Poemas neste tema
Dor e Desespero
Mário Hélio
30-X-(Dos que vivem na sombra)
ontem suspeitei o cego em mim
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
870
Mário Hélio
46-III-(Feitura)
criança magra e feia
homem brabo e feio
mulher velha e feia
criança inesperança
homem sem ânsia
mulher sem crença
e tudo horrendo e feio
alma feia deus feio
homem brabo e feio
mulher velha e feia
criança inesperança
homem sem ânsia
mulher sem crença
e tudo horrendo e feio
alma feia deus feio
1 059
Mário Hélio
21-I-(As fezes da festa)
hoje derramamos
o líquido e a lágrima,
amanhã beberemos
o sangue e o suor de sempre.
o líquido e a lágrima,
amanhã beberemos
o sangue e o suor de sempre.
988
Mário Hélio
33-III-(Bird)
a fragata espera na porta do circo
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
1 001
Mário Hélio
26-VI(Expássaro)
ícaro sem asa
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar
900
Luiz Carlos Freitas
Choro de Magoa
Teu choro baixinho,constante e doído,
Transforma tua face e quebra o encanto.
Tua tristeza na alma e teu coração partido,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, muda o rosto radiante,
Transforma tua aura, e esconde teu canto.
Toda lacrimejada, altera teu semblante,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, mostra teu sentimento,
Transforma tua beleza e te esconde num manto.
Toda amargurada, esboça um lamento,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, te provoca soluço,
Transforma em mágoa ao mostrar teu pranto,
Toda a tristeza em teu rosto, se choras de bruço,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, te traz solidão,
Tranforma tua vida e te causa espanto.
Toda " dengosa ", te enches de emoção,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Transforma tua face e quebra o encanto.
Tua tristeza na alma e teu coração partido,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, muda o rosto radiante,
Transforma tua aura, e esconde teu canto.
Toda lacrimejada, altera teu semblante,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, mostra teu sentimento,
Transforma tua beleza e te esconde num manto.
Toda amargurada, esboça um lamento,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, te provoca soluço,
Transforma em mágoa ao mostrar teu pranto,
Toda a tristeza em teu rosto, se choras de bruço,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
Teu choro baixinho, te traz solidão,
Tranforma tua vida e te causa espanto.
Toda " dengosa ", te enches de emoção,
Te deixa feia. Por que chorar tanto ?
1 087
Luiz Moraes
Limites
Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
972
Leão Moysés Zagury
Somália
Somália; terra sem dono,
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
1 155
Tomás Ribeiro
Carta que Estela Deixou à Filha
Fragmento do canto VIII do D. Jaime
...........................................................
A vítima infeliz de ímproba sorte,
vede o que ela escrevia à triste filha,
momentos antes de chegar a morte:
— "Filha! não posso agasalhar-te em vida;
rosa pendida que te vais finar!
quem te arrancara dessas mãos ferozes
dos meus algozes que te vão matar!
À campa vamos! Ai! depois da morte,
quem sabe a sorte a que estas almas vão!...
Que anseio! filha! que soldado abismo!
tu... sem batismo! e eu... sem confissão!
Não! Deus é pai! somente aos maus condena!
Foi por quem pena que penou Jesus!
Sejam meus prantos do batismo as águas!...
Deus! pelas mágoas que te deu a cruz!
Vai, filha! os anjos te recebem ledos!
guarda os segredos que me ouviste aqui.
Quando avistares do Senhor a sede,
por mim lhe pede, que também morri!
Vai! Dize aos anjos que te dêem seus cantos,
por estes prantos que meus olhos têm!
e se em mim perdes maternal ternura,
a Virgem pura que te seja mãe!...
Ai! flor de neve com dourada coma!
que alvor! que aroma! se não perde aqui!
Ai! rosa minha de matiz vestida;
que amor! que vida! que eu sonhei por ti!
Teu pai, rojado por inglória senda,
que vida horrenda viverá também!...
rico inda ontem, poderoso e nobre!
hoje tão pobre, que nem nome tem!
Eu fui a sombra que toldou de escuro
todo o futuro que o verá viver!...
Eu fui a estrela que em lugar do norte,
lhe aponta a morte que o fará morrer!
Aos meus perdôo, que me deram tratos;
raça de ingratos, com que eu vivi!
Não choro os dias que sonhei serenos...
que em paga ao menos morrerei por ti.
A ti, a ele, deixarei somente,
num beijo ardente o derradeiro adeus!...
Correi, algozes, já me não confranjo!
mártir e anjo, têm direito aos céus!"
...........................................................
A vítima infeliz de ímproba sorte,
vede o que ela escrevia à triste filha,
momentos antes de chegar a morte:
— "Filha! não posso agasalhar-te em vida;
rosa pendida que te vais finar!
quem te arrancara dessas mãos ferozes
dos meus algozes que te vão matar!
À campa vamos! Ai! depois da morte,
quem sabe a sorte a que estas almas vão!...
Que anseio! filha! que soldado abismo!
tu... sem batismo! e eu... sem confissão!
Não! Deus é pai! somente aos maus condena!
Foi por quem pena que penou Jesus!
Sejam meus prantos do batismo as águas!...
Deus! pelas mágoas que te deu a cruz!
Vai, filha! os anjos te recebem ledos!
guarda os segredos que me ouviste aqui.
Quando avistares do Senhor a sede,
por mim lhe pede, que também morri!
Vai! Dize aos anjos que te dêem seus cantos,
por estes prantos que meus olhos têm!
e se em mim perdes maternal ternura,
a Virgem pura que te seja mãe!...
Ai! flor de neve com dourada coma!
que alvor! que aroma! se não perde aqui!
Ai! rosa minha de matiz vestida;
que amor! que vida! que eu sonhei por ti!
Teu pai, rojado por inglória senda,
que vida horrenda viverá também!...
rico inda ontem, poderoso e nobre!
hoje tão pobre, que nem nome tem!
Eu fui a sombra que toldou de escuro
todo o futuro que o verá viver!...
Eu fui a estrela que em lugar do norte,
lhe aponta a morte que o fará morrer!
Aos meus perdôo, que me deram tratos;
raça de ingratos, com que eu vivi!
Não choro os dias que sonhei serenos...
que em paga ao menos morrerei por ti.
A ti, a ele, deixarei somente,
num beijo ardente o derradeiro adeus!...
Correi, algozes, já me não confranjo!
mártir e anjo, têm direito aos céus!"
1 141
Tomáz Kim
Campo de Batalha
1
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
1 598
Lúcio José Gusman
Ausência
Não estares
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
846
Lucídio Freitas
O Incêndio
O ar queima, o vento queima, a terra queima e abrasa.
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.
Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.
Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.
Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...
3 215
Luis Germano Graal
Saber
Saber
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer
A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer
A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.
821
Luis Germano Graal
Nesta Embarcação
Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
784
Gláucia Lemos
Poema do Desenlace
...e então nós nos magoamos
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
1 049
Jorge Lescano
Inverno
Ao amanhecer
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
1 022
Luiz Fernandes da Silva
Afirmação
Quero que neste momento
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
teu corpo se abra como ave
e deixe o tempo desmemorizar o homem.
Quero ouvir o eco e o grito
no fundo de um poço
Quero que meu corpo fique
inerte sobre a mesa
para receber a luz do Cruzeiro do Sul.
Quero que escrevam
meu nome na ribanceira dos rios
no ancoradouro do cais.
Quero que o vento cante
minha lira e corte minha palavra
em mil fatias de desespero.
Quero viver intensamente
as minhas noites de vigília.
Quero ruminar campos de outrora
para pisar nas mãos do vento.
Quero viver sem tua presença
na ausência de todos os teus retratos.
794
Lago Burnett
Procurando estrelas
Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.
As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.
Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.
Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
(Estrela do Céu Perdido / l949)
1 202
Luiz Ademir Souza
Favilla 2
ASSALTO. Droga de poder?
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
1 002
Valéry Larbaud
Descuido
Mergulhei por descuido teus olhos
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
Em outros mares, em outros vinhos:
Perigosas paisagens, proibidas,
Que desfazem seus próprios caminhos.
Hoje, mais nada sabemos, loucos
E bêbados náufragos de um sonho.
Os nossos silêncios estão roucos
De tanto nos ferirmos. Choramos.
Que outros céus acolham nossos corpos.
818
Laura Amélia Damous
Papagaio
Trituro esta dor
socada em pilão
como tia Ana do grão
gerava o café
Trituro esta dor
e faço cerol
para untar a linha
que nos partirá
socada em pilão
como tia Ana do grão
gerava o café
Trituro esta dor
e faço cerol
para untar a linha
que nos partirá
914
Laura Amélia Damous
Horto das Oliveiras
As feras estão insones
Tigres espreitam a certeza
do sangue fresco.
Quieto, irmão,
esta é a hora da agonia
Tigres espreitam a certeza
do sangue fresco.
Quieto, irmão,
esta é a hora da agonia
1 037
Laura Amélia Damous
Circo
Avanço e recuo
ao estalido da dor
Me curvo
para os aplausos da platéia
Alguém pede bis
Sangro até morrer
ao estalido da dor
Me curvo
para os aplausos da platéia
Alguém pede bis
Sangro até morrer
865
Luís António Cajazeira Ramos
Na Véspera
... rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa
Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia
da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.
Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.
No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa
Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia
da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.
Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.
No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.
926