Poemas neste tema
Dor e Desespero
Dalton Trevisan
Minha vida meu amor
Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
1 228
Edmir Domingues
sonetoVIII - Tão pouco
Grinaldas de papoulas eu te trago
agora que é preciso o sonho ardente,
e a caixinha de música é somente
magoado riso e nunca o riso afago.
De flores e silêncios me embriago,
de fantasmas sentidos de repente
quando falam de nós, timidamente,
dizendo ser distante e o porte vago.
E depois, nesse espanto que tonteia,
ver que há pássaros mortos sobre a areia
surpreendidos no voo ousado e louco.
Em luar de desespero e de descrença
somente evocações, nunca presença,
flores de nada ao que pediu tão pouco.
agora que é preciso o sonho ardente,
e a caixinha de música é somente
magoado riso e nunca o riso afago.
De flores e silêncios me embriago,
de fantasmas sentidos de repente
quando falam de nós, timidamente,
dizendo ser distante e o porte vago.
E depois, nesse espanto que tonteia,
ver que há pássaros mortos sobre a areia
surpreendidos no voo ousado e louco.
Em luar de desespero e de descrença
somente evocações, nunca presença,
flores de nada ao que pediu tão pouco.
657
Edmir Domingues
soneto VII - Derradeiros líricos
Sopremos nossas lâmpadas que é noite.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
E bebamos o vinho escuro e podre
já que o doce beberam chuva e lágrima
e nos deram somente o rejeitado.
Sopremos nossas luzes, que no escuro
não nos verão meninos e mulheres
e esconderemos deles que nos faltam
o pão e o sal enquanto sobra a fome.
As torres de Sião estão contadas
e um dia se dirá dos seus valores
e das harpas deixadas nos salgueiros.
E saberão que fomos, eu e os loucos,
os derradeiros líricos cantando
as canções do Senhor em terra estranha.
584
Edmir Domingues
soneto XIII - Partiu a ave esperança
Nos soluços enfermos desta noite
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
649
Edmir Domingues
Os esquecidos azuis de cobalto
No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.
É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.
Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.
Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.
Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.
Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.
Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.
É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.
Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.
Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.
Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.
Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.
Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
612
Edmir Domingues
A mascarada
Senhora, se do amor a mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
763
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
783
Edmir Domingues
Galope sobre as águas
E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
539
Edmir Domingues
Coroa de sonetos - Com o estranho pulsar da estrela morta
I
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.
O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa
com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.
Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.
II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.
Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias
semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.
Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.
III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado
enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.
É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?
Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.
IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado
na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.
Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,
são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.
V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema
dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias
de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado
ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.
VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.
Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.
Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.
O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.
VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.
Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço
que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.
Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.
VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.
E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.
A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.
O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.
IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado
de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.
Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.
Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.
X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.
Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.
Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.
Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.
XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,
e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente
a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.
Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.
XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,
desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.
Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,
um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.
XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.
Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.
Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.
Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.
XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.
Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?
Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.
Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.
XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,
conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.
Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.
Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.
O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa
com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.
Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.
II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.
Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias
semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.
Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.
III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado
enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.
É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?
Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.
IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado
na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.
Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,
são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.
V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema
dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias
de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado
ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.
VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.
Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.
Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.
O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.
VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.
Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço
que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.
Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.
VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.
E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.
A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.
O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.
IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado
de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.
Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.
Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.
X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.
Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.
Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.
Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.
XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,
e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente
a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.
Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.
XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,
desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.
Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,
um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.
XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.
Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.
Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.
Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.
XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.
Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?
Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.
Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.
XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,
conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.
Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.
Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
1 050
Edmir Domingues
Rota de colisão
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
628
Cesare Pavese
você, vento de março
Você é a vida e a morte.
Você veio de março
por sobre a terra nua.
A tua emoção perdura.
Sangue da primavera,
anêmona ou nuvem,
o teu passo ligeiro
violou a terra.
A dor reabre –
O teu passo ligeiro
a reabriu.
Era fria a terra
sob o céu pobre,
era imóvel e fechada
em um sonho entorpecido,
como alguém que não mais sofre.
Mesmo o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte,
a esperança se calava.
Agora, tem voz e sangue
cada coisa que vive.
Agora, a terra e o céu
são fortes emoções,
as esperanças os torcem,
e as manhãs os perturbam,
e o teu passo os submergem,
o teu hálito d'aurora.
Sangue da primavera,
toda a terra é trêmula
de um antigo tremor.
Você reabriu a dor.
Você é a vida e a morte.
Sobre a terra nua,
passaste ligeira,
como uma andorinha ou uma nuvem,
e a barragem do coração
despertou-se e rompeu-se
e se espelhou no céu
refletindo as coisas,
e as coisas, no céu e no coração,
sofrem e se contorcem
esperando por você.
É a manhã, é a aurora...
– sangue da primavera,
você violou a terra.
A esperança se torce,
te espera e te chama.
Você é a vida e a morte.
O teu passo é ligeiro.
Você veio de março
por sobre a terra nua.
A tua emoção perdura.
Sangue da primavera,
anêmona ou nuvem,
o teu passo ligeiro
violou a terra.
A dor reabre –
O teu passo ligeiro
a reabriu.
Era fria a terra
sob o céu pobre,
era imóvel e fechada
em um sonho entorpecido,
como alguém que não mais sofre.
Mesmo o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte,
a esperança se calava.
Agora, tem voz e sangue
cada coisa que vive.
Agora, a terra e o céu
são fortes emoções,
as esperanças os torcem,
e as manhãs os perturbam,
e o teu passo os submergem,
o teu hálito d'aurora.
Sangue da primavera,
toda a terra é trêmula
de um antigo tremor.
Você reabriu a dor.
Você é a vida e a morte.
Sobre a terra nua,
passaste ligeira,
como uma andorinha ou uma nuvem,
e a barragem do coração
despertou-se e rompeu-se
e se espelhou no céu
refletindo as coisas,
e as coisas, no céu e no coração,
sofrem e se contorcem
esperando por você.
É a manhã, é a aurora...
– sangue da primavera,
você violou a terra.
A esperança se torce,
te espera e te chama.
Você é a vida e a morte.
O teu passo é ligeiro.
923
Edmir Domingues
É fortuna do mar o que nós somos
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
693
Martha Medeiros
Hoje Me Desfiz Dos Meus Bens
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
1 781
Martha Medeiros
Faz-de-conta
Não respondo teus e-mails, e quando respondo sou ríspido, distante, mantenho-me alheio: faz-de-conta que eu te odeio.
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo.
Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
Te encho de palavras carinhosas, não economizo elogios, me surpreendo de tanto afeto que consigo inventar, sou uma atriz, sou do ramo: faz-de-conta que te amo.
Estou sempre olhando pro relógio, sempre enaltecendo os planos que eu tinha e que os outros boicotaram, sempre reclamando que os outros fazem tudo errado: faz-de-conta que dou conta do recado.
Debocho de festas e de roupas glamurosas, não entendo como é que alguém consegue dormir tarde todas as noites, convidados permanentes para baladas na área vip do inferno: faz-de-conta que não quero.
Choro ao assistir o telejornal, lamento a dor dos outros e passo noites em claro tentando entender corrupções, descasos, tudo o que demonstra o quanto foi desperdiçado meu voto: faz-de-conto que me importo.
Jogo uma perna pro alto, a outra pro lado, faço cara de gostosa, os cabelos escorridos na rosto, me retorço, gemo, sussurro, grito e poso: faz-de-conta que eu gozo.
Digo que perdôo, ofereço cafezinho, lembro dos bons momentos, digo que os ruins ficaram no passado, que já não lembro de nada, pessoas maduras sabem que toda mágoa é peso morto: faz-de-conta que não sofro.
Cito Aristóteles e Platão, aplaudo ferros retorcidos em galerias de arte, leio poesia concreta, compro telas abstratas, fico fascinada com um arranjo techno para uma música clássica e assisto sem legenda o mais recente filme romeno: faz-de-conta que eu entendo.
Tenho todos os ingredientes para um sanduíche inesquecível, a porta da geladeira está lotada de imãs de tele-entrega, mantenho um bar razoavelmente abastecido, um pouco de sal e pimenta na despensa e o fogão tem oito anos mas parece zerinho: faz-de-conta que eu cozinho.
Bem-vindo à Disney, o mundo da fantasia, qual é o seu papel? Você pode ser um fantasma que atravessa paredes, ser anão ou ser gigante, um menino prodígio que decorou bem o texto, a criança ingênua que confiou na bruxa, uma sex symbol a espera do seu cowboy: faz-de-conta que não dói.
1 509
Nuno Júdice
Cassandra
Sonhou ler o destino; e desejou nunca
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o ter feito. Deixou de olhar para os homens,
quando adivinhou a sua morte; e desafiou
o céu, quando descobriu que nada existe
para além do azul. Percebo, pela
contracção da sua coxa, que esboça
o desejo de se erguer; mas os braços
caem para trás das costas,
como se não tivesse já para
onde ir. No entanto, o fogo
que arde no altar ilumina-lhe
o rosto, condenando-a a ver
tudo o que acontece: os incêndios
que devastam a terra, um massacre
de mulheres, a inutilidade
das súplicas. E entrega-se a todos
os que passam à sua frente,
pedindo-lhes que apaguem a chama
para que um manto de treva
lhe cubra o corpo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 71 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 180
Ruy Belo
Quirógrafo
É tão depressa dia e nada nos redime
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
1 179
Ruy Belo
Cinco palavras cinco pedras
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
2 125
Ruy Belo
Quadras quase populares
Sei tão de cor estes dias
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte
Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quanto couber no tempo agoniza
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 37 | Editorial Presença Lda., 1984
864
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sibilas
Sibilas no interior dos antros hirtos
Totalmente sem amor e cegas,
Alimentando o vazio como um fogo
Enquanto a sombra dissolve a noite e o dia
Na mesma luz de horror desencarnada.
Trazer para fora o monstruoso orvalho
Das noites interiores, o suor
Das forças amarradas a si mesmas
Quando as palavras batem contra os muros
Em grandes voos cegos de aves presas
E agudamente o horror de ter as asas
Soa como um relógio no vazio.
Totalmente sem amor e cegas,
Alimentando o vazio como um fogo
Enquanto a sombra dissolve a noite e o dia
Na mesma luz de horror desencarnada.
Trazer para fora o monstruoso orvalho
Das noites interiores, o suor
Das forças amarradas a si mesmas
Quando as palavras batem contra os muros
Em grandes voos cegos de aves presas
E agudamente o horror de ter as asas
Soa como um relógio no vazio.
2 239
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
a Aspassia Papathanassiou
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
2 730
Sophia de Mello Breyner Andresen
Que o Teu Gládio Me Fira Mortalmente
Que o Teu gládio me fira mortalmente.
Eu sou de alma dispersa e vagabunda,
Tudo me destrói e cada ser me inunda
E posso assim rolar eternamente.
Eu sou de alma dispersa e vagabunda,
Tudo me destrói e cada ser me inunda
E posso assim rolar eternamente.
2 339
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cante Jondo
Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu.
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu.
2 217
Sophia de Mello Breyner Andresen
Círculo
Num círculo se move
Num círculo fechado
Sua morte o envolve
Como uma borboleta
Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro
Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta
Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem
A sua hora estava
— Como se diz — marcada
Pegador não houve
Nem pega de caras
E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
Num círculo fechado
Sua morte o envolve
Como uma borboleta
Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro
Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta
Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem
A sua hora estava
— Como se diz — marcada
Pegador não houve
Nem pega de caras
E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
2 419
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viii. Canção de Matar
Do dia nada sei
O teu amor em mim
Está como o gume
De uma faca nua
Ele me atravessa
E atravessa os dias
Ele me divide
Tudo o que em mim vive
Traz dentro uma faca
O teu amor em mim
Que por dentro me corta
Com uma faca limpa
Me libertarei
Do teu sangue que põe
Na minha alma nódoas
O teu amor em mim
De tudo me separa
No gume de uma faca
O meu viver se corta
Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta
Do dia nada sei
Com uma faca limpa
Me libertarei.
O teu amor em mim
Está como o gume
De uma faca nua
Ele me atravessa
E atravessa os dias
Ele me divide
Tudo o que em mim vive
Traz dentro uma faca
O teu amor em mim
Que por dentro me corta
Com uma faca limpa
Me libertarei
Do teu sangue que põe
Na minha alma nódoas
O teu amor em mim
De tudo me separa
No gume de uma faca
O meu viver se corta
Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta
Do dia nada sei
Com uma faca limpa
Me libertarei.
2 598