Poemas neste tema
Alma
Gilson Nascimento
P a s s a r e d o
Sabiá – canto dolente
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
À tarde a mata varando
Na alma de muita gente
Vais a saudade acordando
Vi um galo-de-campina
Seu colorido esbanjando
E as penas, à chuva fina
Um arco-íris formando
Um beija-flor cortejando
Uma rosa – vida em cor
Ao beijá-la vai doando
Pequenas doses de amor
Tico-tico pequenino
De galho em galho saltando
Qual um menino traquino
Vives a vida brincando
Rolinha fogo-pagou
O teu canto, na verdade,
É a voz de quem amou
Curtindo a dor da saudade
1 081
1
Natália Correia
O Livro dos Amantes II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
2 035
1
Alexei Bueno
Transmutação
Transmutação
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
2 056
1
Gonzaga Leão
Soneto à Rosa Acontecida
Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
1 258
1
Luís Amaro
A Teixeira de Pascoais
1
Tudo a noite transforma.
A verdade das coisas está perto
E, o silencio fala
Com as sombras da nossa alma, iguais
As sombras dum jardim lunar
Com árvores e flores
Que refletem nossa paisagem íntima.
Imagem do silêncio,
Ó fonte do meu sonho, recolhida
E imersa na penumbra ...
Longe, uma tristeza irmã abre-me os braços
Onde tudo me diz
O sentido da vida!
2
Lá vem a noite... As sombras
Invadem já meu coração sozinho,
Tocado de mistério e de silêncio,
Ferido de remorso e nostalgia.
Lá vem a noite, e traz consigo
O abandono absoluto, o esquecimento,
O contato mais íntimo das coisas
Que nos povoam e sobressaltam.
Lá vem a noite... E eu, desamparado,
Defronto enigmas e desfio lembranças
Da vida vã, dispersa... Mas súbito
Uma outra voz acalma o coração,
Cresce da sombra, iluminada e pura!
3
Um fio de música
Que me liberte
Do peso escuro
Que trago em mim!
Um fio de música
Que me transmita
(E a alma inunde),
Mãe, teu perdão!
Um fio de música
Que vã ao fundo
Do ser dorido,
Qual uma bênção
E sagre e embale
Meu coração
Das trevas preso:
Um fio de luz
Que me redima
Daquele instante
E varra, afaste
A vil lembrança!
Um fio de música
A dar-me alento
De olhar de frente
A luz do dia!
4
Ave ferida, minha alma
Necessita de silêncio
Para voar liberta da aridez dos dias,
E vai morrendo ausente
Da luz do alto onde quisera
Pairar sem nome e sem destino ...
Ave ferida e deserta
De esperanças, vai ficando
Saudosa dos longes, da distância,
E suas asas retraem-se, doridas,
De encontro às grades frias, lisas,
Dum cárcere obscuro!
Ave ferida e sedenta
Dos livres horizontes, das palavras
Que crepitam nos astros e fluem
Dos corações amantes, das montanhas
— Minha alma necessita de silencio
E, refletindo na noite a sua imagem,
Ir ao fundo das coisas, desprendida!
5
Nos confusos recantos onde o sonho
Se espraia e vive, sem dizer seu nome.
Pulsa num coração o ritmo do mundo.
Ignorado, longe, intranqüilo,
Do grande mar, rasgando a imensidade,
Voga no vento um clamor, um grito
Que a noite guarda abandonadamente
E o coração anônimo adivinha
Além da névoa persistente, triste...
E do silêncio emerge urna voz pura,
Já liberta de lágrimas, cantando,
Na luz oculta, o despontar da vida!
Tudo a noite transforma.
A verdade das coisas está perto
E, o silencio fala
Com as sombras da nossa alma, iguais
As sombras dum jardim lunar
Com árvores e flores
Que refletem nossa paisagem íntima.
Imagem do silêncio,
Ó fonte do meu sonho, recolhida
E imersa na penumbra ...
Longe, uma tristeza irmã abre-me os braços
Onde tudo me diz
O sentido da vida!
2
Lá vem a noite... As sombras
Invadem já meu coração sozinho,
Tocado de mistério e de silêncio,
Ferido de remorso e nostalgia.
Lá vem a noite, e traz consigo
O abandono absoluto, o esquecimento,
O contato mais íntimo das coisas
Que nos povoam e sobressaltam.
Lá vem a noite... E eu, desamparado,
Defronto enigmas e desfio lembranças
Da vida vã, dispersa... Mas súbito
Uma outra voz acalma o coração,
Cresce da sombra, iluminada e pura!
3
Um fio de música
Que me liberte
Do peso escuro
Que trago em mim!
Um fio de música
Que me transmita
(E a alma inunde),
Mãe, teu perdão!
Um fio de música
Que vã ao fundo
Do ser dorido,
Qual uma bênção
E sagre e embale
Meu coração
Das trevas preso:
Um fio de luz
Que me redima
Daquele instante
E varra, afaste
A vil lembrança!
Um fio de música
A dar-me alento
De olhar de frente
A luz do dia!
4
Ave ferida, minha alma
Necessita de silêncio
Para voar liberta da aridez dos dias,
E vai morrendo ausente
Da luz do alto onde quisera
Pairar sem nome e sem destino ...
Ave ferida e deserta
De esperanças, vai ficando
Saudosa dos longes, da distância,
E suas asas retraem-se, doridas,
De encontro às grades frias, lisas,
Dum cárcere obscuro!
Ave ferida e sedenta
Dos livres horizontes, das palavras
Que crepitam nos astros e fluem
Dos corações amantes, das montanhas
— Minha alma necessita de silencio
E, refletindo na noite a sua imagem,
Ir ao fundo das coisas, desprendida!
5
Nos confusos recantos onde o sonho
Se espraia e vive, sem dizer seu nome.
Pulsa num coração o ritmo do mundo.
Ignorado, longe, intranqüilo,
Do grande mar, rasgando a imensidade,
Voga no vento um clamor, um grito
Que a noite guarda abandonadamente
E o coração anônimo adivinha
Além da névoa persistente, triste...
E do silêncio emerge urna voz pura,
Já liberta de lágrimas, cantando,
Na luz oculta, o despontar da vida!
964
1
Amélia Rodrigues
Descobertas
Hoje
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão tristes e voluntariosas
São as minhas concepções de saudade.
Reencontrei,
Na chama da sua lembrança,
A força e vida de um sentimento
Arguto, permanente e ocioso
Que se alimenta da solidão do meu ego.
Forte,
Busquei a cura,
A vacina para este mal.
Adensei os meus valores,
Corrigindo sensações e avaliando
Respostas...
Fraca,
Desci a estrada do inconformismo
Por não poder trazê-lo à eternidade
E a solidão se fez mais forte
Rasgando as minhas defesas,
Fazendo-se imune à reação do meu espírito.
Hoje
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão insólito e inescrupuloso
É o amor que sinto por você.
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão tristes e voluntariosas
São as minhas concepções de saudade.
Reencontrei,
Na chama da sua lembrança,
A força e vida de um sentimento
Arguto, permanente e ocioso
Que se alimenta da solidão do meu ego.
Forte,
Busquei a cura,
A vacina para este mal.
Adensei os meus valores,
Corrigindo sensações e avaliando
Respostas...
Fraca,
Desci a estrada do inconformismo
Por não poder trazê-lo à eternidade
E a solidão se fez mais forte
Rasgando as minhas defesas,
Fazendo-se imune à reação do meu espírito.
Hoje
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão insólito e inescrupuloso
É o amor que sinto por você.
1 850
1
Leonardo Aires Araujo
O amor é tudo
O amor é tudo
O amor é tudo
Amo, ao conhecer
Os momentos que saíram do lugar
Surgi, quase como uma providência
Das luzes que ergui ao chorar
O amor é tudo
Amo, ao conhecer
Os momentos que saíram do lugar
Surgi, quase como uma providência
Das luzes que ergui ao chorar
855
1
Carlos Saraiva Pinto
as coisas complexas
são inimigas de Deus
torna-me pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
torna-me pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.
de Escrever Foi um Engano(2000)
1 475
1
Carlos de Oliveira
Visão de José Gomes Ferreira no Vanderman
Nos cimos,
onde a água esperava o momento de vir lavar
os homens,
Você viu
por um súbito rasgão da insónia
os animais miúdos comidos pelos maiores,os
maiores comidos pelos homens,os homens
roídos pela antropofagia e pelos dentes
amarelos das estrelas.
Desde então,
o seu remorso brota de cada gota-recordação do
Vanderman
e o tempo,devorando as estrelas,engorda mais
com as grandes patas fulvas atoladas em
nossos corações,
essa lama de sangue.
de Terra de Harmonia
onde a água esperava o momento de vir lavar
os homens,
Você viu
por um súbito rasgão da insónia
os animais miúdos comidos pelos maiores,os
maiores comidos pelos homens,os homens
roídos pela antropofagia e pelos dentes
amarelos das estrelas.
Desde então,
o seu remorso brota de cada gota-recordação do
Vanderman
e o tempo,devorando as estrelas,engorda mais
com as grandes patas fulvas atoladas em
nossos corações,
essa lama de sangue.
de Terra de Harmonia
1 892
1
Mário de Sá-Carneiro
Crise Lamentável
Gostava
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
5 522
1
Mário de Sá-Carneiro
Escavação
Numa ânsia de ter alguma cousa
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo
E cinzas, cinzas, só em vez de fogo...
– Onde existo que não existo em mim?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
Um cemitério falso sem ossadas –
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo
E cinzas, cinzas, só em vez de fogo...
– Onde existo que não existo em mim?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ...
Um cemitério falso sem ossadas –
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
6 732
1
Júlio Salusse
Cisne
Cisne
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,
Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,
Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!
1 581
1
Ronaldo Cunha Lima
O medo e a falta
Você me faz medo,
mas você me faz falta.
A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.
A falta, com o medo, sobressalta.
Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,
você é o medo que me falta.
mas você me faz falta.
A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.
A falta, com o medo, sobressalta.
Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,
você é o medo que me falta.
1 988
1
Mário de Sá-Carneiro
Ápice
O
reio de sol da tarde
Que uma janela perdida
Reflectiu
Num instante indiferente –
Arde,
Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje
subitamente
Seu efémero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
– E não poder adivinhar
– Por que mistério se me evoca
– Esta ideia fugitiva,
– Tão débil que mal me toca!....
– Ah, não sei porquê, mas certamente
Aquele raio cadente
Alguma coisa foi na minha sorte
Que a sua projecção atravessou...
Tanto segredo no destino de uma vida ...
É como a ideia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou...
reio de sol da tarde
Que uma janela perdida
Reflectiu
Num instante indiferente –
Arde,
Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje
subitamente
Seu efémero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
– E não poder adivinhar
– Por que mistério se me evoca
– Esta ideia fugitiva,
– Tão débil que mal me toca!....
– Ah, não sei porquê, mas certamente
Aquele raio cadente
Alguma coisa foi na minha sorte
Que a sua projecção atravessou...
Tanto segredo no destino de uma vida ...
É como a ideia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou...
4 651
1
José Vasconcelos
Um Novo Dia
Vejo-me nos seus olhos
no silêncio desta manhã que nasce
renovando belezas,
despertando relvas novas,
vivificando a terra.
Vivamos este instante
de restos de orvalho,
de folhas verdes,
cheiro de mato novo,
e fertilidades vindouras.
Deixemo-nos envolver
neste encanto harmônico,
nesta paisagem inundada de luz,
de horizontes bonitos,
cheios de paz e distâncias,
relembrando um passado,
uma saudade,
um querer que é todo amor,
que é todo nosso,
que mora em mim,
em você.
Que nos embriaga de aromas
em manifestações de desejos
místicos e físicos;
que nos unem agora
em beijos úmidos,
carícias ternas,
sob a luz
de UM NOVO DIA.
no silêncio desta manhã que nasce
renovando belezas,
despertando relvas novas,
vivificando a terra.
Vivamos este instante
de restos de orvalho,
de folhas verdes,
cheiro de mato novo,
e fertilidades vindouras.
Deixemo-nos envolver
neste encanto harmônico,
nesta paisagem inundada de luz,
de horizontes bonitos,
cheios de paz e distâncias,
relembrando um passado,
uma saudade,
um querer que é todo amor,
que é todo nosso,
que mora em mim,
em você.
Que nos embriaga de aromas
em manifestações de desejos
místicos e físicos;
que nos unem agora
em beijos úmidos,
carícias ternas,
sob a luz
de UM NOVO DIA.
856
1
Casimiro de Abreu
Moreninha (trechos)
Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!
Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!
E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.
...
Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...
Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
– Como tu ficas bonita
Com as tranças presas na fita,
Com as flores no samburá!
Eu disse então: – "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores
"Deixa perfumes sentir!"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!
Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!
Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!
Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importa rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?
Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia
Como mais linda não há.
Jesus! como eras bonita
Com as tranças presas na fita,
Com as flores no samburá!
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!
Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!
E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.
...
Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...
Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
– Como tu ficas bonita
Com as tranças presas na fita,
Com as flores no samburá!
Eu disse então: – "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores
"Deixa perfumes sentir!"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!
Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!
Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!
Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importa rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?
Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia
Como mais linda não há.
Jesus! como eras bonita
Com as tranças presas na fita,
Com as flores no samburá!
3 598
1
Juscelino Vieira Mendes
AS CHAMAS DE ALMAS MORTAS
Para o Pataxó: Galdino Jesus dos Santos - em memória
As chamas de almas mortas
Se movem - Mais um índio cai inerte
Envolto pelas chamas ignotas
De um desdenhar que perverte.
Almas que se ocultam entre as chamas
Para o destilar do ódio, da amargura...
E, surdas, em noite escura,
Não ouvem um ser que clama!
Em meio àquelas labaredas, terminal
De sonhos, esperanças, calor...
Que viraram tochas em macabro ardor
De madrugada seca e infernal
Vislumbramos a solidão do deserto
Que há em todos nós, que navegamos
Em mar vermelho e incerto
De tubarões gélidos que encontramos.
Era um Pataxó que quisera ser
Mendigo de suas próprias heranças
Destronado que fora dos sonhos de ter
Suas matas, habitadas de lembranças.
Recebeu sua parte comendo o pão
Buscado sob mesas fartas,
O seu pedaço de chão:
Em chamas, à semelhança de suas matas.
As chamas de almas mortas
Se movem - Mais um índio cai inerte
Envolto pelas chamas ignotas
De um desdenhar que perverte.
Almas que se ocultam entre as chamas
Para o destilar do ódio, da amargura...
E, surdas, em noite escura,
Não ouvem um ser que clama!
Em meio àquelas labaredas, terminal
De sonhos, esperanças, calor...
Que viraram tochas em macabro ardor
De madrugada seca e infernal
Vislumbramos a solidão do deserto
Que há em todos nós, que navegamos
Em mar vermelho e incerto
De tubarões gélidos que encontramos.
Era um Pataxó que quisera ser
Mendigo de suas próprias heranças
Destronado que fora dos sonhos de ter
Suas matas, habitadas de lembranças.
Recebeu sua parte comendo o pão
Buscado sob mesas fartas,
O seu pedaço de chão:
Em chamas, à semelhança de suas matas.
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Daniel Faria
Estranho é o sono
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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William Butler Yeats
Versos escritos com desânimo
Quando foi a última vez que reparei
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
nos redondos olhos verdes e nos longos, vacilantes corpos
Dos leopardos misteriosos da lua?
Todas as feiticeiras dos bosques, senhoras tão nobres,
Partiram por causa das vassouras e das lágrimas,
Das suas lágrimas de ira.
Os centauros sagrados foram expulsos das colinas;
Nada me resta senão o sol frio;
A lua, mãe heróica, desapareceu,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos,
tenho de suportar este sol débil.
(Tradução de
Tatiana Leão e Manuel Rodrigues)
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Mário de Sá-Carneiro
Das Sete Canções de Declíno
Um frenesi
hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Foi um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida...
Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil.
Na ideia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem...
Parou ali a barca – e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... – ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo...
...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor de rosa
As torres de platina e de saudade.
Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar...
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos – carícias de âmbar flutuando...
Os palácios a rendas e escumalha,
De filigrana e cinza as catedrais –
Sobre a cidade a luz – esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais...
Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho – solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...
Exílio branco – a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos – seu brou-há-há...
E na Praça mais larga, em frágil cera,
Eu – a estátua que nunca tombará...
hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Foi um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida...
Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil.
Na ideia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem...
Parou ali a barca – e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... – ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo...
...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor de rosa
As torres de platina e de saudade.
Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar...
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos – carícias de âmbar flutuando...
Os palácios a rendas e escumalha,
De filigrana e cinza as catedrais –
Sobre a cidade a luz – esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais...
Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho – solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...
Exílio branco – a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos – seu brou-há-há...
E na Praça mais larga, em frágil cera,
Eu – a estátua que nunca tombará...
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Daniel Faria
Voz no vento passando
Voz no vento passando entre poeira
Edifício
Árvore noutro poema
Fico à sombra da vide e do esteio no Outono
E enxerto a luz
Em tudo o que nomeio
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Edifício
Árvore noutro poema
Fico à sombra da vide e do esteio no Outono
E enxerto a luz
Em tudo o que nomeio
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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António Franco Alexandre
Já lentamente sofro a tua água,o sopro
da memória nas colinas.
deste-me um corpo,a casa
onde acordar o vento,e a terra,e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.
afasta do meu rosto a tua vã promessa.deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão de terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.
de Visitação
deste-me um corpo,a casa
onde acordar o vento,e a terra,e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.
afasta do meu rosto a tua vã promessa.deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão de terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.
de Visitação
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Amélia Rodrigues
Você é Isso
Um clarão que desponta
Nas trevas do coração ...
Um elo transparente
Das carícias à ilusão...
Um afeto que surge
E fortalece a união,
Sempre pronto para ser,
Poder estar, viver
Pleno de amor
E amargura no coração.
Um ser que busca
A cidade
Da alma do amigo,
Que escorrega no seu pranto
E abafa o seu grito ...
Alguém que aceita a dor
Como um lenitivo
Nas luzes enegrecidas
Pelo fumo do inimigo ...
A fuga discordante
De um momento de paz
Quando chora o amor
Que tanta falta lhe faz.
Você é isso
Que eu encaro, reparo
E aceito
Como um amigo que tenho
No peito
Junto à liberdade
De ser quem sou.
Nas trevas do coração ...
Um elo transparente
Das carícias à ilusão...
Um afeto que surge
E fortalece a união,
Sempre pronto para ser,
Poder estar, viver
Pleno de amor
E amargura no coração.
Um ser que busca
A cidade
Da alma do amigo,
Que escorrega no seu pranto
E abafa o seu grito ...
Alguém que aceita a dor
Como um lenitivo
Nas luzes enegrecidas
Pelo fumo do inimigo ...
A fuga discordante
De um momento de paz
Quando chora o amor
Que tanta falta lhe faz.
Você é isso
Que eu encaro, reparo
E aceito
Como um amigo que tenho
No peito
Junto à liberdade
De ser quem sou.
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Luís de Camões
Um mover dolhos, brando e piadoso
Um mover dolhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ûa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar; üa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;
esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ûa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar; üa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;
esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
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