Desejo
Marcial
Tu depilas o peito
Tu depilas o peito, as pernas e os braços,
à volta do caralho cortas o pêlo curto,
para agradar, Labieno (quem o ignora?) à tua amante.
Mas a quem queres tu agradar, Labieno, ao depilar o cu?
III,71
Dói o caralho ao teu escravo
E a ti, Névolo, o cu.
Mesmo sem ser adivinho
sei bem de que raça és tu!
Alexandre S. Santos
Ao Léu
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
Judas Isgorogota
Os Pêssegos
aureolados de cetíneos fios;
tenros como os teus seios, perfumados,
frágeis, sedosos, tépidos, macios ...
Lembra teu colo, de veludo-rosa,
a polpa suave, sedutora, amena,
de indizível doçura, capitosa,
como o teu lábio de mulher morena...
Qual se de nétar fabricada fosse,
tem o sabor divino da ambrosia;
doce como os teus olhos, juraria
que só o sorriso teu é assim tão doce...
Toma-os nos braços teus, com tais cuidados
e de maneira tal todos unindo,
que, maduros que estão, de sazonados
não se vão machucando e diluindo...
Mas, abraçando-os, com efetivo encanto,
faze que os seios túrgidos, rosados,
juntos, agora, aos pêssegos dourados,
não se misturem nem se igualem tanto...
Não sorrias, amor, de meus receios...
Evitarás, assim, que estas amenas
visões, tão lindas — pêssegos e seios —
não me pareçam pêssegos, apenas...
Joaquim Pimentel
Só nós dois
O quanto nos queremos bem
Só nós dois é que sabemos
Só nós dois e mais ninguém
Só nós dois avaliamos
Este amor, forte, profundo...
Quando o amor acontece
Não pede licença ao mundo
Anda, abraça-me... beija-me
Encosta o teu peito ao meu
Esqueça o que vai na rua
Vem ser meu, eu serei tua
Que falem não nos interessa
O mundo não nos importa
O nosso mundo começa
Ca; dentro da nossa porta.
Só nós dois é que sabemos
O calor dos nossos beijos
Só nós dois é que sofremos
As torturas dos desejos
Vamos viver o presente
Tal-qual a vida nos dá
O que reserva o futuro
Só Deus sabe o que será.
Almeida Garrett
com a polpa dos dedos
a polpa
dos dedos
abro
o teu sorriso
gota
a
gota
até desmoronar
as vigas
dos meus olhos
Carlos Fino
a teia do olhar
descrevo-te o silêncio sob os lábios
juntos
agora celebrando as delicadas sedes
e rindo sobre a haste
onde a saliva tarda
o tacto é uma arma onde o esplendor devora
os sinuosos dedos
e paira sobre o ardor
onde incendeio os pulsos
o amor é uma dança
a demolir-me o peito
Almeida Garrett
NÃO TE AMO
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Fernando Pessoa
4 - SPELL
From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!
My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?
What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
Fernando Pessoa
ANTINOUS
The rain outside was cold in Hadrian's soul.
The boy lay dead
On the low couch, on whose denuded whole,
To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.
The boy lay dead, and the day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Memory of what he was gave no delight,
Delight at what he was was dead and dim.
O hands that once had clasped Hadrian's warm hands,
Whose cold now found them cold!
O hair bound erstwhile with the Pressing bands!
O eyes half-diffidently bold!
O bare female male-body such
As a god's likeness to humanity!
O lips whose opening redness erst could touch
Lust's seats with a live art's variety!
O fingers skilled in things not to be told!
O tongue which, counter-tongued, made the blood bold!
Gil Vicente
A seguinte farsa
A figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pêro Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão; Luzia e Fernando.
Finge-se que Inês Pereira, filha de hüa molher de baixa sorte, muito fantesiosa, está lavrando em casa, e sua mãe é a ouvir missa, e ela canta esta cantiga:
Quien con veros pena y muere
Que hará quando no os viere?
E diz
INÊS Renego deste lavrar
E do primeiro que o usou;
Ó diabo que o eu dou,
Que tão mau é d'aturar.
Oh Jesu! que enfadamento,
E que raiva, e que tormento,
Que cegueira, e que canseira!
Eu hei-de buscar maneira
D'algum outro aviamento.
Coitada, assi hei-de estar
Encerrada nesta casa
Como panela sem asa,
Que sempre está num lugar?
E assi hão-de ser logrados
Dous dias amargurados,
Que eu possa durar viva?
E assim hei-de estar cativa
Em poder de desfiados?
Antes o darei ao Diabo
Que lavrar mais nem pontada.
Já tenho a vida cansada
De fazer sempre dum cabo.
Todas folgam, e eu não,
Todas vêm e todas vão
Onde querem, senão eu.
Hui! e que pecado é o meu,
Ou que dor de coração?
Esta vida he mais que morta.
Sam eu coruja ou corujo,
Ou sam algum caramujo
Que não sai senão à porta?
E quando me dão algum dia
Licença, como a bugia,
Que possa estar à janela,
É já mais que a Madanela
Quando achou a aleluía.
Vem a Mãe, e não na achando lavrando, diz:
MÃE Logo eu adivinhei
Lá na missa onde eu estava,
Como a minha Inês lavrava
A tarefa que lhe eu dei...
Acaba esse travesseiro!
Hui! Nasceu-te algum unheiro?
Ou cuidas que é dia santo?
INÊS Praza a Deos que algum quebranto?
Me tire do cativeiro.
MÃE Toda tu estás aquela!
Choram-te os filhos por pão?
INÊS Prouvesse a Deus! Que já é razão
De eu não estar tão singela.
MÃE Olhade ali o mau pesar...
Como queres tu casar
Com fama de preguiçosa?
INÊS Mas eu, mãe, sam aguçosa
E vós dais-vos de vagar.
MÃE Ora espera assi, vejamos.
INÊS Quem já visse esse prazer!
MÃE Cal'-te, que poderá ser
Que «ame a Páscoa vêm os Ramos».
Não te apresses tu, Inês.
«Maior é o ano que o mês»:
Quando te não precatares,
Virão maridos a pares,
E filhos de três em três.
INÊS Quero-m'ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso,
Assi me dê Deos o paraíso,
Mil vezes que não lavrar
Isto não sei que me faz
MÃE Aqui vem Lianor Vaz.
INÊS E ela vem-se benzendo...
(Entra Lianor Vaz)
LIANOR Jesu a que me eu encomendo!
Quanta cousa que se faz!
MÃE Lianor Vaz, que é isso?
LIANOR Venho eu, mana, amarela?
MÃE Mais ruiva que uma panela.
LIANOR Não sei como tenho siso!
Jesu! Jesu! que farei?
Não sei se me vá a el-Rei,
Se me vá ao Cardeal.
MÃE Como? e tamanho é o mal?
LIANOR Tamanho? eu to direi:
Vinha agora pereli
Ó redor da minha vinha,
E hum clérigo, mana minha,
Pardeos, lançou mão de mi;
Não me podia valer
Diz que havia de saber
S'era eu fêmea, se macho.
MÃE Hui! seria algum muchacho,
Que brincava por prazer?
LIANOR Si, muchacho sobejava
Era hum zote#tamanhouço!
Eu andava no retouço,
Tão rouca que não falava.
Quando o vi pegar comigo,
Que m'achei naquele p'rigo:
- Assolverei! - não assolverás!
-Tomarei! - não tomarás!
- Jesu! homem, qu'has contigo?
- Irmã, eu te assolverei
Co breviairo de Braga.
- Que breviairo, ou que praga!
Que não quero: aqui d'el-Rei! -
Quando viu revolta a voda,
Foi e esfarrapou-me toda
O cabeção da camisa.
MÃE Assi me fez dessa guisa
Outro, no tempo da poda.
Eu cuidei que era jogo,
E ele... dai-o vós ao fogo!
Tomou-me tamanho riso,
Riso em todo meu siso,
E ele leixou-me logo.
LIANOR Si, agora, eramá,
Também eu me ria cá
Das cousas que me dizia:
Chamava-me «luz do dia».
- «Nunca teu olho verá!» -
Se estivera de maneira
Sem ser rouca, bradar'eu;
Mas logo m'o demo deu
Catarrão e peitogueira,
Cócegas e cor de rir,
E coxa pera fugir,
E fraca pera vencer:
Porém pude-me valer
Sem me ninguém acudir...
O demo (e não pode al ser)
Se chantou no corpo dele.
MÃE Mana, conhecia-te ele?
LIANOR Mas queria-me conhecer!
MÃE Vistes vós tamanho mal?
LIANOR Eu m'irei ao Cardeal,
E far-lhe-ei assi mesura,
E contar lhe-ei a aventura
Que achei no meu olival.
MÃE Não estás tu arranhada,
De te carpir, nas queixadas?
LIANOR Eu tenho as unhas cortadas,
E mais estou tosquiada:
E mais pera que era isso?
E mais pera que é o siso?
E mais no meio da requesta
Veio hum homem de hüa besta,
Que em vê-lo vi o p'raíso,
E soltou-me, porque vinha
Bem contra sua vontade.
Porém, a falar a verdade,
Já eu andava cansadinha:
Não me valia rogar
Nem me valia chamar:
- «Aque de Vasco#de#Fois,
Acudi-me, como sois!»
E ele... senão pegar:
- Mais mansa, Lianor Vaz,
Assi Deus te faça santa.
- Trama te dê na garganta!
Como! isto assi se faz?
- Isto não revela nada...
- Tu não vês que são casada?
MÃE Deras-lhe, má hora, boa,
E mordera-lo na coroa.
LIANOR Assi! fora excomungada.
Não lhe dera um empuxão,
Porque sou tão maviosa,
Que é cousa maravilhosa.
E esta é a concrusão.
Leixemos isto. Eu venho
Com grande amor que vos tenho,
Porque diz o exemplo antigo
Que a amiga e bom amigo
Mais aquenta que o bom lenho.
Inês está concertada
Pera casar com alguém?
MÃE Até `gora com ninguém
Não é ela embaraçada.
LIANOR Eu vos trago um casamento
Em nome do anjo#bento.
Filha, não sei se vos praz.
INÊS E quando, Lianor Vaz?
LIANOR Eu vos trago aviamento.
INÊS Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar
LIANOR Eu vos trago um bom marido,
Rico, honrado, conhecido.
Diz que em camisa vos quer
INÊS Primeiro eu hei-de saber
Se é<
Fernando Pessoa
XIX - Set the great Flemish hour aflame!
Your senses of all leisure maim!
Cast down with blows that joy even where they hurt
The hands that mock to avert!
All things pick up to bed that lead ye to
Be naked that ye woo!
Tear up, pluck up, like earth who treasure seek,
When the chest's ring doth peep,
The thoughts that cover thoughts of the acts of heat
This great day does intreat!
Now seem all hands pressing the paps as if
They meant them juice to give!
Now seem all things pairing on one another,
Hard flesh soft flesh to smother,
And hairy legs and buttocks balled to split
White legs mid which they shift.
Yet these mixed mere thoughts in each mind but speak
The day's push love to wreak,
The man's ache to have felt possession,
The woman's man to have on,
The abstract surge of life clearly to reach
The bodies' concrete beach.
Yet some work of this doth the real day don.
Now are skirts lifted in the servants' hall,
And the whored belly's stall
Ope to the horse that enters in a rush,
Half late, too near the gush.
And even now doth an elder guest emmesh
A flushed young girl in a dark nook apart,
And leads her slow to move his produced flesh.
Look how she likes with something in her heart
To feel her hand work the protruded dart!
Fernando Pessoa
A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.
1930
Fernando Pessoa
Se eu, ainda que ninguém,
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
João Peres de Aboim
que me vós nunca quisestes fazer
em que me vistes, de me mal querer.
Por Deus e por mesura e por mi,
dizede-m'esto que vos vim rogar!
E tal rogo nom vos dev'a pesar,
e terrei que me fazedes bem i.
Por aquesto que vos rogo, senhor,
dizede-mi-o, ca vos nom jaz i mal,
nem vos rog'eu que me digades al,
e terrei que me fazedes amor.
E vedes por que o quero saber:
por me guardar de vos pesar fazer.
Rui Costa
A música
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.
Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)
Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.
A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?
Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.
Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti
Rui Costa
Madrugada
podes fugir. ficar ou não ficar
assim. quieto. esse travo na boca
por dizer. esse gozo secreto
das coisas a gemer lá para o fim
Amália Bautista
A tentação
surgido de repente uma serpente?
Que terias feito face ao meu medo?
Como é que me terias convencido
para que abrisse os olhos e contemplasse
na boca desse réptil a maçã?
Amália Bautista
Dream a little dream of me
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.
Rui Costa
O sonho: a escada aos pés da alegria
e caber no chão e esquecer-se do seu nome
e de crescer. depois, ela queria ter um país
a rebentar na boca, um amante ciumento
a respirar cheio de medo. e poder fingir
que o esquece e queimar-se muito
nas palavras que lhe diz.
havia de mostrar-lhe as mãos cinzentas
e de cuspir o seu amor na água podre
dos caminhos. e havia de matá-lo,
com a mão de aço na coroa
da cabeça e o sangue a florir nas ruas de vermelho,
arrastando poemas, candeeiros,
a cama, o lençol branco, a mesa da cozinha,
um nome da alegria, o cesto para o pão,
e haviam de chegar à mesma casa, árvore, país,
corpo, sonho, vida, poema, como uma fonte
que regresse à própria boca
ainda com mais sede.
Amália Bautista
Duas gotas de suor
Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.
II
Choro quando não estás, suo contigo.
O suor e as lágrimas são iguais,
tenazes e salgados,
como o mar dos meus sonhos e o oceano
abissal dos meus pesadelos.
Não quero pedir demasiado, mas gostava
de suar um pouco mais e chorar menos.
Amália Bautista
Em dieta
sonhei que te comia o coração.
Deveria ser por causa da fome.
Enquanto eu devorava aquela fruta,
que era doce e amarga ao mesmo tempo,
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos do que nunca.
Deveria ser por causa da morte.
Filipa Leal
O minuto certo
Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te
que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas
em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia,
o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas
caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se
fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde
alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu
nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas
que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri
as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos,
de cigarro na mão. Eu nunca me
comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses,
entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto
certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses
certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu
nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de
ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da
viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te
disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca
quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses
para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por
dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto.
Isabel Mendes Ferreira
respiro-te devagar
tenho medo da memória
da música e da inclinação da garganta
suspensos os dedos
curvos os beijos
o teu peito podia ser um navio.
então é devagar que eu chego
ao abrigo das palavras
debaixo de chuva
perdida no bosque.
não acordes. a tua presença é mais doce
quando te beijo doce. simplesmente.