão durando,
como denso muro de sono cicatrizado
em seu corpo amanhecido sobre a terra, que
pensamentos cruéis e sombras apunhalam.
Meu canto fabricarei com lágrimas e suor
subterrâneo de músculos e ferramentas

Maduram no verde dos cacauais suas asas telúricas.
Nas semeaduras, sob tempestade, reside no solo
seu mecanismo de luta e existência
de incessante labor camponês. Agrário sempre.
Suas armas essenciais, sua geometria agreste
hão de impregnar-se necessárias de úmidas
paisagens agrícolas de horror precipitando-se
sobre homens em silêncio nas estradas pacíficas.
Eles que sonhavam com instrumentos longínquos
terão na cabeça, rugindo sempre uma voz de ameaça,
quando a seus pés um ruído grosso de sacrifícios
vai sua boca de amor sem pão revolucionando.

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Fernando Guedes

Fernando Guedes

O Fruto

Nos caminhos da aldeia
germina a lama que o Inverno semeou.
Soltos, cabelos grossos cobrem corpos mortos.
Faminta, a criança trinca inutilmente
a murcha flor do cardo.
No lagar, homens sem vindima
esmagam grainhas ressequidas.
Pelos montes, uma recordação tênue
agita o feno levemente;
a mulher mais velha
guarda na memória a imagem de uma avó,
um coração ardendo na lareira.
Acendem-se as lâmpadas ao escurecer,
antes da primeira estrela.
Para lá de janelas abertas
desconhecidos encontram-se nos leitos.
Os carros de bois passam vazios no caminho,
sem ruído, na lama.
Paz sem espada.

Só na torre a torre,
uma rosa mantendo seu perfume.
Pela porta inviolada
escapam-se as palavras,
uma a uma,
formando o discurso,
o canto, o cântico da flor
possuída no princípio dos caminhos:
Firmei minhas raízes
sobre a tua cabeça
e elevei-me,
oliveira a florir no campo,
plátano junto ao rio.
Cedo ao discurso, ao canto,
para encaminhar teu ardor
para o meu perfume
forte, sedutor como a canela.
Sou a torre e a porta,
sou a rosa.

E coloca um sinal sobre o teu coração:
por ti nasceu a novilha
entre o tojo rapado.
Efigênia fugiu mas eu fiquei
— em breve terás vento,
apresta teus navios prá batalha.
No golpe mais forte de uma espada,
na lama que o teu ódio levantar,
na hora do saque, tu me encontrarás:
sou mais ágil do que o teu movimento
e todas as riquezas estão em minhas mãos.

Repousa na vitória deste encontro.
Trago comigo as tuas sete feridas:
vou levar-te para a tua tenda,
cobrir o teu sono com os meus cabelos.

Passados os três dias e as noites,
ao acordar, ver-me-ás no centro da luz,
sentada à tua porta.
Não procures a torre
nem a flâmula da rosa:
eu estou
como sempre fui,
e a minha formosura
te deslumbrará.

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Daniel Cruz Filho

Daniel Cruz Filho

Canto do Homem no Kósmos

Canto I

à pedra hei de permitir único destino:
reencarnação de grão em grão, contínua salina;
e tudo — resíduos de pedra — a que se destina?

palmilhando o Saara sob o inclemente sol
aportei — cercado de toda a gente — no meu deserto:
era o inferno, a sagrada maldição — eu, em caracol, incerto

a pedra avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil candura
ela me mostra o avesso da brandura

a pedra avalia a minha aventura:
sou lânguido trânsito, a pluma no ar,
ela, o nó definitivo, fogo de estrela a brilhar

mais que pedra, ela somente pedra,
(são tantas as cores e formas)
só para rimar: desejo uma mulher Fedra

inscrita na pedra a síntese da semente
ao sopro de vida na chama da vela
e entre uma e outra o tempo da rosa amarela

ei-la pedra: toda ela me fascina,
mas o que assaz a ilumina
é a fenda eterna, precipício a me mergulhar

pedra tibetana, pedra de corais
elaborando no mar a ilha, o atol,
espelhando a luz noturna de um sol

outono, a folha solitária apodrece
mas sei renascerá pedra: é
na pedra que o tempo amanhece e esmaece

é no pedra que o espaço descreve seu vôo,
seu arco circunflexo: a bela íris
de um tigre refletindo a imagem da caça

mas tudo passa, tudo passa,
até o doce murmúrio do vento
afagando lá fora a folha solitária agora

Canto II

afagando lá fora a folha solitária
o doce murmúrio do vento
rege nossa orquestra: sinfonia do movimento

é sentimento, assaz sentimento, o vento
a me fustigar o corpo que ainda sustento,
mais que isso: verso e anverso do invisível

ele — puríssimo oxigênio, nobre elemento —
azula a Terra e põe o cosmonauta a recitar:
"Terra é azul" — Yuri sem querer fez um blue

o vento aventa sempre a dor imprevisível:
ao mar maremoto, ciclone, tufão, furacão,
anunciando um holocausto em germinação

mas se ele traz instantes de tormento,
angústia sem fim ao marinheiro — vendaval,
encantou-se Charles Darwin numa chuva tropical

no Saara árido vento o homem cega,
é névoa, oásis inatingível em imagem,
o avesso do Raso da Catarina: miragem

acaricia o mar, acaricia o peixinho na gaivota,
o Senhor do Bonfim acaricia no sacra Galeota:
ó Senhora da Conceição protegei-nos dos maus ares!

acaricia o Velho e o Mar de Hemingway,
molda o coqueiral de Guarajuba, Itacimirim,
Praia do Forte — faz um célebre Carybé de mim!

o cantor assobia uma bossa nova,
um sambinha de uma nota só:
por que batizei a primogênita Slanowa.

Islanowa, Isla Nueva, Ilha Nova?
um Leão Tolstoi me concedeu a palavra,
apenas emudeci Paslowa, Maslowa

dos Alpes Vollenweider metaliza White winds,
minha morada no verão: eterna Guarajuba,
mas o sábio índio traduz a raiz do sopro: Pituba

Canto III

o sábio índio traduz sopro: Pituba,
o sábio índio é Tupi. Guarany, Txucarramãe,
embalde repito zil vezes: mar é Guarajuba

e nem me toca se no oca do Aurélio
ela (enseada Guarajuba) significa árvore,
ave, peixes, posto que um baiano fê-la

mar, mar aberto, mar de mármore
ou tudo — resíduos de pedra — não passa
de uma indígena rima ricaça?

o mar em março avalia a minha aventura,
desenvoltura do corpo e da alma: nadar
boiando no Porto da Barra (baby que loucura!)

o mar avalia a minha aventura:
se faço versos com gentil brandura
ele é presságio, mais presságio — ágil

ágil como o cão amarelo: Guarajuba,
Guararruba — assim me diz o herdeiro espanhol,
o cão mais belo e arisco e noturno, sem juba

mas quê sei do mar se não me bronzeio ao sol?
mas quê sei do mar se não ouço teu suave sopro,
se não edifico castelos de mármore, oca, iglu?

A desmoronar, a desmoronar, feito amar,
a larga vaga traga o poema e
emudece a pena, penaliza a brisa em Santanas!

ao mar lacrimejam Nilos e Amazonas,
Pororocas — ouça a tua soledade em foz
e a recôndita fonte: placidez em silente voz

o rio não é do mar espelho
antes, milagres de São Francisco:
se na caatinga seca, acolá revolta feito Corisco

lavadeiras-de-nossa-senhora circunscrevem ondas,
boiam focas marinhas em píncaros de icebergs,
mas o fogo ronca e assalta nosso coração albergue

Canto IV
o fogo ronca e degela em primaveras icebergs
(ápices de água, morada de focas e leões-marinhos)
e assalta e assola meu árido coração albergue

doce, salobro, marinho, num anônimo plâncton
a vulcânica mão do homem viola, viola
da vida a glória, de Deus luz e dádiva

e fere a ferida mais ferrenha, dolorida,
desafinando o cântico de Yuri Gágarin:
Terra à vista, terra na Terra, Terra is blue!

o fogo ronca, a água banha, a brisa sopra
(não a maresia que enferruja vídeos na Pituba)
e plasma-se novo (ou o mesmo?) plâncton de vida

Vulcanu — eis-me aqui: vil cão
a flor mulher? lavas do Vesúvio obcecado
mais uma vez: cão, cão, cão enciumado

infante, exclamei inocente à Santa Rita:
dá-me tua benção, ó Santo, tua benção!
minha mãe esfaqueando galos no quintal

prepara, possessa, caruru de São Cosme e Damião
o olhar silencioso, incógnito, da sacra imagem
pôs-me, lúdico, a atiçar velas em chamas

sobre a bela colcha bordado pela negra Aniceta,
colcha de retalhos — resíduos de Carmen artesã:
como arde em fogo o que a memória reclama!

arde em fogo ao homem o milenar drama
(no Japão hiberna, Vesúvios incendiando Pompéias):
se aqueces no coração o inclemente sol

— gases, coisa magmática, lama, lama, lama-
incerto, no Saara deserto, à pedra declama
genesis, farol, caos e Kósmos, mítico homem em caracol

rima, rima e rima, mais que rima,
à pedra declama em continua salina:
a que se destina? a que se destina? a que se destina?

Canto V

meu destino está inscrito numa pedra angular,
numa pirâmide — catacumba e perfeição — prismática,
jogo de búzios: lindíssimas conchinhas do mar

ó Destino, filho do Caos, iluminai-nos
com teus olhos sem luz no imensa Noite:
às Parcas ordenai nossa sorte em vossa urna!

erguemos uma estátua à Liberdade na América
mas na África pobres e cegos irmãos arianos
aprisionam nosso coração em melancólicos apartados

ó Destino erguemos estátuas como a vossa
(às mãos sustentas depositário de sortilégios
e flutuas qual a lua sobre a Terra nossa)

o destino avalia a minha aventura:
se desrazão é estar em loucura
faço versos, palavreio, à árida secura

a que se destina o homem e sua pedra,
nauta, argonauta, cosmonauta,
à Terra, à Lua, Marte — fenda infinitesimal?

eterna, enigmática fenda a me mergulhar:
oráculo, contemplo a tua esfinge
e finges ao eclipsar meu olhar vesgo

o código genético, a gravidade do sistema solar
mas, resoluto, transcendo ventos e estrelas
ao ungir chagas, a galopar óbices cavalgar

porquanto a pedra em grão em grão refaz
e desfaz e, ressurrecta, nos põe
no crespusculatório a eternizar-nos no linhagem

linhagem de uma raça cuja linguagem
a palavra domou, mas ainda hesita entre flor e canhão
plâncto
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Sub Tegmine Fagi

Sub Tegmine Fagi

A Melo Morais

Dieu parle dans Ia calme plus haut que dans Ia tempête.
Mickiewicz
Deus nobis haec otia fecit.
Vergilio
Amigo! O campo é o ninho do poeta...
Deus fala, quando a turba está quieta,

As campinas em flor.
— Noivo — Ele espera que os convivas saiam...

E nalcova onde lâmpadas desmaiam

Então murmura — amor —

Vem comigo cismar risonho e grave. . .

A poesia — é uma luz ... e a alma — uma ave...

Querem — trevas e ar.

A andorinha, que é a alma — pede o campo,

Pra voar... pra brilhar.

A poesia quer sombra — é o pirilampo.

Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas...

Que perfume nas doces maravilhas,

Onde o vento gemeu!...

Que flores douro pelas veigas belas!

... Foi um anjo coa mão cheia de estrelas

Que na terra as perdeu.

Aqui o éter puro se adelgaça...

Não sobe esta blasfêmia de fumaça

Das cidades pra o céu.

E a Terra é como o inseto friorento

Dentro da flor azul do firmamento,

Cujo cálix pendeu!.

Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas

Leva a concha dourada... e traz das plagas

Corais em turbilhão,

A mente leva a prece a Deus — por pérolas

E traz, volvendo após das praias cérulas,

— Um brilhante — o perdão!

A alma fica melhor no descampado...

O pensamento indômito, arrojado

Galopa no sertão,

Qual nos estepes o corcel fogoso

Relincha e parte turbulento, estoso,

Solta a crina ao tufão.

Vem! Nós iremos na floresta densa,

Onde na arcada gótica e suspensa

Reza o vento feral.

Enorme sombra cai de enorme rama...

É o Pagode fantástico de Brama

Ou velha catedral.

Irei contigo pelos ermos — lento —

Cismando, ao pôr do sol, num pensamento

Do nosso velho Hugo.
— Mestre do mundo! Sol da eternidade!...

Para ter por planta a humanidade,

Deus num cerro o fixou.

Ao longe, na quebrada da colina,

Enlaça a trepadeira purpurina

O negro mangueiral!...

Como no Dante a pálida Francesca,

Mostra o sorriso rubro e a face fresca

Na estrofe sepulcral.

O povo das formosas amarilis

Embala-se nas balsas, como as Wíllis

Que o Norte imaginou.

O antro — fala... o ninho sestremece...

A dríade entre as folhas aparece...

Pan na flauta soprou! ...

Mundo estranho e bizarro da quimera

A fantasia desvairada gera

Um paganismo aqui.

Melhor eu compreendo então Vergílio...

E vendo os faunos lhe dançar no idílio,

Murmuro crente: - eu vi!

Quando penetro na floresta triste,

Qual pela ogiva gótica o antiste,

Que procura o Senhor,

Como bebem as aves peregrinas

Nas ânforas de orvalho das boninas,

Eu bebo crença e amor!. . .

E à tarde, quando o sol - condor sangrento

No ocidente se aninha sonolento,

Como a abelha na flor...

E a luz da estrela trêmula se irmana

Coa fogueira noturna da cabana,

Que acendera o pastor,

A lua - traz um raio para os mares...

A abelha - traz o mel... um trenó aos lares

Traz a rola a carpir...

Também deixa o poeta a selva escura

E traz alguma estrofe, que fulgura,

Pra legar ao porvir!...

Vem! Do mundo leremos o problema

Nas folhas da florestaou do poema,

Nas trevas ou na luz...

Não vês?... Do céu a cúpula azulada,

Como uma traça sobre nós voltada,

Lança poesia a flux!...

Boa-Vista — 1867

Castro Alves

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