Desejo
Nuno Júdice
Fonte
e se a fonte está cheia, límpida
como o corpo da mulher, sacia a sede,
pensando que não é tarde nem cedo
para ver a água correr.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 85 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Nuno Júdice
A banhista dita banhista Valpinçon
usar, e procura o calor de um corpo. Olha para
o travesseiro onde ainda ficou a marca da
cabeça; e não se importa com o que está
para trás, entregando-se à volúpia de
lembrar o instante que acaba de viver. Mas
o pé, num breve desequilíbrio, procura
o chinelo para se calçar; e entre a
melancólica imobilidade que a prende
à cama e o desejo de se levantar, faz
a pausa em que a sua nudez se fixa, para
sempre, como se a cama não tivesse de ser
feita, e o banho não estivesse pronto,
para a lavar da noite.
Ruy Belo
Sepulcro dos dias
redondo sobre ti como um desejo
e que quando toda a paisagem for vã
hás-de proteger-me com tua chuva de linhas
E no entanto paramentado com ideias de circunstância
talvez eu me olhe em outros espelhos e admita
conceitos arejados como tapetes esquecido
de que tu continuas a subir do sepulcro dos meus dias
como o primeiro orvalho que a donzela
contente por ter a possibilidade de ser vista de fora
recebe na cara ao abrir a janela
Mas se amanhã me olhares o teu olhar levantará
nuvens de séculos sobre o meu caminho de pó
As folhas são pelo menos tão naturais como as palavras
e a radical árvore onde te imolaram tinha sido
embora trabalhada vegetal e verde
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 27 | Editorial Presença Lda., 1984
Nuno Júdice
Variação sobre rosas
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.
Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.
E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 15 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Ruy Belo
A rapariga de Cambridge
a rapariga anónima estendida no relvado
ao sol distante de um colégio de cambridge
Perdida na distância nem sei bem
se é uma mulher se rapariga
mais uma das amadas raparigas
Sei apenas que lê não sei o quê
e é simples objecto recortado
na margem verde intensamente verde
após a água mansa que reflecte os edifícios
Urgente é conhecer aquela que só veio num postal
mandado por alguém que certamente não sabia
o que essa rapariga ao sol para mim significaria
Ela devia saber um português profundíssimo
ou talvez as coisas que eu tinha para lhe dizer
as conseguisse de repente dizer num inglês
que fosse a melhor parte de mim
Definitivamente todo este dia-a-dia
contra o qual esmago a minha melhor lança
como que um sobressalto passaria
O meu reino pela rapariga de cambridge
Se eu a conhecesse mas no momento da fotografia
sentindo agora o que à distância sinto
pode dizer-se que seria feliz
Só assim o seria finalmente
há uma força obscura que mo diz.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 157 | Editorial Presença Lda., 1984
Sophia de Mello Breyner Andresen
Como Uma Flor Vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.
Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.
Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.
Nuno Júdice
Hino
mergulhado na volúpia da sombra, o castanho claro
dos cabelos estéreis num retrato de epílogo. Re-
conheço o frio número da água, a noite perdida
num hálito de anjos, no fontanário grito do ganso.
Essa noite suspensa de um desmaio de nebulosas,
imobilizada pelo tremor dos prelúdios, apressada
amante na descida do abismo, avançou, breve maré,
submergindo a obscura nudez das estrelas no
finito oriente do olhar. Reconheço a falésia
do dormente desejo de eternidade, um flutuar
de precipitações no ritmo das pálpebras, o si-
lêncio, vago íman da impaciência. Murmúrio
de génesis num pousar de dedos, rebordo de limites
na abdicação do gesto. Mágico círculo divino.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 17 | Na regra do jogo, 1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Teu Rosto
Ficou o testemunho do teu rosto
Puro e verdadeiro como a morte
Ficou o teu rosto que ninguém conhece
O teu desejo sempre anoitecido
Ficou o ritmo exacto da má sorte
E o jardim proibido.
Nuno Júdice
Soneto 4
São elas que profetizam a minha sorte
e acredito no que dizem; metade
de mim parte-se num ruído de jade.
Conheço anjos que dizem coisas sem nexo,
ébrios e louros, mostrando-me o sexo.
Eles roçam o peito pelas esquinas
e agarram-se num espasmo à alma em ruínas.
Subitamente tenho vontade de ler o Sade;
deito-me na eternidade e sou um deus sem idade:
- "Cego, mas de olhos abertos, tenho saudade:
de homens que amei, estátuas, vinho, tangerinas,
o exótico som das místicas mandolinas
tocando sonatas para pierrots e colombinas."
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 53 | Na regra do jogo, 1982
Susana Thénon
Ser
Nesta escala de magnitudes
Inateráveis.
Ser, ao extremo
de teu meridiano,
um ponto,
um breve sinal
peregrino por tuas fronteiras.
Desfazer teu limite,
afundar em tua sonora latitude,
reconhecer um por um teus portos
e nomeá-los por seus nomes.
Susana Thénon
Habitante
de meus desejos proibidos.
teu ritmo se levanta
perto de meu lado mais tênue.
Tua credencial
é um gemido.
Susana Thénon
Aqui
em meu lado raivoso
e molha suas pupilas
por minha última morte.
Aqui o sangue,
aqui o beijo dissoluto,
aqui a torpe fúria de deus
florescendo em meus ossos.
Nuno Júdice
Soneto 2
uma voz gritando "que escândalo";
a pele azul como uma lua bêbeda,
os longos cabelos cheirando a sândalo.
Branda a aparição na soleira da porta,
luz ácida na madrugada de hotel.
Um vago "amo-te" na entoação morta,
um poeta anacrónico a ler o "Fel".
Um entreter de dedos na colheita do lírio,
uma cama desfeita na ausência da alma.
Um incêndio de estrelas num charco de empíreo,
um coração solitário ansiando a calma.
Sóis caindo, cantos de ave, uivo de valquíria:
linguagem de amantes - suspiros, calão e gíria.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 51| Na regra do jogo, 1982
Susana Thénon
Mais Além
além do sangue,
além do esquecimento,
longe, até o confim do tempo.
Saber-te amanhecendo
na tarde sonora,
no profundo sabor de tuas pernas
subindo meu beijo
até sua boca indefesa,
abrindo tuas portas
lambendo tuas praias secretas
com furor de ressaca do mar .
Descobrindo a rosa em tua língua,
tua bandeira vermelha.
Arrancando do coágulo as horas,
nascendo em segredo.
Nuno Júdice
Definição I
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os próprios
passos encontram a direção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos das trevas.
Manuel António Pina
Se falo
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.
Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, a tua morte,
falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
O amor
Deus - talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstratos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.
Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?
Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
conosco, e com elas o que somos,
a ânsia efêmera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.
Raquel Nobre Guerra
Biqueirões Caseiros
prepará-lo como carne boa para montada
lamber-lhe o carnaz até ao osso tomá-lo
na garganta, deixá-lo crescer para cima
deve-se manter escravo o desejo à entrada
o apetite subirá púrpura num exótico
que não pode aqui
é preciso implicar no covil no seu grau maior
entrar gardinando a tamborilhar-lhe os bordos
é preciso persistir para engoli-lo, contê-lo
como uma erecção -
comecemos delicadamente pelo topo
Raquel Nobre Guerra
Piéce Heróique
aço vóltio arroio satã em tesão de rio
ponho-me orago de costas cabinda rapsódia cã
iridescendo marcha em humor de Nilo
baba vanga emborrachando santa ao altíssimo vazio
entro rapando rompendo faca a remoço do teu corpo
ao meio-dia e neve na têmpera do teu índigo
entro sem [...] afundando em sol a serpente noiva
no gargalho do navegante emboco gafo no lazaento
o verbo invertido no vigor de incesto que é chamar-te pai
e vir-me para cima de todos os teus símbolos
Manuel António Pina
A mensagem do teu
salta bip o parapeito que nos separa
e habita urgentemente nos meus olhos
e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos
para a saudade publicada na tua cara
com slogans de néon interior
Sei que sabes uma palavra indecente
e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse
a tua roupa de dentro
Sei o que pensas sei o que fazes
sei coisas que tu mesma não sabes
Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim
afinal de contas é sargento de infantaria?
Mas deixa lá homens é o que há mais
E (sabes?) os oficiais
O morse lábio bip bip noticia:
ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA
E sei pormenores da tua respiração
concretos, fotografias
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Cama
e os teus cabelos num poente incendiado.
Podia ser o teu sexo num cume de monte,
e os teus seios despidos sobre este prado.
A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.
E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;
uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.
Nuno Júdice
A tua mão
e ela resiste à mão que a desvia; mas
procuro acertar no seu ângulo, e entre-
ver a fresta por onde o amor corria.
Beijo essa mão e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco,
bebendo desse cálice o puro vinho
que me liberta sem sair do cerco.
Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que o meu desejo se rende;
e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.
Nuno Júdice
Leio o amor
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
Nuno Júdice