Poemas neste tema
Alma
Silvaney Paes
Enchente
Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
1 366
1
Rogaciano Leite Filho
Trevas do Dia
Na noite do mundo
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
a nuvem gélida do sonho
percorre meus ossos vazados
trazendo dos corações atômicos
das palavras não ditas
dos circuitos elétricos
das memórias esquecidas
dos braços partidos
das mortes insensíveis
dos olhos vendados
das idéias falidas
dos sentimentos perdidos
das bombas mortais
dos Deuses escondidos
O nascer da morte
no começo do dia.
1 031
1
Reinaldo Ferreira
Que culpa terão as ondas
...Que culpa terão as ondas
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias
Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias
Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!
1 824
1
Rosa Leonor Pedro
Labirinto
Abrem-se as Portas.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
1 109
1
Reinaldo Ferreira
Chopinesque
Oh! taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
1 440
1
Paulo Mendes Campos
Translúcido
Rosas rara se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.
1 436
1
Silvaney Paes
Teu Silêncio
Mulher...
Se Algum dia
Ferir-te o peito,
A minha língua manca,
E me ferires de silêncio,
Coloca na ferida aberta
Os sentimentos,
Como o melhor ungüento,
Não os concebi à contra-gotas
E os enviei em grandes somas,
Em assomos, perdidos na linguagem,
Que regurgitei nas poesias
Que a ti, eu, dediquei.
Mulher...
Se abrires os olhos
Por detrás da carne,
Verás que foram dentre eles
A jóia que considerais mais cara,
Como já me declarastes:
À do vértice
Da pirâmide de tua existência,
A da amizade...
Mas foi também ali meu diamante,
Um bem querer menino,
Também amigo,
E que achei que sobejastes,
Mas que ainda cresce
Na pretensão que guardo,
Ou mesmo no delírio que me escapa -
A quem chamo de esperança -
De que um dia me respostas,
Como gostaria.
Mulher...
Assim como eu,
Somente um outro louco
Veria no silêncio momentâneo
Um quando em branco,
Uma promessa, um pacto,
Um contrato assinado,
Entre tu e eu -
Num doloroso aguardo-
De vê-lo pintado, como um retrato,
Do pacto,
Por quatro mãos,
Por duas almas,
Um dia...
Mulher...
E se festejo agora,
Revelaste-me numa carta
Enxergar além do turvo que te mostro,
E que abraçastes em minhas letras
O tesouro de minha pobreza:
Amizade, respeito, apreço...
Minha alma oferecida em bandeja,
Bandeja do mais fino barro
De minha existência.
Se Algum dia
Ferir-te o peito,
A minha língua manca,
E me ferires de silêncio,
Coloca na ferida aberta
Os sentimentos,
Como o melhor ungüento,
Não os concebi à contra-gotas
E os enviei em grandes somas,
Em assomos, perdidos na linguagem,
Que regurgitei nas poesias
Que a ti, eu, dediquei.
Mulher...
Se abrires os olhos
Por detrás da carne,
Verás que foram dentre eles
A jóia que considerais mais cara,
Como já me declarastes:
À do vértice
Da pirâmide de tua existência,
A da amizade...
Mas foi também ali meu diamante,
Um bem querer menino,
Também amigo,
E que achei que sobejastes,
Mas que ainda cresce
Na pretensão que guardo,
Ou mesmo no delírio que me escapa -
A quem chamo de esperança -
De que um dia me respostas,
Como gostaria.
Mulher...
Assim como eu,
Somente um outro louco
Veria no silêncio momentâneo
Um quando em branco,
Uma promessa, um pacto,
Um contrato assinado,
Entre tu e eu -
Num doloroso aguardo-
De vê-lo pintado, como um retrato,
Do pacto,
Por quatro mãos,
Por duas almas,
Um dia...
Mulher...
E se festejo agora,
Revelaste-me numa carta
Enxergar além do turvo que te mostro,
E que abraçastes em minhas letras
O tesouro de minha pobreza:
Amizade, respeito, apreço...
Minha alma oferecida em bandeja,
Bandeja do mais fino barro
De minha existência.
1 200
1
R. Petit
Papagaios de Papel
Quando eu era pequeno, venturoso,
Meus lindos papagaios empinando,
Dizia: — Não há nada mais pomposo
Que um papagaio de papel voando.
Cresci!...
Hoje, tristonho, pesaroso
Esses brinquedos de papel, olhando,
Logo descubro o vulto carunchoso
Dos que sobem a tudo se apegando.
Tipos que sobem de alma feita em trapos,
Mostrando ao mundo, despreocupados,
Uma cauda nojenta de farrapos...
Tipos de nulidade tão cruel!
Que só sabem subir encabrestados
Como esses papagaios de papel.
Meus lindos papagaios empinando,
Dizia: — Não há nada mais pomposo
Que um papagaio de papel voando.
Cresci!...
Hoje, tristonho, pesaroso
Esses brinquedos de papel, olhando,
Logo descubro o vulto carunchoso
Dos que sobem a tudo se apegando.
Tipos que sobem de alma feita em trapos,
Mostrando ao mundo, despreocupados,
Uma cauda nojenta de farrapos...
Tipos de nulidade tão cruel!
Que só sabem subir encabrestados
Como esses papagaios de papel.
1 213
1
William Melo Soares
Assim Aceso
Eu vivo assim
de corpo e alma
peito aberto
aos meus irmãos.
Esta canção
eu canto
e digo em viva voz
por mim
por ti
por nós
e esta chama
acesa assanha
amor dentro de nós.
de corpo e alma
peito aberto
aos meus irmãos.
Esta canção
eu canto
e digo em viva voz
por mim
por ti
por nós
e esta chama
acesa assanha
amor dentro de nós.
991
1
Castro Menezes
Calipso
Pela doce paciência de enfermeira
com que procuras encantar-me a vida,
renovando em minha alma a fé perdida
depois de morta a crença derradeira;
Pelo sorriso bom de companheira
que a novas esperanças me convida,
quando vejo, na estrada percorrida
dos meus sonhos a extinta sementeira;
Pela graça de irmã de Caridade
com que teu meigo afeto me persuade
de que lutar confiante é o meu dever;
Bendita sejas Flor de mansuetude,
em cujo seio, finalmente, pude
descansar a cabeça e adormecer...
com que procuras encantar-me a vida,
renovando em minha alma a fé perdida
depois de morta a crença derradeira;
Pelo sorriso bom de companheira
que a novas esperanças me convida,
quando vejo, na estrada percorrida
dos meus sonhos a extinta sementeira;
Pela graça de irmã de Caridade
com que teu meigo afeto me persuade
de que lutar confiante é o meu dever;
Bendita sejas Flor de mansuetude,
em cujo seio, finalmente, pude
descansar a cabeça e adormecer...
975
1
Ednólia Fontenele
O Rio Deságua em Mim
O rio deságua em mim!
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
936
1
Adail Coelho Maia
Janela do Passado
Debruçado na janela do passado,
Ao longe, distingui longos caminhos,
Repletos de cardos e de espinhos,
Em fileiras de um lado e de outro lado!
Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado,
Nos lugares desertos e mesquinhos,
Qual ave a cantar fora dos ninhos,
Num gorjeio saudoso e sufocado...
Se a criancinha encosta-se ao peito,
Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava,
Não me permite aconchegá-la ao peito!...
Espelho sou de luz amortecida;
Foge de mim quem outrora me abraçava,
É uma vida sem vida, a minha vida!...
Ao longe, distingui longos caminhos,
Repletos de cardos e de espinhos,
Em fileiras de um lado e de outro lado!
Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado,
Nos lugares desertos e mesquinhos,
Qual ave a cantar fora dos ninhos,
Num gorjeio saudoso e sufocado...
Se a criancinha encosta-se ao peito,
Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava,
Não me permite aconchegá-la ao peito!...
Espelho sou de luz amortecida;
Foge de mim quem outrora me abraçava,
É uma vida sem vida, a minha vida!...
986
1
Madi
Oásis
Oásis
Faço do meu amor um oásis
E ele faz dele um deserto
Ao seu lado, vivo como os beduínos
-- morta de sede
Faço do meu amor um oásis
E ele faz dele um deserto
Ao seu lado, vivo como os beduínos
-- morta de sede
1 126
1
Afonso Lopes de Almeida
Vida
Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
1 130
1
Vitorino Nemésio
Requiescat
Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
1 809
1
Figueiredo Pimentel
Olhos Misteriosos
Enigma vivos esfinge indecifrável!
Quem poderá, acaso, desvendar
Os arcanos que existem no insondável
Fundo daquele olhar?!...
Olhar que lembra o Fogo-fátuo, errante,
De cova em cova, rápido, a fugir;
Olhar de aço — ora morto, ora brilhante,
Esquisito, a fulgir...
Olhar imenso, olhar caliginoso,
Do Infinito espelhando a vastidão,
Que terrível segredo misterioso
Reflete o teu clarão?
Olhar que fala... Mas, que língua estranha,
Que idioma de bárbaro país,
Falam tais olhos, cuja luz me banha,
Fazendo-me infeliz?!...
Que paisagem fantástica de Sonho
Esse olhar nebuloso reproduz
— Luar triste, deserto, ermo, tristonho,
Sem trevas e sem luz;
Onde uma cor funérea, indefinida,
(Uma cor, que não é bem uma cor)
Paira como uma luz amortecida,
Um lívido palor?
Enigma vivo! esfinge indecifrável!
Quem poderá, acaso, desvendar
Os arcanos que existem no insondável
Fundo daquele olhar?
Olhar trevoso, olhar que nos aponta
Incognoscível Região do Além:
Quem é que sabe o que esse olhar nos conta?!
Ninguém!... ninguém!... ninguém!...
Quem poderá, acaso, desvendar
Os arcanos que existem no insondável
Fundo daquele olhar?!...
Olhar que lembra o Fogo-fátuo, errante,
De cova em cova, rápido, a fugir;
Olhar de aço — ora morto, ora brilhante,
Esquisito, a fulgir...
Olhar imenso, olhar caliginoso,
Do Infinito espelhando a vastidão,
Que terrível segredo misterioso
Reflete o teu clarão?
Olhar que fala... Mas, que língua estranha,
Que idioma de bárbaro país,
Falam tais olhos, cuja luz me banha,
Fazendo-me infeliz?!...
Que paisagem fantástica de Sonho
Esse olhar nebuloso reproduz
— Luar triste, deserto, ermo, tristonho,
Sem trevas e sem luz;
Onde uma cor funérea, indefinida,
(Uma cor, que não é bem uma cor)
Paira como uma luz amortecida,
Um lívido palor?
Enigma vivo! esfinge indecifrável!
Quem poderá, acaso, desvendar
Os arcanos que existem no insondável
Fundo daquele olhar?
Olhar trevoso, olhar que nos aponta
Incognoscível Região do Além:
Quem é que sabe o que esse olhar nos conta?!
Ninguém!... ninguém!... ninguém!...
1 613
1
Herberto Sales
Bruma Rubra
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
busco teu corpo,
na fome da indermida nudez de tuas formas,
que em seus túmidos relevos
são meu repasto e minha bilha.
Na bruma rubra,
buscando teu corpo
em ti me encontro.
E contigo parto em noturna cavalgada,
num dorcel de linho e plumas.
Na bruma rubra
busco teu corpo,
na fome de tua alma.
1 392
1
Bocage
Epitáfio
De Elmano eis sobre o mármore sagrado
A lira em que chorava ou ria de amores.
Ser deles, ser das Musas foi seu fado:
Honrem-lhe a lira vates e amadores.
A lira em que chorava ou ria de amores.
Ser deles, ser das Musas foi seu fado:
Honrem-lhe a lira vates e amadores.
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1
Walter Queiroz
Retalhos de Hoje
Na confluência das horas
germinarão as manhãs
no esquecimento das cores
gestando flores letais
as margaridas sangrando
no tombamento dos corpos
arribação dos canteiros
habitação nos fuzis
eu sei de loucas bandeiras
subindo o mastro dos sonhos
como notícias estampadas
informando os alumínios
quando as crianças passaram
louvando a festa do sol
eis que o olhar tão ferido
nem soube do feito azul
nem houve tato ao formato
da nave antiga em regresso
as impressões marinheiras
no baile branco das velas
pediu entrada na roda
para brincar de inventor
em silente artesanato
dos ritos para o encontro
porém a mão estendida
girou no ar (só... sobrou)
os gestos estão cravados
nos quinhões já repartidos
na confluência das horas
correm sonoras de fogo
no pavilhão indefeso
bandeiras de ocupação
com notícias estampadas
faca/navalha/cinzel
hábeis de corte fundando
trabalho de sangue novo
a cruz gravada no peito
tem raiz no coração
nos braços um gesto abraço
preparando a comunhão
junto os retalhos de hoje
e não direi da esperança
tornar bandeiras de fogo
em estandartes de paz
germinarão as manhãs
no esquecimento das cores
gestando flores letais
as margaridas sangrando
no tombamento dos corpos
arribação dos canteiros
habitação nos fuzis
eu sei de loucas bandeiras
subindo o mastro dos sonhos
como notícias estampadas
informando os alumínios
quando as crianças passaram
louvando a festa do sol
eis que o olhar tão ferido
nem soube do feito azul
nem houve tato ao formato
da nave antiga em regresso
as impressões marinheiras
no baile branco das velas
pediu entrada na roda
para brincar de inventor
em silente artesanato
dos ritos para o encontro
porém a mão estendida
girou no ar (só... sobrou)
os gestos estão cravados
nos quinhões já repartidos
na confluência das horas
correm sonoras de fogo
no pavilhão indefeso
bandeiras de ocupação
com notícias estampadas
faca/navalha/cinzel
hábeis de corte fundando
trabalho de sangue novo
a cruz gravada no peito
tem raiz no coração
nos braços um gesto abraço
preparando a comunhão
junto os retalhos de hoje
e não direi da esperança
tornar bandeiras de fogo
em estandartes de paz
902
1
Nelson Motta
barato zen
louco de fumo diante da tv
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
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1
Belmiro Braga
Olhando o Rio
A Alencar Duarte
Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.
Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.
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Adail Coelho Maia
Interrogação
Ris, por que ris de mim? julgas por certo
Que eu seja indigno de qualquer carinho?
— Ave perdida procurando ninho
Na solidão profunda do deserto?...
Vivo longe de ti, e a passo incerto
Sigo em silêncio o teu feliz caminho,
Porque sem ti me sentirei sozinho,
Trazendo o peito em mágoas encoberto.
Não sou capaz de profanar-te o nome,
Sofrendo embora esse martírio ardente,
Na fogueira do amor que me consome!...
Não rias, pois, da dor que me rodeia!
Olha que Deus proíbe e não consente,
Que a ente ria da desgraça alheia!...
Que eu seja indigno de qualquer carinho?
— Ave perdida procurando ninho
Na solidão profunda do deserto?...
Vivo longe de ti, e a passo incerto
Sigo em silêncio o teu feliz caminho,
Porque sem ti me sentirei sozinho,
Trazendo o peito em mágoas encoberto.
Não sou capaz de profanar-te o nome,
Sofrendo embora esse martírio ardente,
Na fogueira do amor que me consome!...
Não rias, pois, da dor que me rodeia!
Olha que Deus proíbe e não consente,
Que a ente ria da desgraça alheia!...
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Xavier de Carvalho
Noivas Mortas
Essas que assim se vão, fugindo prestes,
De ao pé dos noivos, carregando-os nalma,
Amortalhadas de capela e palma
Em demanda dos páramos celestes;
Essas que, sob o horror que a morte espalma,
Vão dormitar à sombra dos ciprestes
Em demanda dos páramos celestes
Amortalhadas de capela e palma;
Essas irão aos céus, de olhos risonhos,
Por entre os Anjos, pelas mãos dos Sonhos,
De asas flaflando em trêmulos arrancos,
De Alvas Grinaldas pelas tranças frouxas,
De olhos pisados e de olheiras roxas,
Todas cobertas de Pecados Brancos.
De ao pé dos noivos, carregando-os nalma,
Amortalhadas de capela e palma
Em demanda dos páramos celestes;
Essas que, sob o horror que a morte espalma,
Vão dormitar à sombra dos ciprestes
Em demanda dos páramos celestes
Amortalhadas de capela e palma;
Essas irão aos céus, de olhos risonhos,
Por entre os Anjos, pelas mãos dos Sonhos,
De asas flaflando em trêmulos arrancos,
De Alvas Grinaldas pelas tranças frouxas,
De olhos pisados e de olheiras roxas,
Todas cobertas de Pecados Brancos.
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1
Aluízio Medeiros
Viagens
A cavalo de galope
vejo ruínas de casas
sinto o lodo do passado
piso folhas amarelas
enveredo pelo tempo
me perco no latifúndio
devorante do sofrer
úmidos brejos visito
no labirinto das matas
adorantes como dantes
me embrenho e escalante
percorro terras incultas
de léguas, léguas e léguas
mas sou demiurgo então
crio um mundo que não esse
uma vida diferente
a cavalo de galope
nostalgia nostalgia
de não habitadas ver
estas terras estas casas
esta rua Assunção da infância
cirandantes estrelas cantantes
este val raso val Pajeú
este mar este céu claridades
crepitares de ares este dardo
Aldeota morada maloca
este Forte mirante de Praia
Formosa e canos idosos
larvados de lodo martírio
doutrora este tempo de agora
esta vida de agora é doutrora
este val desta vida de agora
vem o vento de sempre vagante
eis-me aqui onde outrora vivi.
vejo ruínas de casas
sinto o lodo do passado
piso folhas amarelas
enveredo pelo tempo
me perco no latifúndio
devorante do sofrer
úmidos brejos visito
no labirinto das matas
adorantes como dantes
me embrenho e escalante
percorro terras incultas
de léguas, léguas e léguas
mas sou demiurgo então
crio um mundo que não esse
uma vida diferente
a cavalo de galope
nostalgia nostalgia
de não habitadas ver
estas terras estas casas
esta rua Assunção da infância
cirandantes estrelas cantantes
este val raso val Pajeú
este mar este céu claridades
crepitares de ares este dardo
Aldeota morada maloca
este Forte mirante de Praia
Formosa e canos idosos
larvados de lodo martírio
doutrora este tempo de agora
esta vida de agora é doutrora
este val desta vida de agora
vem o vento de sempre vagante
eis-me aqui onde outrora vivi.
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