Poemas neste tema
Alma
João Lobeira
Senhor gentil
Senhor gentil,
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
653
Renato Rezende
[Ossos]
Eu fazia, fazia e continuava com a sensação de ser nada. Vazio. Enquanto você, sem fazer nada, era. É. Me ensina a ser, assim, já sendo—sem esse constante vir a ser.
Segure o Amor e solte todo o resto.
Solta.
Tudo é perfeito habitando o Amor,
Amor,
Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.
[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]
eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar
eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar
eu gozo no impossível
eu quero o impossível
[eu sou um poeta místico?]
(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)
Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.
Sou um homem casto e uma mulher devassa
Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente
O sol explode no centro do meu coeur.
O mago ordenou entoando em língua de mortos
que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova
Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.
Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?
Não na linguagem, mas no próprio ser?
O corpo é a linguagem.
Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
Segure o Amor e solte todo o resto.
Solta.
Tudo é perfeito habitando o Amor,
Amor,
Eu te mando pelo correio um grande coração de chocolate, para você devorar de olhos fechados, como se fosse o meu próprio coração apaixonado.
[depois me manda de volta,
num potinho,
o resultado do meu amor no seu sistema digestivo]
eu te amo desta forma ardente porque sei que nosso amor nunca
vai se realizar
eu te amo porque você é impossível
eu te faço impossível para poder te amar
eu gozo no impossível
eu quero o impossível
[eu sou um poeta místico?]
(Fecho os olhos e me deito sob o sol, fora do tempo, sem história ou linguagem)
Meus olhos estão leves, como se flutuassem fora do corpo.
Sou um homem casto e uma mulher devassa
Com doçura imagino ser devorado por demônios, enormes insetos cegos com garras, até que só restem os ossos, o esqueleto ardente
O sol explode no centro do meu coeur.
O mago ordenou entoando em língua de mortos
que cortassem meu corpo
limpassem meus ossos
recobrindo tudo
com carne nova
Vi o corpo todo em fogo. É preciso incendiar o corpo. Preciso
explodir no aqui.
Emergir do lado de lá.
Como reinventar-se? Como dar nascimento a si mesmo?
Não na linguagem, mas no próprio ser?
O corpo é a linguagem.
Quem inspira e expira em mim agora são meus pés.
1 033
Francesca Angiolillo
Parêntesis
(um beijo roubado em uma
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
esquina e um
no balcão
de um bar os beijos
prolongando-se na esquina
–e foram cem e mil e outros cem
e um mais a apagar
toda dúvida não há dúvida
que resista a essa chuva
dúvidas nunca
nunca se cristalizam
há só certezas
nessa pausa nossas falsas
certezas cristalinas
roubando-me de mim,
roubando-me na esquina,
abrindo esta página;
este silêncio
branco
perturbado por negros
pontos
de interrogação
Aonde foi o odor de roupa
limpa, fumaça e perfume?
Aonde nossos nomes,
hieróglifos, inscrições
pichações? nessa esquina
eterna as letras
se reordenam as letras são
falas iniciais numa cama
molhada
neste mundo.
Como fechar a gaveta
deste parêntese?
Há só um
meio, e é assim:
)
Um parêntese que não se fecha
é uma ferida aberta
sempre, sempre
algo como
escrevo
em todo lume seu nome
algo como
sem você
minhas mãos estão vazias
(um perfil enviado desde longe:
um parêntese ainda por fechar.)
583
Daniel Lima
Ao nasceres
Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
848
Renato Rezende
[Hosana]
Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
1 005
Francesca Angiolillo
Uma carta não enviada de Teerã
Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
624
Renato Rezende
[Bússola]
De vez em quando, é bom andar na corda bamba.
Viver é passar por um intestino.
As luzes douradas.
Fogaréu azul.
Não dá para fazer mais nada.
Tenho certeza que algo existe em mim. Só não sei se esse algo sou eu.
Sou em essência alguém ou sou apenas um lugar, um ponto de confluência de palavras e corpos?
Meu carro parado no acostamento da estrada movimentada me provoca uma angustiante sensação de movimento.
Passo pelas coisas ou são as coisas que passam por mim, me atravessam? Atravesso?
O que em mim é?
Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?
O desejo é minha bússola
Nosso único norte. O desejo:
Lá onde menos temos controle
é que somos mais o que somos.
O que em mim prefere
na cama uma mulher a um homem
Quando fica com fome, come
coisas cozidas, digere. O que em mim
quando corre sente tremer o corpo?
O maior problema da minha vida é que eu desenvolvi o hábito de abrir janelas à tarde.
Sempre de olho no extraordinário, sempre caindo pelas brechas do calendário, sempre olhando para longe
Eu pareço um balão que está sempre querendo se soltar do chão
Pensei em ir à praia
pensei seriamente em ir à praia
capaz ainda de ir á praia no final da tarde
(não por prazer,
mas por amor):
O mar eternamente batendo na praia
—isso sim é liberdade!:
Na areia, parecia um animal morto,
uma carcaça
mas era uma jaca podre.
O coração aberto como uma concha.
Viver é passar por um intestino.
As luzes douradas.
Fogaréu azul.
Não dá para fazer mais nada.
Tenho certeza que algo existe em mim. Só não sei se esse algo sou eu.
Sou em essência alguém ou sou apenas um lugar, um ponto de confluência de palavras e corpos?
Meu carro parado no acostamento da estrada movimentada me provoca uma angustiante sensação de movimento.
Passo pelas coisas ou são as coisas que passam por mim, me atravessam? Atravesso?
O que em mim é?
Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?
O desejo é minha bússola
Nosso único norte. O desejo:
Lá onde menos temos controle
é que somos mais o que somos.
O que em mim prefere
na cama uma mulher a um homem
Quando fica com fome, come
coisas cozidas, digere. O que em mim
quando corre sente tremer o corpo?
O maior problema da minha vida é que eu desenvolvi o hábito de abrir janelas à tarde.
Sempre de olho no extraordinário, sempre caindo pelas brechas do calendário, sempre olhando para longe
Eu pareço um balão que está sempre querendo se soltar do chão
Pensei em ir à praia
pensei seriamente em ir à praia
capaz ainda de ir á praia no final da tarde
(não por prazer,
mas por amor):
O mar eternamente batendo na praia
—isso sim é liberdade!:
Na areia, parecia um animal morto,
uma carcaça
mas era uma jaca podre.
O coração aberto como uma concha.
708
Francesca Angiolillo
Naxos
Melhor teria sido amar
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
o labirinto o desenho infinito
o engenho
a ter se deixado
devorar assim
no centro —
coração intestinos e outras
vísceras
abertas sem fio indicando
saída meada invisível
e sem uso
Melhor talvez
o minotauro
dentes chifres cascos e mãos
de homem
do que o homem
querendo lança não
um lar
o mar então
é a única
companhia ele nunca
nunca cala
suas mil bocas ondas
repetindo
eu você
na praia estreita
até os deuses sentem
dó
626
Renato Rezende
[Abgrund]
Tudo vale a pena
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
Tout enfant, j’ai senti dans mon coeur deux sentiments
contradictoires: l’horreur de la vie et l’extase de la vie.
Abyssus infinitudinis
Imagino usar sempre um hábito azul.
Caitanya Atman
Tudo é consciência
Caitanya Caitanya
A poesia em chamas
incapaz de explicar sua própria estranheza
[Poesia]
Arrombar a roda da linguagem.
UM DIA EU SILENCIO
Eu confundo vida e morte?
A morte não é.
Volta: um salto para a terra.
A linguagem são todas as máscaras.
O silêncio profundo é essa balbúrdia.
Poesia:
Eu me enlaço com o mundo pelo amor.
O prazer aos porcos, eu quero o amor.
Tudo o que está acontecendo não está acontecendo comigo.
(escrevo no escuro, olhos atentos, sem enxergar nada
no leito do papel
sombras)
Abyssus infinitudinis
A sensação de que todo o meu dia—toda a minha vida—está sendo mastigada, na boca, e depois regurgitada: enfim apta para ser vivida.
como se purificada, humanizada, feita ouro
Em casa, uma coleção de bocas
dentes
pernas
olhos
(a coisa mais linda
são olhos de gente)
ninguém de fato existe—fragmentos
coletados
colados por algum tempo, só aparência
o conteúdo é sempre o mesmo
cacos de espelho
o mundo inteiro meu espelho
eu não sou inteligente.
A inteligência é que pousa em mim, pensando.
O pensamento é que se pensa.
Sou todas as Consciências.
Doidivanas
Indivíduo imprudente, estouvado; adoidado, doidelo, girolas.
E agora?
Cala a boca e trabalha.
[Cala a boca e ama]
716
Daniel Lima
Minha mãe era feita de incertezas
Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
675
Antônio Olinto
Abertura
Noite é chuva, plano é longo.
Hora de abraçar a máquina
medianeira do olho e do objeto
disposta para o módulo dos ritos
através.
Ó câmara de sutis delicadezas,
brandura carda, mansa entrega,
me ensina a reta prontidão
no pegar cada coisa e seu contorno,
me concede a cordura decisiva
da lente caminhando para a imagem
diretamente.
Ferramenta e musa,
vem comigo às estacas do homem
chamado Sousa,
entra na macia resistência da pele
águas adentro
(sabes: somos em aquário,
nele andamos, consistimos,
amamos
refreados de presenças
além do líquido limite:
em aquário somos).
Mulher e fábula,
tira a transparência
das roupas silenciadas,
restaura os rituais
dos mitos cotidianos
passados de fêmea a fêmea,
mãe, irmã, amante,
câmera votiva.
Que importa sejas metal agora,
vidro, foco, olho de máquina,
para a justa visão da coisa vista?
Eia, câmera, comigo
ao plano largo, noite chuva.
Hora de abraçar a máquina
medianeira do olho e do objeto
disposta para o módulo dos ritos
através.
Ó câmara de sutis delicadezas,
brandura carda, mansa entrega,
me ensina a reta prontidão
no pegar cada coisa e seu contorno,
me concede a cordura decisiva
da lente caminhando para a imagem
diretamente.
Ferramenta e musa,
vem comigo às estacas do homem
chamado Sousa,
entra na macia resistência da pele
águas adentro
(sabes: somos em aquário,
nele andamos, consistimos,
amamos
refreados de presenças
além do líquido limite:
em aquário somos).
Mulher e fábula,
tira a transparência
das roupas silenciadas,
restaura os rituais
dos mitos cotidianos
passados de fêmea a fêmea,
mãe, irmã, amante,
câmera votiva.
Que importa sejas metal agora,
vidro, foco, olho de máquina,
para a justa visão da coisa vista?
Eia, câmera, comigo
ao plano largo, noite chuva.
650
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
712
Sidónio Muralha
Romance
Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
– Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…
– Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
– Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…
– Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
621
José Manuel Mendes
não voltarás
não voltarás
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
526
Antônio Olinto
VII
Asa da humildade
no corpo desistido.
Era uma fimbria que me perseguia
no contato da pele desnudada,
talvez nuvem que baixasse muito,
memoria que o tempo não matasse.
Como entender a voz das águas brancas
no horizonte de gente derramada?
Harpa humilde
para as canções menores
no acolhimento da lembrança finda
e areia, e coisa, e vento
na exaltação da ultima palavra,
a de antes da fraqueza consentida,
a do silencio insubmisso.
Esta humildade
como inicio de aflito testemunho
de atos renascidos na paisagem.
Apenas carne conformada na figura
em braços, lábios, coxas e vazios,
tentativa de único semblante,
de marca firmada no chão
para construir com ternura
a coragem do afastamento.
no corpo desistido.
Era uma fimbria que me perseguia
no contato da pele desnudada,
talvez nuvem que baixasse muito,
memoria que o tempo não matasse.
Como entender a voz das águas brancas
no horizonte de gente derramada?
Harpa humilde
para as canções menores
no acolhimento da lembrança finda
e areia, e coisa, e vento
na exaltação da ultima palavra,
a de antes da fraqueza consentida,
a do silencio insubmisso.
Esta humildade
como inicio de aflito testemunho
de atos renascidos na paisagem.
Apenas carne conformada na figura
em braços, lábios, coxas e vazios,
tentativa de único semblante,
de marca firmada no chão
para construir com ternura
a coragem do afastamento.
604
Francesca Angiolillo
Antropológica
cada mancha do
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
jaguar adivinha a
mão que seguindo língua
estrangeira hoje morta
a talhou
a serpente era um ser
poderoso
que harmonizava
os princípios
contrários
do universo
u baah k’uhul ajaw
esta é a imagem do
sagrado soberano
o sagrado soberano usava
adornos tingidos com o
pigmento extraído de
Spondylus princeps
uma concha avermelhada
do Pacífico
no lambe-lambe fora
do museu
a serpente
se engole
infinito amor tempo
infinito como o cão
que corre atrás
do próprio rabo
731
Francesca Angiolillo
Na avenida
Como é triste a vida na cidade
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
644
Renato Rezende
[Equilibrista]
Agora que vivo a diferença de cultura radicalmente, minha convicção é de que sempre vivemos num sistema de vida muito específico, seja numa cultura, seja noutra, seja entre uma e outra. Poderíamos estar vivendo em outro completamente diferente, mas é esse que impera. Poderíamos ter cinco sexos em vez de dois. Poderíamos ter mais idades de vida ou menos.
É aqui onde eu queria chegar: quanto mais específico se torna o meu saber do mundo, mais levantam-se hipóteses de especificidades totalmente outras e mais aumenta minha convicção da miséria de tal especificidade observada.
O que me espanta é que a maioria acredita no jogo que está jogando, não percebe que se trata de um imenso teatro de um Deus ... nada maléfico, que apenas está nos dando pistas para sair de seu labirinto. Inclusive todos me fornecem pistas para sair do labirinto, todos e tudo. Mas você é um dos que encontrei que mais tem consciência, contudo, de que tudo isso é um teatro labiríntico ou um labirinto teatral.
Quando a gente fica mais madura, fica um pouco horrorizada quando pensa como éramos inconseqüentes, como brincamos de equilibrista à beira do precipício. Olhando para trás, pensamos: somente nossa inocência pode ter nos salvado do desastre.
Como é uma vida nova, receio perdê-la. Receio assustar-me, preocupar-me, angustiar-me, cair em ansiedade—como se para salvar-me eu viesse a botar tudo a perder. Então quero proteger este meu reino interior recém alcançado. Quero protegê-lo e não quero fazer nada, com medo de precipitar-me. Só quero me guiar pelo amor, e dele não quero me afastar—mesmo que pareça que naufragarei contra os rochedos.
Não quero ser útil, não quero produzir, quero apenas ser e amar. Apenas amar.
A verdade é que sempre aspirei à derrota. Sempre busquei a derrota— flertei com o fracasso; o fracasso sempre me seduziu. O fracasso como método de ascese.
Peixe arredio, criatura das profundezas e das madrugadas,
Conformada com amores apenas prometidos,
países maravilhosos para não serem visitados,
vida apenas se for em versos:
Esta sou eu, por dentro e por fora. Meu querido,
Durante as noites tenho tido sonhos que revelam o mundo interior, que descolam a identidade do corpo, que me mergulham no que há aquém da linguagem.
A parte também é infinita, porque o todo é infinito.
(Ao invés de nada, tudo)
Tem muita visceralidade, uma visão do fenômeno poético vinculada à decomposição escatológica da linguagem.
Esse é o diário de um suicida.
Eu sou a cor dourada.
Invente um projeto doido para sua vida:
Gigantesco, Insensato.
É aqui onde eu queria chegar: quanto mais específico se torna o meu saber do mundo, mais levantam-se hipóteses de especificidades totalmente outras e mais aumenta minha convicção da miséria de tal especificidade observada.
O que me espanta é que a maioria acredita no jogo que está jogando, não percebe que se trata de um imenso teatro de um Deus ... nada maléfico, que apenas está nos dando pistas para sair de seu labirinto. Inclusive todos me fornecem pistas para sair do labirinto, todos e tudo. Mas você é um dos que encontrei que mais tem consciência, contudo, de que tudo isso é um teatro labiríntico ou um labirinto teatral.
Quando a gente fica mais madura, fica um pouco horrorizada quando pensa como éramos inconseqüentes, como brincamos de equilibrista à beira do precipício. Olhando para trás, pensamos: somente nossa inocência pode ter nos salvado do desastre.
Como é uma vida nova, receio perdê-la. Receio assustar-me, preocupar-me, angustiar-me, cair em ansiedade—como se para salvar-me eu viesse a botar tudo a perder. Então quero proteger este meu reino interior recém alcançado. Quero protegê-lo e não quero fazer nada, com medo de precipitar-me. Só quero me guiar pelo amor, e dele não quero me afastar—mesmo que pareça que naufragarei contra os rochedos.
Não quero ser útil, não quero produzir, quero apenas ser e amar. Apenas amar.
A verdade é que sempre aspirei à derrota. Sempre busquei a derrota— flertei com o fracasso; o fracasso sempre me seduziu. O fracasso como método de ascese.
Peixe arredio, criatura das profundezas e das madrugadas,
Conformada com amores apenas prometidos,
países maravilhosos para não serem visitados,
vida apenas se for em versos:
Esta sou eu, por dentro e por fora. Meu querido,
Durante as noites tenho tido sonhos que revelam o mundo interior, que descolam a identidade do corpo, que me mergulham no que há aquém da linguagem.
A parte também é infinita, porque o todo é infinito.
(Ao invés de nada, tudo)
Tem muita visceralidade, uma visão do fenômeno poético vinculada à decomposição escatológica da linguagem.
Esse é o diário de um suicida.
Eu sou a cor dourada.
Invente um projeto doido para sua vida:
Gigantesco, Insensato.
1 023
Antônio Olinto
Soneto de Natal
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
Machado de Assis
Mudaria o Natal ou mudo iria
mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
novidadeiro, múltiplo, daria
ao mudadiço mito da alegria
em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
de mucama, de verso, pouso, dia,
porque a muda modula esse desnudo
renascimento em palha, e molda e afia
o instrumento da troca, o fim miúdo,
a noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
ou somente o Natal me mudaria?
Machado de Assis
Mudaria o Natal ou mudo iria
mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
novidadeiro, múltiplo, daria
ao mudadiço mito da alegria
em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
de mucama, de verso, pouso, dia,
porque a muda modula esse desnudo
renascimento em palha, e molda e afia
o instrumento da troca, o fim miúdo,
a noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
ou somente o Natal me mudaria?
837
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
748
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 067
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
970
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
1 001
Renato Rezende
[Rapina]
É a poesia que traz o homem para a terra.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
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