Poemas neste tema
Amizade
António Ramos Rosa
A Minha Pedra Para José Gomes Ferreira
Prólogo
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
1 052
António Ramos Rosa
O Que Nos Diz a Imagem? Diz-Nos o Que É E Não o Diz
O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.
Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.
O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.
Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.
Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.
Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.
Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.
Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.
Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.
Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.
Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.
Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.
Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.
O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.
A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só vê porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo.
Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo.
O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso.
Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre.
Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver.
Ela olha… Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro.
Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo.
Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura.
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança.
Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança.
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado.
Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser.
Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver.
Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer.
Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo.
Mas é antes o seu corpo que nos olha.
O seu corpo é palavra e silêncio da palavra.
A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
562
António Ramos Rosa
Até Onde Vós Estais
Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
1 019
António Ramos Rosa
Aqui Ele Diz a Minha Única Pátria
Aqui ele diz a minha única pátria
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo
e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo
e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
1 096
António Ramos Rosa
O Cavalo Que Respira a Manhã E Bebe o Sol.
El muro al sol respira, vibra, ondula
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
1 184
António Ramos Rosa
Por Uma Serena Viagem Em Busca de Uma Pedra
Por uma serena viagem em busca de uma pedra
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
1 111
António Ramos Rosa
Caminho do Alento
ao Luís Amaro
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
568
António Ramos Rosa
Como Uma Sombra Vã
Como uma sombra vã
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
1 162
António Ramos Rosa
Da Inocência à Confiança
Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
1 113
António Ramos Rosa
Tertúlia
Não encontro casa
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
1 102
Odysséas Elýtis
Marinha das Rochas
Tens um gosto de tormenta nos lábios - Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
797
Airas Nunes
Bailia das avelaneiras
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
1 170
Edmir Domingues
soneto XV - Ébrios
Ébrios de busca, bêbedos de sono,
em nosso bairro à rua mais vazia,
fizemos roda, na última folia,
ante o tímido olhar dos cães sem dono.
Os loucos deram flores de abandono,
os limpa-chaminés fuligem fria,
e eu não dei nada, porque não sabia
devesse dar quem parte e deixa o trono.
Mesmo os príncipes bons à contingência
legaram seus castelos de opulência
para às nossas prender as mãos amigas.
E gritamos aos ébrios da taberna
que nós temos no sangue a vida eterna,
que há céu em nossas múltiplas cantigas.
em nosso bairro à rua mais vazia,
fizemos roda, na última folia,
ante o tímido olhar dos cães sem dono.
Os loucos deram flores de abandono,
os limpa-chaminés fuligem fria,
e eu não dei nada, porque não sabia
devesse dar quem parte e deixa o trono.
Mesmo os príncipes bons à contingência
legaram seus castelos de opulência
para às nossas prender as mãos amigas.
E gritamos aos ébrios da taberna
que nós temos no sangue a vida eterna,
que há céu em nossas múltiplas cantigas.
667
Vinicius de Moraes
Retrato, À Sua Maneira
Magro entre pedras
Calcárias possível
Pergaminho para
A anotação gráfica
O grafito Grave
Nariz poema o
Fêmur fraterno
Radiografável a
Olho nu Árido
Como o deserto
E além Tu
Irmão totem aedo
Exato e provável
No friso do tempo
Adiante Ave
Camarada diamante!
Calcárias possível
Pergaminho para
A anotação gráfica
O grafito Grave
Nariz poema o
Fêmur fraterno
Radiografável a
Olho nu Árido
Como o deserto
E além Tu
Irmão totem aedo
Exato e provável
No friso do tempo
Adiante Ave
Camarada diamante!
1 547
Edmir Domingues
Soneto quase social
E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
550
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
695
Edmir Domingues
Um contratempo num rever amigos
E eis que fomos no passo da aventura
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.
Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.
Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha
cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.
Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.
Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha
cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
686
Martha Medeiros
Atraso é ter que mentir
Em Londres um pub está fazendo sucesso porque instalou para seus clientes uma cabine telefônica com uma sonorização peculiar: enquanto a pessoa fala ao telefone, pode acessar o som de um congestionamento, com muito buzinaço.
Ou pode acessar o som de um ambiente de escritório. Toda essa parafernália é para que quem esteja do outro lado da linha não identifique o som do bar.
Assim o bebum pode dar uma desculpa esfarrapada e chegar em casa sem levar uma descompostura, afinal, estava trabalhando até tarde, o coitado, e ainda por cima ficou preso num engarrafamento depois.
Essa cabine telefônica com efeitos especiais só vem demonstrar que os bares andam muito moderninhos, mas os casamentos continuam parados no tempo, mesmo na vanguardista Inglaterra. "Só vou se você for" segue na moda. Enquanto isso a hipocrisia deita e rola.
Muitas pessoas ainda têm uma idéia convencional do casamento: encaminham-se para o altar como quem encaminha-se para o supermercado em busca de um produto pronto, industrializado, com um rótulo dando as instruções de como utilizá-lo, e parece que a primeira instrução é: nenhum dos dois têm o direito de se divertir sozinho ou com os amigos, a menos que o cônjuge esteja junto.
Não é de estranhar que os prazos de validade do amor andem cada vez mais curtos.
Não há paixão que resista ao grude.
Não há paciência que resista à patrulha.
Não há grande amor que prescinda de outras amizades.
Sair sozinho para beber com os amigos deveria ser um dos 10 mandamentos para uma união estável, valendo para ambos os sexos. Quem não gosta de bar pode substituir por futebol, cinema, shows, sinuca, saraus ou o que o Caderno de Cultura sugerir.
E não perca tempo lamentando por aquele que vai ficar em casa. Provavelmente ele vai se divertir tanto quanto. Ouvir música, ver televisão, ler livros, abrir um vinho, tomar um banho de duas horas, navegar na internet, dormir cedinho, tudo isso também é um programação.
Quem não sabe ficar sozinho não pode casar, sob pena de transformar o matrimônio num presídio para dois. Tem muita coisa em Londres que eu gostaria de ter aqui: parques mais bem cuidados, mais livrarias, mais respeito à individualidade, melhor transporte público, prédios mais charmosos. Só dispensaria o clima e esse pub pra lá de vitoriano, onde pessoas adultas são incentivadas a inventar um álibi para justificar um atraso.
Atraso é ter que mentir para que o outro não perceba que você está feliz.
Ou pode acessar o som de um ambiente de escritório. Toda essa parafernália é para que quem esteja do outro lado da linha não identifique o som do bar.
Assim o bebum pode dar uma desculpa esfarrapada e chegar em casa sem levar uma descompostura, afinal, estava trabalhando até tarde, o coitado, e ainda por cima ficou preso num engarrafamento depois.
Essa cabine telefônica com efeitos especiais só vem demonstrar que os bares andam muito moderninhos, mas os casamentos continuam parados no tempo, mesmo na vanguardista Inglaterra. "Só vou se você for" segue na moda. Enquanto isso a hipocrisia deita e rola.
Muitas pessoas ainda têm uma idéia convencional do casamento: encaminham-se para o altar como quem encaminha-se para o supermercado em busca de um produto pronto, industrializado, com um rótulo dando as instruções de como utilizá-lo, e parece que a primeira instrução é: nenhum dos dois têm o direito de se divertir sozinho ou com os amigos, a menos que o cônjuge esteja junto.
Não é de estranhar que os prazos de validade do amor andem cada vez mais curtos.
Não há paixão que resista ao grude.
Não há paciência que resista à patrulha.
Não há grande amor que prescinda de outras amizades.
Sair sozinho para beber com os amigos deveria ser um dos 10 mandamentos para uma união estável, valendo para ambos os sexos. Quem não gosta de bar pode substituir por futebol, cinema, shows, sinuca, saraus ou o que o Caderno de Cultura sugerir.
E não perca tempo lamentando por aquele que vai ficar em casa. Provavelmente ele vai se divertir tanto quanto. Ouvir música, ver televisão, ler livros, abrir um vinho, tomar um banho de duas horas, navegar na internet, dormir cedinho, tudo isso também é um programação.
Quem não sabe ficar sozinho não pode casar, sob pena de transformar o matrimônio num presídio para dois. Tem muita coisa em Londres que eu gostaria de ter aqui: parques mais bem cuidados, mais livrarias, mais respeito à individualidade, melhor transporte público, prédios mais charmosos. Só dispensaria o clima e esse pub pra lá de vitoriano, onde pessoas adultas são incentivadas a inventar um álibi para justificar um atraso.
Atraso é ter que mentir para que o outro não perceba que você está feliz.
1 037
Martha Medeiros
Vampiros
Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.
Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor.
Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.
1 077
Ruy Belo
Haceldama
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia
Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa
E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.
Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso
Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons
Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz
E há um grande coração em construção
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 288
Martha Medeiros
Entre Amigos
Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.
1 755
Martha Medeiros
O anel que tu me deste
Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. Era a segunda vez que nos víamos. Os contatos anteriores haviam sido sempre por e-mail, nos quais tratávamos de assuntos profissionais. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. "É seu." Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas "alianças": desde então nossa amizade só cresceu.
Meses atrás, Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes e sim para trabalhar. Mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.
Nesta era de acúmulo, egoísmo e posse, gestos de desapego são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo que deve gostar muito - ou não estaria usando - e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas assim fazem isso por nada, aparentemente, mas, na verdade, fazem por tudo. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Por generosidade. Para exercitarem seu senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando desse assunto não porque eu também seja uma desprendida. Bem pelo contrário. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. Assim, de supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia, coisa que também está em desuso, pois sei de muita gente que, ao ver gestos como o de Ivete e o da minha amiga, diria apenas: que trouxas.
Devo estar me transformando numa sentimentalóide, mas o fato é que acredito que esses pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos todos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos seus bens para fazer o bem é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não seria um mundo melhor?
Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo pra ver se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas. É com esse espírito de compartilhamento que encerro essa crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes - mas no sentido de presença. Que na sua lista de chamada afetiva estejam todos ao seu lado, brindando o que lhes for mais importante: seja o nascimento de Jesus, ou a reunião familiar, ou apenas mais uma noite festiva de dezembro, ou um momento de paz entre tanto espanto, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
Meses atrás, Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes e sim para trabalhar. Mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.
Nesta era de acúmulo, egoísmo e posse, gestos de desapego são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo que deve gostar muito - ou não estaria usando - e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas assim fazem isso por nada, aparentemente, mas, na verdade, fazem por tudo. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Por generosidade. Para exercitarem seu senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando desse assunto não porque eu também seja uma desprendida. Bem pelo contrário. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. Assim, de supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia, coisa que também está em desuso, pois sei de muita gente que, ao ver gestos como o de Ivete e o da minha amiga, diria apenas: que trouxas.
Devo estar me transformando numa sentimentalóide, mas o fato é que acredito que esses pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos todos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos seus bens para fazer o bem é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não seria um mundo melhor?
Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo pra ver se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas. É com esse espírito de compartilhamento que encerro essa crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes - mas no sentido de presença. Que na sua lista de chamada afetiva estejam todos ao seu lado, brindando o que lhes for mais importante: seja o nascimento de Jesus, ou a reunião familiar, ou apenas mais uma noite festiva de dezembro, ou um momento de paz entre tanto espanto, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
1 354
Ruy Belo
Meditação magoada
Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.
Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.
Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.
Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 164 | Editorial Presença Lda., 1984
994
Ruy Belo
Perigo de vida
É grande o risco da palavra no tempo
maior mesmo talvez que no mar
Eu fui à margem do dia despedir um amigo
e não houve no cais
iniciativa verbal que edificasse
uma só tenda para o nosso coração
Éramos peregrinos
que deixam a saudade de turistas
ausentes na rua de outono
Morríamos contra a curva dos dias
a morte rotativa e provisória
Tivesse a própria palavra lábios
e nenhum clima poderia
arrefecer-lhe o coração
Tivesse ela lábios e não seria
tão grave o risco no tempo e no mar
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 41 | Editorial Presença Lda., 1984
maior mesmo talvez que no mar
Eu fui à margem do dia despedir um amigo
e não houve no cais
iniciativa verbal que edificasse
uma só tenda para o nosso coração
Éramos peregrinos
que deixam a saudade de turistas
ausentes na rua de outono
Morríamos contra a curva dos dias
a morte rotativa e provisória
Tivesse a própria palavra lábios
e nenhum clima poderia
arrefecer-lhe o coração
Tivesse ela lábios e não seria
tão grave o risco no tempo e no mar
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 41 | Editorial Presença Lda., 1984
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