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Poemas neste tema

Cultura e Tradição

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Separação Das Casas

Os deste lado brigaram
com os do lado de lá.
Não foi briga de xingar,
não foi rixa de bater
nem de sacar o revólver.
É briga de não falar
e de cerrar a janela
devagar e sem ranger,
se passa alguém do outro lado.
Briga de não conhecer
quem antes se conhecia,
se estimava, se tratava
com a maior civilidade,
quem antes se convidava
pra festa de batizado
e primeira comunhão,
casamento, aniversário
ou pra simples assustado,
a quem, se acaso surgisse
gente demais no jantar,
emprestado se pedia
meia dúzia de cadeiras
e meia dúzia de copos,
e que também recorria
com toda sem-cerimônia
à vizinhança amistosa
em noite de dor na perna
e de farmácia fechada
com vistas ao milagroso
vidrinho de Pronto Alívio
ou em outro qualquer aperto
que costuma suceder
nos lares mais bem providos.
Troca-troca se fazia
de doces, frutas, temperos,
receitas de forno e bilro,
mimos de mil qualidades
no vai e volta de cestas,
terrinas e tabuleiros.
Crianças das duas casas
unidas num só brinquedo
de chicotinho queimado,
carniça, gata-parida
e manja, roda, cantigas
lusamente brasileiras,
ou melhor, universais.
Té se faz de mentirinha
casamento de meninos
que talvez se torne um dia
matrimônio de verdade
em gorda concentração
de fortunas e de afetos.
(O mundo, calmo, autoriza
esperar dez, quinze anos.)
Eis de súbito alterado
o panorama gentil
de tão grata convivência.
Não se tira mais chapéu
nem mais se exibem risonhos
dentes de cordialidade,
já se finge não haver,
dos dois lados desta rua,
ninguém morando por perto.
Há um vazio de cem léguas
na estreiteza das calçadas.
Pequenos brinquem no quarto,
o velocípede novo
rode da sala à cozinha,
muito embora atropelando
grandes de todo respeito,
e quem fizer um aceno
para vulto de outro lado
entra feio na chinela
de ramagem verde hostil.
No grupo escolar, cuidado:
ninguém vá se misturar.
Que foi que houve, que não
houve, se nada sabemos?
Quem por acaso decifra
o que pode haver no ar
ou na cabeça dos grandes
reticentes, sigilosos?
Do lado de lá não sabem;
do lado de cá, também.
Não se filtra explicação.
Cala a boca! é a resposta
a quem demais especule.
E todo o mundo virou
cofre estranho de mistério
exemplarmente fechado
a mãos, olhares, perguntas…
Mas a velha cozinheira,
peça antiga da família,
que tudo sabe e resmunga
seu misto de língua longe
e de estalar de panela,
cospe de lado e define:
— Candonga, gente. Candonga.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Turcos

Os turcos nasceram para vender
bugigangas coloridas em canastras
ambulantes.
Têm bigodes pontudos, caras
de couro curtido,
braços tatuados de estrelas.
Se abrem a canastra, quem resiste
ao impulso de compra?
É barato! Barato! Compra logo!
Paga depois! Mas compra!

A cachaça, a geleia, o trescalante
fumo de rolo: para cada um
o seu prazer. Os turcos jogam cartas
com alarido. A língua cifrada
cria um mundo-problema, em nosso mundo
como um punhal cravado.
Entendê-los quem pode?

Mas Abrãozinho adolescente
foge de casa, esquivo, em seu segredo.
É capturado, volta. O velho Antônio Abrão
decreta-lhe castigo:
uma semana inteira no balcão,
cabeça baixa, ouvindo
perante os brasileiros
terríveis maldições intraduzíveis.

A turca, ei-la que atende
a fregueses sem pressa,
dá de mamar, purinha, a seu turquinho
o seio mais que farto.
Jacó, talvez poeta
sem verso e sem saber que existe verso,
altas horas exila-se
no alto da cidade, a detectar
no escuro céu por trás das serras
incorpóreas Turquias. E se algum
passante inesperado chega perto
Jacó não o conhece. Não é o mesmo
Jacó de todo dia em sua venda.
É o ser não mercantil, um elemento
da noite perquirinte, sem fronteiras.

Os turcos,
meu professor corrige: Os turcos
não são turcos. São sírios oprimidos
pelos turcos cruéis. Mas Jorge Turco
aí está respondendo pelo nome,
e turcos todos são, nesse retrato
tirado para sempre… Ou são mineiros
de tanto conviver, vender, trocar e ser
em Minas: a balança
no balcão, e na canastra aberta
o espelho, o perfume, o bracelete, a seda,
a visão de Paris por uns poucos mil-réis?
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em Março, Esta Semana

Segunda-feira a gente ficou presa
não no Distrito: em casa, ante o combate
de Cassius Clay e Frazier… Que tristeza
ver Muhammad Ali tatibitate,

hesitando, caindo, prolongando
por 15 rounds nossa aflição inglória:
Vai resistir? Virar a luta? Quando
acaba esta cruenta e lenta história?

Sem apostar um dólar ou cruzeiro
(pois nutro por tabefes sacro enjoo),
lamento haver perdido: o palradeiro
tem minha simpatia no seu voo

rumo à ideia de paz, num mundo em guerra.
Até um boxeador acusa o vício
de nos entrematarmos sobre a Terra,
este açougue instalado num hospício.

Lá se foi Harold Lloyd, um velho chapa
do tempo em que o cinema era calado
e a gente é que falava… Eis que à socapa
voltam risos e sombras do passado.

— Viu Carlito no Circo? — Não quis ver,
pois já não sou o broto carlitiano,
e procurando nele o antigo ser,
não mais o encontro… Deve haver engano.

Mudaria Carlito ou mudei eu?
(Sempre me perseguindo o eterno Assis,
como se a vida não me houvesse assaz
revelado o segredo de uma noz
escondida num papo de avestruz.)

A rima neste ponto se perdeu,
mas que importa? Se a Light não me apaga
a luz, visitarei com Geysa Bôscoli
(oh, abram alas!) Chiquinha Gonzaga
no livro que através o tempo fosco lhe
recorda o humano e musical perfil.
Que mulher e que mina de talento
em polca, xote, valsa, tango, mil
composições, arte lançada ao vento!

Mas que é isso, no Parque de Iguaçu?
Que diz o Frisch? Por manhas de posseiros
vejo as fontes secando e o solo nu?
Roubam nossos tesouros derradeiros?

Orlando Villas-Boas, por seu lado,
no Parque do Xingu, pede magoado:
— Mudem-me, por favor, esse traçado
de rodovia, que desmantelado

deixa o viver do índio na floresta
e nada lhe oferece além da triste
integração, essa ilusória festa
a que ele, sem defesa, não resiste.

Falar em índio, grande livro este,
novinho, de Darcy Ribeiro. Leste?
Uma serena avaliação de dados
a serem fundamente meditados

enquanto não se extingue a velha raça
de teto errante e de ventura escassa.
Já não mais tranço as rimas, e daí?
Parelhas são, mas contam o que li,

o que vi (ou não vi), prestando ouvido
na direção do terceiro partido.
Quem é que vai fundar, que pioneiro,
um que falta; o primeiro e verdadeiro?

Havia de ser bom. Mas como? Onde?
O eco anda maroto, não responde.
E vem-me a tentação, mais uma vez,
de romper estruturas… Um, dois, três:

“Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada…”
— Mas isto é de Bilac! — Então, adeus… Mais nada.

13/03/1971
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ver E Ouvir, Sem Brincar

Ninguém pergunta mais:
— Você vai brincar no carnaval?
Brincar, irmão, quem pode brincar
se perdida foi a ideia de brinquedo?
Alguns ainda perguntam:
— Como é? Vai pular no carnaval?

Então é isso a festa: um pulo
e outro pulo e mais outro? Neste caso,
campeoníssimo seria o João do Pulo.
O que ouço dizer é simplesmente:
— Vai ver o carnaval?
Conclusão, ano 80:
Carnaval
é o visual.

Você não brinca mais,
nem mesmo pula mais
na rua hoje deserta, no salão
onde um suor se liga a outro suor
e ar condicionado é falta de ar.
Que pode o folião? Acaso existe ainda,
e funciona, essa palavra folião?
Folia, antiga dança rápida
que o adufe acompanha, no dizer
de sábio, antigo, dicionário.
Quem me dança a folia, quem folia,
quem, fol ou fou, folâtre, folichon, folle,
fool, pratica o foliar?

Ah, sim, o sambista e sua escola
foliando para turistas e a distinta
Comissão Julgadora. Pontos! Pontos!
Quesitos mais quesitos! Briga feia
nessa programação oficial
que garimpa e governa o carnaval.
Foliam para os outros. Não foliam
pelo gosto,
pela graça,
pelo orgasmo de foliar, loucura santa,
desabrochar do corpo em rosa súbita,
em penacho, batuque, diabo, mico,
chama, cometa, esguicho, gargalhada,
a cambalhota em si, o riso puro,
o puro libertar-se da prisão
que cada um carrega em sua liberdade
vigiada, medida, escriturada.

Então pego uma sobra, vou olhar,
ouvir
a cor, o som, o balancê padronizado
que rioturisticamente se oferece
ao mercado da vista e dos ouvidos.
Eu vejo, não me integro,
não participo, não sou o grande todo,
nem o grande todo é mesmo todo e tudo.
Entre o olho e o desfile,
a arquibancada corta o meu impulso
de ser um com eles, ir com eles
pela rua afora,
pelo sonho afora.

A rua, onde ficou
a velha rua, seu espaço de brincar,
seu aberto salão a céu aberto,
sem entrada paga, sem cambistas
e fiscais?
O carnaval é rua, não teatro,
não show, produto industrial
monumental
a ser consumido numa noite
de lenta evolução
e classes divididas
pelo respeitável público pagante.
Como comprar, como pagar
o que não tem preço e chama-se
alegria?

16/02/1980
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Carnaval Chegando

A vitória

A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.


Turista

— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?


Tantos anos depois

O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.


Confidência

— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.


Previsão

Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.


Lacuna carioca

Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.


Pronunciamento

— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.

09/02/1974
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Antônio Ribeiro dos Santos

Antônio Ribeiro dos Santos

Epístola

Assim é, assim é, ó Serra amigo,
Homens desnaturais, filhos ingratos
Ao leite que mamaram, desmandados
Despeitam nossa língua veneranda:
Querem deixá-la a rústica gentalha,
Ou qual velha entrevada aposentá-la
No hospital dos inválidos. Não falam
Já nossos moços português, só parlam
Ou línguas estrangeiras, que mal sabem,
Ou um dialecto informe, nunca ouvido,
De português e de francês meado.
Assim se educam no colégio os moços,
Assim se fala em público teatro,
Assim nos vêm de fora parolando
Mancebos viajantes, que aprenderam
Quatro termos da moda, vinte frases
De estrangeiro romance mal trazidas.
Se assim se desaforam, certo em breve
Acaba o luso idioma, nem mais podem
Entender-nos a nós, nem nós a eles.
Neste transtorno, em que isto vai, depressa
Ficará a mesquinha língua, outrora
Tão tratada em civil cortejo, e rica,
Ora pobre, e deserta e montesinha,
D'urzes e tojo e cardos abafada;
E cedo em seu lugar já só veremos
O fanado nasal francês reinando:
Que estranha servidão! se ainda agora
O cabeludo godo dominasse
Sobre o trono de Espanha, se inda agora
O feroz agareno nos pisasse
As frescas ribas do sagrado Tejo,
Fora menos desar tomar a língua
Dos fortes vencedores; porém sendo
Nós outros livres de nações estranhas,
Sendo senhores do solar nativo,
É mui grande sandice e desgoverno
Pagar a estranhas línguas alcavala.
Mas tu, com alguns poucos amadores
Das coisas pátrias, que já poucos vejo,
Que conheces melhor do que eu os dotes
Da lusitana língua veneranda,
Sua riqueza e majestade e brios,
E o jus que tem a se manter no trono,
Farás, com teu exemplo ilustre e claro,
Que ela seja mantida e respeitada
Nas doutas obras, que lá estás compondo.
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