Poemas neste tema
Dia do Pai
Manuel Bandeira
Nietzschiana
Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
— Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.
— Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.
1 197
Marina Colasanti
Por ser meu pai
Agradeço
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
1 357
Marina Colasanti
Por preço de
Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
567
Marina Colasanti
Longa viagem em 1943
Nosso carro a gasogênio
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
1 185
Pablo Neruda
Canto XV - Eu Sou
I
A fronteira (1904)
O primeiro que vi foram árvores, barrancos
decorados com flores de selvagem formosura,
úmido território, bosques que se incendiavam
e o inverno detrás do mundo, transbordado.
Minha infância são sapatos molhados, troncos partidos
tombados na selva, devorados por cipós
e escaravelhos, doces dias sobre a aveia,
e a barba dourada de meu pai saindo
para a majestade da ferroviária.
Diante de minha casa a água austral cavava
fundas derrotas, lameiros de argilas enlutadas,
que no verão eram atmosfera amarela
por onde as carretas rangiam e choravam
prenhadas com nove meses de trigo.
Rápido sol do sul:
restolhos, fumaradas
em caminhos de terras escarlates, ribeiras
de rios de redonda linhagem, currais e potreiros
em que reverberava o mel do meio-dia.
O mundo poeirento entrava grau por grau
nos galpões, entre barricas e cordéis,
nas adegas carregadas com o resumo rubro
da aveleira, todas as pálpebras do bosque.
Pareceu-me ascender com o traje tórrido
do verão, com as máquinas debulhadoras,
pelas costas, na terra envernizada de boldos
erguida entre os carvalhos, indelével,
agarrando-se às rodas como carne esmagada.
Minha infância percorreu as estações: entre
os trilhos, os castelos de madeira recente,
a casa sem cidade, apenas protegida
por reses e maçãs de perfume indizível
fui eu, delgado menino cuja pálida forma
se impregnava de bosques vazios e adegas.
II
O fundeiro (1919)
Amor, talvez amor indeciso, inseguro:
só um golpe de madressilvas na boca,
só umas tranças cujo movimento subia
até minha solidão como uma fogueira negra,
e o mais: o rio noturno, os sinais
do céu, a fugaz primavera molhada,
a enlouquecida fronte solitária, o desejo
levantando as suas cruéis tulipas na noite.
Eu desfolhei as constelações, ferindo-me,
afiando os dedos no tacto das estrelas,
afiando fibra por fibra a contextura gelada
dum castelo sem portas,
ó destroçados amores
cujo jasmim detém sua transparência em vão,
ó nuvens que no dia do amor desembocam
como um soluço entre as ervas hostis,
nua solidão amarrada a uma sombra,
a uma ferida adorada, a uma lua indomável.
Nomeai-me, disse talvez aos rosais:
eles talvez, a sombra de confusa ambrosia,
cada tremor do mundo conhecia meus passos,
me esperava o rincão mais oculto, a estátua
da árvore soberana na planície:
tudo na encruzilhada chegou a meu desvario
debulhando o meu nome sobre a primavera.
E então, doce rosto, açucena queimada,
tu, a que não dormiste com o meu sonho, bravia,
medalha perseguida por uma sombra, amada
sem nome, feita de toda a estrutura do pólen,
de todo o inverno ardendo sobre estrelas impuras:
ó amor, desenredado jardim que se consome,
em ti se levantaram meus sonhos e cresceram
como um fermento de pães tenebrosos.
III
A casa
Minha casa, as paredes cuja madeira fresca,
recém-cortada, cheira ainda: destrambelhada
casa de fronteira, que rangia
a cada passo, e silvava com o vento de guerra
do tempo austral, fazendo-se elemento
de tempestade, ave desconhecida
sob cujas geladas plumas cresceu o meu canto.
Vi sombras, rostos que como plantas
em torno de minhas raízes cresceram, parentes
que cantavam toadas à sombra duma árvore
e disparavam entre os cavalos molhados,
mulheres escondidas na sombra
que deixavam as torres masculinas,
galopes que fustigavam a luz,
enrarecidas
noites de cólera, cachorros que latiam.
Meu pai com a alva escura
da terra, para que perdidos arquipélagos
em seus trens que uivavam se deslizou?
Mais tarde amei o odor do carvão no fumo,
os azeites, os eixos de precisão gelada,
e o grave trem cruzando o inverno estendido
sobre a terra, como uma lagarta orgulhosa.
De repente trepidaram as portas.
É meu pai.
Rodeiam-no os centuriões do caminho:
ferroviários envoltos em suas mantas molhadas,
o vapor e a chuva com eles revestiram
a casa, a sala de jantar se encheu de relatos
enrouquecidos, os copos se verteram,
e até mim, dos seres, como uma separada
barreira, em que viviam as dores,
chegaram as aflições, as carrancudas
cicatrizes, os homens sem dinheiro,
a garra mineral da pobreza.
IV
Companheiros de viagem (1921)
Logo cheguei à capital, vagamente impregnado
de névoa e chuva.
Que ruas eram essas?
Os trajes de 1921 pululavam
num odor atroz de gás, café e tijolos.
Entre os estudantes passei sem compreender,
reconcentrando em mim as paredes, buscando
cada tarde em minha pobre poesia os ramos,
as gotas e a lua que se haviam perdido.
Acudi ao fundo dela, submergindo
cada tarde em suas águas, agarrando impalpáveis
estímulos, gaivotas de um mar abandonado,
até fechar os olhos e naufragar no meio
de minha própria substância.
Foram trevas, foram
apenas escondidas, úmidas folhas do subsolo?
De que matéria ferida se debulhou a morte
até tocar os meus membros, conduzir meu sorriso
e cavar nas ruas um poço desgraçado?
Saí a viver: cresci e endurecido
fui pelas ruelas miseráveis,
sem compaixão, cantando nas fronteiras
do delírio.
Os muros se encheram de rostos:
olhos que não olhavam a luz, águas torcidas
que iluminavam um crime, patrimônios
de solitário orgulho, cavidades
cheias de corações arrasados.
Com eles fui: só em seu coro
a minha voz reconheceu as solidões
onde nasceu.
Comecei a ser homem
cantando entre as chamas, acolhido
por companheiros de condição noturna
que cantaram comigo nas pousadas,
e que me deram mais de uma ternura,
mais de uma primavera defendida
por suas mãos hostis,
único fogo, planta verdadeira
dos desmoronados arrabaldes.
V
A estudante (1923)
Ó tu, mais doce, mais interminável
que a doçura, carnal enamorada
entre as sombras: de outros dias
surges enchendo de pesado pólen
a tua taça, na delícia.
Da noite cheia
de ultrajes, noite como o vinho
destampado, noite de oxidada púrpura,
em ti caí como uma torre ferida,
e entre os pobres lençóis a tua estrela
palpitou contra mim queimando o céu.
Ó redes do jasmim, ó fogo físico
alimentado nesta nova sombra,
trevas que tocamos apertando
a cintura central, golpeando o tempo
com sanguinárias rajadas de espigas.
Amor sem nada mais, no vazio
duma borbulha, amor com ruas mortas,
amor, quando morreu toda a vida
e nos deixou acendendo os rincões.
Mordi mulher, me afundei desvanecendo-me
desde minha força, entesourei cachos de uva,
e saí a caminhar de beijo em beijo,
atado às carícias, amarrado
a esta gruta de fria cabeleira,
a estas pernas por lábios percorridas:
faminto entre os lábios da terra,
devorando com lábios devorados.
VI
O viajante (1927)
E saí pelos mares aos portos.
O mundo entre as gruas
e as adegas da praia sórdida
mostrou em sua greta chusmas e mendigos,
companhias de famintos espectrais
no costado dos navios.
Países
recostados, ressequidos, na areia,
trajes talares, mantos fulgurantes
saíam do deserto, armados
como escorpiões, guardando o buraco
do petróleo, na empoeirada
rede dos calcinados poderios.
Vivi na Birmânia, entre as cúpulas
do metal poderoso, e a mataria
onde o tigre queimava os seus anéis
de ouro sangrento.
De minhas janelas
em Dalhousie Street, o odor
indefinível, musgo nos pagodes,
perfumes e excrementos, pólen, pólvora,
de um mundo saturado pela umidade humana,
subiu até mim.
As ruas me chamaram
com os seus inumeráveis movimentos
de telas de açafrão e escarros vermelhos,
junto à suja marulhada do Irrawaddy, da
água cuja espessura, sangue e azeite,
vinha descarregando a sua linhagem
desde as terras altas cujos deuses
pelo menos dormiam rodeados por seu barro.
VII
Longe daqui
Índia, não amei a tua dilacerada roupa,
a tua desarmada população de farrapos.
Por anos fui com olhos que queriam
subir aos promontórios do desprezo,
entre cidades como cera verde,
entre os talismãs, os pagodes
cuja pastelaria sanguinária
espalhava terríveis aguilhões.
Vi o miserável acumulado, em cima
do outro, do sofrimento de seu irmão,
as ruas como rios de aflição,
as pequenas aldeias esmagadas
entre as grossas unhas das flores,
e fui na multidão, sentinela
do tempo, separando enegrecidas
cicatrizes, cerrames de escravos.
Entrei nos templos, estuque e pedraria
fazem os degraus, sangue e morte sujos,
e os bestiais sacerdotes, ébrios
do estupor ardente, disputando
moedas revolvidas no chão,
enquanto, ó pequeno ser humano,
os grandes ídolos de pés fosfóricos
estiravam as línguas vingativas,
ou sobre um falo de pedra escarlate
deslizavam as pedras trituradas.
VIII
As máscaras de gesso
Não amei.
.
.
Não sei se foi piedade ou vômito.
Corri pelas cidades, Saigon, Madras,
Khandy, até as enterradas, majestosas
pedras de Anuradhapura, e na rocha
do Ceilão, como baleias
as efígies de Siddhartha, fui mais longe:
no saibro de Penang, pelas ribeiras
dos rios, na selva
do silêncio puríssimo, culminado
pelo rebanho das intensas vidas,
para além de Bangkok, as vestimentas
de bailarinas com máscaras de gesso.
Golfos pestilenciais elevavam
tetos de pedraria transbordante,
em largos rios a vivenda
de milhares de pobres, apertados
nas embarcações, e outros, todos
cobriam a infinita terra,
para além dos rios amarelos,
com uma única pele de animal roto,
pele dos povos, pelanca humilhada
por uns e outros amos.
Capitães e príncipes
viviam sobre o úmido estertor
de agonizantes lâmpadas, sangrando
a vida dos pobres artesãos,
e entre as garras e chicotes, mais alto
era a concessão, o europeu,
o norte-americano do petróleo,
fortificando templos de alumínio,
arando sobre a pele desamparada,
estabelecendo novos sacrifícios de sangue.
IX
O baile (1929)
Na profundidade de Java, entre as sombras
territoriais: aqui está o palácio iluminado.
Passo entre arqueiros verdes, aderidos
aos muros, entro
na sala do trono.
Está o monarca,
apoplético porco, pavão impuro,
carregado de cordões, constelado,
entre dois de seus amos holandeses,
mercadores carrancudos que vigiam.
Que repugnante grupo de insetos, como arremessam sobre os seres, conscienciosamente,
pauladas de vileza.
As sentinelas sórdidas
das longínquas terras, e o monarca
como um saco cego, arrastando
a sua carne espessa e as suas estrelas falsas
sobre uma humilde pátria de prateiros.
Mas entraram de repente
do remoto fundo do palácio
dez bailarinas, lentas como um sonho
debaixo das águas.
Cada pé se aproximava
de costas, avançando mel noturno
como um peixe de ouro, e suas máscaras ocre
levavam sobre o cabelo de azeitada espessura
uma coroa fresca de flores de laranjeira.
Até que se colocaram
diante do sátrapa, e com elas a música, um rumor
de élitros de cristal, a dança pura
que cresceu como flor, as mãos claras
construindo uma estátua fugitiva,
a túnica batida nos calcanhares
por um golpe de onda ou de brancura,
e em cada movimento de pomba
feita em metal sagrado, o sussurrante
ar do arquipélago, aceso
como uma árvore nupcial na primavera.
X
A guerra (1930)
Espanha, envolta em sonho, despertando
como uma cabeleira com espigas,
te vi nascer, entre as brenhas
e as trevas, lavradora,
levantar-te entre os carvalhos e os montes
e percorrer o ar com as veias abertas.
Mas te vi atacada nas esquinas
pelos antigos bandoleiros.
Iam
mascarados, com as suas cruzes feitas
de víboras, com os pés metidos
no glacial pântano dos mortos.
Então vi o teu corpo desprendido
de matagais, quebrado
sobre a areia encarniçada, aberto,
sem mundo, aguilhoado na agonia.
Até hoje corre a água de tuas penhas
entre os calabouços, e susténs
a tua coroa de farpas em silêncio,
para ver quem pode mais, se tuas dores
ou os rostos que cruzam sem olhar-te.
Eu vivi com a tua aurora de fuzis,
e quero que de novo povo e pólvora
sacudam as ramagens desonradas
até que trema o sonho e se reúnam
os frutos divididos na terra.
XI
O amor
O firme amor, Espanha, me deste com teus dons.
Veio a mim a ternura que esperava
e me acompanha a que leva o beijo
mais profundo a minha boca.
Não puderam
apartá-la de mim as tempestades
nem as distâncias acrescentaram terra
ao espaço de amor que conquistamos.
Quando antes do incêndio, entre as messes
da Espanha apareceu a tua vestimenta,
eu fui dupla noção, luz duplicada,
e a amargura resvalou em teu rosto
até cair sobre pedras perdidas.
De uma grande dor, de arpões eriçados
desemboquei em tuas águas, amor meu,
como um cavalo que galopa em meio
à ira e à morte, e o recebe
de súbito uma maçã matutina,
uma cascata de tremor silvestre.
Desde então, amor, te conheceram
os páramos que fizeram a minha conduta,
o oceano escuro que me segue,
e os castanhos do outono imenso.
Quem não te viu, amorosa, doce minha,
na luta, a meu lado, como uma
aparição, com todos os sinais
da estrela? Quem, se andou
entre as multidões a procurar-me,
porque sou grão do celeiro humano,
não te encontrou, agarrada a minhas raízes,
elevada no canto de meu sangue?
Não sei, meu amor, se terei tempo e lugar para
escrever outra vez a tua sombra fina
estendida em minhas páginas, esposa:
são duros estes dias e radiantes,
e recolhemos deles a doçura
amassada com pálpebras e espinhos.
Não sei recordar quando começas:
estavas antes do amor,
vinhas
com todas as essências do destino,
e antes de ti, a solidão foi tua,
foi talvez a tua adormecida cabeleira.
Hoje, taça de meu amor, te nomeio apenas,
título de meus dias, adorada,
e no espaço ocupas como o dia
toda a luz que tem o universo.
XII
México (1940)
México, de mar a mar te vivi, transpassado
por tua férrea cor, subindo montes
sobre os quais aparecem monastérios
cheios de espinhos,
o ruído venenoso
da cidade, os dentes solapados
do pululante poetiso, e sobre
as folhas dos mortos e os degraus
que construiu o silêncio irredutível,
como coto dum amor leproso,
o esplendor molhado das ruínas.
Porém do acre acampamento, rude
suor, lanças de grãos amarelos,
sobe a agricultura coletiva
repartindo os pães da pátria.
Outras vezes calcárias cordilheiras
interromperam o meu caminho,
formas
das metralhadas nevadas
que despedaçam a casca escura
da pele mexicana, e os cavalos
que cruzam como o beijo da pólvora
sob os patriarcais arvoredos.
Aqueles que apagaram bravamente
a fronteira do prédio e entregaram
a terra conquistada pelo sangue
entre os esquecidos herdeiros,
também aqueles dedos dolorosos
atados ao sul das raízes,
a minuciosa máscara teceram,
povoaram de floral quinquilharia
e de fogo têxtil o território.
Não soube que mais amei, se a escavada
antigüidade de rostos que guardaram
a intensidade de pedras implacáveis,
ou a rosa recente, construída
por uma mão ontem ensangüentada.
E assim de terra em terra fui tocando
o barro americano, minha estatura,
e subiu por minhas veias o esquecimento
recostado no tempo, até que um dia
estremeceu a minha boca a sua linguagem.
XIII
Nos muros do México (1943)
Os países se estendem junto aos rios, buscam
o suave peito, os lábios do planeta,
tu, México, tocaste
os ninhos do espinho,
a desértica altura da águia sangrenta,
o mel da coluna combatida.
Outros homens buscaram o rouxinol, acharam
o fumo, o vale, regiões como a pele humana:
tu, México, enterraste as mãos na terra,
tu cresceste na pedra de olhar selvagem.
Quando chegou a tua boca a rosa do rocio
o látego do céu a converteu em tormento.
foi a tua origem um vento de punhais
entre dois mares de irritada espuma.
Tuas pálpebras se abriram na espessa papoula
de um dia enfurecido
e a neve estendia sua espaçosa brancura
onde o fogo vivo começava a habitar-te.
conheço a tua coroa de nopais
e sei que sob as tuas raízes
a tua subterrânea estátua, México, se constrói
com as águas secretas da terra
e os lingotes cegos das minas.
Ó terra, ó esplendor
de tua perpétua e dura geografia,
a derramada rosa do mar da Califórnia,
o raio verde que Yucatán derrama,
o amarelo amor de Sinaloa,
as pálpebras rosadas de Morelia,
e o longo fio da piteira fragrante
que amarra o coração à tua estatura.
México augusto de rumor e espadas,
quando a noite na terra era maior,
repartiste o berço do milho entre os homens.
Levantaste a mão cheia de pó santo
e a puseste em meio a teu povo
como uma nova estrela de pão e de fragrância.
O camponês então à luz da pólvora
olhou a sua terra desencadeada
brilhar sobre os mortos germinais.
Canto a Morelos.
Quando caía
seu fulgor verrumado,
uma pequena gota ia chamando
sob a terra até encher a taça
de sangue, e da taça um rio
até chegar a toda a silenciosa praia
da América, empapando-a de misteriosa essência.
Canto a Cuauhtémoc.
Toco
a sua linhagem de lua
e seu fino sorriso de deus martirizado.
Onde estás, perdeste,
antigo irmão, a tua dureza doce?
Em que te converteste?
Onde vive a tua estação de fogo?
Vive na pele de nossa mão escura,
vive nos cinzentos cereais:
quando, depois da noturna sombra
se debulham as cepas da aurora,
os olhos de Cuauhtémoc abrem a sua luz remota
sobre a vida verde da folhagem.
Canto a Cárdenas.
Eu estive;
eu vivi a tormenta de Castilla.
Eram os dias cegos das vidas.
Altas dores como ramos cruéis
feriam a nossa mãe angustiada.
Era o abandonado luto, os muros do silêncio
quando
se atraiçoava, se assaltava e feria
essa pátria da alva e do loureiro.
Então
só a estrela vermelha da Rússia e o olhar
de Cárdenas brilharam na noite do homem.
General, presidente da América, te deixo neste canto
algo do resplendor que recolhi na Espanha.
México, abriste as portas e as mãos
ao errante, ao ferido,
ao desterrado, ao herói.
Sinto que isto não possa se dizer de outra forma
e quero que se agarrem as minhas palavras
outra vez como beijos em teus muros.
De par em par abriste a tua porta combatente
e encheu-se de estranhos filhos a tua cabeleira
e tocaste com as tuas duras mãos
as faces dos filhos
que te pariu com lágrimas e tormenta do mundo.
Aqui termino, México,
aqui te deixo esta caligrafia
sobre as fontes para que a idade
vá apagando este novo discurso
de quem te amou por livre e por profundo.
Adeus te digo, mas não me vou.
Vou-me, mas não posso
dizer-te adeus.
Porque na minha vida, México, vives como uma pequena
águia equivocada que circula nas minhas veias,
e só no fim a morte dobrará as asas
sobre o meu coração de soldado adormecido.
XIV
O regresso (1944)
Regressei.
.
.
O Chile me recebeu com o rosto amarelo do deserto.
Peregrinei sofrendo
de árida lua em cratera arenosa
e encontrei os domínios agrestes do planeta,
a lisa luz sem pâmpanos, a retidão vazia.
Vazia? Mas sem vegetais, sem garras, sem esterco
me revelou a terra sua dimensão nua
e lá longe a sua longa linha em que nascem
aves e peitos ígneos de suave contextura.
Porém mais longe homens cavavam as fronteiras,
recolhiam metais duros, disseminados
alguns como a farinha de amargos cereais,
outros como a altura calcinada do fogo,
e homens e lua, tudo me envolveu em sua mortalha
até perder o fio vazio dos sonhos.
Me entreguei aos desertos e o homem da escória
saiu de seu buraco, de sua aspereza muda
e soube as dores de meu povo perdido.
Então, fui por ruas e curules e disse
o quanto vi, mostrei as mãos que tocaram
os torrões enfartados de dor, as vivendas
da desamparada pobreza, o miserável
pão e a solidão da lua esquecida.
E lado a lado com meu irmão sem sapatos
quis mudar o reino das moedas sujas.
Fui perseguido, mas a nossa luta continua.
A verdade é mais alta que a lua.
É vista, como se estivessem num navio negro,
pelos homens das minas quando a olham à noite.
E na sombra a minha voz é repartida
pelas mais duras estirpes da terra.
XV
A linha de madeira
Eu sou um carpinteiro, cego, sem mãos.
Vivi
sob as águas, consumindo frio,
sem construir as caixas fragrantes, as moradas
que cedro a cedro erguem a grandeza,
porém meu canto foi procurando fios do bosque,
secretas fibras, ceras delicadas,
e foi cortando ramos, perfumando
a solidão com lábios de madeira.
Amei cada matéria, cada gota
de púrpura ou de metal, água e espiga
e entrei em espessas camadas resguardadas
por espaço e areia tremulante
até cantar com a boca destruída,
como um morto, nas uvas da terra.
Argila, barro, vinho, me cobriram,
enlouqueci tocando os quadris
da pele cuja flor foi sustida
como um incêndio sob a minha garganta,
e pela pedra passearam os meus sentidos
invadindo fechadas cicatrizes.
Como mudei sem ser, desconhecendo
o meu ofício antes de ser,
a metalurgia
que estava destinada à minha dureza,
às serranias olfateadas
pelas cavalgaduras no inverno?
Tudo se fez ternura e mananciais
e servi somente para noturno.
XVI
A bondade combatente
Mas não tive a bondade morta nas ruas.
Rechacei o seu aqueduto purulento
e não toquei o seu mar contaminado.
Extraí o bem como um metal, cavando
além dos olhos que mordiam,
e entre as cicatrizes foi crescendo
meu coração nascido nas espadas.
Não saí desbocado, descarregando
terra ou punhal entre os homens.
Não era
meu ofício o da ferida ou o veneno.
Não sujeitei o inerme em ataduras
que lhe atravessassem chicotes gelados,
não fui à praça procurar inimigos
espreitando com a mão mascarada:
não fiz mais que crescer com as minhas raízes,
e o chão que estendeu o meu arvoredo
decifrou os vermes que jaziam.
Veio morder-me Segunda-feira e lhe dei algumas folhas
Veio insultar-me Terça-feira e fiquei dormindo.
Chegou logo Quarta-feira com dentes iracundos.
Eu a deixei passar construindo raízes.
E quando Quinta-feira veio com uma venenosa
lança negra de urtigas e de escamas
eu a esperei em meio à minha poesia
e em plena lua lhe parti um cacho de uva.
Venham aqui estrelar-se nesta espada.
Venham se desfazer em meus domínios.
Venham em amarelos regimentos,
ou na congregação dos sulfurosos.
Morderão sombra e sangue de sinos
sob as sete léguas do meu canto.
XVII
Reúne-se o aço (1945)
Vi o mal e o mau, mas não em seus covis.
É uma história de fadas a maldade com caverna.
Aos pobres depois de terem tombado
em farrapos, à mina desgraçada,
povoaram-no com bruxas o caminho.
Encontrei a maldade sentada nos tribunais:
no Senado a encontrei vestida
e penteada, torcendo os debates
e as idéias para os próprios bolsos.
O mal e o mau
acabavam de sair do banho: estavam
encadernados em satisfações,
e eram perfeitos na suavidade
de seu falso decoro.
Vi o mal, e para
desterrar esta pústula vivi
com outros, acrescentando vidas,
fazendo-me secreta cifra, metal sem nome,
invencível unidade de povo e pó.
O orgulhoso estava feramente
combatendo em seu armário de marfim
e passou a maldade em meteoro
dizendo: “É admirável
a sua solitária retidão.
Deixai-o”.
O impetuoso tirou o seu alfabeto
e montado em sua espada se deteve
a perorar na rua deserta.
Passou o mal e lhe disse: “Que valente!”
e se foi ao clube para comentar a façanha.
Mas quando fui pedra e argamassa,
torre e aço, sílaba associada:
quando apertei a mão de meu povo
e fui ao combate com o mar inteiro;
quando deixei a minha solidão e pus
o meu orgulho no museu, a minha vaidade no
desvão das carruagens desengonçadas,
quando me fiz partido com outros homens, quando
se organizou o metal da pureza,
então veio o mal e disse: “Duro
com eles, no cárcere, morram!”
Mas já era tarde, e o movimento
do homem, meu partido,
é a invencível primavera, dura
sob a terra, quando foi esperança
e fruto geral para mais tarde.
XVIII
O vinho
Vinho da primavera.
.
.
Vinho do outono, dai-me
meus companheiros, uma mesa em que caiam
folhas equinociais, e o grande rio do mundo
que empalideça um pouco movendo o seu som
longe de nossos cantos.
Sou um bom companheiro.
Não entraste nesta casa para que te arrancasses
um pedaço do ser.
Talvez quando te vás
leves algo meu, castanhas, rosas ou
uma segurança de raízes ou navios
que quis compartilhar contigo, companheiro.
Canta comigo até que as taças
se derramem deixando púrpura desprendida
sobre a mesa.
Esse mel vem à tua boca
da terra, de seus obscuros racimos.
Quantos me faltam, sombras do canto,
companheiros
que amei oferecendo a face, tirando de minha vida
a incomparável ciência varonil que professo,
a amizade, arvoredo de rugosa ternura.
Dá-me a mão, encontra-te comigo,
simples, não busques nada em minhas palavras,
a não ser a emanação duma planta nua.
Por que me pedes mais que a um operário? Já sabes
que a golpes fui forjando minha enterrada forja,
e que não quero falar a não ser como ê minha língua.
Sai a procurar doutores se não te agrada o vento.
Nós cantaremos com o vinho áspero
da terra: golpearemos as taças do outono,
e a guitarra ou o silêncio irão trazendo
linhas de amor, linguagem de rios que não existem,
estrofes adoradas que não têm sentido.
XIX
Os frutos da terra
Como sobe a terra pelo milho, buscando
leitosa luz, cabelos, marfim endurecido,
a primorosa rede da espiga madura
e todo o reino de ouro que se vai debulhando?
Quero comer cebolas, traze-me do mercado
uma, um globo pleno de neve cristalina,
que transformou a terra em cera e equilíbrio
como uma bailarina detida em seu vôo.
Dá-me umas codornizes de caça, cheirando
a musgo da selva, um pescado vestido
como um rei, destilando profundidade molhada
sobre a fonte,
abrindo pálidos olhos de ouro
sob o multiplicado mamilo dos limões.
Vamo-nos, e sob a castanheira a fogueira
deixará o seu tesouro branco sob as brasas,
e um cordeiro com toda a sua oferenda irá dourando
a sua linhagem até ser âmbar para a tua boca.
Dá-me todas as coisas da terra, torcazes
recém-tombadas, ébrias de cachos selvagens,
doces enguias que ao morrer, fluviais,
alongaram as suas pétalas diminutas,
e uma bandeja de ácidos ouriços
darão o seu alaranjado submarino
ao fresco firmamento das alfaces.
E antes que a lebre marinada
encha de aroma o ar do almoço
como silvestre fuga de sabores,
para as ostras do sul, recém-abertas,
em seus estojos de esplendor salgado,
vai o meu beijo empapado nas substâncias
da terra que amo e que percorro
com todos os caminhos do meu sangue.
XX
A grande alegria
A sombra que indaguei já não me pertence.
Eu tenho a alegria duradoura do mastro,
a herança dos bosques, o vento do caminho
e um dia decidido sob a luz terrestre.
Não escrevo para que outros livros me aprisionem,
nem para encarniçados aprendizes de lírio,
mas para singelos habitantes que pedem
água e lua, elementos da ordem imutável,
escolas, pão e vinho, guitarras e ferramentas.
Escrevo para o povo ainda que ele não possa
ler a minha poesia com seus olhos rurais.
Virá o instante em que uma linha, a aragem
que removeu a minha vida, chegará aos seus ouvidos,
então o labrego levantará os olhos,
o mineiro sorrirá quebrando pedras,
o caldeireiro limpará a fronte,
o pescador verá melhor o brilho
dum peixe que palpitando lhe queimará as mãos,
o mecânico, limpo, recém-lavado, cheio
do aroma do sabão, olhará meus poemas,
e talvez eles dirão: “Foi um camarada”.
Isso é bastante, essa é a coroa que quero.
Quero que à saída da fábrica e das minas
esteja a minha poesia aderida à terra,
ao ar, à vitória do homem maltratado.
Quero que um jovem ache na dureza
que construí, com lentidão e com metais,
como uma caixa, abrindo-a, cara a cara, a vida,
e afundando a alma toque as rajadas que fizeram
minha alegria, nas alturas tempestuosas.
XXI
A morte
Renasci muitas vezes, desde o fundo
de estrelas derrotadas, reconstruindo o fio
das eternidades que povoei com as minhas mãos,
e agora vou morrer, sem nada mais, com terra
sobre o meu corpo, destinado a ser terra.
Não comprei uma parcela do céu que vendiam
os sacerdotes, nem aceitei trevas
que o metafísico manufaturava
para despreocupados poderosos.
Quero estar na morte com os pobres
que não tiveram tempo de estudá-la,
enquanto os espancavam os que têm
o céu dividido e arrumado.
Tenho pronta a minha morte, como uma roupa
que me espera, da cor que amo,
da extensão que procurei inutilmente,
da profundidade que necessito.
Quando o amor gastou a sua matéria evidente
e a luta debulha os seus martelos
em outras mãos de acrescentada força,
vem a morte para apagar os sinais
que foram construindo tuas fronteiras.
XXII
A vida
Que outro se preocupe com os ossários.
.
.
O mundo
tem uma cor nua de maçã: os rios
arrastam um caudal de medalhas silvestres
e em todas as partes vive Rosalía, a doce,
e Juan, o companheiro.
.
.
Ásperas pedras fazem
o castelo, e o barro mais suave que as uvas
com os restos do trigo fez minha casa.
Vastas terras, amor, sinos lentos,
combates reservados à aurora,
cabeleiras de amor que me esperaram,
depósitos adormecidos de turquesa:
casas, caminhos, ondas que constroem
uma estátua varrida pelos sonhos,
padarias na madrugada,
relógios educados na areia,
papoulas do trigo circulante,
e estas mãos escuras que amassaram
os materiais de minha própria vida:
para viver acendem-se as laranjas
sobre a multidão dos destinos!
Que os coveiros escarvem as matérias
aziagas: que levantem
os fragmentos sem luz da cinza,
e falem do idioma do verme.
Diante de mim só tenho sementes,
desenvolvimentos radiantes e doçura.
XXIII
Testamento (I)
Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
a minha casa junto ao mar de Isla Negra.
Quero que lá repousem os maltratados filhos
da minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sangue sagrado,
consumida em vulcânicos farrapos.
Quero que ao limpo amor que percorresse
o meu domínio, descansem os cansados,
se sentem a minha mesa os obscuros,
durmam sobre a minha cama os feridos.
Irmão, esta é a minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que ergui lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som na minha janela
como num crescente caracol
e logo estabeleceu as suas latitudes
em minha desordenada geologia.
Vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço de minha oceania.
XXIV
Testamento (II)
Deixo meus velhos livros, recolhidos
pelos rincões do mundo, venerados
em sua tipografia majestosa,
aos novos poetas da América,
aos que um dia
fiarão no rouco tear interrompido
as significações de amanhã.
Eles terão nascido quando o agreste punho
de lenhadores mortos c mineiros
haja dado uma vida inumerável
para limpar a catedral torcida,
o grão desengonçado, o filamento
que enredou as nossas ávidas planícies.
Toquem eles o inferno, este passado
que esmagou os diamantes, e defendam
os mundos cereais de seu canto,
o que nasceu na árvore do martírio.
Sobre os ossos de caciques, longe
de nossa herança traída, em pleno
ar de povos que caminham sós,
eles vão para povoar o estatuto
dum longo sofrimento vitorioso.
Que amem como eu amei meu Manrique, meu Góngora
meu Garcilaso, meu Quevedo:
foram
titânicos guardiães, armaduras
de platina e nevada transparência,
que me ensinaram o rigor, e busquem
em meu Lautréamont velhos lamentos
entre pestilenciais agonias.
Que em Maiakóvski vejam como ascendeu a estrela
e como de seus raios nasceram as espigas.
XXV
Disposições
Companheiros, enterrai-me em Isla Negra,
diante do mar que conheço, de cada área rugosa
de pedras e ondas que meus olhos perdidos
não tornarão a ver.
Cada dia do oceano
meu trouxe, névoa ou puros precipícios de turquesa,
ou simples extensão, água retilínea, invariável,
o que pedi, o espaço que devorou minha face.
Cada passagem enlutada de cormorão, o vôo
de grandes aves grises que amavam o inverno,
e cada tenebroso círculo de sargaço
e cada grave onda que sacode o frio,
e ainda mais, a terra que um escondido herbário
secreto, filho de brumas e sais, roído
pelo ácido vento, minúsculas corolas
da costa agarradas à infinita areia:
todas as chaves úmidas da terra marinha
conhecem cada estado da minha alegria, sabem
que lá quero dormir entre as pálpebras
do mar e da terra.
.
.
Quero ser arrastado
abaixo nas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e esmiúça,
e logo pelos caudais subterrâneos, seguir
até a primavera profunda que renasce.
Abri junto a mim o vazio da que amo, e um dia”
deixai-a que outra vez me acompanhe na terra.
XXVI
Vou viver (1949)
Não vou morrer.
Saio agora
neste dia cheio de vulcões
para a multidão, para a vida.
Aqui deixo arrumadas estas coisas
hoje que os pistoleiros passeiam
com a “cultura ocidental” nos braços,
com as mãos que matam na Espanha
e as forcas que oscilam em Atenas
e a desonra que governa o Chile
e paro de contar.
Aqui fico
com palavras e povos e caminhos
que me esperam de novo, e que batem
com mãos consteladas em minha porta.
XXVII
A meu partido
Me deste a fraternidade para o que não conheço.
Me acrescentaste a força de todos os que vivem.
Me tornaste a dar a pátria como em um nascimento.
Me deste a liberdade que não tem o solitário.
Me ensinaste a acender a bondade, como o fogo.
Me deste a retidão que necessita a árvore.
Me ensinaste a ver a unidade e a diferença dos homens.
Me mostraste como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Me ensinaste a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Me fizeste construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Me fizeste adversário do malvado e muro do frenético.
Me fizeste ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Me fizeste indestrutível porque contigo não termino em mim mesmo.
XXVIII
Aqui termino (1949)
Este livro termina aqui.
Nasceu
da ira como uma brasa, como os territórios
de bosques incendiados, e desejo
que continue como uma árvore vermelha
propagando a sua clara queimadura.
Mas não somente cólera em seus ramos
encontraste: não somente as suas raízes
procuraram a dor mas também a força,
e força sou de pedra pensativa,
alegria de mãos congregadas.
Por fim, sou livre dentro dos seres.
Entre os seres, como o ar vivo,
e da solidão acurralada
saio para a multidão dos combates,
livre porque em minha mão vai a tua mão,
conquistando alegrias indomáveis.
Livro comum de um homem, pão aberto
é esta geografia do meu canto,
e uma comunidade de lavradores
algum dia recolherá o seu fogo
e semeará as suas chamas e suas folhas
outra vez na nave da terra.
E nascerá de novo esta palavra,
talvez em outro tempo sem dores,
sem as impuras fibras que aderiram
negras vegetações em meu canto,
e outra vez nas alturas estará ardendo
meu coração queimante e estrelado.
Assim termina este livro, aqui deixo
meu Canto geral escrito
na perseguição, cantando sob
as asas clandestinas de minha pátria.
Hoje, 5 de fevereiro, neste ano
de 1949, no Chile, em “Godomar
de Chena”, alguns meses antes
dos quarenta e cinco anos de minha idade.
A fronteira (1904)
O primeiro que vi foram árvores, barrancos
decorados com flores de selvagem formosura,
úmido território, bosques que se incendiavam
e o inverno detrás do mundo, transbordado.
Minha infância são sapatos molhados, troncos partidos
tombados na selva, devorados por cipós
e escaravelhos, doces dias sobre a aveia,
e a barba dourada de meu pai saindo
para a majestade da ferroviária.
Diante de minha casa a água austral cavava
fundas derrotas, lameiros de argilas enlutadas,
que no verão eram atmosfera amarela
por onde as carretas rangiam e choravam
prenhadas com nove meses de trigo.
Rápido sol do sul:
restolhos, fumaradas
em caminhos de terras escarlates, ribeiras
de rios de redonda linhagem, currais e potreiros
em que reverberava o mel do meio-dia.
O mundo poeirento entrava grau por grau
nos galpões, entre barricas e cordéis,
nas adegas carregadas com o resumo rubro
da aveleira, todas as pálpebras do bosque.
Pareceu-me ascender com o traje tórrido
do verão, com as máquinas debulhadoras,
pelas costas, na terra envernizada de boldos
erguida entre os carvalhos, indelével,
agarrando-se às rodas como carne esmagada.
Minha infância percorreu as estações: entre
os trilhos, os castelos de madeira recente,
a casa sem cidade, apenas protegida
por reses e maçãs de perfume indizível
fui eu, delgado menino cuja pálida forma
se impregnava de bosques vazios e adegas.
II
O fundeiro (1919)
Amor, talvez amor indeciso, inseguro:
só um golpe de madressilvas na boca,
só umas tranças cujo movimento subia
até minha solidão como uma fogueira negra,
e o mais: o rio noturno, os sinais
do céu, a fugaz primavera molhada,
a enlouquecida fronte solitária, o desejo
levantando as suas cruéis tulipas na noite.
Eu desfolhei as constelações, ferindo-me,
afiando os dedos no tacto das estrelas,
afiando fibra por fibra a contextura gelada
dum castelo sem portas,
ó destroçados amores
cujo jasmim detém sua transparência em vão,
ó nuvens que no dia do amor desembocam
como um soluço entre as ervas hostis,
nua solidão amarrada a uma sombra,
a uma ferida adorada, a uma lua indomável.
Nomeai-me, disse talvez aos rosais:
eles talvez, a sombra de confusa ambrosia,
cada tremor do mundo conhecia meus passos,
me esperava o rincão mais oculto, a estátua
da árvore soberana na planície:
tudo na encruzilhada chegou a meu desvario
debulhando o meu nome sobre a primavera.
E então, doce rosto, açucena queimada,
tu, a que não dormiste com o meu sonho, bravia,
medalha perseguida por uma sombra, amada
sem nome, feita de toda a estrutura do pólen,
de todo o inverno ardendo sobre estrelas impuras:
ó amor, desenredado jardim que se consome,
em ti se levantaram meus sonhos e cresceram
como um fermento de pães tenebrosos.
III
A casa
Minha casa, as paredes cuja madeira fresca,
recém-cortada, cheira ainda: destrambelhada
casa de fronteira, que rangia
a cada passo, e silvava com o vento de guerra
do tempo austral, fazendo-se elemento
de tempestade, ave desconhecida
sob cujas geladas plumas cresceu o meu canto.
Vi sombras, rostos que como plantas
em torno de minhas raízes cresceram, parentes
que cantavam toadas à sombra duma árvore
e disparavam entre os cavalos molhados,
mulheres escondidas na sombra
que deixavam as torres masculinas,
galopes que fustigavam a luz,
enrarecidas
noites de cólera, cachorros que latiam.
Meu pai com a alva escura
da terra, para que perdidos arquipélagos
em seus trens que uivavam se deslizou?
Mais tarde amei o odor do carvão no fumo,
os azeites, os eixos de precisão gelada,
e o grave trem cruzando o inverno estendido
sobre a terra, como uma lagarta orgulhosa.
De repente trepidaram as portas.
É meu pai.
Rodeiam-no os centuriões do caminho:
ferroviários envoltos em suas mantas molhadas,
o vapor e a chuva com eles revestiram
a casa, a sala de jantar se encheu de relatos
enrouquecidos, os copos se verteram,
e até mim, dos seres, como uma separada
barreira, em que viviam as dores,
chegaram as aflições, as carrancudas
cicatrizes, os homens sem dinheiro,
a garra mineral da pobreza.
IV
Companheiros de viagem (1921)
Logo cheguei à capital, vagamente impregnado
de névoa e chuva.
Que ruas eram essas?
Os trajes de 1921 pululavam
num odor atroz de gás, café e tijolos.
Entre os estudantes passei sem compreender,
reconcentrando em mim as paredes, buscando
cada tarde em minha pobre poesia os ramos,
as gotas e a lua que se haviam perdido.
Acudi ao fundo dela, submergindo
cada tarde em suas águas, agarrando impalpáveis
estímulos, gaivotas de um mar abandonado,
até fechar os olhos e naufragar no meio
de minha própria substância.
Foram trevas, foram
apenas escondidas, úmidas folhas do subsolo?
De que matéria ferida se debulhou a morte
até tocar os meus membros, conduzir meu sorriso
e cavar nas ruas um poço desgraçado?
Saí a viver: cresci e endurecido
fui pelas ruelas miseráveis,
sem compaixão, cantando nas fronteiras
do delírio.
Os muros se encheram de rostos:
olhos que não olhavam a luz, águas torcidas
que iluminavam um crime, patrimônios
de solitário orgulho, cavidades
cheias de corações arrasados.
Com eles fui: só em seu coro
a minha voz reconheceu as solidões
onde nasceu.
Comecei a ser homem
cantando entre as chamas, acolhido
por companheiros de condição noturna
que cantaram comigo nas pousadas,
e que me deram mais de uma ternura,
mais de uma primavera defendida
por suas mãos hostis,
único fogo, planta verdadeira
dos desmoronados arrabaldes.
V
A estudante (1923)
Ó tu, mais doce, mais interminável
que a doçura, carnal enamorada
entre as sombras: de outros dias
surges enchendo de pesado pólen
a tua taça, na delícia.
Da noite cheia
de ultrajes, noite como o vinho
destampado, noite de oxidada púrpura,
em ti caí como uma torre ferida,
e entre os pobres lençóis a tua estrela
palpitou contra mim queimando o céu.
Ó redes do jasmim, ó fogo físico
alimentado nesta nova sombra,
trevas que tocamos apertando
a cintura central, golpeando o tempo
com sanguinárias rajadas de espigas.
Amor sem nada mais, no vazio
duma borbulha, amor com ruas mortas,
amor, quando morreu toda a vida
e nos deixou acendendo os rincões.
Mordi mulher, me afundei desvanecendo-me
desde minha força, entesourei cachos de uva,
e saí a caminhar de beijo em beijo,
atado às carícias, amarrado
a esta gruta de fria cabeleira,
a estas pernas por lábios percorridas:
faminto entre os lábios da terra,
devorando com lábios devorados.
VI
O viajante (1927)
E saí pelos mares aos portos.
O mundo entre as gruas
e as adegas da praia sórdida
mostrou em sua greta chusmas e mendigos,
companhias de famintos espectrais
no costado dos navios.
Países
recostados, ressequidos, na areia,
trajes talares, mantos fulgurantes
saíam do deserto, armados
como escorpiões, guardando o buraco
do petróleo, na empoeirada
rede dos calcinados poderios.
Vivi na Birmânia, entre as cúpulas
do metal poderoso, e a mataria
onde o tigre queimava os seus anéis
de ouro sangrento.
De minhas janelas
em Dalhousie Street, o odor
indefinível, musgo nos pagodes,
perfumes e excrementos, pólen, pólvora,
de um mundo saturado pela umidade humana,
subiu até mim.
As ruas me chamaram
com os seus inumeráveis movimentos
de telas de açafrão e escarros vermelhos,
junto à suja marulhada do Irrawaddy, da
água cuja espessura, sangue e azeite,
vinha descarregando a sua linhagem
desde as terras altas cujos deuses
pelo menos dormiam rodeados por seu barro.
VII
Longe daqui
Índia, não amei a tua dilacerada roupa,
a tua desarmada população de farrapos.
Por anos fui com olhos que queriam
subir aos promontórios do desprezo,
entre cidades como cera verde,
entre os talismãs, os pagodes
cuja pastelaria sanguinária
espalhava terríveis aguilhões.
Vi o miserável acumulado, em cima
do outro, do sofrimento de seu irmão,
as ruas como rios de aflição,
as pequenas aldeias esmagadas
entre as grossas unhas das flores,
e fui na multidão, sentinela
do tempo, separando enegrecidas
cicatrizes, cerrames de escravos.
Entrei nos templos, estuque e pedraria
fazem os degraus, sangue e morte sujos,
e os bestiais sacerdotes, ébrios
do estupor ardente, disputando
moedas revolvidas no chão,
enquanto, ó pequeno ser humano,
os grandes ídolos de pés fosfóricos
estiravam as línguas vingativas,
ou sobre um falo de pedra escarlate
deslizavam as pedras trituradas.
VIII
As máscaras de gesso
Não amei.
.
.
Não sei se foi piedade ou vômito.
Corri pelas cidades, Saigon, Madras,
Khandy, até as enterradas, majestosas
pedras de Anuradhapura, e na rocha
do Ceilão, como baleias
as efígies de Siddhartha, fui mais longe:
no saibro de Penang, pelas ribeiras
dos rios, na selva
do silêncio puríssimo, culminado
pelo rebanho das intensas vidas,
para além de Bangkok, as vestimentas
de bailarinas com máscaras de gesso.
Golfos pestilenciais elevavam
tetos de pedraria transbordante,
em largos rios a vivenda
de milhares de pobres, apertados
nas embarcações, e outros, todos
cobriam a infinita terra,
para além dos rios amarelos,
com uma única pele de animal roto,
pele dos povos, pelanca humilhada
por uns e outros amos.
Capitães e príncipes
viviam sobre o úmido estertor
de agonizantes lâmpadas, sangrando
a vida dos pobres artesãos,
e entre as garras e chicotes, mais alto
era a concessão, o europeu,
o norte-americano do petróleo,
fortificando templos de alumínio,
arando sobre a pele desamparada,
estabelecendo novos sacrifícios de sangue.
IX
O baile (1929)
Na profundidade de Java, entre as sombras
territoriais: aqui está o palácio iluminado.
Passo entre arqueiros verdes, aderidos
aos muros, entro
na sala do trono.
Está o monarca,
apoplético porco, pavão impuro,
carregado de cordões, constelado,
entre dois de seus amos holandeses,
mercadores carrancudos que vigiam.
Que repugnante grupo de insetos, como arremessam sobre os seres, conscienciosamente,
pauladas de vileza.
As sentinelas sórdidas
das longínquas terras, e o monarca
como um saco cego, arrastando
a sua carne espessa e as suas estrelas falsas
sobre uma humilde pátria de prateiros.
Mas entraram de repente
do remoto fundo do palácio
dez bailarinas, lentas como um sonho
debaixo das águas.
Cada pé se aproximava
de costas, avançando mel noturno
como um peixe de ouro, e suas máscaras ocre
levavam sobre o cabelo de azeitada espessura
uma coroa fresca de flores de laranjeira.
Até que se colocaram
diante do sátrapa, e com elas a música, um rumor
de élitros de cristal, a dança pura
que cresceu como flor, as mãos claras
construindo uma estátua fugitiva,
a túnica batida nos calcanhares
por um golpe de onda ou de brancura,
e em cada movimento de pomba
feita em metal sagrado, o sussurrante
ar do arquipélago, aceso
como uma árvore nupcial na primavera.
X
A guerra (1930)
Espanha, envolta em sonho, despertando
como uma cabeleira com espigas,
te vi nascer, entre as brenhas
e as trevas, lavradora,
levantar-te entre os carvalhos e os montes
e percorrer o ar com as veias abertas.
Mas te vi atacada nas esquinas
pelos antigos bandoleiros.
Iam
mascarados, com as suas cruzes feitas
de víboras, com os pés metidos
no glacial pântano dos mortos.
Então vi o teu corpo desprendido
de matagais, quebrado
sobre a areia encarniçada, aberto,
sem mundo, aguilhoado na agonia.
Até hoje corre a água de tuas penhas
entre os calabouços, e susténs
a tua coroa de farpas em silêncio,
para ver quem pode mais, se tuas dores
ou os rostos que cruzam sem olhar-te.
Eu vivi com a tua aurora de fuzis,
e quero que de novo povo e pólvora
sacudam as ramagens desonradas
até que trema o sonho e se reúnam
os frutos divididos na terra.
XI
O amor
O firme amor, Espanha, me deste com teus dons.
Veio a mim a ternura que esperava
e me acompanha a que leva o beijo
mais profundo a minha boca.
Não puderam
apartá-la de mim as tempestades
nem as distâncias acrescentaram terra
ao espaço de amor que conquistamos.
Quando antes do incêndio, entre as messes
da Espanha apareceu a tua vestimenta,
eu fui dupla noção, luz duplicada,
e a amargura resvalou em teu rosto
até cair sobre pedras perdidas.
De uma grande dor, de arpões eriçados
desemboquei em tuas águas, amor meu,
como um cavalo que galopa em meio
à ira e à morte, e o recebe
de súbito uma maçã matutina,
uma cascata de tremor silvestre.
Desde então, amor, te conheceram
os páramos que fizeram a minha conduta,
o oceano escuro que me segue,
e os castanhos do outono imenso.
Quem não te viu, amorosa, doce minha,
na luta, a meu lado, como uma
aparição, com todos os sinais
da estrela? Quem, se andou
entre as multidões a procurar-me,
porque sou grão do celeiro humano,
não te encontrou, agarrada a minhas raízes,
elevada no canto de meu sangue?
Não sei, meu amor, se terei tempo e lugar para
escrever outra vez a tua sombra fina
estendida em minhas páginas, esposa:
são duros estes dias e radiantes,
e recolhemos deles a doçura
amassada com pálpebras e espinhos.
Não sei recordar quando começas:
estavas antes do amor,
vinhas
com todas as essências do destino,
e antes de ti, a solidão foi tua,
foi talvez a tua adormecida cabeleira.
Hoje, taça de meu amor, te nomeio apenas,
título de meus dias, adorada,
e no espaço ocupas como o dia
toda a luz que tem o universo.
XII
México (1940)
México, de mar a mar te vivi, transpassado
por tua férrea cor, subindo montes
sobre os quais aparecem monastérios
cheios de espinhos,
o ruído venenoso
da cidade, os dentes solapados
do pululante poetiso, e sobre
as folhas dos mortos e os degraus
que construiu o silêncio irredutível,
como coto dum amor leproso,
o esplendor molhado das ruínas.
Porém do acre acampamento, rude
suor, lanças de grãos amarelos,
sobe a agricultura coletiva
repartindo os pães da pátria.
Outras vezes calcárias cordilheiras
interromperam o meu caminho,
formas
das metralhadas nevadas
que despedaçam a casca escura
da pele mexicana, e os cavalos
que cruzam como o beijo da pólvora
sob os patriarcais arvoredos.
Aqueles que apagaram bravamente
a fronteira do prédio e entregaram
a terra conquistada pelo sangue
entre os esquecidos herdeiros,
também aqueles dedos dolorosos
atados ao sul das raízes,
a minuciosa máscara teceram,
povoaram de floral quinquilharia
e de fogo têxtil o território.
Não soube que mais amei, se a escavada
antigüidade de rostos que guardaram
a intensidade de pedras implacáveis,
ou a rosa recente, construída
por uma mão ontem ensangüentada.
E assim de terra em terra fui tocando
o barro americano, minha estatura,
e subiu por minhas veias o esquecimento
recostado no tempo, até que um dia
estremeceu a minha boca a sua linguagem.
XIII
Nos muros do México (1943)
Os países se estendem junto aos rios, buscam
o suave peito, os lábios do planeta,
tu, México, tocaste
os ninhos do espinho,
a desértica altura da águia sangrenta,
o mel da coluna combatida.
Outros homens buscaram o rouxinol, acharam
o fumo, o vale, regiões como a pele humana:
tu, México, enterraste as mãos na terra,
tu cresceste na pedra de olhar selvagem.
Quando chegou a tua boca a rosa do rocio
o látego do céu a converteu em tormento.
foi a tua origem um vento de punhais
entre dois mares de irritada espuma.
Tuas pálpebras se abriram na espessa papoula
de um dia enfurecido
e a neve estendia sua espaçosa brancura
onde o fogo vivo começava a habitar-te.
conheço a tua coroa de nopais
e sei que sob as tuas raízes
a tua subterrânea estátua, México, se constrói
com as águas secretas da terra
e os lingotes cegos das minas.
Ó terra, ó esplendor
de tua perpétua e dura geografia,
a derramada rosa do mar da Califórnia,
o raio verde que Yucatán derrama,
o amarelo amor de Sinaloa,
as pálpebras rosadas de Morelia,
e o longo fio da piteira fragrante
que amarra o coração à tua estatura.
México augusto de rumor e espadas,
quando a noite na terra era maior,
repartiste o berço do milho entre os homens.
Levantaste a mão cheia de pó santo
e a puseste em meio a teu povo
como uma nova estrela de pão e de fragrância.
O camponês então à luz da pólvora
olhou a sua terra desencadeada
brilhar sobre os mortos germinais.
Canto a Morelos.
Quando caía
seu fulgor verrumado,
uma pequena gota ia chamando
sob a terra até encher a taça
de sangue, e da taça um rio
até chegar a toda a silenciosa praia
da América, empapando-a de misteriosa essência.
Canto a Cuauhtémoc.
Toco
a sua linhagem de lua
e seu fino sorriso de deus martirizado.
Onde estás, perdeste,
antigo irmão, a tua dureza doce?
Em que te converteste?
Onde vive a tua estação de fogo?
Vive na pele de nossa mão escura,
vive nos cinzentos cereais:
quando, depois da noturna sombra
se debulham as cepas da aurora,
os olhos de Cuauhtémoc abrem a sua luz remota
sobre a vida verde da folhagem.
Canto a Cárdenas.
Eu estive;
eu vivi a tormenta de Castilla.
Eram os dias cegos das vidas.
Altas dores como ramos cruéis
feriam a nossa mãe angustiada.
Era o abandonado luto, os muros do silêncio
quando
se atraiçoava, se assaltava e feria
essa pátria da alva e do loureiro.
Então
só a estrela vermelha da Rússia e o olhar
de Cárdenas brilharam na noite do homem.
General, presidente da América, te deixo neste canto
algo do resplendor que recolhi na Espanha.
México, abriste as portas e as mãos
ao errante, ao ferido,
ao desterrado, ao herói.
Sinto que isto não possa se dizer de outra forma
e quero que se agarrem as minhas palavras
outra vez como beijos em teus muros.
De par em par abriste a tua porta combatente
e encheu-se de estranhos filhos a tua cabeleira
e tocaste com as tuas duras mãos
as faces dos filhos
que te pariu com lágrimas e tormenta do mundo.
Aqui termino, México,
aqui te deixo esta caligrafia
sobre as fontes para que a idade
vá apagando este novo discurso
de quem te amou por livre e por profundo.
Adeus te digo, mas não me vou.
Vou-me, mas não posso
dizer-te adeus.
Porque na minha vida, México, vives como uma pequena
águia equivocada que circula nas minhas veias,
e só no fim a morte dobrará as asas
sobre o meu coração de soldado adormecido.
XIV
O regresso (1944)
Regressei.
.
.
O Chile me recebeu com o rosto amarelo do deserto.
Peregrinei sofrendo
de árida lua em cratera arenosa
e encontrei os domínios agrestes do planeta,
a lisa luz sem pâmpanos, a retidão vazia.
Vazia? Mas sem vegetais, sem garras, sem esterco
me revelou a terra sua dimensão nua
e lá longe a sua longa linha em que nascem
aves e peitos ígneos de suave contextura.
Porém mais longe homens cavavam as fronteiras,
recolhiam metais duros, disseminados
alguns como a farinha de amargos cereais,
outros como a altura calcinada do fogo,
e homens e lua, tudo me envolveu em sua mortalha
até perder o fio vazio dos sonhos.
Me entreguei aos desertos e o homem da escória
saiu de seu buraco, de sua aspereza muda
e soube as dores de meu povo perdido.
Então, fui por ruas e curules e disse
o quanto vi, mostrei as mãos que tocaram
os torrões enfartados de dor, as vivendas
da desamparada pobreza, o miserável
pão e a solidão da lua esquecida.
E lado a lado com meu irmão sem sapatos
quis mudar o reino das moedas sujas.
Fui perseguido, mas a nossa luta continua.
A verdade é mais alta que a lua.
É vista, como se estivessem num navio negro,
pelos homens das minas quando a olham à noite.
E na sombra a minha voz é repartida
pelas mais duras estirpes da terra.
XV
A linha de madeira
Eu sou um carpinteiro, cego, sem mãos.
Vivi
sob as águas, consumindo frio,
sem construir as caixas fragrantes, as moradas
que cedro a cedro erguem a grandeza,
porém meu canto foi procurando fios do bosque,
secretas fibras, ceras delicadas,
e foi cortando ramos, perfumando
a solidão com lábios de madeira.
Amei cada matéria, cada gota
de púrpura ou de metal, água e espiga
e entrei em espessas camadas resguardadas
por espaço e areia tremulante
até cantar com a boca destruída,
como um morto, nas uvas da terra.
Argila, barro, vinho, me cobriram,
enlouqueci tocando os quadris
da pele cuja flor foi sustida
como um incêndio sob a minha garganta,
e pela pedra passearam os meus sentidos
invadindo fechadas cicatrizes.
Como mudei sem ser, desconhecendo
o meu ofício antes de ser,
a metalurgia
que estava destinada à minha dureza,
às serranias olfateadas
pelas cavalgaduras no inverno?
Tudo se fez ternura e mananciais
e servi somente para noturno.
XVI
A bondade combatente
Mas não tive a bondade morta nas ruas.
Rechacei o seu aqueduto purulento
e não toquei o seu mar contaminado.
Extraí o bem como um metal, cavando
além dos olhos que mordiam,
e entre as cicatrizes foi crescendo
meu coração nascido nas espadas.
Não saí desbocado, descarregando
terra ou punhal entre os homens.
Não era
meu ofício o da ferida ou o veneno.
Não sujeitei o inerme em ataduras
que lhe atravessassem chicotes gelados,
não fui à praça procurar inimigos
espreitando com a mão mascarada:
não fiz mais que crescer com as minhas raízes,
e o chão que estendeu o meu arvoredo
decifrou os vermes que jaziam.
Veio morder-me Segunda-feira e lhe dei algumas folhas
Veio insultar-me Terça-feira e fiquei dormindo.
Chegou logo Quarta-feira com dentes iracundos.
Eu a deixei passar construindo raízes.
E quando Quinta-feira veio com uma venenosa
lança negra de urtigas e de escamas
eu a esperei em meio à minha poesia
e em plena lua lhe parti um cacho de uva.
Venham aqui estrelar-se nesta espada.
Venham se desfazer em meus domínios.
Venham em amarelos regimentos,
ou na congregação dos sulfurosos.
Morderão sombra e sangue de sinos
sob as sete léguas do meu canto.
XVII
Reúne-se o aço (1945)
Vi o mal e o mau, mas não em seus covis.
É uma história de fadas a maldade com caverna.
Aos pobres depois de terem tombado
em farrapos, à mina desgraçada,
povoaram-no com bruxas o caminho.
Encontrei a maldade sentada nos tribunais:
no Senado a encontrei vestida
e penteada, torcendo os debates
e as idéias para os próprios bolsos.
O mal e o mau
acabavam de sair do banho: estavam
encadernados em satisfações,
e eram perfeitos na suavidade
de seu falso decoro.
Vi o mal, e para
desterrar esta pústula vivi
com outros, acrescentando vidas,
fazendo-me secreta cifra, metal sem nome,
invencível unidade de povo e pó.
O orgulhoso estava feramente
combatendo em seu armário de marfim
e passou a maldade em meteoro
dizendo: “É admirável
a sua solitária retidão.
Deixai-o”.
O impetuoso tirou o seu alfabeto
e montado em sua espada se deteve
a perorar na rua deserta.
Passou o mal e lhe disse: “Que valente!”
e se foi ao clube para comentar a façanha.
Mas quando fui pedra e argamassa,
torre e aço, sílaba associada:
quando apertei a mão de meu povo
e fui ao combate com o mar inteiro;
quando deixei a minha solidão e pus
o meu orgulho no museu, a minha vaidade no
desvão das carruagens desengonçadas,
quando me fiz partido com outros homens, quando
se organizou o metal da pureza,
então veio o mal e disse: “Duro
com eles, no cárcere, morram!”
Mas já era tarde, e o movimento
do homem, meu partido,
é a invencível primavera, dura
sob a terra, quando foi esperança
e fruto geral para mais tarde.
XVIII
O vinho
Vinho da primavera.
.
.
Vinho do outono, dai-me
meus companheiros, uma mesa em que caiam
folhas equinociais, e o grande rio do mundo
que empalideça um pouco movendo o seu som
longe de nossos cantos.
Sou um bom companheiro.
Não entraste nesta casa para que te arrancasses
um pedaço do ser.
Talvez quando te vás
leves algo meu, castanhas, rosas ou
uma segurança de raízes ou navios
que quis compartilhar contigo, companheiro.
Canta comigo até que as taças
se derramem deixando púrpura desprendida
sobre a mesa.
Esse mel vem à tua boca
da terra, de seus obscuros racimos.
Quantos me faltam, sombras do canto,
companheiros
que amei oferecendo a face, tirando de minha vida
a incomparável ciência varonil que professo,
a amizade, arvoredo de rugosa ternura.
Dá-me a mão, encontra-te comigo,
simples, não busques nada em minhas palavras,
a não ser a emanação duma planta nua.
Por que me pedes mais que a um operário? Já sabes
que a golpes fui forjando minha enterrada forja,
e que não quero falar a não ser como ê minha língua.
Sai a procurar doutores se não te agrada o vento.
Nós cantaremos com o vinho áspero
da terra: golpearemos as taças do outono,
e a guitarra ou o silêncio irão trazendo
linhas de amor, linguagem de rios que não existem,
estrofes adoradas que não têm sentido.
XIX
Os frutos da terra
Como sobe a terra pelo milho, buscando
leitosa luz, cabelos, marfim endurecido,
a primorosa rede da espiga madura
e todo o reino de ouro que se vai debulhando?
Quero comer cebolas, traze-me do mercado
uma, um globo pleno de neve cristalina,
que transformou a terra em cera e equilíbrio
como uma bailarina detida em seu vôo.
Dá-me umas codornizes de caça, cheirando
a musgo da selva, um pescado vestido
como um rei, destilando profundidade molhada
sobre a fonte,
abrindo pálidos olhos de ouro
sob o multiplicado mamilo dos limões.
Vamo-nos, e sob a castanheira a fogueira
deixará o seu tesouro branco sob as brasas,
e um cordeiro com toda a sua oferenda irá dourando
a sua linhagem até ser âmbar para a tua boca.
Dá-me todas as coisas da terra, torcazes
recém-tombadas, ébrias de cachos selvagens,
doces enguias que ao morrer, fluviais,
alongaram as suas pétalas diminutas,
e uma bandeja de ácidos ouriços
darão o seu alaranjado submarino
ao fresco firmamento das alfaces.
E antes que a lebre marinada
encha de aroma o ar do almoço
como silvestre fuga de sabores,
para as ostras do sul, recém-abertas,
em seus estojos de esplendor salgado,
vai o meu beijo empapado nas substâncias
da terra que amo e que percorro
com todos os caminhos do meu sangue.
XX
A grande alegria
A sombra que indaguei já não me pertence.
Eu tenho a alegria duradoura do mastro,
a herança dos bosques, o vento do caminho
e um dia decidido sob a luz terrestre.
Não escrevo para que outros livros me aprisionem,
nem para encarniçados aprendizes de lírio,
mas para singelos habitantes que pedem
água e lua, elementos da ordem imutável,
escolas, pão e vinho, guitarras e ferramentas.
Escrevo para o povo ainda que ele não possa
ler a minha poesia com seus olhos rurais.
Virá o instante em que uma linha, a aragem
que removeu a minha vida, chegará aos seus ouvidos,
então o labrego levantará os olhos,
o mineiro sorrirá quebrando pedras,
o caldeireiro limpará a fronte,
o pescador verá melhor o brilho
dum peixe que palpitando lhe queimará as mãos,
o mecânico, limpo, recém-lavado, cheio
do aroma do sabão, olhará meus poemas,
e talvez eles dirão: “Foi um camarada”.
Isso é bastante, essa é a coroa que quero.
Quero que à saída da fábrica e das minas
esteja a minha poesia aderida à terra,
ao ar, à vitória do homem maltratado.
Quero que um jovem ache na dureza
que construí, com lentidão e com metais,
como uma caixa, abrindo-a, cara a cara, a vida,
e afundando a alma toque as rajadas que fizeram
minha alegria, nas alturas tempestuosas.
XXI
A morte
Renasci muitas vezes, desde o fundo
de estrelas derrotadas, reconstruindo o fio
das eternidades que povoei com as minhas mãos,
e agora vou morrer, sem nada mais, com terra
sobre o meu corpo, destinado a ser terra.
Não comprei uma parcela do céu que vendiam
os sacerdotes, nem aceitei trevas
que o metafísico manufaturava
para despreocupados poderosos.
Quero estar na morte com os pobres
que não tiveram tempo de estudá-la,
enquanto os espancavam os que têm
o céu dividido e arrumado.
Tenho pronta a minha morte, como uma roupa
que me espera, da cor que amo,
da extensão que procurei inutilmente,
da profundidade que necessito.
Quando o amor gastou a sua matéria evidente
e a luta debulha os seus martelos
em outras mãos de acrescentada força,
vem a morte para apagar os sinais
que foram construindo tuas fronteiras.
XXII
A vida
Que outro se preocupe com os ossários.
.
.
O mundo
tem uma cor nua de maçã: os rios
arrastam um caudal de medalhas silvestres
e em todas as partes vive Rosalía, a doce,
e Juan, o companheiro.
.
.
Ásperas pedras fazem
o castelo, e o barro mais suave que as uvas
com os restos do trigo fez minha casa.
Vastas terras, amor, sinos lentos,
combates reservados à aurora,
cabeleiras de amor que me esperaram,
depósitos adormecidos de turquesa:
casas, caminhos, ondas que constroem
uma estátua varrida pelos sonhos,
padarias na madrugada,
relógios educados na areia,
papoulas do trigo circulante,
e estas mãos escuras que amassaram
os materiais de minha própria vida:
para viver acendem-se as laranjas
sobre a multidão dos destinos!
Que os coveiros escarvem as matérias
aziagas: que levantem
os fragmentos sem luz da cinza,
e falem do idioma do verme.
Diante de mim só tenho sementes,
desenvolvimentos radiantes e doçura.
XXIII
Testamento (I)
Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
a minha casa junto ao mar de Isla Negra.
Quero que lá repousem os maltratados filhos
da minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sangue sagrado,
consumida em vulcânicos farrapos.
Quero que ao limpo amor que percorresse
o meu domínio, descansem os cansados,
se sentem a minha mesa os obscuros,
durmam sobre a minha cama os feridos.
Irmão, esta é a minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que ergui lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som na minha janela
como num crescente caracol
e logo estabeleceu as suas latitudes
em minha desordenada geologia.
Vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço de minha oceania.
XXIV
Testamento (II)
Deixo meus velhos livros, recolhidos
pelos rincões do mundo, venerados
em sua tipografia majestosa,
aos novos poetas da América,
aos que um dia
fiarão no rouco tear interrompido
as significações de amanhã.
Eles terão nascido quando o agreste punho
de lenhadores mortos c mineiros
haja dado uma vida inumerável
para limpar a catedral torcida,
o grão desengonçado, o filamento
que enredou as nossas ávidas planícies.
Toquem eles o inferno, este passado
que esmagou os diamantes, e defendam
os mundos cereais de seu canto,
o que nasceu na árvore do martírio.
Sobre os ossos de caciques, longe
de nossa herança traída, em pleno
ar de povos que caminham sós,
eles vão para povoar o estatuto
dum longo sofrimento vitorioso.
Que amem como eu amei meu Manrique, meu Góngora
meu Garcilaso, meu Quevedo:
foram
titânicos guardiães, armaduras
de platina e nevada transparência,
que me ensinaram o rigor, e busquem
em meu Lautréamont velhos lamentos
entre pestilenciais agonias.
Que em Maiakóvski vejam como ascendeu a estrela
e como de seus raios nasceram as espigas.
XXV
Disposições
Companheiros, enterrai-me em Isla Negra,
diante do mar que conheço, de cada área rugosa
de pedras e ondas que meus olhos perdidos
não tornarão a ver.
Cada dia do oceano
meu trouxe, névoa ou puros precipícios de turquesa,
ou simples extensão, água retilínea, invariável,
o que pedi, o espaço que devorou minha face.
Cada passagem enlutada de cormorão, o vôo
de grandes aves grises que amavam o inverno,
e cada tenebroso círculo de sargaço
e cada grave onda que sacode o frio,
e ainda mais, a terra que um escondido herbário
secreto, filho de brumas e sais, roído
pelo ácido vento, minúsculas corolas
da costa agarradas à infinita areia:
todas as chaves úmidas da terra marinha
conhecem cada estado da minha alegria, sabem
que lá quero dormir entre as pálpebras
do mar e da terra.
.
.
Quero ser arrastado
abaixo nas chuvas que o selvagem
vento do mar combate e esmiúça,
e logo pelos caudais subterrâneos, seguir
até a primavera profunda que renasce.
Abri junto a mim o vazio da que amo, e um dia”
deixai-a que outra vez me acompanhe na terra.
XXVI
Vou viver (1949)
Não vou morrer.
Saio agora
neste dia cheio de vulcões
para a multidão, para a vida.
Aqui deixo arrumadas estas coisas
hoje que os pistoleiros passeiam
com a “cultura ocidental” nos braços,
com as mãos que matam na Espanha
e as forcas que oscilam em Atenas
e a desonra que governa o Chile
e paro de contar.
Aqui fico
com palavras e povos e caminhos
que me esperam de novo, e que batem
com mãos consteladas em minha porta.
XXVII
A meu partido
Me deste a fraternidade para o que não conheço.
Me acrescentaste a força de todos os que vivem.
Me tornaste a dar a pátria como em um nascimento.
Me deste a liberdade que não tem o solitário.
Me ensinaste a acender a bondade, como o fogo.
Me deste a retidão que necessita a árvore.
Me ensinaste a ver a unidade e a diferença dos homens.
Me mostraste como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Me ensinaste a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Me fizeste construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Me fizeste adversário do malvado e muro do frenético.
Me fizeste ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Me fizeste indestrutível porque contigo não termino em mim mesmo.
XXVIII
Aqui termino (1949)
Este livro termina aqui.
Nasceu
da ira como uma brasa, como os territórios
de bosques incendiados, e desejo
que continue como uma árvore vermelha
propagando a sua clara queimadura.
Mas não somente cólera em seus ramos
encontraste: não somente as suas raízes
procuraram a dor mas também a força,
e força sou de pedra pensativa,
alegria de mãos congregadas.
Por fim, sou livre dentro dos seres.
Entre os seres, como o ar vivo,
e da solidão acurralada
saio para a multidão dos combates,
livre porque em minha mão vai a tua mão,
conquistando alegrias indomáveis.
Livro comum de um homem, pão aberto
é esta geografia do meu canto,
e uma comunidade de lavradores
algum dia recolherá o seu fogo
e semeará as suas chamas e suas folhas
outra vez na nave da terra.
E nascerá de novo esta palavra,
talvez em outro tempo sem dores,
sem as impuras fibras que aderiram
negras vegetações em meu canto,
e outra vez nas alturas estará ardendo
meu coração queimante e estrelado.
Assim termina este livro, aqui deixo
meu Canto geral escrito
na perseguição, cantando sob
as asas clandestinas de minha pátria.
Hoje, 5 de fevereiro, neste ano
de 1949, no Chile, em “Godomar
de Chena”, alguns meses antes
dos quarenta e cinco anos de minha idade.
1 495
Pablo Neruda
III. A morte na Nicarágua
Desfalece em León o leão e o acodem e o solicitam,
os álbuns carregam as rosas do imperador desfolhado
e assim passeiam-no no seu levita de tristeza
longe do amor, entregue ao conhaque dos piratas.
É como um imenso e sonâmbulo cão que trota e coxeia por salas repletas de comovedora ignorância e ele assina e cumprimenta com mãos ausentes, aproxima-se a noite detrás dos vidros,
os montes recortam a sombra e em vão os dedos fosfóricos do bardo pretendem a luz que se extingue: não há lua, não chegam estrelas, a festa se acaba.
E Francisca Sánchez não reza aos pés amarelos de seu minotauro.
Assim, desterrado em sua pátria meu pai, teu pai, poetas, morreu.
Tiraram do crânio seus miolos sangrantes os cruéis anões
e os passearam por exposições e hangares sinistros:
o pobre perdido ali, só entre condecorados, não ouvia gastas palavras,
mas na onda do ritmo e do sonho caiu no elemento,
voltou à substância aborígine das ancestrais regiões.
E a pedreira que trouxe à história, a rosa que canta no fogo,
o alto som de seu campanário, sua luz torrencial de safira
voltou à morada na selva, voltou às suas raízes.
Assim foi como o nosso, o errante, o enigma de Valparaíso,
o beneditino sedento das Baleares,
o prófugo, o pobre pastor de Paris, o triunfante perdido,
descansa na areia da América, no berço das esmeraldas.
Honra à sua cítara eterna, à sua torre indelével!
os álbuns carregam as rosas do imperador desfolhado
e assim passeiam-no no seu levita de tristeza
longe do amor, entregue ao conhaque dos piratas.
É como um imenso e sonâmbulo cão que trota e coxeia por salas repletas de comovedora ignorância e ele assina e cumprimenta com mãos ausentes, aproxima-se a noite detrás dos vidros,
os montes recortam a sombra e em vão os dedos fosfóricos do bardo pretendem a luz que se extingue: não há lua, não chegam estrelas, a festa se acaba.
E Francisca Sánchez não reza aos pés amarelos de seu minotauro.
Assim, desterrado em sua pátria meu pai, teu pai, poetas, morreu.
Tiraram do crânio seus miolos sangrantes os cruéis anões
e os passearam por exposições e hangares sinistros:
o pobre perdido ali, só entre condecorados, não ouvia gastas palavras,
mas na onda do ritmo e do sonho caiu no elemento,
voltou à substância aborígine das ancestrais regiões.
E a pedreira que trouxe à história, a rosa que canta no fogo,
o alto som de seu campanário, sua luz torrencial de safira
voltou à morada na selva, voltou às suas raízes.
Assim foi como o nosso, o errante, o enigma de Valparaíso,
o beneditino sedento das Baleares,
o prófugo, o pobre pastor de Paris, o triunfante perdido,
descansa na areia da América, no berço das esmeraldas.
Honra à sua cítara eterna, à sua torre indelével!
1 050
José Saramago
Aniversário
Pai, que não conheci (pois conhecer não é
Este engano de dias paralelos,
Este tocar de corpos distraídos,
Estas palavras vagas que disfarçam
O intransponível muro):
Já nada me dirás, e eu não pergunto.
Olho, calado, a sombra que chamei
E aceito o futuro.
Este engano de dias paralelos,
Este tocar de corpos distraídos,
Estas palavras vagas que disfarçam
O intransponível muro):
Já nada me dirás, e eu não pergunto.
Olho, calado, a sombra que chamei
E aceito o futuro.
1 261
Vinicius de Moraes
P(B)A(O)I
Rio de Janeiro
A Carlos Drummond de Andrade,
que com seu só título Boitempo
me deu a chave deste poema
Pai
Modorrando de tarde na cadeira
De balanço, a cabeça cai-não-cai.
Pai
Espantando o moscardo
Feito o boi faz com o rabo
Zum! iridesceu, se foi, múu.
Pai. Ah, como dói
Lembrar-te assim, pai pé-de-boi
Sentado à mesa mastigando sonhos
Boipai, entre as samambaias e avencas
Do pequeno jardim, utilinútil, ai...
Paiboi, paiboiota, boipapai
Babando amor no curral das acácias
Quebrando ferrolhos com a força
Dos cascos fendidos para não entrar mais boi
No chão de dentro, igual a mim...
Ah, como dói lembrar-te, boi
Triste, boiassim, a córnea branca
No olho trágico, ruminando o medo
Pelo novilho tresmalhado.
Pai. Boi.
Olhando do portão o chão de fora
Na noite escura, múu, à espera. Onde estou eu
Teu vitelão insone, onde?
Nas tetas de que rês? Em que pasto?
Que não o teu, e da boieira
Que também já se foi? Boipai
Paiboi.
Muge-me, boi-espaço
Da tua eternidade as cantigas
Mais lindas que soavas com teus dedos
Ungulados nas cordas da viola
Hoje partida. Geme
Boi-da-guia, tua nunca boesia
Dá-me, boi-de-corte
Um quilo de tua alcatra decomposta
Tua língua comida
Um carrinho de mão de tua bosta
Com que fertilizar minha poesia
Neste instante transposta.
Para plantar meu novo verso
Menos eu, mais canção, menos enxerto
Não posso prescindir da tua morte
Teus ossos, teu estrume
Tu bom pai, tu boipai, tu boiconsorte
Eu boiciúme.
A Carlos Drummond de Andrade,
que com seu só título Boitempo
me deu a chave deste poema
Pai
Modorrando de tarde na cadeira
De balanço, a cabeça cai-não-cai.
Pai
Espantando o moscardo
Feito o boi faz com o rabo
Zum! iridesceu, se foi, múu.
Pai. Ah, como dói
Lembrar-te assim, pai pé-de-boi
Sentado à mesa mastigando sonhos
Boipai, entre as samambaias e avencas
Do pequeno jardim, utilinútil, ai...
Paiboi, paiboiota, boipapai
Babando amor no curral das acácias
Quebrando ferrolhos com a força
Dos cascos fendidos para não entrar mais boi
No chão de dentro, igual a mim...
Ah, como dói lembrar-te, boi
Triste, boiassim, a córnea branca
No olho trágico, ruminando o medo
Pelo novilho tresmalhado.
Pai. Boi.
Olhando do portão o chão de fora
Na noite escura, múu, à espera. Onde estou eu
Teu vitelão insone, onde?
Nas tetas de que rês? Em que pasto?
Que não o teu, e da boieira
Que também já se foi? Boipai
Paiboi.
Muge-me, boi-espaço
Da tua eternidade as cantigas
Mais lindas que soavas com teus dedos
Ungulados nas cordas da viola
Hoje partida. Geme
Boi-da-guia, tua nunca boesia
Dá-me, boi-de-corte
Um quilo de tua alcatra decomposta
Tua língua comida
Um carrinho de mão de tua bosta
Com que fertilizar minha poesia
Neste instante transposta.
Para plantar meu novo verso
Menos eu, mais canção, menos enxerto
Não posso prescindir da tua morte
Teus ossos, teu estrume
Tu bom pai, tu boipai, tu boiconsorte
Eu boiciúme.
1 092
Vinicius de Moraes
Elegia Na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, Poeta E Cidadão
A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância
Dizíamos: “E-vem meu pai!”. Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no
último lance da maratona.
Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.
*
Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar
Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis
Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes
Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
Dos mais provectos. Muitas vezes te vi, comandante
Comandar, batido de ventos, perdido na fosforescência
De vastos e noturnos oceanos
Sem jamais.
Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
Movida a água: foi reta para o fundo.
Partiste um dia
Para um brasil além, garimpeiro, sem medo e sem mácula.
Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —
Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.
Não eram, meu pai. A mim me deste
Águas-marinhas grandes, povoadas de estrelas, ouriços
E guaiamus gigantes. A mim me deste águas-marinhas
Onde cada concha carregava uma pérola. As águas-marinhas que me deste
Foram meu primeiro leito nupcial.
*
Eras, meu pai morto
Um grande Clodoaldo
Capaz de sonhar
Melhor e mais alto
Precursor do binômio
Que reverteria
Ao nome original
Semente do sêmen
Revolucionário
Gentil-homem insigne
Poeta e funcionário
Sempre preterido
Nunca titular
Neto de Alexandre
Filho de Maria
Cônjuge de Lydia
Pai da Poesia.
*
Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui.
Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo
Há um toque irrealizado. No entanto, meu pai
Quantas vezes ao ver-te dormir na cadeira de balanço de muitas salas
De muitas casas de muitas ruas
Não te beijei em meu pensamento! Já então teu sono
Prenunciava o morto que és, e minha angústia
Buscava ressuscitar-te. Ressuscitavas. Teu olhar
Vinha de longe, das cavernas imensas do teu amor, aflito
Como a querer defender. Vias-me e sossegavas.
Pouco nos dizíamos: “Como vai?”. Como vais, meu pobre pai
No teu túmulo? Dormes, ou te deixas
A contemplar acima — eu bem me lembro! — perdido
Na decifração de como ser?
Ah, dor! Como quisera
Ser de novo criança em teus braços e ficar admirando tuas mãos!
Como quisera escutar-te de novo cantar criando em mim
A atonia do passado! Quantas baladas, meu pai
E que lindas! Quem te ensinou as doces cantigas
Com que embalavas meu dormir? Voga sempre o leve batel
A resvalar macio pelas correntezas do rio da paixão?
Prosseguem as donzelas em êxtase na noite à espera da barquinha
Que busca o seu adeus? E continua a rosa a dizer à brisa
Que já não mais precisa os beijos seus?
Calaste-te, meu pai. No teu ergástulo
A voz não é — a voz com que me apresentavas aos teus amigos:
“Esse é meu filho FULANO DE TAL”. E na maneira
De dizê-lo — o voo, o beijo, a bênção, a barba
Dura rocejando a pele, ai!
*
Tua morte, como todas, foi simples.
É coisa simples a morte. Dói, depois sossega. Quando sossegou —
Lembro-me que a manhã raiava em minha casa — já te havia eu
Recuperado totalmente: tal como te encontras agora, vestido de mim.
Não és, como não serás nunca para mim
Um cadáver sob um lençol.
És para mim aquele de quem muitos diziam: “É um poeta...”
Poeta foste, e és, meu pai. A mim me deste
O primeiro verso à namorada. Furtei-o
De entre teus papéis: quem sabe onde andará... Fui também
Verso teu: lembro ainda hoje o soneto que escreveste celebrando-me
No ventre materno. E depois, muitas vezes
Vi-te na rua, sem que me notasses, transeunte
Com um ar sempre mais ansioso do que a vida. Levava-te a ambição
De descobrir algo precioso que nos dar.
Por tudo o que não nos deste
Obrigado, meu pai.
Não te direi adeus, de vez que acordaste em mim
Com uma exatidão nunca sonhada. Em mim geraste
O Tempo: aí tens meu filho, e a certeza
De que, ainda obscura, a minha morte dá-lhe vida
Em prosseguimento à tua; aí tens meu filho
E a certeza de que lutarei por ele. Quando o viste a última vez
Era um menininho de três anos. Hoje cresceu
Em membros, palavras e dentes. Diz de ti, bilíngue:
“V ovô was always teasing me...”
É meu filho, teu neto. Deste-lhe, em tua digna humildade
Um caminho: o meu caminho. Marcha ela na vanguarda do futuro
Para um mundo em paz: o teu mundo — o único em que soubeste viver;
aquele que, entre lágrimas, cantos e martírios, realizaste à tua volta.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância
Dizíamos: “E-vem meu pai!”. Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no
último lance da maratona.
Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.
*
Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar
Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis
Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes
Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
Dos mais provectos. Muitas vezes te vi, comandante
Comandar, batido de ventos, perdido na fosforescência
De vastos e noturnos oceanos
Sem jamais.
Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
Movida a água: foi reta para o fundo.
Partiste um dia
Para um brasil além, garimpeiro, sem medo e sem mácula.
Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —
Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.
Não eram, meu pai. A mim me deste
Águas-marinhas grandes, povoadas de estrelas, ouriços
E guaiamus gigantes. A mim me deste águas-marinhas
Onde cada concha carregava uma pérola. As águas-marinhas que me deste
Foram meu primeiro leito nupcial.
*
Eras, meu pai morto
Um grande Clodoaldo
Capaz de sonhar
Melhor e mais alto
Precursor do binômio
Que reverteria
Ao nome original
Semente do sêmen
Revolucionário
Gentil-homem insigne
Poeta e funcionário
Sempre preterido
Nunca titular
Neto de Alexandre
Filho de Maria
Cônjuge de Lydia
Pai da Poesia.
*
Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui.
Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo
Há um toque irrealizado. No entanto, meu pai
Quantas vezes ao ver-te dormir na cadeira de balanço de muitas salas
De muitas casas de muitas ruas
Não te beijei em meu pensamento! Já então teu sono
Prenunciava o morto que és, e minha angústia
Buscava ressuscitar-te. Ressuscitavas. Teu olhar
Vinha de longe, das cavernas imensas do teu amor, aflito
Como a querer defender. Vias-me e sossegavas.
Pouco nos dizíamos: “Como vai?”. Como vais, meu pobre pai
No teu túmulo? Dormes, ou te deixas
A contemplar acima — eu bem me lembro! — perdido
Na decifração de como ser?
Ah, dor! Como quisera
Ser de novo criança em teus braços e ficar admirando tuas mãos!
Como quisera escutar-te de novo cantar criando em mim
A atonia do passado! Quantas baladas, meu pai
E que lindas! Quem te ensinou as doces cantigas
Com que embalavas meu dormir? Voga sempre o leve batel
A resvalar macio pelas correntezas do rio da paixão?
Prosseguem as donzelas em êxtase na noite à espera da barquinha
Que busca o seu adeus? E continua a rosa a dizer à brisa
Que já não mais precisa os beijos seus?
Calaste-te, meu pai. No teu ergástulo
A voz não é — a voz com que me apresentavas aos teus amigos:
“Esse é meu filho FULANO DE TAL”. E na maneira
De dizê-lo — o voo, o beijo, a bênção, a barba
Dura rocejando a pele, ai!
*
Tua morte, como todas, foi simples.
É coisa simples a morte. Dói, depois sossega. Quando sossegou —
Lembro-me que a manhã raiava em minha casa — já te havia eu
Recuperado totalmente: tal como te encontras agora, vestido de mim.
Não és, como não serás nunca para mim
Um cadáver sob um lençol.
És para mim aquele de quem muitos diziam: “É um poeta...”
Poeta foste, e és, meu pai. A mim me deste
O primeiro verso à namorada. Furtei-o
De entre teus papéis: quem sabe onde andará... Fui também
Verso teu: lembro ainda hoje o soneto que escreveste celebrando-me
No ventre materno. E depois, muitas vezes
Vi-te na rua, sem que me notasses, transeunte
Com um ar sempre mais ansioso do que a vida. Levava-te a ambição
De descobrir algo precioso que nos dar.
Por tudo o que não nos deste
Obrigado, meu pai.
Não te direi adeus, de vez que acordaste em mim
Com uma exatidão nunca sonhada. Em mim geraste
O Tempo: aí tens meu filho, e a certeza
De que, ainda obscura, a minha morte dá-lhe vida
Em prosseguimento à tua; aí tens meu filho
E a certeza de que lutarei por ele. Quando o viste a última vez
Era um menininho de três anos. Hoje cresceu
Em membros, palavras e dentes. Diz de ti, bilíngue:
“V ovô was always teasing me...”
É meu filho, teu neto. Deste-lhe, em tua digna humildade
Um caminho: o meu caminho. Marcha ela na vanguarda do futuro
Para um mundo em paz: o teu mundo — o único em que soubeste viver;
aquele que, entre lágrimas, cantos e martírios, realizaste à tua volta.
1 385
Vinicius de Moraes
Balada Negra
Éramos meu pai e eu
E um negro, negro cavalo
Ele montado na sela,
Eu na garupa enganchado.
Quando? eu nem sabia ler
Por quê? saber não me foi dado
Só sei que era o alto da serra
Nas cercanias de Barra.
Ao negro corpo paterno
Eu vinha muito abraçado
Enquanto o cavalo lerdo
Negramente caminhava.
Meus olhos escancarados
De medo e negra friagem
Eram buracos na treva
Totalmente impenetrável.
Às vezes sem dizer nada
O grupo eqüestre estacava
E havia um negro silêncio
Seguido de outros mais vastos.
O animal apavorado
Fremia as ancas molhadas
Do negro orvalho pendente
De negras, negras ramadas.
Eu ausente de mim mesmo
Pelo negrume em que estava
Recitava padre-nossos
Exorcizando os fantasmas.
As mãos da brisa silvestre
Vinham de luto enluvadas
Acarinhar-me os cabelos
Que se me punham eriçados.
As estrelas nessa noite
Dormiam num negro claustro
E a lua morta jazia
Envolta em negra mortalha.
Os pássaros da desgraça
Negros no escuro piavam
E a floresta crepitava
De um negror irremediável.
As vozes que me falavam
Eram vozes sepulcrais
E o corpo a que eu me abraçava
Era o de um morto a cavalo.
O cavalo era um fantasma
Condenado a caminhar
No negro bojo da noite
Sem destino e a nunca mais.
Era eu o negro infante
Condenado ao eterno báratro
Para expiar por todo o sempre
Os meus pecados da carne.
Uma coorte de padres
Para a treva me apontava
Murmurando vade-retros
Soletrando breviários.
Ah, que pavor negregado
Ah, que angústia desvairada
Naquele túnel sem termo
Cavalgando sem cavalo!
Foi quando meu pai me disse:
- Vem nascendo a madrugada…
E eu embora não a visse
Pressenti-a nas palavras
De meu pai ressuscitado
Pela luz da realidade.
E assim foi. Logo na mata
O seu rosa imponderável
Aos poucos se insinuava
Revelando coisas mágicas.
A sombra se desfazendo
Em entretons de cinza e opala
Abria um claro na treva
Para o mundo vegetal.
O cavalo pôs-se esperto
Como um cavalo de fato
Trotando de rédea curta
Pela úmida picada.
Ah, que doçura dolente
Naquela aurora raiada
Meu pai montando na frente
Eu na garupa enganchado!
Apertei-o fortemente
Cheio de amor e cansaço
Enquanto o bosque se abria
Sobre o luminoso vale...
E assim fui-me ao sono, certo
De que meu pai estava perto
E a manhã se anunciava.
Hoje que conheço a aurora
E sei onde caminhar
Hoje sem medo da treva
Sem medo de não me achar
Hoje que morto meu pai
Não tenho em quem me apoiar
Ah, quantas vezes com ele
V ou ao túmulo deitar
E ficamos cara a cara
Na mais doce intimidade
Certos que a morte não leva:
Certos de que toda treva
Tem a sua madrugada.
E um negro, negro cavalo
Ele montado na sela,
Eu na garupa enganchado.
Quando? eu nem sabia ler
Por quê? saber não me foi dado
Só sei que era o alto da serra
Nas cercanias de Barra.
Ao negro corpo paterno
Eu vinha muito abraçado
Enquanto o cavalo lerdo
Negramente caminhava.
Meus olhos escancarados
De medo e negra friagem
Eram buracos na treva
Totalmente impenetrável.
Às vezes sem dizer nada
O grupo eqüestre estacava
E havia um negro silêncio
Seguido de outros mais vastos.
O animal apavorado
Fremia as ancas molhadas
Do negro orvalho pendente
De negras, negras ramadas.
Eu ausente de mim mesmo
Pelo negrume em que estava
Recitava padre-nossos
Exorcizando os fantasmas.
As mãos da brisa silvestre
Vinham de luto enluvadas
Acarinhar-me os cabelos
Que se me punham eriçados.
As estrelas nessa noite
Dormiam num negro claustro
E a lua morta jazia
Envolta em negra mortalha.
Os pássaros da desgraça
Negros no escuro piavam
E a floresta crepitava
De um negror irremediável.
As vozes que me falavam
Eram vozes sepulcrais
E o corpo a que eu me abraçava
Era o de um morto a cavalo.
O cavalo era um fantasma
Condenado a caminhar
No negro bojo da noite
Sem destino e a nunca mais.
Era eu o negro infante
Condenado ao eterno báratro
Para expiar por todo o sempre
Os meus pecados da carne.
Uma coorte de padres
Para a treva me apontava
Murmurando vade-retros
Soletrando breviários.
Ah, que pavor negregado
Ah, que angústia desvairada
Naquele túnel sem termo
Cavalgando sem cavalo!
Foi quando meu pai me disse:
- Vem nascendo a madrugada…
E eu embora não a visse
Pressenti-a nas palavras
De meu pai ressuscitado
Pela luz da realidade.
E assim foi. Logo na mata
O seu rosa imponderável
Aos poucos se insinuava
Revelando coisas mágicas.
A sombra se desfazendo
Em entretons de cinza e opala
Abria um claro na treva
Para o mundo vegetal.
O cavalo pôs-se esperto
Como um cavalo de fato
Trotando de rédea curta
Pela úmida picada.
Ah, que doçura dolente
Naquela aurora raiada
Meu pai montando na frente
Eu na garupa enganchado!
Apertei-o fortemente
Cheio de amor e cansaço
Enquanto o bosque se abria
Sobre o luminoso vale...
E assim fui-me ao sono, certo
De que meu pai estava perto
E a manhã se anunciava.
Hoje que conheço a aurora
E sei onde caminhar
Hoje sem medo da treva
Sem medo de não me achar
Hoje que morto meu pai
Não tenho em quem me apoiar
Ah, quantas vezes com ele
V ou ao túmulo deitar
E ficamos cara a cara
Na mais doce intimidade
Certos que a morte não leva:
Certos de que toda treva
Tem a sua madrugada.
1 159
Vinicius de Moraes
A Paixão da Carne
Envolto em toalhas
Frias, pego ao colo
O corpo escaldante.
Tem apenas dois anos
E embora não fale
Sorri com doçura.
É Pedro, meu filho
Sêmen feito carne
Minha criatura
Minha poesia.
É Pedro, meu filho
Sobre cujo sono
Como sobre o abismo
Em noites de insônia
Um pai se debruça.
Olho no termômetro:
Quarenta e oito décimos
E através do pano
A febre do corpo
Bafeja-me o rosto
Penetra-me os ossos
Desce-me às entranhas
Úmida e voraz
Angina pultácea
Estreptocócica?
Quem sabe... quem sabe...
Aperto meu filho
Com força entre os braços
Enquanto crisálidas
Em mim se desfazem
Óvulos se rompem
Crostas se bipartem
E de cada poro
Da minha epiderme
Lutam lepidópteros
Por se libertar.
Ah, que eu já sentisse
Os êxtases máximos
Da carne nos rasgos
Da paixão espúria!
Ah, que eu já bradasse
Nas horas de exalta-
Ção os mais lancinantes
Gritos de loucura!
Ah, que eu já queimasse
Da febre mais quente
Que jamais queimasse
A humana criatura!
Mas nunca como antes
Nunca! nunca! nunca!
Nem paixão tão alta
Nem febre tão pura.
Frias, pego ao colo
O corpo escaldante.
Tem apenas dois anos
E embora não fale
Sorri com doçura.
É Pedro, meu filho
Sêmen feito carne
Minha criatura
Minha poesia.
É Pedro, meu filho
Sobre cujo sono
Como sobre o abismo
Em noites de insônia
Um pai se debruça.
Olho no termômetro:
Quarenta e oito décimos
E através do pano
A febre do corpo
Bafeja-me o rosto
Penetra-me os ossos
Desce-me às entranhas
Úmida e voraz
Angina pultácea
Estreptocócica?
Quem sabe... quem sabe...
Aperto meu filho
Com força entre os braços
Enquanto crisálidas
Em mim se desfazem
Óvulos se rompem
Crostas se bipartem
E de cada poro
Da minha epiderme
Lutam lepidópteros
Por se libertar.
Ah, que eu já sentisse
Os êxtases máximos
Da carne nos rasgos
Da paixão espúria!
Ah, que eu já bradasse
Nas horas de exalta-
Ção os mais lancinantes
Gritos de loucura!
Ah, que eu já queimasse
Da febre mais quente
Que jamais queimasse
A humana criatura!
Mas nunca como antes
Nunca! nunca! nunca!
Nem paixão tão alta
Nem febre tão pura.
1 155
Vinicius de Moraes
Saudade de Manuel Bandeira
Não foste apenas um segredo
De poesia e de emoção
Foste uma estrela em meu degredo
Poeta, pai! áspero irmão.
Não me abraçaste só no peito
Puseste a mão na minha mão
Eu, pequenino - tu, eleito
Poeta! pai, áspero irmão.
Lúcido, alto e ascético amigo
De triste e claro coração
Que sonhas tanto a sós contigo
Poeta, pai, áspero irmão?
De poesia e de emoção
Foste uma estrela em meu degredo
Poeta, pai! áspero irmão.
Não me abraçaste só no peito
Puseste a mão na minha mão
Eu, pequenino - tu, eleito
Poeta! pai, áspero irmão.
Lúcido, alto e ascético amigo
De triste e claro coração
Que sonhas tanto a sós contigo
Poeta, pai, áspero irmão?
1 332
Vinicius de Moraes
Canção
Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
1 355
Vinicius de Moraes
Balada do Cavalão
A tarde morre bem tarde
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!
Balança, rede, balança...
Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.
Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!
Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!
Que tarde que a tarde cai!
Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!
V oam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
V ontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!
E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.
Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!
Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.
Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!
Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?
A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
Da trinca do Cavalão.
Balança, rede, balança...
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!
Balança, rede, balança...
Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.
Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!
Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!
Que tarde que a tarde cai!
Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!
V oam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
V ontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!
E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.
Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!
Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.
Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!
Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?
A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
Da trinca do Cavalão.
Balança, rede, balança...
1 015
Vinicius de Moraes
Lamento Ouvido Não Sei Onde
Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!
1 342
Adélia Prado
Inconcluso
O dia em sua metade
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.
1 190
Adélia Prado
O Penitente
Nunca tive um rapto como Santa Teresa,
só um pequeno desmaio devido a dores agudas
e por três vezes seguidas
a sensação de estar fora do tempo.
Palavras são meu consolo.
Meu pai fez planos, morreu.
Minha mãe privou-se, morreu.
Provo grande vergonha
se o caminhão de São Paulo grita no alto-falante:
‘Alô, alô, dona Maria, vem pegar sua melancia.’
Carminha desenhava na terra
meio grão de café, forçando na rachadura:
‘Lá na gente é assim, sua boba!’
Não sentia vergonha, só um calor esquisito.
Sou ingrata?
Pergunto-Vos e já me sei perdoada,
como se Vos tivesse imolado pelos meus e por mim.
E só Vos dei palavras, ó Deus santo.
Quando achei que exigíeis
cabeças sanguinolentas,
um punhado de versos aplacou-nos.
só um pequeno desmaio devido a dores agudas
e por três vezes seguidas
a sensação de estar fora do tempo.
Palavras são meu consolo.
Meu pai fez planos, morreu.
Minha mãe privou-se, morreu.
Provo grande vergonha
se o caminhão de São Paulo grita no alto-falante:
‘Alô, alô, dona Maria, vem pegar sua melancia.’
Carminha desenhava na terra
meio grão de café, forçando na rachadura:
‘Lá na gente é assim, sua boba!’
Não sentia vergonha, só um calor esquisito.
Sou ingrata?
Pergunto-Vos e já me sei perdoada,
como se Vos tivesse imolado pelos meus e por mim.
E só Vos dei palavras, ó Deus santo.
Quando achei que exigíeis
cabeças sanguinolentas,
um punhado de versos aplacou-nos.
1 152
Adélia Prado
Exercício Espiritual
Maria,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados, como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o Pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sanguínea e fresca
a madrugada”, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a ideia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados, como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o Pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sanguínea e fresca
a madrugada”, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a ideia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.
1 170
Adélia Prado
Nossa Senhora da Conceição
Tenho dez anos
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
e caminho de volta à minha casa.
Venho da escola, da igreja,
da casa de Helena Reis, não sei,
mas piso, é certo, sobre trilha de areia,
pensando: vou ser artista.
Tenho um vestido, um sapato
e uma visão que não reconheço poética:
um mamoeiro com frutas sob muito sol e pardais.
Não a perderia porque era o bom-sem-fim,
como rosais, uma palavra anzol,
puxava calor, meio-dia, presas de ofídio,
diminuta aflição, gotículas,
porque a Virgem esmagava o demônio
com seu calcanhar rosado.
Só porque achei sua binga e seu pito
meu pai falou: eta menina de ouro!
Foi injusto outras vezes, mas perdeu tardes
atrás de sabugueiro para curar minha tosse.
Parece que vou entristecer-me,
desanimada de lavar hortaliças,
tentada ao jejum mais duro,
não como, não falo, não rio,
nem que o papa se vista de baiana.
Virgem Maria! o tempo quer me comer,
virei comida do tempo!
Me ajuda a parir esta ninhada de vozes,
me ajuda, senão
este conluio de sombras me sequestra,
me rouba o olho antigo e a paixão viva.
1 794
Adélia Prado
Divinópolis
As hastes das gramíneas
pesavam de sementes
sob uma luz que,
asseguro-vos,
nascia da luz eterna.
Quis dizê-la e não pude,
ingurgitada de palavras
minha língua se confundia.
Cantei um hino conhecido
e foi pouco,
disse obrigada, Deus,
e foi nada.
Em meu auxílio
meu estômago doeu um pouco
pelo falso motivo
de que sofrendo
Deus me perdoaria.
Foi quando o trem passou,
uma grande composição
levando óleo inflamável.
Me lembrei de meu pai
corrompendo a palavra
que usava só para trens,
dizendo ‘cumpusição’.
O último vagão na curva
e passa o pobre friorento
de blusa nova ganhada.
Aquiesci gozosa,
a língua muda,
a folha branca,
a mão pousada.
pesavam de sementes
sob uma luz que,
asseguro-vos,
nascia da luz eterna.
Quis dizê-la e não pude,
ingurgitada de palavras
minha língua se confundia.
Cantei um hino conhecido
e foi pouco,
disse obrigada, Deus,
e foi nada.
Em meu auxílio
meu estômago doeu um pouco
pelo falso motivo
de que sofrendo
Deus me perdoaria.
Foi quando o trem passou,
uma grande composição
levando óleo inflamável.
Me lembrei de meu pai
corrompendo a palavra
que usava só para trens,
dizendo ‘cumpusição’.
O último vagão na curva
e passa o pobre friorento
de blusa nova ganhada.
Aquiesci gozosa,
a língua muda,
a folha branca,
a mão pousada.
1 694
Adélia Prado
Bilhete da Ousada Donzela
Jonathan,
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
— comprada no Bazar Marrocos —
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de ideia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva — mesmo se estiver chovendo.
Não aguento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
‘não paro de pensar em você’.
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar
eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia.
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
— comprada no Bazar Marrocos —
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de ideia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva — mesmo se estiver chovendo.
Não aguento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
‘não paro de pensar em você’.
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar
eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia.
1 484
Adélia Prado
Como Um Bicho
O ritmo do meu peito é amedrontado,
Deus me pega, me mata, vai me comer
o deus colérico.
Tan-tan, tan-tan,
um tambor antiquíssimo na selva
cada vez mais perigoso
porque o dia deserta,
tan-tan, tan-tan,
as estrelas são altas e os répteis astuciosos.
Tan-tan, meu pai, tan-tan,
ó minha mãe,
ponta de faca, dentes,
água,
água, não. Um pastor com sua flauta no rochedo,
o que nada pode erodir.
Assim meus pés descansam
e minha alma pode dormir.
Tan-tan, tan-tan,
cada vez mais fraco.
Não é meu coração,
é só um tambor.
Deus me pega, me mata, vai me comer
o deus colérico.
Tan-tan, tan-tan,
um tambor antiquíssimo na selva
cada vez mais perigoso
porque o dia deserta,
tan-tan, tan-tan,
as estrelas são altas e os répteis astuciosos.
Tan-tan, meu pai, tan-tan,
ó minha mãe,
ponta de faca, dentes,
água,
água, não. Um pastor com sua flauta no rochedo,
o que nada pode erodir.
Assim meus pés descansam
e minha alma pode dormir.
Tan-tan, tan-tan,
cada vez mais fraco.
Não é meu coração,
é só um tambor.
1 645
Adélia Prado
História
Me aflige que escrevam:
‘Foi em mil oitocentos e tanto que apareceu
a primeira bicicleta.’
Preciso que seja eterna. Deus entende o que digo,
Deus e os que leem poemas como penso em Jonathan.
Meu pai contando:
‘Meu avô contava que seu tetravô
tinha uma bicicleta engraçada
onde carregava os queijos, também eternos,
e ovos, desde sempre existentes.
Já usava este sobrenome que você tem,
minha filha,
e que dará a seu filho, que o dará a seu neto,
cordão plantado no umbigo do Pai Eterno.’
Assim não corro perigo de não ter conhecido Jonathan,
alegria da minha vida por quem espero
“mais que o guarda pela aurora”.
A história do homem é pitoresca. As datas,
brinquedo de pesquisadores.
Quando Deus criou o mundo
criou junto a bicicleta e o caminho relvado
onde Jonathan me espera para esta bela sequência:
à passagem dos amantes,
o capim florido estremece.
‘Foi em mil oitocentos e tanto que apareceu
a primeira bicicleta.’
Preciso que seja eterna. Deus entende o que digo,
Deus e os que leem poemas como penso em Jonathan.
Meu pai contando:
‘Meu avô contava que seu tetravô
tinha uma bicicleta engraçada
onde carregava os queijos, também eternos,
e ovos, desde sempre existentes.
Já usava este sobrenome que você tem,
minha filha,
e que dará a seu filho, que o dará a seu neto,
cordão plantado no umbigo do Pai Eterno.’
Assim não corro perigo de não ter conhecido Jonathan,
alegria da minha vida por quem espero
“mais que o guarda pela aurora”.
A história do homem é pitoresca. As datas,
brinquedo de pesquisadores.
Quando Deus criou o mundo
criou junto a bicicleta e o caminho relvado
onde Jonathan me espera para esta bela sequência:
à passagem dos amantes,
o capim florido estremece.
1 413
Adélia Prado
O Falsete
As autoridades têm olheiras
e estudada voz para os comunicados:
garantiremos a melhor solução entre as partes.
Quais partes? as pudendas?
Destas Deus já cuidou recobrindo de pelos.
Meu filho era bonzinho.
Nunca ia suicidar conforme disse o polícia.
Pus a mão na cabeça dele, estava toda quebrada,
mataram de pancada o meu filhinho.
As testemunhas sumiram,
perderam os dentes, a língua,
perderam a memória.
Eu perdi o menino.
“...Ele acolhia as turbas, falando-lhes do Reino,
e aos necessitados de cura devolvia a saúde.”
Palavras duras só para os mentirosos, os legistas
que atrelavam aos outros pesados fardos
que eles mesmos nem sequer tocavam...
Ó grito grande que eu queria gritar,
silvo que me esvaísse.
Certos tons, aves domésticas,
casa amarela com portão e flores me excitam,
mas não posso gozar. Tenho que pregar o Reino.
Quero um sítio, uma chacarazinha de nada,
o cristianismo não deixa,
o marxismo não deixa.
Ó grito grande, na frente dos palácios
episcopais e não:
O POVO UNIDO
JAMAIS SERÁ VENCIDO!
Minha piscina não é de lazer, disse o papa.
Não pretendo ser profeta, disse o bispo.
Que grosso cordão, que balde cheio,
que feixe grosso de coisas más.
Que vida incoerente a minha vida,
que areia suja.
Sou uma velha com quem Deus brinca.
De parelha com iras e vergonhas
meu apetite segue imperturbável,
carnes gordas, farinhas,
prelibo os legumes como a encontros carnais
e tenho medo da morte
e penso nela diuturnamente
como se eu fosse respeitável, séria,
comedida e frugal dama-filósofa.
Se alguém me acompanhar fundo um partido.
Derrubarei o governo, o papado,
dizimarei as casas paroquiais
e fundarei meu sonho:
num cerrado, inúmeros
desciam os frades com seus capuzes,
como aves marrons, pacificamente, procuravam um lugar.
Eu os acompanhei até que viram uma casa grande.
Tinha um grande fogão, uma grande mesa,
e todos foram entrando e acomodavam-se,
espalhando-se pela casa
como verdadeiros irmãos.
e estudada voz para os comunicados:
garantiremos a melhor solução entre as partes.
Quais partes? as pudendas?
Destas Deus já cuidou recobrindo de pelos.
Meu filho era bonzinho.
Nunca ia suicidar conforme disse o polícia.
Pus a mão na cabeça dele, estava toda quebrada,
mataram de pancada o meu filhinho.
As testemunhas sumiram,
perderam os dentes, a língua,
perderam a memória.
Eu perdi o menino.
“...Ele acolhia as turbas, falando-lhes do Reino,
e aos necessitados de cura devolvia a saúde.”
Palavras duras só para os mentirosos, os legistas
que atrelavam aos outros pesados fardos
que eles mesmos nem sequer tocavam...
Ó grito grande que eu queria gritar,
silvo que me esvaísse.
Certos tons, aves domésticas,
casa amarela com portão e flores me excitam,
mas não posso gozar. Tenho que pregar o Reino.
Quero um sítio, uma chacarazinha de nada,
o cristianismo não deixa,
o marxismo não deixa.
Ó grito grande, na frente dos palácios
episcopais e não:
O POVO UNIDO
JAMAIS SERÁ VENCIDO!
Minha piscina não é de lazer, disse o papa.
Não pretendo ser profeta, disse o bispo.
Que grosso cordão, que balde cheio,
que feixe grosso de coisas más.
Que vida incoerente a minha vida,
que areia suja.
Sou uma velha com quem Deus brinca.
De parelha com iras e vergonhas
meu apetite segue imperturbável,
carnes gordas, farinhas,
prelibo os legumes como a encontros carnais
e tenho medo da morte
e penso nela diuturnamente
como se eu fosse respeitável, séria,
comedida e frugal dama-filósofa.
Se alguém me acompanhar fundo um partido.
Derrubarei o governo, o papado,
dizimarei as casas paroquiais
e fundarei meu sonho:
num cerrado, inúmeros
desciam os frades com seus capuzes,
como aves marrons, pacificamente, procuravam um lugar.
Eu os acompanhei até que viram uma casa grande.
Tinha um grande fogão, uma grande mesa,
e todos foram entrando e acomodavam-se,
espalhando-se pela casa
como verdadeiros irmãos.
1 152