Poemas neste tema
Casa e Lar
Adélia Prado
Nossa Senhora da Conceição
Tenho dez anos
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
1 794
Adélia Prado
Na Terra Como No Céu
Nesta hora da tarde
quando a casa repousa
a obra de minhas mãos
é esta cozinha limpa.
Tão fácil
um dia depois do outro
e logo estaremos juntos
nas “colinas eternas”.
Recupera meu corpo
um modo de bondade,
a que me torna capaz
de produzir um verso.
Compreendes-me, Altíssimo?
Ele não responde,
dorme também a sesta.
quando a casa repousa
a obra de minhas mãos
é esta cozinha limpa.
Tão fácil
um dia depois do outro
e logo estaremos juntos
nas “colinas eternas”.
Recupera meu corpo
um modo de bondade,
a que me torna capaz
de produzir um verso.
Compreendes-me, Altíssimo?
Ele não responde,
dorme também a sesta.
1 218
Adélia Prado
Lapinha
Quando éramos pobres e eu menina
era assim o Natal em nossa casa:
quatro semanas antes
a palavra ADVENTO sitiava-nos,
domingo após domingo.
Comeríamos melhor naquele dia,
seríamos pouco usuais:
vinho, doces, paciência.
Porque o MENINO estremecia no feno
e nos compadecíamos de Deus até as lágrimas.
Olhando a manjedoura, o que eu sentia
— sem arrimo de palavras —
era o que sinto ainda:
‘O desejo de esbeltez será concretizado.’
À luz que não tolera excessos,
o musgo, a areia, a palha cintilavam,
a pedra. Eu cintilava.
era assim o Natal em nossa casa:
quatro semanas antes
a palavra ADVENTO sitiava-nos,
domingo após domingo.
Comeríamos melhor naquele dia,
seríamos pouco usuais:
vinho, doces, paciência.
Porque o MENINO estremecia no feno
e nos compadecíamos de Deus até as lágrimas.
Olhando a manjedoura, o que eu sentia
— sem arrimo de palavras —
era o que sinto ainda:
‘O desejo de esbeltez será concretizado.’
À luz que não tolera excessos,
o musgo, a areia, a palha cintilavam,
a pedra. Eu cintilava.
1 714
Adélia Prado
Os Tiranos
Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
839
Adélia Prado
Um Homem Habitou Uma Casa
A graça da morte, seu desastrado encanto
é por causa da vida,
porque o céu fica a oeste da casa de meu pai,
onde moram: toda a riqueza do mundo e minha alma.
Lá tem um canto na parede
pra onde eu vou escondida comer com o prato na mão,
de onde vejo Jerusalém, as cúpulas faiscando,
a Rosa de Jericó desabrochada.
Daquele ângulo,
as doenças graves ficam domesticadas,
inocentes ficam minha prima e seus cinco filhos
[bastardos.
O tiro, o álcool, a imprecação, mesmo o medo
assentam na caneca de chá,
no fundo grosso de misericórdia e açúcar,
incansável paciência.
As ervas de remédio machucadas põem cheiro na
[santidade
no esforço de repetir: sim, meu Deus,
sim, meu corpo fraco,
sim, que saudade da bicicleta,
de sair pra rua sacudindo
meu invencível poder sobre buracos e pedras,
sim, a juventude me comove tanto,
sim, minha fadiga que nem tanta é,
comparada à que na cruz, ó meu Pai, padeceste por mim.
O corpo sente dores?
Eu comia assim:
arroz, feijão, cebola crua,
mas o prato tinha a beirada bordada.
A colher oxidava,
mas, no cabo, miosótis gravados.
O corpo sente alegrias, a língua as come
claras, quentes, indubitáveis como sóis.
Morre-se?
As matemáticas eu entendo mais.
é por causa da vida,
porque o céu fica a oeste da casa de meu pai,
onde moram: toda a riqueza do mundo e minha alma.
Lá tem um canto na parede
pra onde eu vou escondida comer com o prato na mão,
de onde vejo Jerusalém, as cúpulas faiscando,
a Rosa de Jericó desabrochada.
Daquele ângulo,
as doenças graves ficam domesticadas,
inocentes ficam minha prima e seus cinco filhos
[bastardos.
O tiro, o álcool, a imprecação, mesmo o medo
assentam na caneca de chá,
no fundo grosso de misericórdia e açúcar,
incansável paciência.
As ervas de remédio machucadas põem cheiro na
[santidade
no esforço de repetir: sim, meu Deus,
sim, meu corpo fraco,
sim, que saudade da bicicleta,
de sair pra rua sacudindo
meu invencível poder sobre buracos e pedras,
sim, a juventude me comove tanto,
sim, minha fadiga que nem tanta é,
comparada à que na cruz, ó meu Pai, padeceste por mim.
O corpo sente dores?
Eu comia assim:
arroz, feijão, cebola crua,
mas o prato tinha a beirada bordada.
A colher oxidava,
mas, no cabo, miosótis gravados.
O corpo sente alegrias, a língua as come
claras, quentes, indubitáveis como sóis.
Morre-se?
As matemáticas eu entendo mais.
1 429
Adélia Prado
A Casa
É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.
1 332
Adélia Prado
Figurativa
O pai cavando o chão mostrou pra nós,
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
1 414
Adélia Prado
Folhinha
A morte do escritor
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da terra.
Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
— nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da terra.
Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
— nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.
1 122
Adélia Prado
Canícula
Ao meio-dia, deságua o amor
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.
1 087
Adélia Prado
Registro
Visíveis no facho de ouro jorrado porta adentro,
mosquitinhos, grãos maiores de pó.
A mãe no fogão atiça as brasas
e acende na menina o nunca mais apagado da memória:
uma vez banqueteando-se, comeu feijão com arroz
mais um facho de luz. Com toda fome.
mosquitinhos, grãos maiores de pó.
A mãe no fogão atiça as brasas
e acende na menina o nunca mais apagado da memória:
uma vez banqueteando-se, comeu feijão com arroz
mais um facho de luz. Com toda fome.
1 275
Adélia Prado
Janela
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
1 513
Adélia Prado
Descritivo
As formigas passeiam na parede,
perto de um vidro de cola que perdeu a rolha. Há mais:
um maço de jornais, uma bilha e seu gargalo fálico,
um copo de plástico e um quiabo seco,
guardado ali por causa das sementes.
Tudo sobre uma cômoda, num quarto.
O vidro de cola está arrolhado com uma bucha de papel.
É sábado, é tarde, é túrgida minha bexiga feminina
e por isso vai ser menos belo que eu me levante e a esvazie.
Os analistas dirão, segundo Freud: complexo de castração.
Eu não digo nada, pela primeira vez, humildemente.
Vou me deitar pra dormir, não antes sem rezar,
pelos meus e os teus.
perto de um vidro de cola que perdeu a rolha. Há mais:
um maço de jornais, uma bilha e seu gargalo fálico,
um copo de plástico e um quiabo seco,
guardado ali por causa das sementes.
Tudo sobre uma cômoda, num quarto.
O vidro de cola está arrolhado com uma bucha de papel.
É sábado, é tarde, é túrgida minha bexiga feminina
e por isso vai ser menos belo que eu me levante e a esvazie.
Os analistas dirão, segundo Freud: complexo de castração.
Eu não digo nada, pela primeira vez, humildemente.
Vou me deitar pra dormir, não antes sem rezar,
pelos meus e os teus.
1 325
Adélia Prado
A Menina do Olfato Delicado
Quero comer não, mãe
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
1 288
Carlos Drummond de Andrade
Onde Há Pouco Falávamos
É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
E êle toca e êle chora e êle canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
Êle estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o linho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem notícia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
E êle toca e êle chora e êle canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
Êle estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o linho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem notícia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)
1 331
Carlos Drummond de Andrade
Morte Das Casas de Ouro Preto
Sobre o tempo, sobre a taipa,
a chuva escorre. As paredes
que viram, morrer os homens,
que viram fugir o ouro,
que viram finar-se o reino,
que viram, reviram, viram,
já não vêem. Também morrem.
Assim plantadas no outeiro,
menos rudes que orgulhosas
na sua pobreza branca,
azul e rosa e zarcão.
ai, pareciam eternas!
Não eram. E cai a chuva
sobre rótula e portão.
Vai-se a rótula crivando
como a renda consumida
de um vestido funerário.
E ruindo se vai a porta.
Só a chuva monorrítmica
sobre a noite, sobre a história
goteja. Morrem as casas.
Morrem, severas. É tempo
de fatigar-se a matéria
por muito servir ao homem,
e de o barro dissolver-se.
Nem parecia, na serra,
que as coisas sempre cambiam
de si, em si. Hoje, vão-se.
O chão começa a chamar
as formas estruturadas
faz tanto tempo. Convoca-as
a serem terra outra vez.
One se incorporem as árvores
hoje vigas! Volte o pó
a ser pó p Ias estradas!
A chuva desce, às canadas.
Como chove, como pinga
no pais das remembranças!
Como bate, como fere,
como traspassa a medula,
como punge, como lanha
o fino dardo da chuva
mineira, sobre as colinas!
Minhas casas fustigadas,
minhas paredes zurzidas,
minhas esteiras de forro,
meus cachorros de beirai,
meus paços de telha-vã
estão úmidos e humildes.
Lá vão, enxurrada abaixo,
as velhas casas honradas
em que se amou e pariu,
em que se guardou moeda
e no frio se bebeu.
Vão no vento, na caliça,
no morcego, vão na geada,
enquanto se espalham outras
em polvorentas partículas,
sem as vermos fenecer.
Ai, como morrem as casas!
Como se deixam morrer!
E descascadas e secas,
ei-las sumindo-se no ar.
Sobre a cidade concentro
o olhar experimentado,
esse agudo olhar afiado
de quem é douto no assunto.
(Quantos perdi me ensinaram.)
Vejo a coisa pegajosa,
vai circunvoando na calma.
Não basta ver morte de homem
para conhecê-la bem.
Mil outras brotam em nós,
à nossa roda, no chão.
A morte baixou dos ermos,
gavião molhado. Seu bico
vai lavrando o paredão
e dissolvendo a cidade.
Sobre a ponte, sobre a pedra,
sobre a cambraia de Nize,
uma colcha de neblina
(já não é a chuva forte)
me conta por que mistério
o amor se banha na morte.
a chuva escorre. As paredes
que viram, morrer os homens,
que viram fugir o ouro,
que viram finar-se o reino,
que viram, reviram, viram,
já não vêem. Também morrem.
Assim plantadas no outeiro,
menos rudes que orgulhosas
na sua pobreza branca,
azul e rosa e zarcão.
ai, pareciam eternas!
Não eram. E cai a chuva
sobre rótula e portão.
Vai-se a rótula crivando
como a renda consumida
de um vestido funerário.
E ruindo se vai a porta.
Só a chuva monorrítmica
sobre a noite, sobre a história
goteja. Morrem as casas.
Morrem, severas. É tempo
de fatigar-se a matéria
por muito servir ao homem,
e de o barro dissolver-se.
Nem parecia, na serra,
que as coisas sempre cambiam
de si, em si. Hoje, vão-se.
O chão começa a chamar
as formas estruturadas
faz tanto tempo. Convoca-as
a serem terra outra vez.
One se incorporem as árvores
hoje vigas! Volte o pó
a ser pó p Ias estradas!
A chuva desce, às canadas.
Como chove, como pinga
no pais das remembranças!
Como bate, como fere,
como traspassa a medula,
como punge, como lanha
o fino dardo da chuva
mineira, sobre as colinas!
Minhas casas fustigadas,
minhas paredes zurzidas,
minhas esteiras de forro,
meus cachorros de beirai,
meus paços de telha-vã
estão úmidos e humildes.
Lá vão, enxurrada abaixo,
as velhas casas honradas
em que se amou e pariu,
em que se guardou moeda
e no frio se bebeu.
Vão no vento, na caliça,
no morcego, vão na geada,
enquanto se espalham outras
em polvorentas partículas,
sem as vermos fenecer.
Ai, como morrem as casas!
Como se deixam morrer!
E descascadas e secas,
ei-las sumindo-se no ar.
Sobre a cidade concentro
o olhar experimentado,
esse agudo olhar afiado
de quem é douto no assunto.
(Quantos perdi me ensinaram.)
Vejo a coisa pegajosa,
vai circunvoando na calma.
Não basta ver morte de homem
para conhecê-la bem.
Mil outras brotam em nós,
à nossa roda, no chão.
A morte baixou dos ermos,
gavião molhado. Seu bico
vai lavrando o paredão
e dissolvendo a cidade.
Sobre a ponte, sobre a pedra,
sobre a cambraia de Nize,
uma colcha de neblina
(já não é a chuva forte)
me conta por que mistério
o amor se banha na morte.
1 299
Carlos Drummond de Andrade
Noturno Oprimido
A água cai na caixa com uma força,
com uma dor! A casa não dorme, estupefata.
Os móveis continuam prisioneiros
de sua matéria pobre, mas a água parte-se,
a água protesta. Ela molha toda a noite
com sua queixa feroz, seu alarido.
E sobre nossos corpos se avoluma
o lago negro de não sei que infusão.
Mas não é o medo da morte do afogado,
o horror da água batendo nos espelhos,
indo até os cofres, os livros, as gargantas.
É o sentimento de uma coisa selvagem,
sinistra, irreparável, lamentosa.
Oh vamos nos precipitar no rio espesso
que derrubou a última parede
entre os sapatos, as cruzes e os peixes cegos do tempo.
com uma dor! A casa não dorme, estupefata.
Os móveis continuam prisioneiros
de sua matéria pobre, mas a água parte-se,
a água protesta. Ela molha toda a noite
com sua queixa feroz, seu alarido.
E sobre nossos corpos se avoluma
o lago negro de não sei que infusão.
Mas não é o medo da morte do afogado,
o horror da água batendo nos espelhos,
indo até os cofres, os livros, as gargantas.
É o sentimento de uma coisa selvagem,
sinistra, irreparável, lamentosa.
Oh vamos nos precipitar no rio espesso
que derrubou a última parede
entre os sapatos, as cruzes e os peixes cegos do tempo.
1 476
Carlos Drummond de Andrade
Circulação do Poeta
Nesta manhã de traço fino e ardente,
passei, caro Facó, por tua casa.
Inda estavas dormindo (ou já dormias)
o sono mais perfeito, mas vagavas
na safira em que os seres se deliam,
entre pardais bicando luz, e pombas,
nesse contentamento vaporoso
que a vida exala quando já cumprida.
Senti tua presença maliciosa,
transfundida na côr, no espaço livre,
nos corpos nus que a praia convidava.
Não sabiam de ti, que eras um deles,
e levavam consigo, dom secreto,
uma negrinha em flor, um verso hermético.
passei, caro Facó, por tua casa.
Inda estavas dormindo (ou já dormias)
o sono mais perfeito, mas vagavas
na safira em que os seres se deliam,
entre pardais bicando luz, e pombas,
nesse contentamento vaporoso
que a vida exala quando já cumprida.
Senti tua presença maliciosa,
transfundida na côr, no espaço livre,
nos corpos nus que a praia convidava.
Não sabiam de ti, que eras um deles,
e levavam consigo, dom secreto,
uma negrinha em flor, um verso hermético.
1 208
Carlos Drummond de Andrade
Indicações
Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
desejo de voltar mais cedo para casa.
Certa demora em abrir o pacote de livros
esperado, que trouxe o correio.
Indecisão: irei ao cinema?
Dos três empregos de tua noite escolherás: nenhum.
Talvez certo olhar, mais sério, não ardente,
que pousas nas coisas, e elas compreendem.
Ou pelo menos supões que sim. São fiéis, as coisas
de teu escritório. A caneta velha. Recusas-te a trocá-la
pela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.
Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,
se a madeira, se o pó trouxeram consigo.
Bem a conheces, tua mesa. Cartas, artigos, poemas
saíram dela, de ti. Da dura substância,
do calmo, da floresta partida elas vieram,
as palavras que achaste e juntaste, distribuindo-as.
A mão passa
na aspereza. O verniz que se foi. Não. É a árvore
que regressa. A estrada voltando. Minas que espreita,,
e espera, longamente espera tua volta sem som.
A mesa se torna leve, e nela viajas
em ares de paciência, acordo, resignação.
Olhai a mesa que foge, não a toqueis. É a mesa volante,
de suas gavetas saltam papéis escuros, enfim os libertados segredos
sobre a terra metálica se espalham, se amortalham e calam-se.
De novo aqui, miúdo território
civil, sem sonhos. Como pressentindo
que um dia se esvaziam os quartos, se limpam as paredes,
e pára um caminhão e descem carregadores,
e no livro municipal se cancela um registro,
olhas fundamente o risco de cada
coisa, a côr
de cada face dos objetos familiares.
A família é pois uma arrumação de móveis, soma
de linhas, volumes, superfícies. E são portas,
chaves, pratos, camas, embrulhos esquecidos,
também um corredor, e o espaço
entre o armário e a parede
onde se deposita certa porção de silêncio, traças e poeira,
que de longe em longe se remove. . . e insiste.
Certamente faltam muitas explicações, seria difícil
compreender, mesmo ao cabo de longo tempo, por que um gesto
se abriu, outro se frustrou, tantos esboçados,
como seria impossível guardar todas as vozes
ouvidas ao almoço, ao jantar, na pausa da noite,
um ano, depois outro, e outros e outros,
todas as vozes ouvidas na casa durante quinze anos.
Entretanto, devem estar em alguma parte: acumularam-se,
embeberam degraus, invadiram canos,
enformaram velhos papéis, perderam a força, o calor,
existem hoje em subterrâneos, umas na memória, outras na argila do sono.
Como saber? A princípio parece deserto,
como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem,
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem,
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
-sobre a mesa curvado; e tudo imóvel.
desejo de voltar mais cedo para casa.
Certa demora em abrir o pacote de livros
esperado, que trouxe o correio.
Indecisão: irei ao cinema?
Dos três empregos de tua noite escolherás: nenhum.
Talvez certo olhar, mais sério, não ardente,
que pousas nas coisas, e elas compreendem.
Ou pelo menos supões que sim. São fiéis, as coisas
de teu escritório. A caneta velha. Recusas-te a trocá-la
pela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.
Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,
se a madeira, se o pó trouxeram consigo.
Bem a conheces, tua mesa. Cartas, artigos, poemas
saíram dela, de ti. Da dura substância,
do calmo, da floresta partida elas vieram,
as palavras que achaste e juntaste, distribuindo-as.
A mão passa
na aspereza. O verniz que se foi. Não. É a árvore
que regressa. A estrada voltando. Minas que espreita,,
e espera, longamente espera tua volta sem som.
A mesa se torna leve, e nela viajas
em ares de paciência, acordo, resignação.
Olhai a mesa que foge, não a toqueis. É a mesa volante,
de suas gavetas saltam papéis escuros, enfim os libertados segredos
sobre a terra metálica se espalham, se amortalham e calam-se.
De novo aqui, miúdo território
civil, sem sonhos. Como pressentindo
que um dia se esvaziam os quartos, se limpam as paredes,
e pára um caminhão e descem carregadores,
e no livro municipal se cancela um registro,
olhas fundamente o risco de cada
coisa, a côr
de cada face dos objetos familiares.
A família é pois uma arrumação de móveis, soma
de linhas, volumes, superfícies. E são portas,
chaves, pratos, camas, embrulhos esquecidos,
também um corredor, e o espaço
entre o armário e a parede
onde se deposita certa porção de silêncio, traças e poeira,
que de longe em longe se remove. . . e insiste.
Certamente faltam muitas explicações, seria difícil
compreender, mesmo ao cabo de longo tempo, por que um gesto
se abriu, outro se frustrou, tantos esboçados,
como seria impossível guardar todas as vozes
ouvidas ao almoço, ao jantar, na pausa da noite,
um ano, depois outro, e outros e outros,
todas as vozes ouvidas na casa durante quinze anos.
Entretanto, devem estar em alguma parte: acumularam-se,
embeberam degraus, invadiram canos,
enformaram velhos papéis, perderam a força, o calor,
existem hoje em subterrâneos, umas na memória, outras na argila do sono.
Como saber? A princípio parece deserto,
como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem,
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem,
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
-sobre a mesa curvado; e tudo imóvel.
1 617
Carlos Drummond de Andrade
Interpretação de Dezembro
É talvez o menino
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa, talvez.
O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.
A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passando sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.
É a carta escrita
com letras difíceis,
posta num correio
sem selo e censura
A janela aberta
onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.
O velho dormindo
na cadeira imprópria.
O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barata andando.
O bolo cheirando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.
O cântico de missa
mais do que abafado.,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio.
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
ia onde não chega
a lei dos mais velhos.
É o isolamento
em frente às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbeda,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.
A cabana ôca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.
Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito
É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa, talvez.
O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.
A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passando sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.
É a carta escrita
com letras difíceis,
posta num correio
sem selo e censura
A janela aberta
onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.
O velho dormindo
na cadeira imprópria.
O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barata andando.
O bolo cheirando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.
O cântico de missa
mais do que abafado.,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio.
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
ia onde não chega
a lei dos mais velhos.
É o isolamento
em frente às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbeda,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.
A cabana ôca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.
Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito
É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.
1 168
Carlos Drummond de Andrade
Sociedade
O homem disse para o amigo:
— Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
— Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.
No caminho o homem resmunga:
— Ora essa, era o que faltava.
E a mulher a junta: — Que idiota.
— A casa é um ninho de pulgas.
— Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
— Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
— Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.
No caminho o homem resmunga:
— Ora essa, era o que faltava.
E a mulher a junta: — Que idiota.
— A casa é um ninho de pulgas.
— Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
1 274
Carlos Drummond de Andrade
O Peso de Uma Casa
La maison de mon père était vaste et commode
merecia de mim um soneto ou uma ode.
Eu não soube entendê-la e não soube trová-la.
Só resta, exígua estampa, o frescor de uma sala.
Aquela egrégia escada, aquela austera mesa
sumiram para sempre em lances de incerteza.
Caem móveis em pó, e ondulantes cortinas
deixaram de esvoaçar no silêncio de Minas.
Ouço o tlintlim de um copo, o espocar de uma rolha,
sonidos hoje iguais ao virar de uma folha.
Cada tábua estalando em insônia sussurra
a longa tradição da família casmurra.
E os passos dos antigos, a grita das crianças
migram do longe-longe em parábolas mansas.
Perco-me a visitar a clausura dos quartos
e neles eis entrevejo, no escorrer de lagartos,
formas acidentais de uma angústia infantil
a estruturar-se logo em castelo febril.
Sou eu só a portar o peso dessa casa,
que afinal não é mais que sepultura rasa.
merecia de mim um soneto ou uma ode.
Eu não soube entendê-la e não soube trová-la.
Só resta, exígua estampa, o frescor de uma sala.
Aquela egrégia escada, aquela austera mesa
sumiram para sempre em lances de incerteza.
Caem móveis em pó, e ondulantes cortinas
deixaram de esvoaçar no silêncio de Minas.
Ouço o tlintlim de um copo, o espocar de uma rolha,
sonidos hoje iguais ao virar de uma folha.
Cada tábua estalando em insônia sussurra
a longa tradição da família casmurra.
E os passos dos antigos, a grita das crianças
migram do longe-longe em parábolas mansas.
Perco-me a visitar a clausura dos quartos
e neles eis entrevejo, no escorrer de lagartos,
formas acidentais de uma angústia infantil
a estruturar-se logo em castelo febril.
Sou eu só a portar o peso dessa casa,
que afinal não é mais que sepultura rasa.
1 286
Carlos Drummond de Andrade
Família
Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.
A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.
O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.
A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.
O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.
3 377
Carlos Drummond de Andrade
A Casa do Tempo Perdido
Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e outra mais e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.
Bati segunda vez e outra mais e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.
O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.
1 327
Carlos Drummond de Andrade
A Casa Sem Raiz
A casa não é mais de guarda-mor ou coronel.
Não é mais o Sobrado. E já não é azul.
É uma casa, entre outras. O diminuto alpendre
onde oleoso pintor pintou o pescador
pescando peixes improváveis. A casa tem degraus de mármore,
mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas,
que repercute no Pará. Os tambores do clã.
A casa é em outra cidade,
em diverso planeta, onde somos o quê? numerais moradores.
Tem todo o conforto, sim. Não o altivo desconforto
do banho de bacia e da latrina de madeira.
Aqui ninguém bate palmas. Toca-se campainha.
As mãos batiam palmas diferentes.
A batida era alegre ou dramática ou suplicante ou serena.
A campainha emite um timbre sem história.
A casa não é mais a casa itabirana.
Tenho que me adaptar? Tenho que viver a casa
ao jeito da outra casa, a que era eterna.
Mobiliá-la de lembranças, de cheiros, de sabores,
de esconderijos, de pecados, de signos,
só de mim sabidos. E de José, de mais ninguém.
Transporto para o quarto badulaques-diamante
de um século. Transporto umidade, calor,
margaridas esmaltadas fervendo
no bule. E mais sustos, pavores, maldições
que habitavam certos cômodos — era tudo sagrado.
Aqui ninguém morreu, é amplamente
o vazio biográfico. Nem veio de noite a parteira
(vinha sempre de noite, à hora de nascer),
enquanto a gente era levada para cômodos distantes,
e tanta distância havia dentro, infinito, da casa,
que ninguém escutava gemido e choro de alumbramento,
e de manhã o sol era menino novo.
Faltam os quadros dos quatro (eram quatro continentes:
América Europa Ásia África), mulheres
voluptuosamente reclinadas
em coxins de pressentidas safadezas.
A fabulosa copa onde ânforas
dormiam desde a festa de 1898
guardando seus tinidos subentendidos,
guardando a própria cor enclausurada.
O forno abobadal, o picumã
rendilhando barrotes na cozinha.
E o que era sigilo nos armários.
E o que era romance no sigilo.
Falta…
Falto, menino eu, peça da casa.
Tão estranho crescer, adolescer
com alma antiga, carregar as coisas
que não se deixam carregar.
A indelével casa me habitando, impondo
sua lei de defesa contra o tempo.
Sou o corredor, sou o telhado
sobre a estrebaria sem cavalos mas nitrindo
à espera de embornal. Casa-cavalo,
casa de fazenda na cidade,
o pasto, ao Norte; ao Sul, quarto de arreios,
e esse mar de café rolando em grão
na palma de sua mão — o pai é a casa
e a casa não é mais, nem sou a casa térrea,
terrestre, contingente,
suposta habitação de um eu moderno.
Rua Silva Jardim, ou silvo em mim?
Não é mais o Sobrado. E já não é azul.
É uma casa, entre outras. O diminuto alpendre
onde oleoso pintor pintou o pescador
pescando peixes improváveis. A casa tem degraus de mármore,
mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas,
que repercute no Pará. Os tambores do clã.
A casa é em outra cidade,
em diverso planeta, onde somos o quê? numerais moradores.
Tem todo o conforto, sim. Não o altivo desconforto
do banho de bacia e da latrina de madeira.
Aqui ninguém bate palmas. Toca-se campainha.
As mãos batiam palmas diferentes.
A batida era alegre ou dramática ou suplicante ou serena.
A campainha emite um timbre sem história.
A casa não é mais a casa itabirana.
Tenho que me adaptar? Tenho que viver a casa
ao jeito da outra casa, a que era eterna.
Mobiliá-la de lembranças, de cheiros, de sabores,
de esconderijos, de pecados, de signos,
só de mim sabidos. E de José, de mais ninguém.
Transporto para o quarto badulaques-diamante
de um século. Transporto umidade, calor,
margaridas esmaltadas fervendo
no bule. E mais sustos, pavores, maldições
que habitavam certos cômodos — era tudo sagrado.
Aqui ninguém morreu, é amplamente
o vazio biográfico. Nem veio de noite a parteira
(vinha sempre de noite, à hora de nascer),
enquanto a gente era levada para cômodos distantes,
e tanta distância havia dentro, infinito, da casa,
que ninguém escutava gemido e choro de alumbramento,
e de manhã o sol era menino novo.
Faltam os quadros dos quatro (eram quatro continentes:
América Europa Ásia África), mulheres
voluptuosamente reclinadas
em coxins de pressentidas safadezas.
A fabulosa copa onde ânforas
dormiam desde a festa de 1898
guardando seus tinidos subentendidos,
guardando a própria cor enclausurada.
O forno abobadal, o picumã
rendilhando barrotes na cozinha.
E o que era sigilo nos armários.
E o que era romance no sigilo.
Falta…
Falto, menino eu, peça da casa.
Tão estranho crescer, adolescer
com alma antiga, carregar as coisas
que não se deixam carregar.
A indelével casa me habitando, impondo
sua lei de defesa contra o tempo.
Sou o corredor, sou o telhado
sobre a estrebaria sem cavalos mas nitrindo
à espera de embornal. Casa-cavalo,
casa de fazenda na cidade,
o pasto, ao Norte; ao Sul, quarto de arreios,
e esse mar de café rolando em grão
na palma de sua mão — o pai é a casa
e a casa não é mais, nem sou a casa térrea,
terrestre, contingente,
suposta habitação de um eu moderno.
Rua Silva Jardim, ou silvo em mim?
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