Poemas neste tema
Infância
Corrêa da Silva
Poema do Garoto Anônimo
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que nasce nos quartos miseráveis dos cortiços
e que fica analfabeto,
por não ter um livro para estudar...
Garoto que não conhece o pai, não sabe o seu nome
e que é filho de uma dessa mulheres pálidas e tristes;
mulheres magras e maltrapilhas;
mulheres que tossem muito
e que têm as mãos calejadas de tanto trabalhar...
Garoto de "cabelo de espeta-goiaba",
camisa de meia listrada
e calça de riscado bem grosso...
Garoto que não tem nem cubos
e nem patins
nem bicicletas
e nem trens de ferro para brincar...
E que esquecido do resto do mundo,
fica, horas inteiras, sentado nas calçadas,
"pixando" castanhas para as "borrocas";
jogando "marta" para dar bolos...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que brinca nas velhas praças,
sob a luz tranqüila das estrelas,
o "Ganzola", o "Leitão Queimado" e o "Boca de Forno"...
Garoto que com os seus "alçapões" e as suas "baladeiras"
é o terror da passarada do Apicum e da Quinta do Barão...
Garoto que às vezes vira pintor
e doido de alegria,
longamente,
arbitrariamente,
desenha com carvão calungas
gozadíssimos
nos muros caiados de novo
ou então risca de giz
os lindos azulejos dos sobradões coloniais...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que rouba frutas
dos quintais dos vizinhos e dos tabuleiros dos vendedores,
para matar a fome que o atormenta...
Garoto que, "sem querer", quebra com uma pedrada
a vidraça do bangalô do dr. Fulano de Tal
e depois, guinchando
assobiando
vaiando,
corre,
foge,
desaparece,
mal surge à esquina o primeiro guarda...
Garoto que, nos estribos de todos os bondes,
trepa e salta,
até um dia — coitado! — perder as pernas...
Garoto que não tem medo da lama
e descalço,
molhado,
tremendo de frio,
tira caranguejo
na Camboa do Mato e na Fonte do Bispo...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que nasce nos quartos miseráveis dos cortiços
e que fica analfabeto,
por não ter um livro para estudar...
Garoto que não conhece o pai, não sabe o seu nome
e que é filho de uma dessa mulheres pálidas e tristes;
mulheres magras e maltrapilhas;
mulheres que tossem muito
e que têm as mãos calejadas de tanto trabalhar...
Garoto de "cabelo de espeta-goiaba",
camisa de meia listrada
e calça de riscado bem grosso...
Garoto que não tem nem cubos
e nem patins
nem bicicletas
e nem trens de ferro para brincar...
E que esquecido do resto do mundo,
fica, horas inteiras, sentado nas calçadas,
"pixando" castanhas para as "borrocas";
jogando "marta" para dar bolos...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que brinca nas velhas praças,
sob a luz tranqüila das estrelas,
o "Ganzola", o "Leitão Queimado" e o "Boca de Forno"...
Garoto que com os seus "alçapões" e as suas "baladeiras"
é o terror da passarada do Apicum e da Quinta do Barão...
Garoto que às vezes vira pintor
e doido de alegria,
longamente,
arbitrariamente,
desenha com carvão calungas
gozadíssimos
nos muros caiados de novo
ou então risca de giz
os lindos azulejos dos sobradões coloniais...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
Garoto que rouba frutas
dos quintais dos vizinhos e dos tabuleiros dos vendedores,
para matar a fome que o atormenta...
Garoto que, "sem querer", quebra com uma pedrada
a vidraça do bangalô do dr. Fulano de Tal
e depois, guinchando
assobiando
vaiando,
corre,
foge,
desaparece,
mal surge à esquina o primeiro guarda...
Garoto que, nos estribos de todos os bondes,
trepa e salta,
até um dia — coitado! — perder as pernas...
Garoto que não tem medo da lama
e descalço,
molhado,
tremendo de frio,
tira caranguejo
na Camboa do Mato e na Fonte do Bispo...
Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...
769
Celso Novais
Canto de confissão e louvor à minha mãe
Pousa tua mão o meu rosto
Como fazia outrora - minha mãe,
Eu sou o mesmo menino antigo
Que te precisa.
A vida, com seu livro aberto diante de nós
Nos contempla, como querendo julgar-nos,
A mim por não ter sido fiel ao teu amor
A ti pelo teu amor incomparável.
Talvez agora, tornado homem, possa eu
Levar-te pela mão devagarinho
Com todo ardor enternecente
Com que me fazias passear nas tardes,
Talvez o mundo que venha a te mostrar
Não sejas aquele que sonhaste para mim,
Mas não faz mal, mãe, eu também me enganei...
Uma coisa porém é fundamental:
Não devemos ficar à margem,
Alheios ou neutros - temos de participar,
Pois todo aquele que lava as mãos
Não enxuga as culpas.
Como fazia outrora - minha mãe,
Eu sou o mesmo menino antigo
Que te precisa.
A vida, com seu livro aberto diante de nós
Nos contempla, como querendo julgar-nos,
A mim por não ter sido fiel ao teu amor
A ti pelo teu amor incomparável.
Talvez agora, tornado homem, possa eu
Levar-te pela mão devagarinho
Com todo ardor enternecente
Com que me fazias passear nas tardes,
Talvez o mundo que venha a te mostrar
Não sejas aquele que sonhaste para mim,
Mas não faz mal, mãe, eu também me enganei...
Uma coisa porém é fundamental:
Não devemos ficar à margem,
Alheios ou neutros - temos de participar,
Pois todo aquele que lava as mãos
Não enxuga as culpas.
559
José Costa Matos
Louvação a André Breton
(A Mentira das Aparências Sensoriais)
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
892
Cleonice Rainho
Luisinho
Na manhã de luz
e "deveres para casa",
preso no apartamento,
Luisinho, tonto, não sabe
controlar o pensamento.
Faz subir às paredes
árvores, passarinhos
e põe no chão a nadar
lindos peixinhos.
Olha a altura do teto
pensa e pergunta enfim:
— Será que cabem na sala
as palmeiras do jardim?
Do campo da imaginação
vem uma bola pulando
entre cadernos e livros.
E o menino erra as contas,
desalinha a escrita
e feia torna a letra bonita.
Depois sobe no patinete,
rodando sobre o carpete,
logo tirando um fininho...
Porque a mãe aparece,
zanga e ralha com Luisinho
que quer estudar e brincar
ao mesmo tempo!... Bobinho,
ele ainda não aprendeu
que cada coisa tem hora
e tem também seu lugar.
e "deveres para casa",
preso no apartamento,
Luisinho, tonto, não sabe
controlar o pensamento.
Faz subir às paredes
árvores, passarinhos
e põe no chão a nadar
lindos peixinhos.
Olha a altura do teto
pensa e pergunta enfim:
— Será que cabem na sala
as palmeiras do jardim?
Do campo da imaginação
vem uma bola pulando
entre cadernos e livros.
E o menino erra as contas,
desalinha a escrita
e feia torna a letra bonita.
Depois sobe no patinete,
rodando sobre o carpete,
logo tirando um fininho...
Porque a mãe aparece,
zanga e ralha com Luisinho
que quer estudar e brincar
ao mesmo tempo!... Bobinho,
ele ainda não aprendeu
que cada coisa tem hora
e tem também seu lugar.
903
Cleonice Rainho
O Sorvete
Colorido, gostoso
este meu sorvete!
Seguro a casquinha
e bebo a doçura
que desce de leve
para dentro de mim.
Meu estômago está alegre
como meu coração:
— dois lindos morangos.
este meu sorvete!
Seguro a casquinha
e bebo a doçura
que desce de leve
para dentro de mim.
Meu estômago está alegre
como meu coração:
— dois lindos morangos.
1 224
Camilo Mota
Alegorias de roda
Olhos infantis
na roda gigante fitos
nada investigam:
quiçá uma vertigem sentem.
que mais sentiriam
se a orquestra em peso
derramasse giros coloridos
sobre a cidade em chamas?
o uivo da ex-secretária
desprende-se alado
sobre túmulos concêntricos.
na roda gigante fitos
nada investigam:
quiçá uma vertigem sentem.
que mais sentiriam
se a orquestra em peso
derramasse giros coloridos
sobre a cidade em chamas?
o uivo da ex-secretária
desprende-se alado
sobre túmulos concêntricos.
910
Cleonice Rainho
Carrossel
Upa, meu cavalinho,
deixemos os patos pra trás.
Carrinhos, podem parar.
Upa, meu cavalinho,
nosso círculo não pode fechar.
Com a crina vermelha ao vento,
galopa no espaço, comendo ar.
Seu eixo é nosso desejo,
suas patas livres a alegria
dos meninos do parque
que, no seu dorso liso,
galopando, galopando
sobre a terra e o mar,
o mundo querem ganhar.
deixemos os patos pra trás.
Carrinhos, podem parar.
Upa, meu cavalinho,
nosso círculo não pode fechar.
Com a crina vermelha ao vento,
galopa no espaço, comendo ar.
Seu eixo é nosso desejo,
suas patas livres a alegria
dos meninos do parque
que, no seu dorso liso,
galopando, galopando
sobre a terra e o mar,
o mundo querem ganhar.
1 087
Cleonice Rainho
Meu Presépio
Ponho o Menino
que é o principal.
Faço estradinhas,
levanto montinhos,
coloco as pedras
e muitas plantas,
o poço dágua
em bom lugar.
O galo bem no alto
para cantar Cocoricó!
Espalho os carneirinhos
e paro pensando:
— Eu queria ser o pastor
para conversar com eles.
que é o principal.
Faço estradinhas,
levanto montinhos,
coloco as pedras
e muitas plantas,
o poço dágua
em bom lugar.
O galo bem no alto
para cantar Cocoricó!
Espalho os carneirinhos
e paro pensando:
— Eu queria ser o pastor
para conversar com eles.
1 122
Cleonice Rainho
As Tias
Tenho mais tias
que as titias,
irmãs da mãe e do pai.
Vejam só:
uma tia me ensina
a dançar,
outra me ensina
a rezar,
uma senta comigo
para historinhas
contar,
outra me olha
a brincar,
uma...
outra...
Mas, a tia
de quem mais gosto...
— Posso falar?
É a que mostra
as sementinhas das letras
e me faz ler e estudar.
que as titias,
irmãs da mãe e do pai.
Vejam só:
uma tia me ensina
a dançar,
outra me ensina
a rezar,
uma senta comigo
para historinhas
contar,
outra me olha
a brincar,
uma...
outra...
Mas, a tia
de quem mais gosto...
— Posso falar?
É a que mostra
as sementinhas das letras
e me faz ler e estudar.
1 393
Cleonice Rainho
O Trenzinho
Num cartaz vermelho,
colei um trenzinho
pintado de branco.
Tem muitos carros
com suas rodinhas
e a maquininha
espetacular,
correndo nos trilhos
xeque-xeque... sem parar.
Carrega flores, frutas,
até mantimentos
para o brinquedo
de comidinhas
e as mobílias
das nossas casinhas
de comadres.
Carrega as bonecas
que gostam muito
de passear.
Ano que vem
vou para a escola
e ele vai pesar...
— digo à mamãe.
E ela responde:
— Não vai não,
seu leve sonho de criança
faz o trenzinho até voar.
colei um trenzinho
pintado de branco.
Tem muitos carros
com suas rodinhas
e a maquininha
espetacular,
correndo nos trilhos
xeque-xeque... sem parar.
Carrega flores, frutas,
até mantimentos
para o brinquedo
de comidinhas
e as mobílias
das nossas casinhas
de comadres.
Carrega as bonecas
que gostam muito
de passear.
Ano que vem
vou para a escola
e ele vai pesar...
— digo à mamãe.
E ela responde:
— Não vai não,
seu leve sonho de criança
faz o trenzinho até voar.
1 347
Cleonice Rainho
Manequinho
Mecânico, automático,
parece um menino verdadeiro
este boneco engraçadinho
que batizei de Manequinho.
Anda, olha, trabalha,
cumpre ordens
como escravo,
fala, gargalha
e dá até berro.
Só não aprendeu a sorrir
com seus lábios e dentes
de ferro.
Dei um beliscão nele
não pegou,
dei um biscoito
nem ligou.
E é gordo e robusto, como é!
pois só come e consome
energia elétrica, não é ?!
Fico horas observando este robô
que está sempre comigo:
— Quero ver se ele sabe ser amigo
parece um menino verdadeiro
este boneco engraçadinho
que batizei de Manequinho.
Anda, olha, trabalha,
cumpre ordens
como escravo,
fala, gargalha
e dá até berro.
Só não aprendeu a sorrir
com seus lábios e dentes
de ferro.
Dei um beliscão nele
não pegou,
dei um biscoito
nem ligou.
E é gordo e robusto, como é!
pois só come e consome
energia elétrica, não é ?!
Fico horas observando este robô
que está sempre comigo:
— Quero ver se ele sabe ser amigo
1 175
Cleonice Rainho
Brinquedo
O dado no dedo,
o dedo no dado.
Conto os pontos:
um-dois-três-
quatro-cinco-seis.
As bolinhas
bem redondinhas
em cada lado.
Atiro um punhado
de cada vez.
O branco no preto,
o preto no branco
do quadradinho.
Não sei se de osso,
madeira ou marfim,
os dados deste saquinho
que mamãe comprou pra mim.
o dedo no dado.
Conto os pontos:
um-dois-três-
quatro-cinco-seis.
As bolinhas
bem redondinhas
em cada lado.
Atiro um punhado
de cada vez.
O branco no preto,
o preto no branco
do quadradinho.
Não sei se de osso,
madeira ou marfim,
os dados deste saquinho
que mamãe comprou pra mim.
1 156
Cleonice Rainho
Lição de Mitologia
Era deus com d pequeno
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
dizia o pai — o deus Apolo —
porque com D grande
só o Deus verdadeiro
— Senhor do mundo inteiro.
Foi deus da luz, da beleza,
da juventude. E protegia
a dança, música e poesia.
Manejava bem flecha e lira
a pé, em passos ritmados
ou em carros puxados
por cavalos brancos
de rédeas de ouro.
Herói de muitas batalhas,
dono de templos,
vivia o presente
e o futuro conhecia,
capaz de qualquer magia.
Mas, gostava mesmo
era de bailar no ar
e tocar e cantar
para encantar os homens...
— E por que ele não volta? —
interrompia o menino
ao pai que respondia:
— Apolo é mito ou lenda
que conhecemos da Mitologia.
1 084
Cleonice Rainho
Peixinhos
À beira dágua calminha,
o aquário mais natural,
eu paro olhando os peixinhos
que brilham como cristal.
Entre o verde e humildes flores
observo meus amiguinhos
que, alegres, nadam, entrando
e saindo de seus cantinhos.
Armo casinha com torres
e sobre uma pedra ponho:
— é o palácio dos peixes
e meu castelo de sonho.
A ver quem vai ser o rei,
no espelho dágua mirando,
de cada qual o jeitinho,
com que prazer vou notando!
Parece pepita de ouro
um pequeno, o Douradinho;
magro e comprido o Agulhinha
e Bolinha, o gorduchinho.
Assim, esses peixes lindos,
na manhã vou batizando,
mas, vejo que vão e voltam
só nadando... só nadando...
Sem nomes, sonhos, palácios,
fugindo à rede e ao anzol,
as nadadeiras abrindo,
festejam a luz do sol.
Por Isso, ao voltar do rio,
me comparo aos amiguinhos
tão simples e naturais
que querem ser só peixinhos...
o aquário mais natural,
eu paro olhando os peixinhos
que brilham como cristal.
Entre o verde e humildes flores
observo meus amiguinhos
que, alegres, nadam, entrando
e saindo de seus cantinhos.
Armo casinha com torres
e sobre uma pedra ponho:
— é o palácio dos peixes
e meu castelo de sonho.
A ver quem vai ser o rei,
no espelho dágua mirando,
de cada qual o jeitinho,
com que prazer vou notando!
Parece pepita de ouro
um pequeno, o Douradinho;
magro e comprido o Agulhinha
e Bolinha, o gorduchinho.
Assim, esses peixes lindos,
na manhã vou batizando,
mas, vejo que vão e voltam
só nadando... só nadando...
Sem nomes, sonhos, palácios,
fugindo à rede e ao anzol,
as nadadeiras abrindo,
festejam a luz do sol.
Por Isso, ao voltar do rio,
me comparo aos amiguinhos
tão simples e naturais
que querem ser só peixinhos...
1 637
Cleonice Rainho
Lembrança
Neste cesto oval,
umas graúdas,
outras miúdas
as mangas... um visual
muito especial.
A casca verde, rosada,
amarela ou pintada
envolve a fruta saborosa
e tão carnosa
que põe linha nos dentes
e esconde as sementes
— cada caroção!
Espada, espadinha,
rosa, a de ubá
e a carlotinha...
Tanta fartura
da fruta madura
traz ao apartamento
nossa casa de quintal
— a linda mangueira
onde papai certa vez
alegre gangorra fez:
meu brinquedo de criança
que ainda agora me balança
neste belo cesto oval.
umas graúdas,
outras miúdas
as mangas... um visual
muito especial.
A casca verde, rosada,
amarela ou pintada
envolve a fruta saborosa
e tão carnosa
que põe linha nos dentes
e esconde as sementes
— cada caroção!
Espada, espadinha,
rosa, a de ubá
e a carlotinha...
Tanta fartura
da fruta madura
traz ao apartamento
nossa casa de quintal
— a linda mangueira
onde papai certa vez
alegre gangorra fez:
meu brinquedo de criança
que ainda agora me balança
neste belo cesto oval.
1 031
Chacal
Na porta lá de casa
Na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.
4 603
Chico Buarque
Até pensei
Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
2 604
Claudia Moraes Rego
No seu colo
Cabeça no seu colo
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.
Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.
Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.
1 042
Cleonice Rainho
Quintal de Sonho
A menina dorme
e uma cortina
branca e leve
cobre seus olhos
no quarto enorme
e sem paredes.
Crescem cenouras, tomates,
rabanetes, beterrabas,
legumes coloridos
que colorem sua cabeça
num quintal de Sonho,
na horta do Amor
que não precisa de adubo,
nem de enxada,
nem de capinador.
A menina acorda
à hora da colheita
e dá "Bom-dia!"
aos lindos legumes
que não vai comer.
São da horta do Amor
e um a um vai oferecer.
e uma cortina
branca e leve
cobre seus olhos
no quarto enorme
e sem paredes.
Crescem cenouras, tomates,
rabanetes, beterrabas,
legumes coloridos
que colorem sua cabeça
num quintal de Sonho,
na horta do Amor
que não precisa de adubo,
nem de enxada,
nem de capinador.
A menina acorda
à hora da colheita
e dá "Bom-dia!"
aos lindos legumes
que não vai comer.
São da horta do Amor
e um a um vai oferecer.
1 224
Cleonice Rainho
Dúvida
Pelo alegre bosque,
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.
Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.
Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.
Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.
Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.
1 087
Castro Alves
Na Margem
"Vamos! Vamos! Aqui por entre os juncos
Ei-la a canoa em que eu pequena outrora
Voava nas maretas... Quando o vento,
Abrindo o peito à camisinha úmida,
Pela testa enrolava-me os cabelos,
Ela voava qual marreca brava
No dorso crespo da feral enchente!
Voga, minha canoa! Voga ao largo!
Deixa a praia, onde a vaga morde os juncos
Como na mata os caititus bravios...
Filha das ondas! andorinha arisca!
Tu, que outrora levavas minha infância
— Pulando alegre no espumante dorso
Dos cães-marinhos a morder-te a proa, —
Leva-me agora a mocidade triste
Pelos ermos do rio ao longe... ao longe..."
Assim dizia a Escrava...
Iam caindo
Dos dedos do crepúsclo os véus de sombra,
Com que a terra se vela como noiva
Para o doce himeneu das noites límpidas ...
Lá no meio do rio, que cintila,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa.
Parecia, assim vista ao sol poente,
Esses ninhos, que tombam sobre o rio,
E onde em meio das flores vão chilrando
— Alegres sobre o abismo — os passarinhos!...
............................................
Tu — guardas algum segredo?...
Maria, stás a chorar!
Onde vais? Por que assim foges,
Rio abaixo a deslizar?
Pedra — não tens o teu musgo?
Não tens um favônio — flor?
Estrela — não tens um lago?
Mulher — não tens um amor?
Ei-la a canoa em que eu pequena outrora
Voava nas maretas... Quando o vento,
Abrindo o peito à camisinha úmida,
Pela testa enrolava-me os cabelos,
Ela voava qual marreca brava
No dorso crespo da feral enchente!
Voga, minha canoa! Voga ao largo!
Deixa a praia, onde a vaga morde os juncos
Como na mata os caititus bravios...
Filha das ondas! andorinha arisca!
Tu, que outrora levavas minha infância
— Pulando alegre no espumante dorso
Dos cães-marinhos a morder-te a proa, —
Leva-me agora a mocidade triste
Pelos ermos do rio ao longe... ao longe..."
Assim dizia a Escrava...
Iam caindo
Dos dedos do crepúsclo os véus de sombra,
Com que a terra se vela como noiva
Para o doce himeneu das noites límpidas ...
Lá no meio do rio, que cintila,
Como o dorso de enorme crocodilo,
Já manso e manso escoa-se a canoa.
Parecia, assim vista ao sol poente,
Esses ninhos, que tombam sobre o rio,
E onde em meio das flores vão chilrando
— Alegres sobre o abismo — os passarinhos!...
............................................
Tu — guardas algum segredo?...
Maria, stás a chorar!
Onde vais? Por que assim foges,
Rio abaixo a deslizar?
Pedra — não tens o teu musgo?
Não tens um favônio — flor?
Estrela — não tens um lago?
Mulher — não tens um amor?
2 589
Castro Alves
No Fonte
I
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
"ERA HOJE ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.
II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como ua moça a brincar.
III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.
IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!
V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no baleeiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi? ! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.
VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s’entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro dágua cair.
VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só! ...
VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"
2 132
Castro Alves
A Órfã na Sepultura
Minha mãe, a noite é fria,
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.
Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?
Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...
Sentei-me junto ao teu leito,
Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.
Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.
Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.
Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...
Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez f iz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:
"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,
"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;
"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;
"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;
"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.
"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."
Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".
Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.
Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
Pra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...
E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.
É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.
Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta
Minha mãe... meu céu... meu Deus...
Desce a neblina sombria,
Geme o riacho no val
E a bananeira farfalha,
Como o som de uma mortalha
Que rasga o gênio do mal.
Não vês que noite cerrada?
Ouviste essa gargalhada
Na mata escura? ai de mim!
Mãe, ó mãe, tremo de medo.
Oh! quando enfim teu segredo,
Teu segredo terá fim?
Foi ontem que à Ave-Maria
O sino da freguesia,
Me fez tanto soluçar.
Foi ontem que te calaste...
Dormiste . . os olhos fechaste...
Nem me fizeste rezar! ...
Sentei-me junto ao teu leito,
Stava tão frio o teu peito,
Que eu fui o fogo atiçar.
Parece que então me viste
Porque dormindo sorriste
Como uma santa no altar.
Depois o fogo apagou-se,
Tudo no quarto calou-se,
E eu também calei-me então.
Somente acesa uma vela
Triste, de cera amarela,
Tremia na escuridão.
Apenas nascera o dia,
À voz do maridedia
Saltei contente de pé.
Cantavam os passarinhos
Que fabricavam seus ninhos
No telhado de sapé.
Porém tu, por que dormias,
Por que já não me dizias
"Filha do meu coração?"
Stavas aflita comigo?
Mãe, abracei-me contigo,
Pedi-te embalde perdão...
Chorei muito! ai triste vida!
Chorei muito, arrependida
Do que talvez f iz a ti.
Depois rezei ajoelhada
A reza da madrugada
Que tantas vezes te ouvi:
"Senhor Deus, que após a noite
"Mandas a luz do arrebol,
"Que vestes a esfarrapada
"Com o manto rico do sol,
"Tu que dás à flor o orvalho,
"Às aves o céu e o ar,
"Que dás as frutas ao galho,
"Ao desgraçado o chorar;
"Que desfias diamantes
"Em cada raio de luz,
"Que espalhas flores de estrelas
"Do céu nos campos azuis;
"Senhor Deus, tu que perdoas
"A toda alma que chorou,
"Como a clícia das lagoas,
"Que a água da chuva lavou;
"Faze da alma da inocente
"O ninho do teu amor,
"Verte o orvalho da virtude
"Na minha pequena flor.
"Que minha filha algum dia
"Eu veja livre e feliz! ...
"Ó Santa Virgem Maria,
"Sê mãe da pobre infeliz."
Inda lembras-te! dizias,
Sempre que a reza me ouvias
Em prantos de a sufocar:
"Ai! têm orvalhos as flores,
"Tu, filha dos meus amores,
"Tens o orvalho do chorar".
Mas hoje sempre sisuda
Me ouviste... ficaste muda,
Sorrindo não sei pra quem.
Quase então que eu tive medo...
Parecia que um segredo
Dizias baixinho a alguém.
Depois... depois... me arrastaram...
Depois... sim... te carregaram
Pra vir te esconder aqui.
Eu sozinha lá na sala...
Stava tão triste a senzala...
Mãe, para ver-te eu fugi...
E agora, ó Deus!... se te chamo
Não me respondes!... se clamo,
Respondem-me os ventos suis...
No leito onde a rosa medra
Tu tens por lençol a pedra,
Por travesseiro uma cruz.
É muito estreito esse leito?
Que importa? abre-me teu peito
— Ninho infinito de amor.
— Palmeira — quero-te a sombra.
— Terra — dá-me a tua alfombra.
— Santo fogo — o teu calor.
Mãe, minha voz já me assusta...
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra... desperta!...
Ou dá-me a mesma coberta
Minha mãe... meu céu... meu Deus...
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