Poemas neste tema
Esperança e Otimismo
Natália Correia
O espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
2 357
Angela Melim
Um amor impossível
para Márcia
Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste,
sim.
Um amor impossível pode ser amanhã.
Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste,
sim.
Um amor impossível pode ser amanhã.
1 357
Cristina Lacerda
Sobrevida
A terra não sorri
mas ampara meus passos
de hoje sofrer
me lembro do que é cíclico
os dias de chumbo
a lama do fundo
lamber a lembrança
de pequenos relâmpagos
sofrer sofreguidão
- só isso?
reinventar o mesmo
em tudo o que se ama
lembrar feridas
e perfumes dos momentos
essa minha curta longa vida
involuntária
é assim aos tropeços
e se há esquinas onde
às vezes me firo tanto
é porque é preciso
e se tateia na dor
o despertar da ânsia viva
vislumbre de algum
futuro encanto
o resto é concreto muro
cinza, rachado e duro
que o sonho
não está onde é sonhado
mas onde é pensado
com insistência e arte
esse o rito
içar a dor sombria
e se fazer ao mar
como alguém que ao ficar
finge que parte
mas ampara meus passos
de hoje sofrer
me lembro do que é cíclico
os dias de chumbo
a lama do fundo
lamber a lembrança
de pequenos relâmpagos
sofrer sofreguidão
- só isso?
reinventar o mesmo
em tudo o que se ama
lembrar feridas
e perfumes dos momentos
essa minha curta longa vida
involuntária
é assim aos tropeços
e se há esquinas onde
às vezes me firo tanto
é porque é preciso
e se tateia na dor
o despertar da ânsia viva
vislumbre de algum
futuro encanto
o resto é concreto muro
cinza, rachado e duro
que o sonho
não está onde é sonhado
mas onde é pensado
com insistência e arte
esse o rito
içar a dor sombria
e se fazer ao mar
como alguém que ao ficar
finge que parte
935
Angela Santos
Utopia
O
sonho mais longínquo
ou a mais utópica meta
se alcançam à força de tanto querer
o longe de mim se acerca
e o sonho irrompe em verdade
se for o querer bastante,
se minha alma crescer
e derrubar os limites
da mais crua realidade
Uma estrela pode então
não ser apenas o ponto
que brilha distante no espaço sideral
mas essa coisa bonita
que colho na luz dos teus olhos
ou o calor de hélio puro
que explode no meu coração.
sonho mais longínquo
ou a mais utópica meta
se alcançam à força de tanto querer
o longe de mim se acerca
e o sonho irrompe em verdade
se for o querer bastante,
se minha alma crescer
e derrubar os limites
da mais crua realidade
Uma estrela pode então
não ser apenas o ponto
que brilha distante no espaço sideral
mas essa coisa bonita
que colho na luz dos teus olhos
ou o calor de hélio puro
que explode no meu coração.
1 021
Angela Santos
Alma-Gémea
Tu
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada
Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.
Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada
Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.
Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.
1 093
Angela Santos
Adivinhação
Sei
que esse dia virá
dia em que aconteça tudo
riso, beijo, afago, amor, prazer...
e saudade, se houver ..só do futuro
sei que o dia virá
e em silencio eu vou olhar
o que era sonho dormindo
e era sonho ao acordar.....
o dia já vem
eu sei...
e um sussurro de mulher
vai-me dizer porque a quis
porque a trouxe em mim guardada
esse tempo de espera
sem medida.
que esse dia virá
dia em que aconteça tudo
riso, beijo, afago, amor, prazer...
e saudade, se houver ..só do futuro
sei que o dia virá
e em silencio eu vou olhar
o que era sonho dormindo
e era sonho ao acordar.....
o dia já vem
eu sei...
e um sussurro de mulher
vai-me dizer porque a quis
porque a trouxe em mim guardada
esse tempo de espera
sem medida.
1 059
Angela Santos
Celebração
O
dia virá
ao dobrar duma esquina
onde a espera se fez longa
e os dias escritos correram
sem se cumprir
O dia virá
e longe as incertezas plenas nossas vidas
beberão da luz que as inundará
Esse dia virá
como um dia de festa para que o mundo saiba
do querer que emergiu e nos faz sentir
que a alma a par anda
e que a um só compasso
bate o coração que nos comanda
dia virá
ao dobrar duma esquina
onde a espera se fez longa
e os dias escritos correram
sem se cumprir
O dia virá
e longe as incertezas plenas nossas vidas
beberão da luz que as inundará
Esse dia virá
como um dia de festa para que o mundo saiba
do querer que emergiu e nos faz sentir
que a alma a par anda
e que a um só compasso
bate o coração que nos comanda
1 193
Angela Santos
Poema Azul
No seio da tempestade,
cambaleando, eu, entre escombros, foi
que os teus olhos azul safira, surgindo do nada,
se ofereceram aos meus
E agora o teu nome enche a minha boca
com o sabor de maduras pitangas
colhidas na invernia destes dias
quando nada a colheita anunciava
falo o teu nome e lembro os teus olhos
quando o deserto se me afigura,
nada pergunto, saber para quê..
se o sentido obscuro do acontecer,
ágil se esgueira e dilui de razões...
vivo a descompasso e de adiamentos
não sei do lugar
tão pouco de um tempo para o vivermos,
e dos fios que a vida tecem, eu não sei...
sei do brilho diamantino de um olhar
sei do lume que o nosso peito acalenta
sei dos passos pouco a pouco
no chão riscando um caminho...
tão pouco é o que sei e por ora é bastante
saber que por esse tão pouco existimos.
cambaleando, eu, entre escombros, foi
que os teus olhos azul safira, surgindo do nada,
se ofereceram aos meus
E agora o teu nome enche a minha boca
com o sabor de maduras pitangas
colhidas na invernia destes dias
quando nada a colheita anunciava
falo o teu nome e lembro os teus olhos
quando o deserto se me afigura,
nada pergunto, saber para quê..
se o sentido obscuro do acontecer,
ágil se esgueira e dilui de razões...
vivo a descompasso e de adiamentos
não sei do lugar
tão pouco de um tempo para o vivermos,
e dos fios que a vida tecem, eu não sei...
sei do brilho diamantino de um olhar
sei do lume que o nosso peito acalenta
sei dos passos pouco a pouco
no chão riscando um caminho...
tão pouco é o que sei e por ora é bastante
saber que por esse tão pouco existimos.
1 323
Angela Santos
Inesperadamente
Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
634
Angela Santos
Estrada de Luz
Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
1 099
Angela Santos
Ilha dos Amores
Se
eu pudesse
olharia lá no fundo dos teus olhos,
segurava tuas mãos e te deixava envolver-me
no doce abraço que me desses...
abriríamos nosso peito, e sem surpresa acharíamos
o vermelho botão de rosa
que o tempo em nós fez florir...
e assim embarcaríamos rumo à Ilha dos Amores...
nossas mãos entrelaçadas,
nosso coração fremente,
nosso corpo em desalinho, buscando o voo mais alto
que nos faz pairar no tempo....
esse momento vivido, quase como eternidade,
em que alma e corpo unidos, num abraço intemporal,
nos trará a redenção de uma espera que forjou
nosso querer, nosso sentir...
E é por isso que agora
quando daqui olho o mar
o longe vira horizonte...
já não separa, aproxima
e se o sol nele se põe, eu vejo então reflectida
a clara luz que o tempo
me há- de trazer à vida.
eu pudesse
olharia lá no fundo dos teus olhos,
segurava tuas mãos e te deixava envolver-me
no doce abraço que me desses...
abriríamos nosso peito, e sem surpresa acharíamos
o vermelho botão de rosa
que o tempo em nós fez florir...
e assim embarcaríamos rumo à Ilha dos Amores...
nossas mãos entrelaçadas,
nosso coração fremente,
nosso corpo em desalinho, buscando o voo mais alto
que nos faz pairar no tempo....
esse momento vivido, quase como eternidade,
em que alma e corpo unidos, num abraço intemporal,
nos trará a redenção de uma espera que forjou
nosso querer, nosso sentir...
E é por isso que agora
quando daqui olho o mar
o longe vira horizonte...
já não separa, aproxima
e se o sol nele se põe, eu vejo então reflectida
a clara luz que o tempo
me há- de trazer à vida.
646
Angela Santos
Epifania
Des-obliterando uma palavra
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança
1 070
Eduardo Valente da Fonseca
Ó vagarosa noite
Ó vagarosa noite a vir de manso
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!
profunda e densa pela cidade toda.
A estas horas onde em outros lados
floresce amoroso o sol por sobre terras?
Ó alegria de me ser em tudo.
ó humildes irmãos do grande mundo
deitados sobre o sonho como quem
aguarda o belo tempo de haver tudo!
1 012
Angela Santos
Rumores
Sentem-se os rumores
os gestos que anunciam
a liberdade que chega
e se faz anunciar
no tempo em que tudo irrompe
e renasce à flor da terra
E do corpo ressalta a chama
a vivacidade que sai
pelos poros, pelo coração
e uma serenidade fluida se improvisa
nos gestos em tom de azul…
Lembram - se os dias de sol
agosto vivo no meu tempo,
quando só a Primavera
emerge na sagração
E há odes de luz e som
que se derramam dos olhos
que bebem já do futuro
pressentido a cada passo
que leva mais adiante
O teu sonho em mim guardado
como corpo em gestação
este sentir já um só
este cruzar de destino
o mesmo sonho, o mesmo caminho.
os gestos que anunciam
a liberdade que chega
e se faz anunciar
no tempo em que tudo irrompe
e renasce à flor da terra
E do corpo ressalta a chama
a vivacidade que sai
pelos poros, pelo coração
e uma serenidade fluida se improvisa
nos gestos em tom de azul…
Lembram - se os dias de sol
agosto vivo no meu tempo,
quando só a Primavera
emerge na sagração
E há odes de luz e som
que se derramam dos olhos
que bebem já do futuro
pressentido a cada passo
que leva mais adiante
O teu sonho em mim guardado
como corpo em gestação
este sentir já um só
este cruzar de destino
o mesmo sonho, o mesmo caminho.
1 154
Angela Santos
Imprevisto
Como
se de repente
se fizesse luz
e os meus olhos sedentos
ali fossem beber
Como se de repente
eu segurasse o fio de Ariadne
e mergulhasse no azul do dia
deixando para trás as sombras dos
labirintos
Como se de repente
eu visse um caminho
e soubesse
porquê, para quê
e cada manhã anunciasse
uma razão renovada.
De imprevisto,
assim, tão de repente
tudo era claridade
e eu via
qual era o caminho
enquanto caminhava.
se de repente
se fizesse luz
e os meus olhos sedentos
ali fossem beber
Como se de repente
eu segurasse o fio de Ariadne
e mergulhasse no azul do dia
deixando para trás as sombras dos
labirintos
Como se de repente
eu visse um caminho
e soubesse
porquê, para quê
e cada manhã anunciasse
uma razão renovada.
De imprevisto,
assim, tão de repente
tudo era claridade
e eu via
qual era o caminho
enquanto caminhava.
1 246
Angela Santos
Fio de Ariadne
Depois
da raiva que abriu sulcos
e rasgou fendas
epois da dor que antecedeu as lágrimas
depois da noite que encheu
as noites brancas
depois do cansaço de dias
sempre iguais…
talvez que um brilho de estrelas
vindo, sei lá, de Orion
se prenda ao meu olhar…
Talvez que livre de amarras,
e por dentro dos sentidos,
um navio se perfile
na senda de um sol - nascente…
Talvez que o simples cheiro
que a terra exala me chame
e eu fique presa a ela
por um fio de Ariadne.
da raiva que abriu sulcos
e rasgou fendas
epois da dor que antecedeu as lágrimas
depois da noite que encheu
as noites brancas
depois do cansaço de dias
sempre iguais…
talvez que um brilho de estrelas
vindo, sei lá, de Orion
se prenda ao meu olhar…
Talvez que livre de amarras,
e por dentro dos sentidos,
um navio se perfile
na senda de um sol - nascente…
Talvez que o simples cheiro
que a terra exala me chame
e eu fique presa a ela
por um fio de Ariadne.
974
Angela Santos
Inscrição
Por
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
669
Angela Santos
Eclosão
Cativa
no meu peito
uma ave se abriga
nos meus olhos, crescendo
a fome de cores que não vejo
e nas minhas mãos
que abro ao sol de outono
as sementes por plantar
guardo ainda…
E na corrente sem lei
que o meu sangue percorre,
a força de Eros vive adormecida
esperando o dia ou então o sinal
que o desperte e chame à dança da vida.
no meu peito
uma ave se abriga
nos meus olhos, crescendo
a fome de cores que não vejo
e nas minhas mãos
que abro ao sol de outono
as sementes por plantar
guardo ainda…
E na corrente sem lei
que o meu sangue percorre,
a força de Eros vive adormecida
esperando o dia ou então o sinal
que o desperte e chame à dança da vida.
1 177
Angela Santos
Eco-Lógica
Antes
que anunciem
que o último raio de luz
se propaga,
despindo os olhos de cores
que iluminam,
colhe e perpétua
nos olhos e no coração
uma centelha de sol matinal.
Os deuses deste tempo
prometem cavernas
e longas invernias.
que anunciem
que o último raio de luz
se propaga,
despindo os olhos de cores
que iluminam,
colhe e perpétua
nos olhos e no coração
uma centelha de sol matinal.
Os deuses deste tempo
prometem cavernas
e longas invernias.
1 131
Angela Santos
Orientação
Ainda
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
1 182
Angela Santos
Ponte
Suspensos
ainda ontem,
sonhos
fugidias sombras, hoje
perdem-se à míngua de razão
Prenhe outro sonho
se agiganta entre ruínas
ponte lançada
entre o eu
e o futuro de mim.
derradeiro sobre-humano gesto
empurrando o que em nós se gera na rebelião
o que resiste e ensaia
a coragem que esmaga todos os nãos.
ainda ontem,
sonhos
fugidias sombras, hoje
perdem-se à míngua de razão
Prenhe outro sonho
se agiganta entre ruínas
ponte lançada
entre o eu
e o futuro de mim.
derradeiro sobre-humano gesto
empurrando o que em nós se gera na rebelião
o que resiste e ensaia
a coragem que esmaga todos os nãos.
970
Angela Santos
Aspiração
Que
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…
Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…
Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.
1 224
Hilda Hilst
IX
Ilharga,
osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mesmo assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.
osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mesmo assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.
1 752