Poemas neste tema
Dor e Desespero
Hilda Hilst
Cantares do Sem Nome e de Partida
Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões
Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 752
Almandrade
VI
Agora devo
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos
dormir
e deixar
o apetite
dos morcegos
devorar
as lágrimas noturnas
indiferentes
aos meus afetos
975
Silvaney Paes
Contido
Algo ofendeu a vida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
748
Silvaney Paes
Âncora
Existe
algo que de mim se aparta
que d’uma alma dilapidada,
agora manca, quase amputada,
sem seu orgulho, dilacerada.
Que teu silêncio, já me roubara,
chorando agora a sua falta,
faltando ele, me resta nada.
perco a herança de minha casa.
Que nesse porto já ancorava
tão pobre alma de muitas lágrimas
mas teu silencio só açoitava
não parecendo já lapidada.
Ancora
essa alma..
algo que de mim se aparta
que d’uma alma dilapidada,
agora manca, quase amputada,
sem seu orgulho, dilacerada.
Que teu silêncio, já me roubara,
chorando agora a sua falta,
faltando ele, me resta nada.
perco a herança de minha casa.
Que nesse porto já ancorava
tão pobre alma de muitas lágrimas
mas teu silencio só açoitava
não parecendo já lapidada.
Ancora
essa alma..
1 078
Silvaney Paes
O Tempo
Silêncio
que grita e espera
Por uma voz que assoma e apega
De fazer poemas na espera
Desse amor que a mim se apega
Não saber desse amar a espera
E de uma dor que só agora se apega
Que pela alma se espalha, dilacera.
De só sofrer na espera
E quando à noite, finda a espera.
Há em mim um torpor que se agrega
Por um amor que assoma e se apega
Chegou o amor que de ha muito se espera
E de toda uma vida de espera
De uma dor que se agrega
De um torpor que dilacera
Nada mais importa.
Chegas-te.
Fim da Dor e da Espera
que grita e espera
Por uma voz que assoma e apega
De fazer poemas na espera
Desse amor que a mim se apega
Não saber desse amar a espera
E de uma dor que só agora se apega
Que pela alma se espalha, dilacera.
De só sofrer na espera
E quando à noite, finda a espera.
Há em mim um torpor que se agrega
Por um amor que assoma e se apega
Chegou o amor que de ha muito se espera
E de toda uma vida de espera
De uma dor que se agrega
De um torpor que dilacera
Nada mais importa.
Chegas-te.
Fim da Dor e da Espera
838
Silvaney Paes
Só Um Sopro
Um
sopro
De um amor que sofro
Não pouco
Só louco
Pegajoso
Da alma que achou-se pouca
Ainda sofro
E louco morro
Aguardo o sopro
De um amar louco
Não pouco
Igual ao outro
E aí então, não serei só louco
Nem só sopro
Serei vento e sopros
Um do outro
Nem loucos
Nem poucos
sopro
De um amor que sofro
Não pouco
Só louco
Pegajoso
Da alma que achou-se pouca
Ainda sofro
E louco morro
Aguardo o sopro
De um amar louco
Não pouco
Igual ao outro
E aí então, não serei só louco
Nem só sopro
Serei vento e sopros
Um do outro
Nem loucos
Nem poucos
1 093
Silvaney Paes
Crucificado
Abre a
cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Agora tenho que ser crucificado
Devo morrer e ser ressuscitado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
De alma na mão fui coroado
Tive o peito perfurado
Nessa dor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Fui três vezes nesse amor negado
Saudade, dor e desprezo cravados.
Sangrando fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Em teu amor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Nesse abraço posso ser ressuscitado
cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Agora tenho que ser crucificado
Devo morrer e ser ressuscitado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
De alma na mão fui coroado
Tive o peito perfurado
Nessa dor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Fui três vezes nesse amor negado
Saudade, dor e desprezo cravados.
Sangrando fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Em teu amor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Nesse abraço posso ser ressuscitado
1 065
Hugo Pires
Milénio
Por dois mil calhaus subi,
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
Tropeçando nas suas arestas áridas.
Dois mil socalcos escavei,
Rasgando a terra com as minhas mãos.
Duas mil videiras plantei,
Regando seus pés com a minha esperança.
Dois mil frutos colhi,
E de seu sumo vinho fiz,
E em dois mil litros de desilusão,
Mergulhei enfim sem salvação.
1 071
Mariana Ianelli
Testamento
"Chora,
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
919
Susana Pestana
Espaços
As minhas
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.
945
Antonio Rogerio Czelusniak
Vôo
Num voo
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.
349
Alexandre Turri
Talvez a Morte
Eu
olhei em tua face...
você a desviou de meu alcance
Virou sem dizer uma palavra
foi pra longe de mim.
Ainda lembro dos seus olhos
olhos que machucam sem dizer uma palavra
expressões que arrancam lágrimas.
Lágrimas derrubadas por um amor não vivido,
amor não correspondido.
Se soubesse por onde andei até chegar aqui...
mas duvido que vá se importar
pois sou apenas um passatempo,
a minha angústia lhe faz feliz
minhas lágrimas matam tua estranha sede
e meu eterno amor serve para sua pura diversão.
Não imagino porque faz isso comigo
talvez tenha um anjo mau querendo brincar com minha vida
ou talvez seja um destino mau traçado.
Mas de uma coisa estou certo...
...a brincadeira acabou.
Não irei mais atrás de você...acabou,
cansei de sofrer, cansei de ir atrás de meus sonhos...
...na verdade...
....CANSEI DE VIVER.
Não vejo mais o porque disso...
tudo que amava era você
Era a única razão da minha vida
Eu te apaguei de meus pensamentos.
Agora a vida não tem o mesmo sentido de antes...
....Qual a ÚNICA coisa que me resta...?
olhei em tua face...
você a desviou de meu alcance
Virou sem dizer uma palavra
foi pra longe de mim.
Ainda lembro dos seus olhos
olhos que machucam sem dizer uma palavra
expressões que arrancam lágrimas.
Lágrimas derrubadas por um amor não vivido,
amor não correspondido.
Se soubesse por onde andei até chegar aqui...
mas duvido que vá se importar
pois sou apenas um passatempo,
a minha angústia lhe faz feliz
minhas lágrimas matam tua estranha sede
e meu eterno amor serve para sua pura diversão.
Não imagino porque faz isso comigo
talvez tenha um anjo mau querendo brincar com minha vida
ou talvez seja um destino mau traçado.
Mas de uma coisa estou certo...
...a brincadeira acabou.
Não irei mais atrás de você...acabou,
cansei de sofrer, cansei de ir atrás de meus sonhos...
...na verdade...
....CANSEI DE VIVER.
Não vejo mais o porque disso...
tudo que amava era você
Era a única razão da minha vida
Eu te apaguei de meus pensamentos.
Agora a vida não tem o mesmo sentido de antes...
....Qual a ÚNICA coisa que me resta...?
820
Zito Batista
Monólogo de um Cego
Falaram-me do sol! Maravilhoso o sol
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?
Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!
E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...
Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...
Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!
Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...
1 094
Sebastião Corrêa
Homem
Quantos milhões de séculos viveste?
A Atlântida esqueceste, e, hoje, andas triste,
Comungando a ilusão que não pediste,
Na sentença da dor que mereceste!
Como aquele filósofo ateniense,
Interrogas as tímidas estrelas...
Para quê? — ninguém sabe compreendê-las.
Vence a luz a distância; e o homem, que vence?
Que me dirás das lâmpadas divinas?
— meu vendedor de lágrimas, das ruínas
Do teu sonho forjaste um pensamento!
E andas pálido e triste, procurando
O que há milênios vem te acompanhando:
A vida — abençoado sofrimento!
A Atlântida esqueceste, e, hoje, andas triste,
Comungando a ilusão que não pediste,
Na sentença da dor que mereceste!
Como aquele filósofo ateniense,
Interrogas as tímidas estrelas...
Para quê? — ninguém sabe compreendê-las.
Vence a luz a distância; e o homem, que vence?
Que me dirás das lâmpadas divinas?
— meu vendedor de lágrimas, das ruínas
Do teu sonho forjaste um pensamento!
E andas pálido e triste, procurando
O que há milênios vem te acompanhando:
A vida — abençoado sofrimento!
824
Raul Machado
Póstuma
Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!
Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.
Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:
Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!
1 658
Tobias Pinheiro
A Consciência
BASTA! A dor já se impõe no mundo inteiro,
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
832
Reinaldo Ferreira
Agora o céu não é das aves
Agora o céu não é das aves,
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!
Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!
Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.
Agora o mar não é dos peixes!
Desabam tectos, quebram-se as traves,
Tu não me deixes, tu não me deixes!
Olha que o Tempo sua os segundos
No manicómio da Eternidade!
Estoiram os astros, chocam-se os mundos.
Tu não me deixes, por piedade!
Repara a hora como endoidece,
Como acelera, como recua.
Eu tenho a culpa do que acontece,
Mas, se me deixas, a culpa é tua.
2 223
Sebastião Corrêa
Se Assim Fosse
Se a dura sorte me apontasse, um dia,
Outro destino, a mim, outra ventura,
E me arrancasse desta vida escura,
Outra seria, então, minha alegria.
Se o coração de quem meus passos guia,
Compreendesse a extensão desta amargura,
Talvez sentisse a mesma desventura
Que às vezes sinto, em transes de agonia.
Se essa visão querida, que meus olhos
Viram, tivesse o coração humano,
Um coração que conhecesse o amor,
Certo, me não teria entre os abrolhos,
Nem eu padeceria o desengano,
No exílio escuro a que me trouxe a dor.
Outro destino, a mim, outra ventura,
E me arrancasse desta vida escura,
Outra seria, então, minha alegria.
Se o coração de quem meus passos guia,
Compreendesse a extensão desta amargura,
Talvez sentisse a mesma desventura
Que às vezes sinto, em transes de agonia.
Se essa visão querida, que meus olhos
Viram, tivesse o coração humano,
Um coração que conhecesse o amor,
Certo, me não teria entre os abrolhos,
Nem eu padeceria o desengano,
No exílio escuro a que me trouxe a dor.
734
Madi
Tempo de Umidade
Tempo de Umidade
Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer
Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer
908
Nana Corrêa de Lima
Medo
Medo
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
Amo, mas sem certeza.
E é com dor nas entranhas
que assumo meus medos todos.
Vagarosamente,
Sem anestésico algum .....
874
Madi
Vai Embora
Vai Embora
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
899
Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
940
Nelson Motta
Noite Interna
ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
1 200
Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
1 333