Poemas neste tema
Encontros e Desencontros
D. Dinis
U Noutro Dia Seve Dom Foam
U noutro dia seve Dom Foam
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
[lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
a mi começou gram noj'a crecer
de muitas cousas que lh'oí dizer.
Diss'el: "- Ir-m'-ei ca já se deitar ham".
E dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
E muit'enfadado de seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiavam estes olhos meus.
E quand'el disse "Ir-me quer'eu deitar",
[lh]e dix'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
El seve muit'e diss'e parfiou
e a mim creceu gram nojo por en
e nom soub'el se x'era mal se bem.
E quand'el disse "Já m'eu deitar vou",
dixi-lh'eu: "- Bõa ventura hajades,
porque vos ides e me leixades".
818
D. Dinis
Pera Veer Meu Amigo,
Pera veer meu amigo,
que talhou preito comigo,
alá vou, madre.
Pera veer meu amado,
que mig'há preito talhado,
alá vou, madre.
Que talhou preito comigo;
é por esto que vos digo:
alá vou, madre.
Que mig'há preito talhado;
é por esto que vos falo:
alá vou, madre.
que talhou preito comigo,
alá vou, madre.
Pera veer meu amado,
que mig'há preito talhado,
alá vou, madre.
Que talhou preito comigo;
é por esto que vos digo:
alá vou, madre.
Que mig'há preito talhado;
é por esto que vos falo:
alá vou, madre.
555
Bernardo Bonaval
Se Veess'o Meu Amigo a Bonaval E Me Visse
Se veess'o meu amigo a Bonaval e me visse,
vedes como lh'eu diria, ante que m'eu del partisse:
"Se vos fordes, nom tardedes
tam muito como soedes;"
diria-lh'eu: "Nom tardedes,
amigo, como soedes".
Diria-lh'eu: "Meu amigo, se vós a mim muit'amades,
fazede por mi atanto, que bõa ventura hajades:
se vos fordes, nom tardedes
tam muito como soedes;"
diria-lh'eu: "Nom tardedes,
amigo, como soedes".
Que leda que eu seria, se veess'el falar migo,
e, ao partir[-se] da fala, diria-lh'eu: "Meu amigo,
se vos fordes, nom tardedes
tam muito como soedes;"
diria-lh'eu: "Nom tardedes,
amigo, como soedes".
vedes como lh'eu diria, ante que m'eu del partisse:
"Se vos fordes, nom tardedes
tam muito como soedes;"
diria-lh'eu: "Nom tardedes,
amigo, como soedes".
Diria-lh'eu: "Meu amigo, se vós a mim muit'amades,
fazede por mi atanto, que bõa ventura hajades:
se vos fordes, nom tardedes
tam muito como soedes;"
diria-lh'eu: "Nom tardedes,
amigo, como soedes".
Que leda que eu seria, se veess'el falar migo,
e, ao partir[-se] da fala, diria-lh'eu: "Meu amigo,
se vos fordes, nom tardedes
tam muito como soedes;"
diria-lh'eu: "Nom tardedes,
amigo, como soedes".
776
Airas Nunes
A Santiag'em Romaria Vem
A Santiag'em romaria vem
el-rei, madr', e praz-me de coraçom
por duas cousas, se Deus me perdom,
em que tenho que me faz Deus gram bem:
ca ve[e]rei el-rei, que nunca vi,
e meu amigo, que vem com el i.
[...]
el-rei, madr', e praz-me de coraçom
por duas cousas, se Deus me perdom,
em que tenho que me faz Deus gram bem:
ca ve[e]rei el-rei, que nunca vi,
e meu amigo, que vem com el i.
[...]
832
Renato Rezende
O Outro
Por um segundo, nos olhos do outro
vejo o reflexo do meu próprio susto,
e o espelho do meu verdadeiro rosto.
Nova York, julho 1994
vejo o reflexo do meu próprio susto,
e o espelho do meu verdadeiro rosto.
Nova York, julho 1994
1 041
Renato Rezende
Cupido
Quando te vi
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
1 038
Luci Collin
Ontivo
Nos encontraremos e eu estarei atarefada
e você estará imerecível
e eu estarei cansada para o cafezinho
e você estará exausto para um cinema
e eu estarei amorfa
e você palimpsesto
e eu estarei rendida às evidências mais ocultas
e você descompassado às vivências absolutas
e eu estarei com pressa
e você naquela hora imprevisível
e eu estarei naquela hora portentosa
e você estará naquele momento incrível
e eu estarei naquela manhã chuvosa
e você estará naquela noite audível
e eu retrocederei até auroras
e você avançará aos ocidentes
e eu compreenderei infinitudes
e você desvestirá os contratempos
e eu deslizo pela superfície e vou embora
e você mergulha mar adentro e refloresce
e você estará imerecível
e eu estarei cansada para o cafezinho
e você estará exausto para um cinema
e eu estarei amorfa
e você palimpsesto
e eu estarei rendida às evidências mais ocultas
e você descompassado às vivências absolutas
e eu estarei com pressa
e você naquela hora imprevisível
e eu estarei naquela hora portentosa
e você estará naquele momento incrível
e eu estarei naquela manhã chuvosa
e você estará naquela noite audível
e eu retrocederei até auroras
e você avançará aos ocidentes
e eu compreenderei infinitudes
e você desvestirá os contratempos
e eu deslizo pela superfície e vou embora
e você mergulha mar adentro e refloresce
949
Charles Bukowski
É Claro
conforme os mais recentes estudos
científicos
leva 325 anos para a última
célula do cérebro
detonar-se.
agora eu percebo que
a maioria das garotas
que encontrei em bares
e trouxe para minha casa
estava mentindo sobre
sua
idade.
científicos
leva 325 anos para a última
célula do cérebro
detonar-se.
agora eu percebo que
a maioria das garotas
que encontrei em bares
e trouxe para minha casa
estava mentindo sobre
sua
idade.
1 098
Charles Bukowski
Sandra
é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela não era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia à mão, e sua caligrafia era estável, sensível, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artísticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
– Por que você não pega um avião até aqui? – sugeri.
– Tudo bem – ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
– Estarei lá – disse a ela –, nada poderá me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negócio de fotos. Não há garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? Não a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cá. Eu conhecia um número grande de mulheres. Por que esse negócio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos são excitantes, mas também dão um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre são um pouco dramáticos. As pessoas eram interessantes no início. Então mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeições e as demências começariam a se manifestar. Eu seria então cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tão bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexíveis e macias. Será que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de não envelhecer, não me sentir um caco? Eu só não queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu já havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saíram pelo portão.
Oh, tomara que não seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
– Eu sou a Mindy.
– Estou feliz que você seja a Mindy.
– Estou feliz que você seja o Chinaski.
– Você precisa pegar alguma bagagem?
– Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
– Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tônica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma ótima aparência, quase virginal. Era difícil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fácil olhá-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
– Bem – ela disse –, você está assustado?
– Agora nem tanto. Gosto de você.
– Você é bem melhor pessoalmente do que nas fotos – ela disse. – Não acho você nem um pouco feio.
– Obrigado.
– Oh, não quis dizer que você é bonito, não no sentido que as pessoas dão pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles são lindos. São selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. Não sou muito boa com as palavras.
– Acho que você é linda – eu disse. – E muito gentil. É bom estar perto de você. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. Você é como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso é bom demais. Isso simplesmente não é possível.
– Mulheres
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.
Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela não era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia à mão, e sua caligrafia era estável, sensível, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artísticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
– Por que você não pega um avião até aqui? – sugeri.
– Tudo bem – ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
– Estarei lá – disse a ela –, nada poderá me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negócio de fotos. Não há garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? Não a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cá. Eu conhecia um número grande de mulheres. Por que esse negócio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos são excitantes, mas também dão um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre são um pouco dramáticos. As pessoas eram interessantes no início. Então mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeições e as demências começariam a se manifestar. Eu seria então cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tão bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexíveis e macias. Será que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de não envelhecer, não me sentir um caco? Eu só não queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu já havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saíram pelo portão.
Oh, tomara que não seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
– Eu sou a Mindy.
– Estou feliz que você seja a Mindy.
– Estou feliz que você seja o Chinaski.
– Você precisa pegar alguma bagagem?
– Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
– Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tônica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma ótima aparência, quase virginal. Era difícil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fácil olhá-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
– Bem – ela disse –, você está assustado?
– Agora nem tanto. Gosto de você.
– Você é bem melhor pessoalmente do que nas fotos – ela disse. – Não acho você nem um pouco feio.
– Obrigado.
– Oh, não quis dizer que você é bonito, não no sentido que as pessoas dão pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles são lindos. São selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. Não sou muito boa com as palavras.
– Acho que você é linda – eu disse. – E muito gentil. É bom estar perto de você. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. Você é como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso é bom demais. Isso simplesmente não é possível.
– Mulheres
1 221
Charles Bukowski
Enganando Marie
Era uma noite quente nas corridas de quarto de milha. Ted chegara trazendo duzentos dólares e agora, entrando no quarto páreo, estava com 530. Conhecia os cavalinhos. Talvez não fosse muito bom em nada mais, mas conhecia os cavalinhos. Ted ficou olhando o placar e as pessoas. Elas não tinham a menor capacidade para avaliar um cavalo. Mas mesmo assim trazem o seu dinheiro e seus sonhos para as pistas. O hipódromo tinha uma dupla de dois dólares em quase toda corrida para atraí-los. Isso e o Pick-6. Ted jamais escolhia o Pick-6 nem as duplas. Só a vitória direta no melhor cavalo, que não era necessariamente o favorito.
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida às corridas que ele só ia duas ou três vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade não havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxão na manga do paletó.
– Perdão, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que está fazendo. Quem prefere nessa próxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
– Bem – sorriu-lhe Ted –, eu geralmente prefiro o vencedor.
– Estou acostumada a jogar em puros-sangues – disse a ruiva. – Esses páreos de quarto de milha são muito rápidos!
– É. A maioria é corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rápido se acertou ou errou.
– Se minha mãe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
– Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto – disse Ted.
– Você não é desses, é? – ela perguntou.
– Brincadeira – disse Ted. – Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra você.
– Tudo bem, senhor...?
– Pode me chamar de Ted. E você, como se chama?
– Victoria.
Entraram no bar.
– Que vai tomar? – perguntou Ted.
– O que você tomar – disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
– Agora – disse Ted, apontando seu programa – na próxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e está dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um “Ooohhh...?” muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
– As pessoas não sabem avaliar uma corrida – ele disse. – Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
– Eu queria ter o que você tem.
– Você tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
– Oh, não, obrigada...
– Bem, escuta – disse Ted –, é melhor fazermos as apostas.
– Tudo bem, vou apostar dois dólares no vencedor. Qual é, o cavalo número quatro?
– É, boneca, é o quatro...
Fizeram suas apostas e saíram para assistir ao páreo. O quatro não largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aí começou a acelerar e chegou à linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dê essa!
– Oh – disse Victoria –, estou tão excitada!
O placar anunciou o número. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
– Nós ganhamos, nós ganhamos, nós GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
– Vá com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, só isso.
Esperaram o aviso oficial e aí o placar exibiu o pagamento. Quatorze dólares e sessenta.
– Quanto você apostou? – perguntou Victoria.
– Quarenta no vencedor – disse Ted.
– Quanto vai receber?
– Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichês. Então Ted sentiu a mão de Victoria na sua. Ela o fez parar.
– Se abaixe – ela disse –, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lábios róseos dela em sua orelha.
– Você é um... mágico... Eu quero... foder com você...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
– Deus do céu – disse.
– Que é que há? Está com medo?
– Não, não, não é isso.
– Que é que há então?
– É Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mínimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
– A gente sai agora! Vamos a um motel!
– Bem, claro – disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
– Vamos no meu carro. Eu trago você de volta quando a gente acabar – disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pôs a chave na porta, hesitou.
– Você não é mesmo um daqueles, é?
– Daqueles quais?
– Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mãe teve uma experiência terrível uma vez...
– Relaxe – ele disse. – Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilômetros do hipódromo. O Lua Azul. Só que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiã eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, não tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia já estar com tesão. Ele realmente não acreditava em sua sorte. Aí ela deu uma risadinha.
– Que foi? – ele perguntou.
– Está pensando em sua mulher?
– Bem, não, estava pensando em outra coisa.
– Bem, devia pensar em sua mulher...
– Diabos – disse Ted –, foi você quem sugeriu a foda!
– Eu gostaria que você não usasse essa palavra...
– Está recuando?
– Bem, não. Escuta, tem um cigarro?
– Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
– Você tem o corpo mais lindo que eu já vi – disse Ted.
– Eu não duvido – ela disse, sorrindo.
– Escuta, você está recuando dessa coisa? – ele perguntou.
– Claro que não – ela respondeu –, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas também sortudo – tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
– Sabe – ele disse –, você é um número de classe, mas eu também sou. Nós dois temos nossa própria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
– Oh, você é meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
– Escuta, se você não quiser, a gente não faz. Esqueça.
– Me deixa ver o que é que Buda tem aí...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
– Oh, oh... estou sentindo uma coisa... – disse.
– Claro... E daí?
Então ela baixou a cabeça. Beijou-o a princípio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a língua.
– Sua puta! – disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
– Por favor. Eu não gosto de palavrão.
– Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrão.
– Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a língua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitóris. Você quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lábio inferior, a dor foi terrível. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lábio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mão no outro lado. Encontrou-a lá embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridão.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
Então ouviu a voz dela.
– Sabe de uma coisa? – ela perguntou.
– Que é?
– Você me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
– Que quer dizer?
– Tudo acaba em dezoito segundos.
– A gente corre de novo, boneca – ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradável, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua própria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um número de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
– Victoria – disse –, posso tornar tudo bom pra você.
– Acho que você tem lá seus meios, Buda.
– E vou ser um amante melhor.
– Claro.
– Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durão, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
– Ora, vamos, Buda, não é tão ruim assim. Você tem uma esposa, você tem um monte de coisas a seu favor.
– Menos uma coisa – ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. – Menos a única coisa que eu quero mesmo...
– Veja o seu lábio! Está sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mão.
– Vou ao banheiro lavar isso, boneca, já volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a água, testando-a com a mão. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a água escorrendo dele. Via o sangue na água escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. Só precisava de uma mão forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. Não era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. Não entendiam que vencer não era uma experiência gloriosa, só necessária.
– Vamos com isso, Buda! – ouviu-a gritar. – Não me deixe aqui sozinha!
– Não demoro, boneca – ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distância entre os objetos comuns e entre os fatos era notável. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distância entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armário e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
Então viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: “ADEUS, BUDA!”
Ted tomou a bebida, depôs o copo e viu-se no espelho – muito gordo, muito velho. Não tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchão onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vívidas luzes de néon do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
– Numa fria
Marie enchia tanto o saco sobre sua ida às corridas que ele só ia duas ou três vezes por semana. Vendera sua empresa e se aposentara cedo do ramo da construção. Na verdade não havia muito mais coisas que ele pudesse fazer.
Os quatro cavalos pareciam bons a seis por um, mas ainda havia dezoito minutos para a chegada. Sentiu um puxão na manga do paletó.
– Perdão, senhor, mas eu perdi nas duas primeiras corridas. Vi o senhor trocando suas pules. O senhor parece exatamente um cara que sabe o que está fazendo. Quem prefere nessa próxima corrida?
Era uma ruiva, de uns 24 anos, quadris estreitos, seios surpreendentemente grandes, pernas compridas, um lindo narizinho arrebitado, boca de flor, usando um vestido azul-claro e sapatos brancos de saltos altos. Os olhos azuis dela olhavam-no de baixo para cima.
– Bem – sorriu-lhe Ted –, eu geralmente prefiro o vencedor.
– Estou acostumada a jogar em puros-sangues – disse a ruiva. – Esses páreos de quarto de milha são muito rápidos!
– É. A maioria é corrida em menos de dezoito segundos. A gente descobre muito rápido se acertou ou errou.
– Se minha mãe descobrisse que estou aqui perdendo meu dinheiro, ela me daria uma surra de cinto.
– Eu mesmo gostaria de lhe dar uma surra de cinto – disse Ted.
– Você não é desses, é? – ela perguntou.
– Brincadeira – disse Ted. – Vamos, vamos ao bar. Talvez a gente consiga escolher um vencedor pra você.
– Tudo bem, senhor...?
– Pode me chamar de Ted. E você, como se chama?
– Victoria.
Entraram no bar.
– Que vai tomar? – perguntou Ted.
– O que você tomar – disse Victoria.
Ele pediu dois Jack Daniels. De pé, ele virou o seu, e ela bebericou o dela, olhando direto em frente. Ted conferiu o traseiro dela: perfeito. Era melhor do que muita candidatazinha ao estrelato no cinema, e não parecia mimada.
– Agora – disse Ted, apontando seu programa – na próxima corrida o cavalo quatro aparece melhor, e está dando possibilidades de seis por um...
Victoria exalou um “Ooohhh...?” muito sexy. Curvou-se para olhar o programa dele, tocando-o com o braço. Depois ele sentiu a perna dela comprimir-se contra a sua.
– As pessoas não sabem avaliar uma corrida – ele disse. – Me mostre um cara que sabe avaliar uma corrida, que eu lhe mostro um cara que pode ganhar todo o dinheiro que possa levar.
Ela sorriu para ele.
– Eu queria ter o que você tem.
– Você tem muita coisa, boneca. Quer outra bebida?
– Oh, não, obrigada...
– Bem, escuta – disse Ted –, é melhor fazermos as apostas.
– Tudo bem, vou apostar dois dólares no vencedor. Qual é, o cavalo número quatro?
– É, boneca, é o quatro...
Fizeram suas apostas e saíram para assistir ao páreo. O quatro não largou bem, foi abalroado de ambos os lados, endireitou-se, ficou em quinto num campo de nove, mas aí começou a acelerar e chegou à linha cabeça a cabeça com o favorito de dois a um. Foto.
Porra, pensou Ted, eu tenho de ganhar essa. Por favor, me dê essa!
– Oh – disse Victoria –, estou tão excitada!
O placar anunciou o número. Quatro.
Victoria gritou e pulou de alegria.
– Nós ganhamos, nós ganhamos, nós GANHAMOS!
Agarrou Ted e ele sentiu o beijo no rosto.
– Vá com calma, boneca, o melhor cavalo venceu, só isso.
Esperaram o aviso oficial e aí o placar exibiu o pagamento. Quatorze dólares e sessenta.
– Quanto você apostou? – perguntou Victoria.
– Quarenta no vencedor – disse Ted.
– Quanto vai receber?
– Duzentos e noventa e dois. Vamos pegar.
Dirigiram-se para os guichês. Então Ted sentiu a mão de Victoria na sua. Ela o fez parar.
– Se abaixe – ela disse –, que eu quero dizer uma coisa em seu ouvido.
Ted abaixou-se, sentiu os frios lábios róseos dela em sua orelha.
– Você é um... mágico... Eu quero... foder com você...
Ele ficou ali parado sorrindo debilmente para ela.
– Deus do céu – disse.
– Que é que há? Está com medo?
– Não, não, não é isso.
– Que é que há então?
– É Marie... minha esposa... eu sou casado... e ela me controla no mínimo minuto. Sabe quando as corridas acabam e quando devo chegar.
Victoria deu uma risada.
– A gente sai agora! Vamos a um motel!
– Bem, claro – disse Ted...
Trocaram as pules e voltaram para o estacionamento.
– Vamos no meu carro. Eu trago você de volta quando a gente acabar – disse Victoria.
Foram ao carro dela, um Fiat azul 1982, combinando com o vestido. A placa dizia VICKY. Quando ela pôs a chave na porta, hesitou.
– Você não é mesmo um daqueles, é?
– Daqueles quais?
– Que batem com o cinto, um daqueles. Minha mãe teve uma experiência terrível uma vez...
– Relaxe – ele disse. – Eu sou inofensivo.
Encontraram um motel a pouco mais de dois quilômetros do hipódromo. O Lua Azul. Só que a Lua Azul estava pintada de verde. Victoria estacionou e saltaram, se registraram, deram-lhes o quarto 302. Tinham parado para pegar uma garrafa de Cutty Sark no caminho.
Ted rasgou a embalagem de celofane dos copos, acendeu um cigarro e serviu duas doses enquanto Victoria se despia. A calcinha e o sutiã eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, a maioria das outras, não tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor.
Victoria estava nua. Aproximou-se e sentou-se na borda da cama junto a Ted. Cruzou as pernas. Tinha os seios firmes e parecia já estar com tesão. Ele realmente não acreditava em sua sorte. Aí ela deu uma risadinha.
– Que foi? – ele perguntou.
– Está pensando em sua mulher?
– Bem, não, estava pensando em outra coisa.
– Bem, devia pensar em sua mulher...
– Diabos – disse Ted –, foi você quem sugeriu a foda!
– Eu gostaria que você não usasse essa palavra...
– Está recuando?
– Bem, não. Escuta, tem um cigarro?
– Claro...
Ted pegou um, entregou a ela, acendeu-o e ela o manteve na boca.
– Você tem o corpo mais lindo que eu já vi – disse Ted.
– Eu não duvido – ela disse, sorrindo.
– Escuta, você está recuando dessa coisa? – ele perguntou.
– Claro que não – ela respondeu –, tire a roupa.
Ted começou a despir-se, sentindo-se gordo, velho e feio, mas também sortudo – tinha sido seu melhor dia nas corridas, em muitos aspectos. Dobrou suas roupas numa cadeira e sentou-se junto a Victoria.
Serviram mais um drinque para cada um.
– Sabe – ele disse –, você é um número de classe, mas eu também sou. Nós dois temos nossa própria maneira de mostrar isso. Eu faturei uma nota no ramo da construção, e ainda estou faturando nas corridas. Nem todo mundo tem esse instinto.
Victoria bebeu metade de seu Cutty Sark e sorriu para ele.
– Oh, você é meu grande Buda gordo!
Ted enxugou a sua bebida.
– Escuta, se você não quiser, a gente não faz. Esqueça.
– Me deixa ver o que é que Buda tem aí...
Victoria baixou o braço e enfiou a mão entre as pernas dele. Pegou-o, segurou-o.
– Oh, oh... estou sentindo uma coisa... – disse.
– Claro... E daí?
Então ela baixou a cabeça. Beijou-o a princípio. Depois ele sentiu que ela abria a boca, e a língua.
– Sua puta! – disse.
Victoria ergueu a cabeça e olhou-o.
– Por favor. Eu não gosto de palavrão.
– Tudo bem, Vicky, tudo bem. Nada de palavrão.
– Se meta entre os lençóis, Buda.
Ted se meteu e sentiu o corpo dela junto ao seu. A pele era fria, e a boca abriu-se e ele a beijou e enfiou a língua. Gostava daquilo assim, fresco, com o frescor da primavera, jovem, novo, bom. Que prazer do caralho. Ia lascar ela ao meio! Masturbou-a, ela demorou muito para gozar. Depois ele a sentiu abrir-se e enfiou o dedo. Pegara-a, a puta. Puxou o dedo e esfregou o clitóris. Você quer aquecimento, vai ter aquecimento!, pensou.
Sentiu os dentes dela enterrarem-se em seu lábio inferior, a dor foi terrível. Ted afastou-se, sentindo o gosto do sangue e a ferida no lábio. Ergueu-se pela metade e deu-lhe um tapa no rosto, depois com as costas da mão no outro lado. Encontrou-a lá embaixo, enfiou e estocou, pondo a boca de volta na dela. Prosseguiu em selvagem vingança, de vez em quando recuando a cabeça e olhando-a. Tentou segurar, se conter, e agora via aquela nuvem de cabelos cor de morango espalhados no travesseiro ao luar.
Ted gemia e suava como um ginasiano. Era aquilo. Nirvana. O lugar a se alcançar. Victoria continuava calada. Os gemidos de Ted foram diminuindo, e então, após um instante, ele rolou para o lado.
Ficou fitando a escuridão.
Esqueci de chupar os peitos dela, pensou.
Então ouviu a voz dela.
– Sabe de uma coisa? – ela perguntou.
– Que é?
– Você me lembra um daqueles cavalos de quarto de milha.
– Que quer dizer?
– Tudo acaba em dezoito segundos.
– A gente corre de novo, boneca – ele disse...
Ela foi ao banheiro. Ted limpou-se no lençol, o velho profissional. Victoria era uma coisa meio desagradável, de certa forma. Mas podia ser manobrada. Ele tinha alguma coisa. Quantos homens eram donos de sua própria casa e tinham 150 mil paus no banco na sua idade? Ele era um número de classe, e ela sabia disso muito bem.
Victoria saiu do banheiro ainda parecendo fresca, intocada, quase virginal. Ted acendeu o abajur de cabeceira. Sentou-se e serviu dois drinques. Ela sentou-se na beira da cama com sua bebida e ele desceu e sentou-se na beira da cama junto dela.
– Victoria – disse –, posso tornar tudo bom pra você.
– Acho que você tem lá seus meios, Buda.
– E vou ser um amante melhor.
– Claro.
– Escuta, devia ter me conhecido quando eu era jovem. Era durão, mas bom. Eu tinha aquilo. Ainda tenho.
Ela sorriu para ele.
– Ora, vamos, Buda, não é tão ruim assim. Você tem uma esposa, você tem um monte de coisas a seu favor.
– Menos uma coisa – ele disse, enxugando sua bebida e olhando-a. – Menos a única coisa que eu quero mesmo...
– Veja o seu lábio! Está sangrando!
Ted baixou o olhar para seu copo. Viu gotas de sangue na bebida e sentiu o sangue escorrendo pelo queixo. Limpou o queixo com as costas da mão.
– Vou ao banheiro lavar isso, boneca, já volto.
Entrou no banheiro, correu a porta do chuveiro e abriu a água, testando-a com a mão. Parecia mais ou menos no ponto e ele entrou, a água escorrendo dele. Via o sangue na água escorrendo para o ralo. Que gata selvagem. Só precisava de uma mão forte.
Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata. Perdera a intensidade da juventude. Não era culpa dela. Talvez ele pudesse arranjar um meio de continuar com Marie e ter Victoria por fora. Victoria renovava sua juventude. Precisava de uma porra de uma renovação. E de mais umas boas fodas como aquela. Claro, as mulheres eram todas loucas. Não entendiam que vencer não era uma experiência gloriosa, só necessária.
– Vamos com isso, Buda! – ouviu-a gritar. – Não me deixe aqui sozinha!
– Não demoro, boneca – ele gritou debaixo do chuveiro. Ensaboou-se bem, lavando tudo.
Depois saiu, enxugou-se, abriu a porta do banheiro e foi para o quarto.
O quarto de motel estava vazio. Ela se fora.
A distância entre os objetos comuns e entre os fatos era notável. De repente, ele viu as paredes, o tapete, a cama, as cortinas, a mesa de café, a penteadeira, o cinzeiro com os cigarros deles. A distância entre essas coisas era imensa. O então e o agora estavam anos-luz separados.
Num impulso, ele correu para o armário e abriu a porta. Nada além de cabides.
Então Ted percebeu que suas roupas haviam desaparecido. A roupa de baixo, a camisa, as calças, as chaves do carro e a carteira, seu dinheiro, seus sapatos, suas meias, tudo.
Em outro impulso, olhou embaixo da cama. Nada.
Então viu a garrafa de Cutty Sark, pela metade, sobre a penteadeira, e aproximou-se, pegou-a e serviu-se uma dose. E ao fazer isso viu duas palavras riscadas no espelho da penteadeira com batom cor-de-rosa: “ADEUS, BUDA!”
Ted tomou a bebida, depôs o copo e viu-se no espelho – muito gordo, muito velho. Não tinha ideia do que fazer em seguida.
Levou o Cutty Sark de volta para a cama, sentou-se pesadamente na beira do colchão onde ele e Victoria tinham-se sentado juntos. Ergueu a garrafa e sugou-a, enquanto as vívidas luzes de néon do boulevard entravam pelas persianas empoeiradas.
Ficou sentado, olhando para fora, sem se mover, vendo os carros passarem de um lado para outro.
– Numa fria
1 143
Charles Bukowski
A Dama do Castelo
ela morava numa casa
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
que parecia um
castelo
e quando você entrava
os tetos eram tão absolutamente
altos
e eu era pobre
e aquilo tudo
me fascinava
bastante.
ela
já não era
jovem
mas tinha
volumosos
cabelos
que praticamente
desciam até os
tornozelos
e
eu pensava em
como seria
estranho
transar
em meio a todo aquele
cabelo.
fui até lá
diversas vezes
no meu velho
carro
e ela tinha refinadas
bebidas para
servir
e ficávamos sentados
mas eu nunca
conseguia chegar efetivamente
perto dela
e embora eu não
forçasse
nada
algo na ideia de
não
nos conectarmos
de fato machucava o meu
ego
pois por mais feio que eu fosse
eu sempre havia
tido sorte com as
mulheres.
isso me confundia
e creio que
eu precisava
daquilo.
ela gostava de
falar sobre
as artes e
sobre
criação cinematográfica
e ouvir
tudo aquilo
só me fazia
beber
mais.
por fim
eu
simplesmente
desisti
dela
e um bom ano
ou algo assim
havia passado
quando
certa noite
o telefone
tocou: era a
dama.
“eu quero ir aí ver
você”, ela disse.
“estou escrevendo agora, pegando
fogo... não posso receber
ninguém...”
“eu só quero fazer uma
visita, não vou incomodar você,
vou só ficar no sofá,
vou dormir no sofá,
não vou incomodar você...”
“NÃO! MEU DEUS DO CÉU,
NÃO POSSO RECEBER NINGUÉM!”
eu desliguei.
a dama que estava efetivamente
no sofá
disse “ah, você está todo
MOLE agora!”
“é.”
“vem aqui...”
ela envolveu meu pênis
com a mão
botou a língua
para fora
e aí
parou.
“o que você está escrevendo?”
“nada... estou com bloqueio de
escritor...”
“só podia... seus canos estão
entupidos... você precisa de uma
esvaziada...”
então ela botou meu pau na
boca
e aí o telefone tocou
de novo...
furioso
eu corri até o
telefone
e
atendi.
era a dama do
castelo:
“escuta, não vou incomodar você,
você nem vai notar a minha
presença...”
“SUA PUTA, EU TÔ GANHANDO UM
BOQUETE!”
eu desliguei e
voltei.
a outra dama estava indo
em direção à
porta.
“qual é o problema?”, eu
perguntei.
“eu DETESTO essa
palavra!”
“que palavra?”
“BOQUETE!”, ela
gritou.
ela bateu a porta e
foi embora...
eu fui até onde estava
a máquina de escrever
coloquei uma folha nova
no rolo.
era uma
da manhã.
fiquei ali sentado e
bebi scotch e
cerveja pra tirar o gosto
fumei charutos
baratos.
3:15 da manhã
ainda estava sentado
ali
reacendendo velhos
tocos de charuto e
bebendo ale.
a folha
nova continuava
em branco.
eu desliguei as
luzes
me arrastei na direção
do quarto
tratei de me atirar na
cama
roupas ainda
no corpo
dava para ouvir a água da privada
correndo
mas eu não conseguia me levantar
para fechar a alavanca
e dar fim àquele
som
meus malditos canos estavam
entupidos.
1 327
Charles Bukowski
Pobreza
é o homem que você nunca viu que
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
1 129
Charles Bukowski
Um Romance Literário
conheci-a de algum jeito por meio de correspondência ou poesia ou revistas
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
1 127
Charles Bukowski
De Graça
esta garota na arquibancada
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
1 113
Charles Bukowski
Scarlet
fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
1 271
Charles Bukowski
M.T.
M.T.[1]
ela morava em Galveston e fazia
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
1 136
Charles Bukowski
Chicago
“consegui,” ela disse, “apareci.”
ela estava com botas novas, calças
e um suéter branco. “agora eu sei
o que eu quero.” ela era de Chicago e
havia se mudado para o distrito de Fairfax, L.A.
“você me prometeu champanhe,”
ela disse.
“eu estava bêbado quando liguei. que tal uma
cerveja?”
“não, me passa seu baseado.”
ela tragou, soltou:
“não é lá grande coisa”.
e me devolveu.
“há uma diferença”, eu disse, “entre
fazer a coisa e simplesmente ficar duro.”
“gosta das minhas botas?”
“sim, bem legais.”
“escuta, tenho que ir. posso usar
o banheiro?”
“claro.”
quando ela voltou tinha a boca muito
pintada de batom. eu não via uma assim
desde que era garoto.
beijei-a a caminho da porta
sentindo o batom grudar em meus
lábios.
“tchau” ela disse.
“tchau” eu disse.
caminhou pela passagem até o carro.
eu fechei a porta.
ela sabia o que queria e não era
eu.
conheço mais mulheres desse tipo do que de
qualquer outro.
ela estava com botas novas, calças
e um suéter branco. “agora eu sei
o que eu quero.” ela era de Chicago e
havia se mudado para o distrito de Fairfax, L.A.
“você me prometeu champanhe,”
ela disse.
“eu estava bêbado quando liguei. que tal uma
cerveja?”
“não, me passa seu baseado.”
ela tragou, soltou:
“não é lá grande coisa”.
e me devolveu.
“há uma diferença”, eu disse, “entre
fazer a coisa e simplesmente ficar duro.”
“gosta das minhas botas?”
“sim, bem legais.”
“escuta, tenho que ir. posso usar
o banheiro?”
“claro.”
quando ela voltou tinha a boca muito
pintada de batom. eu não via uma assim
desde que era garoto.
beijei-a a caminho da porta
sentindo o batom grudar em meus
lábios.
“tchau” ela disse.
“tchau” eu disse.
caminhou pela passagem até o carro.
eu fechei a porta.
ela sabia o que queria e não era
eu.
conheço mais mulheres desse tipo do que de
qualquer outro.
1 261
Manuel Bandeira
Volta
Enfim te vejo. Enfim no teu
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
1 061
Marina Colasanti
IA NO RUMO DE SEVILHA
Subi o Guadalquivir
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.
Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.
Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
1 137
Allen Ginsberg
Para um velho poeta no Peru
Porque nos encontramos ao escurecer
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!
19 de Maio de 1960
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!
19 de Maio de 1960
940
Pablo Neruda
Ode E Germinações
I
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?
Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.
II
Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.
III
Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
1 465
Pablo Neruda
(H.V.)
Aconteceu-me com aquele fulano
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
1 109
Pablo Neruda
Chegaram Uns Argentinos
Chegaram uns argentinos,
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
1 129
Pablo Neruda
Em Pleno Mês de Junho
Em pleno mês de Junho
me aconteceu uma mulher,
melhor uma laranja.
Está confuso o panorama.
Bateram à porta,
era uma lufada,
um látego de luz,
uma tartaruga ultravioleta,
a via com lentidão de telescópio,
como se longe fosse ou habitasse
esta vestidura de estrela,
e por erro do astrônomo
houvesse entrado em minha casa.
me aconteceu uma mulher,
melhor uma laranja.
Está confuso o panorama.
Bateram à porta,
era uma lufada,
um látego de luz,
uma tartaruga ultravioleta,
a via com lentidão de telescópio,
como se longe fosse ou habitasse
esta vestidura de estrela,
e por erro do astrônomo
houvesse entrado em minha casa.
1 124