Poemas neste tema
Desejo
Florbela Espanca
Quem Sabe?!...
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
5 329
Florbela Espanca
Desdém
Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.
É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante...
É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!
Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguém...
Por isso vai caminhando...
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!...
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.
É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante...
É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!
Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguém...
Por isso vai caminhando...
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!...
2 666
Florbela Espanca
V
Dize-me, Amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, Amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, Amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!
1 800
Florbela Espanca
Vi
Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;
Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;
Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!
E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;
Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;
Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!
E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!
1 833
Florbela Espanca
Humildade
Toda a terra que pisas, eu q’ria, ajoelhada,
Beijar terna e humilde em lânguido fervor;
Q’ria poisar fervente a boca apaixonada
Em cada passo teu, ó meu bendito amor!
De cada beijo meu, havia de nascer
Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente!
No colo purpurino havia de trazer
Desfeito no perfume o mist’rioso Oriente!
Q’ria depois colher essas flores reais,
Essas flores de sonho, estranhas, sensuais,
E lançar-tas aos pés em perfumados molhos.
Bem paga ficaria, ó meu cruel amante!
Se, sobre elas, eu visse apenas um instante
Cair como um orvalho os teus divinos olhos!
Beijar terna e humilde em lânguido fervor;
Q’ria poisar fervente a boca apaixonada
Em cada passo teu, ó meu bendito amor!
De cada beijo meu, havia de nascer
Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente!
No colo purpurino havia de trazer
Desfeito no perfume o mist’rioso Oriente!
Q’ria depois colher essas flores reais,
Essas flores de sonho, estranhas, sensuais,
E lançar-tas aos pés em perfumados molhos.
Bem paga ficaria, ó meu cruel amante!
Se, sobre elas, eu visse apenas um instante
Cair como um orvalho os teus divinos olhos!
2 223
Florbela Espanca
Os Meus Versos
Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?
Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo,
Tu disseste para ti: “Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,
Ficar amando um homem!... Que loucura!”
– Pois foi o teu olhar; a noite escura,
– (Eu só a ti digo, e muito a medo...)
Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d’alma a soluçar!
.............................................................
Ai não descubras nunca o meu segredo!
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?
Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo,
Tu disseste para ti: “Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,
Ficar amando um homem!... Que loucura!”
– Pois foi o teu olhar; a noite escura,
– (Eu só a ti digo, e muito a medo...)
Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d’alma a soluçar!
.............................................................
Ai não descubras nunca o meu segredo!
2 305
Florbela Espanca
Crepúsculo
Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando...
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando...
2 142
Florbela Espanca
Filtro
Meu Amor, não é nada: – Sons marinhos
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só voo...
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só voo...
2 393
Florbela Espanca
Divino Instante
Ser uma pobre morta inerte e fria,
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
1 942
Nuno Júdice
Metamorfose em agosto
O verão solta os cabelos como a mulher
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite; olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
O verão que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 13 - Lisboa, Outubro 2015
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite; olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
O verão que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 13 - Lisboa, Outubro 2015
2 523
Florbela Espanca
Escrava
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas de amor!
Que te seja propício o astro e a flor,
Que a teus pés se incline a terra e o mar,
P’los séculos dos séculos sem par,
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor!
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo,
E, de mãos postas, em sentida prece,
Canto teus olhos de oiro e de veludo.
Ah, esse verso imenso de ansiedade,
Esse verso de amor que te fizesse
Ser eterno por toda a Eternidade!...
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas de amor!
Que te seja propício o astro e a flor,
Que a teus pés se incline a terra e o mar,
P’los séculos dos séculos sem par,
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor!
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo,
E, de mãos postas, em sentida prece,
Canto teus olhos de oiro e de veludo.
Ah, esse verso imenso de ansiedade,
Esse verso de amor que te fizesse
Ser eterno por toda a Eternidade!...
2 707
Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, Rūmī
Vem ao pomar
Vem ao pomar, é chegada a primavera.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
1 344
Idea Vilariño
Dizer não
Dizer não
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o vire
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.
--- // ---
Decir no
decir no
atarme al mástil
pero
deseando que el viento lo voltee
que la sirena suba y con los dientes
corte las cuerdas y me arrastre al fondo
diciendo no no no
pero siguiéndola.
dizer não
atar-me ao mastro
mas
desejando que o vento o vire
que a sereia suba e com os dentes
corte as cordas e me arraste ao fundo
dizendo não não não
mas a seguindo.
--- // ---
Decir no
decir no
atarme al mástil
pero
deseando que el viento lo voltee
que la sirena suba y con los dientes
corte las cuerdas y me arrastre al fondo
diciendo no no no
pero siguiéndola.
1 531
Maria José de Carvalho
Ânsia imemorial
que ânsia imemorial atrai os corpos
de ambarina e amavios impregnados
ossos tendões e carne e sangue nervos?
que impacto os enlouquece tange anula?
que plectro ou lançadeira ou sábia lâmina?
e exangues ao cansaço os abandona?
phallus vulva os seios mãos e boca
e a pele esse tecido permeável
são instrumentos de urdir tecer
e a estrutura imantada aniquilada
é deliquo amplo voo queda a pique
num abismo do fogo gelo e nada
do livro Os celebrantes (1988)
de ambarina e amavios impregnados
ossos tendões e carne e sangue nervos?
que impacto os enlouquece tange anula?
que plectro ou lançadeira ou sábia lâmina?
e exangues ao cansaço os abandona?
phallus vulva os seios mãos e boca
e a pele esse tecido permeável
são instrumentos de urdir tecer
e a estrutura imantada aniquilada
é deliquo amplo voo queda a pique
num abismo do fogo gelo e nada
do livro Os celebrantes (1988)
902
Maria José de Carvalho
o iniciado
que nome te dar
na faca e no gume
na lima e no lume
na lama dos limos
na lança no laço
na trança no traço
na trama dos limbos
que névoa te envolve
e densa
turva
teu sacro perfil
se destravando
a treva
emerso a iluminaste
e
na dança do templo
que o corpo enlaça
a pupila embaça
o passo trava
e o sangue desata
em salva de prata
contido o lábio
na doce taça
que nome te dar
que medo te impele
que tolhida asa
o vôo te impede
que secreta chaga
de ferida pluma
te enluta o âmago
e que maga imagem
te dispara a seta
que o peito afeta
em bruma
e arfagem
ó
iniciado
que êxtase
nos espera
que ardente
dardo
através da estirpe
de transe
e treva
a dor
extirpa
o ir
é nosso rio
ao bramir
do touro
o ouro
de teu corpo
ao sol
o manso bezerro
o túrgido úbere
a plúmbea ave
o fruto maduro
lança e raiz
o chão e o sal
tua urdidura são
ao sol posto
evocamos
a chaga
que a taça embaça
e o violáceo laço
de obscura trama
neste agosto
deposto
nos envolve o rosto
a palavra
o chá
.
.
.
802
Kenneth Koch
Um trem pode esconder outro
Um trem pode esconder outro
(sinal num cruzamento de trem no Quênia)
Num poema uma linha pode esconder outra linha,
Como num cruzamento, um trem pode esconder outro trem
Isto é, se você está esperando para atravessar
Os trilhos, espere ao menos um momento depois que
O primeiro trem tiver partido. Também ao ler
Espere até você ter lido a linha seguinte –
Só então é seguro prosseguir a leitura.
Numa família uma irmã pode ocultar outra,
Então, quando você estiver paquerando uma delas, é melhor ter todas à vista
Caso contrário, ao descobrir uma você pode já estar amando outra
Se você é mulher, um pai ou um irmão podem esconder
O homem que você esperou para amar
Assim, sempre em frente a uma coisa, a outra
Como as palavras à frente dos objetos, sentimentos e idéias.
Um desejo pode esconder outro. E a reputação de alguém
Pode esconder a reputação de outro. Um cão pode ocultar
Outro num gramado, e se você consegue fugir do primeiro não necessariamente está a salvo
Um lilás pode esconder outro e então vários lilases e na Via Ápia uma sepultura
Pode esconder uma quantidade de outras sepulturas. No amor, uma censura pode esconder outra,
Uma pequena queixa pode esconder outra enorme.
Uma injustiça pode esconder outra – um colono pode esconder outro
Um uniforme vermelho gritante, outro e, outro, uma coluna inteira. Um banho pode apagar outro banho
Como quando depois de tomar banho você sai na chuva
Uma idéia pode esconder outra: A vida é simples
Esconder a vida é incrivelmente complexo, como na prosa de Gertrude Stein
Uma linha esconde outra e é outra ao mesmo tempo. E no laboratório
Uma invenção pode esconder outra invenção,
Uma noite pode esconder outra, uma sombra, um ninho de sombras
Um vermelho escuro, ou um azul, ou um púrpura – esta é uma pintura
Feita depois de Matisse. Alguém espera nos trilhos até que eles tenham passado,
Esses duplos escondidos ou, às vezes, parecidos. Um gêmeo idêntico
Pode esconder o outro. E pode mesmo haver mais ali! O obstetra
Olha para o Valley of the Var. Eu e minha mulher vivíamos ali, mas
Uma vida escondeu outra vida. Então ela se foi e eu fiquei.
Uma mãe agitada esconde a filha desengonçada. A filha por sua vez esconde
Sua própria filha agitada. Elas estão em
Uma estação de trem e a filha está carregando uma bolsa
Tão maior que a bolsa da mãe que acaba por escondê-la com êxito.
Ao se oferecer para carregar a bolsa da filha, vê-se confrontando pela mãe
E obrigado a carregar sua bolsa também. Alguém que pede carona
Pode esconder outra pessoa de propósito e uma xícara de café
Outra até que a pessoa fique ultra agitada. Um amor pode esconder outro amor ou o mesmo amor
Como quando “eu te amo” soa muito falso e encontra-se um
Amor melhor à espreita, como quando “estou cheio de dúvidas”
Esconde “tenho certeza de apenas uma coisa e é isso”
E também um sonho pode esconder outro como todos sabem, sempre. No Jardim do Éden
Adão e Eva podem esconder os verdadeiros Adão e Eva.
Jerusalém pode esconder outra Jerusalém.
Quando você chega a algo, pare para deixá-lo passar
Só então você poderá ver o que mais há ali. Em casa, não importa onde,
Caminhos internos apresentam perigo também; uma memória
Certamente esconde outra, de que fala aquela memória,
Como uma sucessão eterna para trás de entidades contempladas. Ao terminar de ler Uma viagem sentimental procure ao seu redor o Tristam Shandy, e veja se ele
Ainda está na estante, ele deve estar, e estará ainda mais forte
E mais denso e, conseqüentemente, tão escondido como Santa Maria Maggiore
Deve estar escondida por igrejas similares em Roma. Uma calçada
Pode esconder outra, como quando você adormece ali, e
Uma canção pode esconder outra canção: por exemplo “Stardust”
Esconde “What have they done to the Rain?” Ou vice-versa. Uma batida no andar de cima
Esconde o batuque da percussão. Um amigo pode esconder o outro, você se senta
[ao pé de uma árvore
Com um amigo e quando você se levanta para ir embora encontra outro
Com quem você teria preferido passar as horas conversando. Um professor,
Um médico, um êxtase, uma doença, uma mulher, um homem
Podem esconder outro. Pare para deixar o primeiro passar.
Você pensa Agora é seguro passar e então você é atropelado pelo seguinte.
Pode ser importante
Ter esperado pelo menos um momento para ver o que já estava ali.
(tradução de Marília Garcia,
publicada originalmente na revistaInimigo Rumor n. 20)
1 418
Décio Pignatari
Escova
Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 277
Vasko Popa
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
742
Haroldo Maranhão
Cortininha de filó
Para mim prima é mesmo que irmã, a gente respeita, mas Bela, sei lá!, tinha uns rompantes que até me assustavam. Naquela noite, por exemplo. Eu me embalava distraidíssimo na rede. Desde menino que durmo pouco, a Bela estava careca de saber e quando menos espero quem é vejo diante de mim? A Bela. A Bela dormia de pijama, minha tia achava camisão indecente, que pijama protege, a menina pode se mexer à vontade, frioleiras de velha. Pois a Bela me aparece apenasmente de blusa de pijama! Não entendi, francamente. e se não estivesse como estava acordado, poderia até imaginar que sonhava: a Bela ali de pijama decepado. Só para provocar como me provocou, que logo fiquei agitadíssimo, me virando e revirando na rede, e a Bela feita uma estátua, nem uma palavra dizia, à espera eu acho de atitude minha, mas cadê coragem?, que conforme disse prima é irmã, e de irmã não se olha coxa, não se olha bunda, irmã pode ficar pelada que a gente nem enxerga peitinho, cabelinho, nada. A danada da Bela sabia muitíssimo bem o que estava fazendo, que chegou um ponto que não suportei semelhante sofrimento, a dois metros da dona de um corpo fantástico. Me levantei da rede e me senti empurrado para os braços da Bela, que sem mais aquela me estrangulou que nem apuizeiro, e hoje penso que ela só esperava mesmo que me levantasse da rede, porque tudo o mais foi com ela, começando por me levar pelo escuro como guia de cego e sem nenhuma-nenhuma cerimônia deitou-se comigo na cama, que depois é que eu soube que os titios tinham saído, a gente estava só em casa e eu bestando na rede, quando bem podia estar há tempos naquele céu. A única coisa que fiz mesmo foi tirar a blusa do pijama dela e mais nada, que ela cuidou do resto, professora ,mais que escolada, e para começar espetou-me com os peitinhos num abraço que quase me mata. A Bela tinha prática, um fogo tremendo. E começou a maior das confusões, eu nuínho também, que nem sabia o que era minha perna e perna da Bela, as mãos da Bela me amassando a ponto de deixar em carne viva o meu bilu-bilu, que parece que ela estava com raiva do meu bilu-bilu, mas não era raiva e sim uma aflição que deu de repente na diaba da minha prima, que queria fazer tudo ao mesmo tempo, mas tinha só duas mãos, pegava no meu troço, largava, pegava de novo, se esfregava e parava de se esfregar. Agora vejo que não era prática coisíssima nenhuma da Bela, mas uma comichão que se alastrava lá nela. De repente parou, a respiração cortada em miudinhos, dando a impressão de que tinha brincado a tarde toda de juju. E eu, lógico, parei também e ficamos feitos dois patetas, olhando o teto, quer dizer, a Bela é que olhava o teto, que eu não sabia se tínhamos terminado, se me vestia e ia embora para a rede. Nós estávamos colados, braços, coxas e pernas, de alto a baixo, parece que eu estava com uma febre de quarenta graus ou mais. Me sentia ótimo, ela podia olhar o teto o resto da vida e aí eu fechei os olhos e flutuava lele-leve, não sentia nada por baixo de mim, é como se estivesse voando, fora da cama, como se por baixo não houvesse coisa sólida, só ar. Foi quando a Bela virou-se para mim e começou a passar as unhas pela barriga me causando uma friagem e umas cócegas e pegou desta vez com uma delicadeza que até me espantou, o meu negócio inchadíssimo, parecendo que tinha sido picado por um enxame de cabas. Ela olhava para ele de muito perto, virava e revirava o cartuchinho de carne, um picolé quente, que não derretia. Percebi indecisão na Bela. E então falou a única palavra naquela noite, uma palavra só, palavra de três letras, que eu morro e não esqueço essa palavra:
“Vem!”
Ora, a Bela tinha cada uma! "Vem." Ir aonde se eu estava ali? Ela falou "vem" muito, muito delicadamente, me puxou e eu tudo deixava, deixei, fui deixando, a Bela pelo visto sabia muito bem o que estava querendo. “Vem." Ela me guiou que eu não sabia nem a décima parte da missa, às vezes se .impacientava com a minha santa burrice e para a Bela deve ter sido um trabalho dos seiscentos, mas ela insistia e insistia, acabou me botando de bruços por cima dela. Aí abriu as pernas e eu fiquei feito um bobo naquele espação sem saber o que fazer. A Bela fez tudo, tudo,.e gemia como se doesse e devia doer. Foi quando percebi que uma cortina de papel se rasgava e eu entrei por um corredorzinho ensopado. Aí deu nela um nervoso, sei lá o que foi!, ela me empurrou, me expulsando com raiva, eu mais que depressa saí, que não era nada besta de contrariar a Bela. Então percebi uma bruta mancha no lençol. O lençol tinha bem no centro um laguinho de sangue.
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Jacques Brel
Não vá embora
Não vá embora
A gente apaga tudo
Tudo que passou
Pode se apagar
Apagar o tempo
O mal entendido
E o tempo perdido
E agora
Apagar as horas
Que matam
Numa salva de porquês
A felicidade
Não vá embora
Eu vou te dar
Uma chuva de pérolas
Vinda de países
Onde não há chuva
Vou cavar a terra
Até depois da morte
Para seu corpo cobrir
Com luz e com ouro
Vou criar um reino
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E você a rainha
Não vá embora
Não vá embora
Eu vou criar para te dar
Palavras sem sentido
Que você compreenderá
E vou te contar
Daqueles amantes ali
Que duas vezes viram
Seus corações incendiar
E vou te contar
A história de um rei
Morto por não ter
Podido te encontrar
Não vá embora
Quantas vezes um vulcão já velho
De onde mais nada podia sair
Se reacendeu
Há também terras gastas
Que dão mais trigo
Do que na colheita
E quando a tarde cai
Para que o céu vire fogo
Vermelho e negro
Nunca se juntam
Não vá embora
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Vou ficar parado vendo
Você dançar ali
E sorrir
E vou te ouvir
Cantar e depois rir
Deixa que eu me torne
A sombra da sua sombra
A sombra da sua mão
A sombra do seu cão
(tradução de Marília Garcia)
:
Ne me quitte pas
Jacques Brel
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s’oublier
Qui s’enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas
Moi je t’offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs cœurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l’ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je n’vais plus pleurer
Je n’vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien.
941
Nizâr Qabbânî
pensei ontem no meu amor por ti
pensei ontem no meu amor por ti
lembrei-me logo
das gotas de mel nos teus lábios
e então lambi o açúcar das paredes da minha memória
(tradução de André Simões)
712
Tite de Lemos
Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão
essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor
dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro
da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo
994
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
994
Haroldo Maranhão
O peixe de ouro
De borracha é a cintura do peixe de ouro, uma curva infinita cavada na carne. E são deletéreas as pernas do peixe de ouro, que se locomove como se fosse o corpo acionado por molas. O andar é elástico, o andar do peixe de ouro, e balança a cabeleira cor de charuto no dorso lisíssimo, tapando a nuca. Não vejo a cara do peixe de ouro, sigo-lhe os passos, vejo-lhe as ancas, de potranca, a roupa é rubra, a carne, de ouro, a carne do peixe de ouro. De repente o peixe inclina a cabeça e percebo, não há quem não perceba, um perfil de penugens que o sol divulga, nítido. Segue o peixe, segue, todo um rio o segue, rio de bichos, somos todos bichos, mordemos com vigor o músculo das ancas, arrancamos pedaços da anca, da melhor anca, da melhor. Guardo no meu casaco o nobre fragmento da anca do peixe de ouro, e quero ao menos um fio, um fio ao menos dos cabelos, mas já a cabeleira foi roubada à força, quando voava descobrindo o pescoço. Cravo meus dentes na nuca do peixe de ouro e bebo-lhe um mel, sugo aflito, como a uma fruta, meus lábios ficam encharcados, escorre o mel, caem gotas na pedra, minha camisa ensopa-se de baba e mel, um mel raro. Desoladamente constato que trepida a epiderme desgarrada de seu recheio, em mantas, fiava pele há pouco distendida em curvas, ora couro plissado, de gelhas. Peixe de ouro perde aos poucos seu revestimento muscular, sangra, ossos despontam, interligados por tendões, cartilagens, restos de carne. Com enorme rudez puxo um nervo longo e de bom calibre para encordoar determinada viola d'amore. Desloco, e com delicadeza removo uma vértebra do peixe, como quem se serve de um doce, sorvo o creme vertebral e trituro a fina peça mal calcificada. A meu lado, alguém empunha uma das tíbias como dava, e é milagre a sobrevida do peixe de ouro, que não obstante prossegue sustentado não sei por que espécie de fundamento. Poucos ossos, quase nenhum, raros tendões, nenhuma carne. Agarro para mim a fossa ilíaca; luto por ela, ela me dilacera as mãos, mas é minha, conquistei-a, será o prato real onde comerei. Sigo, seguimos, impulsionados pelo mero costume, pois a unidade se partiu em blocos, o que era peixe não é, senão partículas, pó, aura, microtalco, microtalco de ouro.
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