Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
João dos Sonhos
Ave breve dos seios
Ave breve dos seios em vôo
florindo nos galhos
que esta voz velou
Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo
Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou
Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços
Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.
florindo nos galhos
que esta voz velou
Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo
Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou
Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços
Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.
989
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 052
Murillo Mendes
A Cadeira Elétrica
Uma noite – talvez avisem no jornal –
Apertarei um botão no rochedo de carne,
O mar jorrará assim, aos borbotões,
Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho.
Alguém oferecerá o socorro das padiolas
Da terra vermelha, talvez não atenderei.
Várias figueiras murcharão de inveja,
Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente
Que estou morre não morre, ninguém escutará.
As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum
Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago
Virão me buscar – o noivo está chegando –,
Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo
Alguma menina meiga e pensativa
Desfolhasse um malmequer em minha intenção.
Apertarei um botão no rochedo de carne,
O mar jorrará assim, aos borbotões,
Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho.
Alguém oferecerá o socorro das padiolas
Da terra vermelha, talvez não atenderei.
Várias figueiras murcharão de inveja,
Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente
Que estou morre não morre, ninguém escutará.
As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum
Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago
Virão me buscar – o noivo está chegando –,
Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo
Alguma menina meiga e pensativa
Desfolhasse um malmequer em minha intenção.
1 036
José Augusto Seabra
Sangria
"Como grandes lágrimas de sangue escorrem folhas dos ramos" (George Bacovia)
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
1 079
Wallace Stevens
Anecdote of the Jar
Anecdote of the Jar
I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.
The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.
It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.
I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.
The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.
It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.
1 113
Jaques Mario Brand
Soneto à maneira do décimo-sétimo século
Dê-me tua mão, Amiga, e ao meu lado
venha dos campos ver as verdes lindes
- ainda mais lindas se por elas vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado.
Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve Ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.
Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.
Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto,
as Artes eu direi, de Amor, que enleva.
§ As Artes eu direi, de Amor, que enreda.
venha dos campos ver as verdes lindes
- ainda mais lindas se por elas vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado.
Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve Ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.
Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.
Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto,
as Artes eu direi, de Amor, que enleva.
§ As Artes eu direi, de Amor, que enreda.
1 010
Daniel Faria
Entrei na sombra como alguém que via
Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro
Entrei como sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés.Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.
Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre
Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro
Entrei como sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés.Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.
Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre
Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 130
Ana Hatherly
FEIGENBAUM, SEIT WIE LANGE SCHON ISTS MIR
BEDEUTEND
Figueiraó árvore que irrompes da
tua securasuportando o penoso desdobrar de teus
ramosamaldiçoadaofereces ainda a doçura de teus frutosa sombra de
tuas
folhasa firmeza do teu apego à terra Ó dura
bruta formaheroína da escassezó teimosaque
insistes e insistese nos ensinasque a vida é feita
de incessantes mortese que a nóssuas futuras
vítimasnos aguardaa todo o momentoa derrocada do
templosem nenhum outro frutoalém da amarguraÓ
doçuraporque amargas tantoa nossa tentação de florirao
mesmo tempo sendo tudo e nada ?
Figueiraó árvore que irrompes da
tua securasuportando o penoso desdobrar de teus
ramosamaldiçoadaofereces ainda a doçura de teus frutosa sombra de
tuas
folhasa firmeza do teu apego à terra Ó dura
bruta formaheroína da escassezó teimosaque
insistes e insistese nos ensinasque a vida é feita
de incessantes mortese que a nóssuas futuras
vítimasnos aguardaa todo o momentoa derrocada do
templosem nenhum outro frutoalém da amarguraÓ
doçuraporque amargas tantoa nossa tentação de florirao
mesmo tempo sendo tudo e nada ?
1 308
Gilson Nascimento
Olhando a serra
Quando te olhei, oh serra, da distância
E percebi teu verde me fitando
Cavalguei pelos longes da infância
Vi fiapos de névoa te beijando
De pássaros ouvi terno gorjeio
Do arvoredo deitei-me ao sombrear
Pensei-me numa ladeira e bem do meio
Vibrei do Pirapora ao transbordar
Das Pretinhas banhei-me no riacho
Escorreguei os olhos rio abaixo
Procurando matar minha saudade
E preso, assim, a teias do passado
O menino senti, vivo, a meu lado
E afoguei na emoção a minha idade
E percebi teu verde me fitando
Cavalguei pelos longes da infância
Vi fiapos de névoa te beijando
De pássaros ouvi terno gorjeio
Do arvoredo deitei-me ao sombrear
Pensei-me numa ladeira e bem do meio
Vibrei do Pirapora ao transbordar
Das Pretinhas banhei-me no riacho
Escorreguei os olhos rio abaixo
Procurando matar minha saudade
E preso, assim, a teias do passado
O menino senti, vivo, a meu lado
E afoguei na emoção a minha idade
1 009
Gilson Nascimento
A morte do escorrego
Do Escorrego a bica se finou
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu
Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram
Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão
Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu
Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram
Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão
Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção
989
Carlos Figueiredo
Chega a ser confortável a vida daqueles habitantes
Chega a ser confortável a vida daqueles habitantes
que vivem ao longo da Estrada de Ferro Transvesuviana,
que leva às ruínas de Pompéia e que contemplam
do alpendre, nas janelas, entre as venezianas
a cratera
no vértice rombo da montanha hiante.
O que nos resta é menos.
A esperança da dúvida.
Jamais saberemos por que o que existe existe.
A História é prima da histería.
Nota do poema "Chega a ser confortável ..."
Sétimo verso : "Rombo". Vale registrar, cf Silveira Bueno in " Grande Dicionário Etimológico e Prodódico da Língua Portuguesa", Vol. 7 2a. Tiragem, Ed. Saraiva, 1968, P.3751, o seguinte:
"Entre os mágicos da antiguidade, o rombo era um fuso de bronze, com que faziam encantamentos, prediziam o futuro, etc... O Gr. Rhombas da raiz rhombein, fazer gritar".
que vivem ao longo da Estrada de Ferro Transvesuviana,
que leva às ruínas de Pompéia e que contemplam
do alpendre, nas janelas, entre as venezianas
a cratera
no vértice rombo da montanha hiante.
O que nos resta é menos.
A esperança da dúvida.
Jamais saberemos por que o que existe existe.
A História é prima da histería.
Nota do poema "Chega a ser confortável ..."
Sétimo verso : "Rombo". Vale registrar, cf Silveira Bueno in " Grande Dicionário Etimológico e Prodódico da Língua Portuguesa", Vol. 7 2a. Tiragem, Ed. Saraiva, 1968, P.3751, o seguinte:
"Entre os mágicos da antiguidade, o rombo era um fuso de bronze, com que faziam encantamentos, prediziam o futuro, etc... O Gr. Rhombas da raiz rhombein, fazer gritar".
751
Angélica Torres Lima
Fazenda Dois Irmãos
Fazenda Dois Irmãos
para Antônio
no casamento
da árvore com a terra
a minha crença na vida
na sua sobrevivência
sem cuidados humanos
a reverência
aos elementos
no seu crescimento para o alto
serenamente imponente
o ensinamento vivo
de u`a meta
e um comportamento
no trabalho das raízes
e no vôo das folhas
a compreensão
de que aos pés deu-se o chão
a mente o infinito
no gosto do fruto
presença de água e mel
drink ligeiro dos pássaros
cheiro de infância
na minha saudade
Olhar léguas e mais léguas verdes
cercanias de matas, vento
cantando baixinho
no ouvido, na fazenda
da miaha infância
Tanto verde em redor do Morro Alto
lado a lado no topo
dois bambuzais solitários
irmãos companheiros
No céu rastos vermelhos
restos de sol
No ar o cheiro do mato
a transparência da noite invadindo
No centro do reino verde
o cavalo e eu
a descer a calmaria
da velha natureza
lentamente
O som do trotar de Cacique
nas pedras friinhas
u`a melodia pura
os meus desejos ocultos
os sonhos puros de criança
riquezas simples da infância
Sensação de cria da terra
de filha do vento
Impressão de ser folha
de ser mato
Certeza de ter brotado
de solo fértil
feito flor
Ah, os campos, os pastos
os córregos de água fresquinha
o curral, a casa grande, o quintal
a goiabeira perto da bica
o milharal e as jaboticabeiras
o prazer de beber com as mãos em concha
a água pura da cacimba
No parque das altas mangueiras
perto do córrego sombrio
a morada sagrada
das fadas, gnomos, duendes, sacis
o meu recanto predileto
repleto de mistério amigo
onde os sonhos conversavam comigo
E eu a comer cajamanga
verde, azedo, com sal, contemplando
a beleza rústica do engenho
cana, garapa, rapadura
A casa do vaqueiro
escondia em mim eu mesma:
ela era o cenário imaginário
de minhas estórias
de príncipes e princesas
No jardim da casa-grande
as rosas e os cravos
por meu pai cultivados
com tanto amor
Na escadaria dos fundos
a vista do Morro Alto
com os bambuzais irmãos
e o requeijão quente
da Lucinda, tentando a gente
Da varanda, a beleza vermeLha dos
enormes flamboaiãs, o curral do gado tratado
o leite gostoso, na hora tirado
Na janela do meu quarto
tinha sempre visita de um colibri
Não muito longe, no riacho
o ensaio dos sapos para a noturna sinfonia
Ah, fazenda querida
bordei você na lembrança
como foram no céu as estrelas bordadas
nas suas noites de verão
Guardei você, eom cuidado,
no pór do sol de Goiás
pra que todo dia sua presença reviva
e eu a enterre imortal
dentro de mim
para Antônio
no casamento
da árvore com a terra
a minha crença na vida
na sua sobrevivência
sem cuidados humanos
a reverência
aos elementos
no seu crescimento para o alto
serenamente imponente
o ensinamento vivo
de u`a meta
e um comportamento
no trabalho das raízes
e no vôo das folhas
a compreensão
de que aos pés deu-se o chão
a mente o infinito
no gosto do fruto
presença de água e mel
drink ligeiro dos pássaros
cheiro de infância
na minha saudade
Olhar léguas e mais léguas verdes
cercanias de matas, vento
cantando baixinho
no ouvido, na fazenda
da miaha infância
Tanto verde em redor do Morro Alto
lado a lado no topo
dois bambuzais solitários
irmãos companheiros
No céu rastos vermelhos
restos de sol
No ar o cheiro do mato
a transparência da noite invadindo
No centro do reino verde
o cavalo e eu
a descer a calmaria
da velha natureza
lentamente
O som do trotar de Cacique
nas pedras friinhas
u`a melodia pura
os meus desejos ocultos
os sonhos puros de criança
riquezas simples da infância
Sensação de cria da terra
de filha do vento
Impressão de ser folha
de ser mato
Certeza de ter brotado
de solo fértil
feito flor
Ah, os campos, os pastos
os córregos de água fresquinha
o curral, a casa grande, o quintal
a goiabeira perto da bica
o milharal e as jaboticabeiras
o prazer de beber com as mãos em concha
a água pura da cacimba
No parque das altas mangueiras
perto do córrego sombrio
a morada sagrada
das fadas, gnomos, duendes, sacis
o meu recanto predileto
repleto de mistério amigo
onde os sonhos conversavam comigo
E eu a comer cajamanga
verde, azedo, com sal, contemplando
a beleza rústica do engenho
cana, garapa, rapadura
A casa do vaqueiro
escondia em mim eu mesma:
ela era o cenário imaginário
de minhas estórias
de príncipes e princesas
No jardim da casa-grande
as rosas e os cravos
por meu pai cultivados
com tanto amor
Na escadaria dos fundos
a vista do Morro Alto
com os bambuzais irmãos
e o requeijão quente
da Lucinda, tentando a gente
Da varanda, a beleza vermeLha dos
enormes flamboaiãs, o curral do gado tratado
o leite gostoso, na hora tirado
Na janela do meu quarto
tinha sempre visita de um colibri
Não muito longe, no riacho
o ensaio dos sapos para a noturna sinfonia
Ah, fazenda querida
bordei você na lembrança
como foram no céu as estrelas bordadas
nas suas noites de verão
Guardei você, eom cuidado,
no pór do sol de Goiás
pra que todo dia sua presença reviva
e eu a enterre imortal
dentro de mim
678
Wallace Stevens
O HOMEM DA NEVE
É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
(Tradução
de Paulo Venâncio Filho )
1 981
Cirstina Areias
O Mapa de coxilha do fogo
Na luta pela minha terra,
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...
Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio
Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...
Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...
Deitei nela suor, e sangue,
E todos os músculos meus retesados...
Reconheço, agora,
Em suas verdes coxilhas,
Meus nervos, antes em afã de fogo de batalha,
Agora, lassos...
No vento doce da acácia-negra,
Meu hálito, antes bafejando gládio
Verti a mim mesmo, nesta terra...
Seu grão percorre minhas veias
Num raizame de abraço estreito
Meu sangue encharca seu leito em arroios tortuosos e soberbos
E, o do inimigo de antes, cala nos olhos do povo um pavor de fogo-fátuo,
De mula-sem-cabeça...
Ouço canções e falas que plagiam seus sons...
E, hoje, nem sei se sou Barro ou Homem,
Tamanha a fraternidade que viceja em nós dois...
Ou então...
Suponho que a terra é fêmea...
E andei defendendo princesas!
Sento à noite, na campanha,
E, num misto de Guerra e Paz,
Eu e ela olhamos para a Lua
Com desejos obscenos de conquista!
E assim, traçamos, cúmplices os dois,
Um curioso mapa
Que vai do grão ao coração,
E do coração ao Universo...
861
Daniel Faria
Como doem as árvores
Como doem as árvores
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Quando vem a Primavera
E os amigos que ainda estão de pé
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 805
Juscelino Vieira Mendes
Nu como um Yanomami
A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
1 454
Luís Represas
Pedra no charco
Caiu uma pedra no charco,
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.
Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.
É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.
Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.
E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.
Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.
É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.
Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.
E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.
1 208
Fernando Pessoa
45 - Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de coisa a coisa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de coisa a coisa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!
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Manuel Alegre
Debaixo das Oliveiras
Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
O mês em que a brisa me pôs nas mãos
uma harpa de folhas
e a terra me emprestou
sua flauta e sua lua.
Maré viva. Meu sangue atravessado
por um cometa visível a olho nu
tangido por satélites e aves de arribação
navegado por peixes desconhecidos.
Este foi o mês em que cantei
como quem morre e ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba.
O mês em que subi a uma colina
dentro de minha casa
olhei a terra e o mar
depois cantei
como quem faz com duas pedras
o primeiro lume. Palavras
e pedras. Palavras e lume
de uma vida.
Este foi o mês em que fui a um lugar santo
dentro de minha casa.
O mês em que saí dos campos
e me banhei no rio como quem se baptiza
e cantei debaixo das oliveiras
as mãos cheias de terra. Palavras
e terra
de uma vida.
Este foi o mês em que cantei
como quem espelha ao vento suas cinzas
e cresce de seu próprio adubo
carregado de folhas. Palavras
e folhas
de uma vida.
O mês em que a mulher
tocou meus ombros com sua graça
e me deu a beber
a água pura do seu poço.
Este foi o mês em que o filho
derramou dentro de mim
o orvalho e o sol
de sua manhã.
O mês em que cantei
como quem de si se perde e reencontra
nas coisas novamente nomeadas.
Este foi o mês em que atravessei montanhas
e cheguei a um lugar onde as palavras
escorriam leite e mel.
MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim
as aves todas da floresta.
Então reparei que era o lugar do poema
o lugar santo onde cantei
entre mulher e o filho
como quem dá graças.
Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
O mês em que a brisa me pôs nas mãos
uma harpa de folhas
e a terra me emprestou
sua flauta e sua lua.
Maré viva. Meu sangue atravessado
por um cometa visível a olho nu
tangido por satélites e aves de arribação
navegado por peixes desconhecidos.
Este foi o mês em que cantei
como quem morre e ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba.
O mês em que subi a uma colina
dentro de minha casa
olhei a terra e o mar
depois cantei
como quem faz com duas pedras
o primeiro lume. Palavras
e pedras. Palavras e lume
de uma vida.
Este foi o mês em que fui a um lugar santo
dentro de minha casa.
O mês em que saí dos campos
e me banhei no rio como quem se baptiza
e cantei debaixo das oliveiras
as mãos cheias de terra. Palavras
e terra
de uma vida.
Este foi o mês em que cantei
como quem espelha ao vento suas cinzas
e cresce de seu próprio adubo
carregado de folhas. Palavras
e folhas
de uma vida.
O mês em que a mulher
tocou meus ombros com sua graça
e me deu a beber
a água pura do seu poço.
Este foi o mês em que o filho
derramou dentro de mim
o orvalho e o sol
de sua manhã.
O mês em que cantei
como quem de si se perde e reencontra
nas coisas novamente nomeadas.
Este foi o mês em que atravessei montanhas
e cheguei a um lugar onde as palavras
escorriam leite e mel.
MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim
as aves todas da floresta.
Então reparei que era o lugar do poema
o lugar santo onde cantei
entre mulher e o filho
como quem dá graças.
Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.
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Fernando Pessoa
The master said you must not heed
The Master said you must not heed
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
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Fernando Pessoa
DESOLATION
DESOLATION
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
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Fernando Pessoa
Sexto: D. DINIS
SEXTO
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
09/02/1934
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
09/02/1934
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