Poemas neste tema
Alma
Manuel de Freitas
SPIRAL INSANA
Estilhaços de quê,
esses que trazes nas mãos
impotentes? Quem
te amou na breve ruína
do mundo? São de despedida
os sinais que do vazio se estendem
sobre o vazio. Talvez
se adivinhe o silêncio, a
extrema pureza do abandono.
Nem rosto tens já
para sorrir à morte.
Entretanto bebes muito
nos templos da amargura,
olhas sem paixão
o rigor feroz dos abutres
esvoaçado. O que procuras é
a própria canção do desespero,
uma taberna distante do mundo,
nenhum modo que não seja de noite
esses que trazes nas mãos
impotentes? Quem
te amou na breve ruína
do mundo? São de despedida
os sinais que do vazio se estendem
sobre o vazio. Talvez
se adivinhe o silêncio, a
extrema pureza do abandono.
Nem rosto tens já
para sorrir à morte.
Entretanto bebes muito
nos templos da amargura,
olhas sem paixão
o rigor feroz dos abutres
esvoaçado. O que procuras é
a própria canção do desespero,
uma taberna distante do mundo,
nenhum modo que não seja de noite
1 143
Manuel de Freitas
SINIETÉ
Não vale a pena empurrar o discurso
até aos nulos e fulgurantes
limites da linguagem. Não vale a pena
nomear o vazio com palavras mais estéreis ainda.
Que pereça sozinho este mundo onde
por descuido regressamos a um corpo
e lhe ensinamos a ruína, os vários rostos da morte.
Por corpo diz-se talvez
uma matéria que não nos pertence,
embora possessa a morramos.
Um nome não vale a pena.
Tudo existe, mas nada é real,
nem sequer o vazio, Digamos adeus
à alma que se nos nega
como uma salsicha sem lata,
deixando o poema esquecido
a um canto de si, esquecido e atroz.
De nosso só temos a morte,
o que não vale a penas sabermos
até aos nulos e fulgurantes
limites da linguagem. Não vale a pena
nomear o vazio com palavras mais estéreis ainda.
Que pereça sozinho este mundo onde
por descuido regressamos a um corpo
e lhe ensinamos a ruína, os vários rostos da morte.
Por corpo diz-se talvez
uma matéria que não nos pertence,
embora possessa a morramos.
Um nome não vale a pena.
Tudo existe, mas nada é real,
nem sequer o vazio, Digamos adeus
à alma que se nos nega
como uma salsicha sem lata,
deixando o poema esquecido
a um canto de si, esquecido e atroz.
De nosso só temos a morte,
o que não vale a penas sabermos
1 199
Eucanaã Ferraz
PEDIDO
Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
798
Eucanaã Ferraz
A LEITORA
Ali está ela, atenta.
Mas, repara: lê
como se levitasse.
O escrito pouco importa.
É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira
que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,
serena, não dá por isso.
Ou mais que:
não lê. Vê
as páginas,
como se da janela
a paisagem
e pousasse os olhos
na orla das páginas
sem saber
onde vão as palavras.
Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,
a árvore
que o livro foi um dia.
Mas, repara: lê
como se levitasse.
O escrito pouco importa.
É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira
que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,
serena, não dá por isso.
Ou mais que:
não lê. Vê
as páginas,
como se da janela
a paisagem
e pousasse os olhos
na orla das páginas
sem saber
onde vão as palavras.
Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,
a árvore
que o livro foi um dia.
673
Manuel de Freitas
MERDAFÍSICA
A poesia não é um tema importante (há quinze dias
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.
Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
que o mundo deixou de ter sentido).
O que interessa afinal são os breves modos
da morte, a mosca que teimosamente
caiu no rude prato da nossa sopa.
Porque é sobre nós que deixa de haver mundo
para podermos celebrar o vazio
– ou outra coisa qualquer
1 115
Manuel de Freitas
CAVE BAR
para a Susana
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
1 152
Eucanaã Ferraz
TRAÇO
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
769
Eucanaã Ferraz
O MÁGICO
De mim o que trará em sua capa
enigmática o mágico? De mim
o que haverá em sua urna aguda
e bem guardada? O que se mudará
de mim para o fundo falso e fundo
de seus olhos sem que eu perceba
nem queira dar por isso? Depois
do espanto, depois do óbvio
sob o fingimento das mangas e de
quantas ciências ocultas em suas
mãos abertas (hora de ir embora)
o que seremos? O que serei de
mim quando sair de cena o mágico?
Que restará do encanto? Há de ficar
comigo a música de agora? Algum
espinho? Um ás? O espanto?
enigmática o mágico? De mim
o que haverá em sua urna aguda
e bem guardada? O que se mudará
de mim para o fundo falso e fundo
de seus olhos sem que eu perceba
nem queira dar por isso? Depois
do espanto, depois do óbvio
sob o fingimento das mangas e de
quantas ciências ocultas em suas
mãos abertas (hora de ir embora)
o que seremos? O que serei de
mim quando sair de cena o mágico?
Que restará do encanto? Há de ficar
comigo a música de agora? Algum
espinho? Um ás? O espanto?
831
Eucanaã Ferraz
VALSA PARA GRAÇA
Abra-se tudo
em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram
em salas abertas, salões,
e o que se fechara
antes desabroche
numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro.
Abra-se o teto
do planetário, abra-se
o coração de fogo
e nele toda dor
torne a nada e
nada lhe resista e
por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.
Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar
a mesma sandália que
as palavras e os gestos
dela, alas
a ela, que assim
alta,
como que vai
descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes
e do medo, largando
na sua valsa
um rasto só de beleza.
Alas a ela.
em grande-angular:
alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram
em salas abertas, salões,
e o que se fechara
antes desabroche
numa sucessão de estrelas
em pleno dia claro.
Abra-se o teto
do planetário, abra-se
o coração de fogo
e nele toda dor
torne a nada e
nada lhe resista e
por onde passe alastre
sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.
Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto
alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar
a mesma sandália que
as palavras e os gestos
dela, alas
a ela, que assim
alta,
como que vai
descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes
e do medo, largando
na sua valsa
um rasto só de beleza.
Alas a ela.
904
Manuel de Freitas
SUMÁRIO
Tão real que até faz pena. Tirou
a dentadura para sorver as últimas pedras
de gin no cibercafé do bairro alto.
Depois descalçou-se a foi outra vez
estrangeira e loura, como se houvesse morte
para isto. Aquele que haverá, decerto,
e nos encontra mudos ao final da tarde.
Nós, digamos assim, tínhamos visto tudo.
Só não sei quem chorava mais: tu
ou o ar condicionado da 24 de Julho.
Os semáforos, em vez do coração,
lembravam um pénis no lavatório
à espera de outro poema
e da vida nem por isso.
a dentadura para sorver as últimas pedras
de gin no cibercafé do bairro alto.
Depois descalçou-se a foi outra vez
estrangeira e loura, como se houvesse morte
para isto. Aquele que haverá, decerto,
e nos encontra mudos ao final da tarde.
Nós, digamos assim, tínhamos visto tudo.
Só não sei quem chorava mais: tu
ou o ar condicionado da 24 de Julho.
Os semáforos, em vez do coração,
lembravam um pénis no lavatório
à espera de outro poema
e da vida nem por isso.
1 098
Manuel de Freitas
BENILDE AO BALCÃO I
Valerá a pena uma voz vária?
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.
Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?
Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».
Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.
Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.
Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».
Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.
Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.
Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?
Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».
Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.
Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.
Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».
Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.
Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.
1 130
Manuel Laranjeira
PALAVRAS DUM FAN'TASMA
Aquela doce e mística suicida
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...
Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....
Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...
Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...
Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....
Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...
Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
696
Ademir Assunção
MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI
numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos
e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 279
Ademir Assunção
A Canção dos Peixes
submersos
nas funduras
(de onde
alma alguma
retorna)
entre algas
rochas e restos
de naufrágios
cegos
e sem memória
os peixes
cantam
seus blues
canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo
que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir
em lugar algum
nas funduras
(de onde
alma alguma
retorna)
entre algas
rochas e restos
de naufrágios
cegos
e sem memória
os peixes
cantam
seus blues
canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo
que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir
em lugar algum
646
Ademir Assunção
A Vertigem do Caos
um estranho entre estranhos, nômade
entre escombros, procuro sem
procurar, um não-lugar, o ventre
de látex de uma replicante quase
humana, as ruínas enfim apaziguadas
da bombonera, as águas que refluem
pra dentro da baía de todos
os infernos, ali, onde a eternidade
são os dentes de estanho do último sol
mastigando oceanos como fatias
de pizza, lançadas ao ocaso
do fundo de um naufrágio, ante
a dança misteriosa de um feiticeiro cherokee
entre escombros, procuro sem
procurar, um não-lugar, o ventre
de látex de uma replicante quase
humana, as ruínas enfim apaziguadas
da bombonera, as águas que refluem
pra dentro da baía de todos
os infernos, ali, onde a eternidade
são os dentes de estanho do último sol
mastigando oceanos como fatias
de pizza, lançadas ao ocaso
do fundo de um naufrágio, ante
a dança misteriosa de um feiticeiro cherokee
670
João Filho
Quase Gregas - Quinta
Dos possíveis caminhos propôs o Caminho.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
E, assim, nascida sem fim, luz fundante,
sabendo que o cosmo é insuficiente
neste mundo-minuto
– do gozo do corpo
ao pó de tudo –,
profere: sim!
Rompe nãos, nadas
e principia a traçar o que não poderia ter sido.
Aqui, no largo do instante,
persente o espanto e celebra por celebrar –
das funduras da noite ao sussurro do sangue.
Luz generosa repete seu átimo,
assíduo em sumir,
mas delimita e, ao fazê-lo, liberta,
contorna e penetra toda a folhagem em fibra e
[verdura –
no centro da vida ,
a amendoeira transpira silêncio.
Manhã.
No trajeto, a luz atravessa o copo com água
na mesa da sala,
blocos de cores,
miríades rebentam
– rasante azulado cantante cruzando a varanda –
e desaparecem.
Ama? E degola.
O intento é cumprido
e os dias nos acontecem.
629
João Filho
MEDIDA
e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
806
Ademir Assunção
O Anjo do Ácido Elétrico
o anjo sujo, esfarrapado
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
remela nos olhos
cabeça feita
bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
(comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
música que não cessa
minha mão dentro da sua
veias são nervuras
golfinho saltando
na pele das costas
vênus vestindo
um manto de água
a ninfa chapada
de olhos elétricos
cores girando
no abismo sem fundo
dança de estrelas
no teto da sala
dois sóis em cada ontem
três vozes
na voz de quem cala
778
João Filho
TRÊS VEZES LÁZARO
Levou três tiros em
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
noites distintas;
morreu três vezes
a mesma morte.
Quem o matava?
Talvez o próprio,
talvez a voz
de origem vaga,
talvez o medo
de tudo e nada.
Correu sem rumo,
clamou, pediu,
derrotadíssimo
no sem-sentido
(muito depois
pode saber
que foi ouvido).
Dessas três mortes,
três vezes Lázaro:
custou-lhes partes
irreversíveis,
dor explodida,
alma quebrada,
poça de lama
dentro de casa.
Enrodilhado
no chão do quarto,
cão no seu canto,
quis perguntar
sabendo a réplica:
dilacerante
luz necessária.
478
Ademir Assunção
O GRITO
sob impacto da pintura de Edvard Munch
céu sangue, azuis de gases, instável
gravura – terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:
motivo algum – nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais – diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilás) – a bomba explode
nas entranhas:
e é isso que faz
a paisagem trêmula
céu sangue, azuis de gases, instável
gravura – terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:
motivo algum – nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais – diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilás) – a bomba explode
nas entranhas:
e é isso que faz
a paisagem trêmula
1 039
João Filho
Quase Gregas - Oitava
Sigo a senhora mestiça,
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
(ou melhor, seu perfume barato),
pelas calçadas da Rua Recife,
na aberta manhã de agosto.
Sigo esse rastro de infância cavado no ar,
meu coração siderado minera seu ouro nenhum.
Mas, depois, no intervalo indistinto,
entre o fim da tardinha
e a beira da noite,
surge sutil e exato o velho pesar –
hóspede importuno,
suja as paredes,
estraga a mobília,
emperra as portas.
Enxoto-o, mas quer se instalar.
Sedutor desastroso,
promete e o que dá desespera de si.
Há um desejo jamais concluído,
lacuna terrível e familiar,
reacendido minuto a minuto sem pausa.
O cansaço movente
(chora seus idos,
devoto ama e desama na mesma equação)
silencia
diante do maciço da noite vazado de luz.
Grato, agora,
o cansaço movente,
por ter seu suor enxugado por muitos,
lida invisível de mãos preparando seu sal.
632
Ademir Assunção
AUTO-RETRATO
talvez, uma noite
retorne
cansado das batalhas
e das festas
nada
nas mãos
muito pouco
nos bolsos
os olhos cheios
de imagens
os ouvidos loucos
de sons
shows dos stones
desenhos de escher
a pele tocada
por mulheres chocantes
vagabundo
cruzando estradas
ítacas
revisitadas
exausto das guerras
um dia, talvez
retorne
sem lenço
sem retoques
talhos
no rosto
cicatrizes
na pele da alma
a paisagem
se dissolvendo
velho, arqueado
o sapato
todo furado
e dois versos
na camiseta:
eis a vida
que não vendo
retorne
cansado das batalhas
e das festas
nada
nas mãos
muito pouco
nos bolsos
os olhos cheios
de imagens
os ouvidos loucos
de sons
shows dos stones
desenhos de escher
a pele tocada
por mulheres chocantes
vagabundo
cruzando estradas
ítacas
revisitadas
exausto das guerras
um dia, talvez
retorne
sem lenço
sem retoques
talhos
no rosto
cicatrizes
na pele da alma
a paisagem
se dissolvendo
velho, arqueado
o sapato
todo furado
e dois versos
na camiseta:
eis a vida
que não vendo
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José Anastácio da Cunha
Os Porquês do Amor
Céu, porque tão convulso e consternado
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?
Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?
Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?
Porque da mão nevada sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
679
Ademir Assunção
O OLHO AZUL DO MISTÉRIO
desço dos céus para beijar
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
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