Poemas neste tema
Infância
Castro Alves
A Tarde
Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E daraponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que sembuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.
Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas ...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tímidas, medrosas desposadas;
E a pedra... a flor... as selvas ... os condores
Gaguejam... falam... cantam seus amores!
Hora meiga da Tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela.
Que te rola da espádua refulgente...
E, — prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...
Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martírio excruciante;
E, se não te dá mais da infância o grito
Que menino elevava-te arrogante,
É que agora os martírios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos! ...
Mas não mesqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaíba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!. . .
E os abraços fogosos da baunilha! ...
E te amei tanto - cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, —
A lustrar o broquei das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto — à flor das águas frias
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares! ...
Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para então, — do relâmpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte, --
Contemplando o infinito. . ., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!!!
Lá da crista das serras mais remotas...
E daraponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que sembuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.
Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas ...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tímidas, medrosas desposadas;
E a pedra... a flor... as selvas ... os condores
Gaguejam... falam... cantam seus amores!
Hora meiga da Tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela.
Que te rola da espádua refulgente...
E, — prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...
Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martírio excruciante;
E, se não te dá mais da infância o grito
Que menino elevava-te arrogante,
É que agora os martírios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos! ...
Mas não mesqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaíba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!. . .
E os abraços fogosos da baunilha! ...
E te amei tanto - cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, —
A lustrar o broquei das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto — à flor das águas frias
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares! ...
Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para então, — do relâmpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte, --
Contemplando o infinito. . ., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!!!
3 912
Alexei Bueno
O Bordado Cruel
Quando era noite, atrás daquela porta,
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.
E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.
Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,
E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.
Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo
Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...
Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,
E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.
E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,
Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,
E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.
Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,
E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores
E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,
Todo o amargor das profecias mortas!
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.
E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.
Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,
E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.
Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo
Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...
Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,
E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.
E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,
Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,
E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.
Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,
E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores
E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,
Todo o amargor das profecias mortas!
1 404
Castro Alves
Menina e Moça
(Versos para o &bum de D. MAxiA
JOAQUINA DA SILVA Freire.)
MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.
Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.
Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.
Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!
Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.
Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!
Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...
Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...
JOAQUINA DA SILVA Freire.)
MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.
Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.
Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.
Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!
Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.
Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!
Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...
Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...
3 907
Bráulio de Abreu
Pássaros
O espaço era cheio de asas
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
porque os pássaros chegaram
As árvores estremeceram
porque os pássaros pousaram.
O silêncio fugiu
porque os pássaros cantaram.
Sonho, por que vieste em forma de asas?
Desejo, por que vieste em forma de pouso sutil?
Esperança, por que vieste em forma de canto?
E os pássaros partiram...
E com eles, o pássaro da Infância,
O pássaro da Juventude,
O pássaro da Mocidade.
Quando o silêncio retornou,
só havia o pássaro da Velhice:
veio para ficar.
1 017
Castro Alves
A Criança
Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou loiseau merveilleux?
Ami, dit lenfant grec, dit lenfant aux yeux bleus,
Je veux de Ia poudre et des balles.
VICTOR HUGO (Les Orientales)
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
Ami, dit lenfant grec, dit lenfant aux yeux bleus,
Je veux de Ia poudre et des balles.
VICTOR HUGO (Les Orientales)
Que tens criança? O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento.
É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade, és a aurora da existência,
Quero ver-te brilhar.
Canta, criança, és a ave da inocência.
Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso — a estrela no horizonte da alma.
Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir... pobre criança!...
Que queres, infeliz?...
— Amigo, eu quero o ferro da vingança.
1 778
Brasigóis Felício
As sementes da Poesia
"Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com uma flauta."Para que lhe servirá?", perguntaram-lhe. "Para aprender esta ária antes de morrer". As-sim vivem e morrem, os poetas, os avatares e os profetas. "Fosse possível nascer, nasceria em Pirenópolis. Fosse possível, morreria em Caldas Novas", escreveu o poeta e escritor Luiz de Aquino Alves Neto, que hoje, com orgulho, re-cebemos na casa de Colemar Natal e Silva. São assim, os poetas, os avatares e os profetas. Se a pátria de cada um é sua infância, os lugares de que temos mais saudades são aqueles em que fomos felizes. Assim são os poetas que, como Luiz de Aquino, só aprenderam a falar e a dis-tinguir as coisas e as pessoas pela linguagem do amor. E quem fala de amor merece a sua prote-ção, escreveu o jornalista Paulo Siqueira, sobre as razões da semente e da lírica e amorosa poe-sia desde goiano que, quando está em Caldas Novas, tem saudades de Pirenópolis, e quando está em Pirenópolis, tem saudades de Caldas Novas. São assim os poetas, criaturas que têm saudades do futuro. Mário de Andrade sempre morou na rua Lopes Chaves, e nunca soube quem foi Lopes Chaves. São assim, poetas como Luiz de Aquino. Cristãos que cantam no suplício, dedicam-se a aprender árias, em velu-dosas vozes, e violões enluarados, mesmo sabendo que estão a poucos minutos de enfrentar o olhar de aço do carrasco. O poeta tem apenas duas mãos, e o sentimento do mundo. Por isso, como Drummond, pede, a quem ama: "O pre-sente é tão grande, tão imensa a realidade. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas".
Assim escreveu Luiz de Aquino, sobre as raízes da frondosa e generosa árvore em que busca transformar-se, como ser humano, e como criador: "Meu pai tem mãos de amaciar violão (feito as de Rabelo e Reny, Marcelo e João Bosco). Minha mãe tem mãos-carinho (como as de Mel e Iliana, de Zaira e Mariana). Tenho mãos de escrever poemas de amor e coisas afins. O mundo tem mãos que espancam e afagam, esculpem e coloram. As de Reny fazem sons, as de meu pai criam acordes, despertam amores, acalentam dores, adormecem temores e saudades. As minhas molham-se em molhos sensuais. Tenho mãos que amansam vãos". É assim, emotiva, e saudosa de suas raízes, a poe-sia de Luiz, que hoje recebemos, jubilosos. E como o poeta conhece e decifra, sem medo, a linguagem do amor, sabe, como a poetisa Re-nata Pallotini, que para amar, de verdade, é pre-ciso ter a suprema coragem de atirar nossas coi-sas para o mar, e partir sem bagagem. Quem, como Luiz de Aquino, teve a coragem kamikaze de vender poesias de amor, de bar em bar, aos casais de namorados, sabe que a vida, a literatu-ra e o amor, só valem se fizerem parte de um único projeto. Por absurdo que pareça, disse Guimarães Rosa, três dias antes de morrer (acabara de tomar posse na Academia Brasileira de Letras), a gente nasce, vive e morre. E, como se estivesse a adivinhar o fim próximo, de sua vida e obra, assinalou: "Esta vida horária não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos".
Mas o que tem a ver, tanto devaneio poético, com as sisudas e bem comportadas pala-vras, que devem constar de uma saudação aca-dêmica?, poderão alguns indagar. Se é verdade que as melhores palavras de um poeta são os seus próprios poemas, entendo que a linguagem mais apropriada, para saudar um poeta, é a que vibra, e se manifesta em seus próprios poemas. Se o que nós amamos verdadeiramente perma-nece, sendo entulho, todo o resto, então, para quem decifra a aventura de viver aprendendo a ária de silêncio das palavras, só o que couber na dimensão mágica da poesia tem razão e sentido. Assim sendo, não me escuso por brandir, aqui, mais a minha lira do que meus frágeis saberes acadêmicos; até porque, como bem disse o po-eta Gabriel Nascente, "A poesia não pede licen-ça pra chegar".
Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Caldas Novas, na praça da Matriz, em uma ca-sinha já demolida, onde se construiu, há mais de 20 anos, uma confortável morada, onde hoje funciona uma butique. Coisa da especulação turística. Era sábado, 15 de setembro de 1945, um pouco mais de um mês após os americanos detonarem, sobre Hiroshima e Nagazaki, as du-as primeiras bombas atômicas, que atiraram a humanidade nos horrores e no dantesco espetá-culo da guerra nuclear. O poeta acha que, aba-lado pela explosão do mundo, nasceu turrão. "Sou alegre e maleável até que alguém pise, distraidamente ou por querer, no nervo que os-tento na cauda". A Caldas Novas seu pai che-gou em 1940, buscando trabalho. Dois de seus tios maternos moravam lá e já desfrutavam de certa influência inexpressiva na corrutela que, 26 anos depois, despontaria como o mais pro-missor pólo turístico do Brasil Central. Ele vi-nha de Pirenópolis e — isto é curioso — pelo lado materno descende de Martinho Coelho de Siqueira, o descobridor das águas termais no findar do século XVIII.
O clima, em sua casa, no período de 45 a 56, fazia jus à raiz musical, vinda de seu avô. O pai de Luiz, Israel de Aquino, trouxe, de Pire-nópolis, a habilidade para executar, ao violão, valsas e modinhas bem ao gosto da época. Ali, aos 17 anos, encontrou um rapaz de sua idade, moço, dotado de rara inteligência e que, apaixo-nado por música e artes, conseguiu a façanha de estudar música por correspondência: José Pinto Neto, que já está do outro lado da vida. Com Zé Pinto, seu pai formou a mais marcante dupla da vida boêmia de Caldas Novas. Aos quatro anos de idade, Luiz de Aquino acompanhou os seresteiros, em sua primeira serenata. As letras das músicas (sempre antigas), eram transcritas em letra bonita, em cadernos de capa dura. Ele se lembra de ver José Pinto afastar o sax para vomitar, tanto tinha bebido. Mas a responsabili-dade do instrumentista não lhe permitia, com toda a cachaça, vomitar no instrumento. As se-renatas, tirando o período de dez aos dezessete anos, foram marcantes, em sua vida, até quando, aos 33 anos, teve a voz afetada por papilomas vocais. Por esta ocasião, o poeta empunhava, todo lampeiro, um cavaquinho que, então, teve de aposentar. "Eram comuns, as rodas musicais em minha casa. Eram viajantes que apreciavam música, eram juízes ou promotores com voca-ções musicais, que vinham buscar a companhia do meu velho, Zé Pinto sempre ao lado. E meu pai era convidado permanente para as festas de família, ou mesmo as quermesses da igreja, ape-sar de maçom. Cresci, pois, aprendendo letras de valsas e modinhas. A leitura, conheci-a nas práticas de minha mãe. Quando aprendi a ler, antes dos cinco anos, apaixonei-me pelos gibis e os lia todos, da coleção do primo Rogério. Não demorou para que eu fosse cortado dos jogos de bola ao lado da igreja, porque jamais podiam contar comigo. Era descuidarem, e eu me es-condia na casa de tia Dorinha para ler gibis".
Foram belos e difíceis, seus anos de giná-sio, no Rio. Em português, adotava-se o mesmo livro para todos os quatro anos do ginásio: an-tologia, organizada pelo professor Clóvis Mon-teiro, diretor do colégio, que viria a falecer justo naquele ano de 1958, seu primeiro ano ginasial. Foi nesse livro que tomou contato definitivo com textos literários, tanto em prosa como em verso: "No Pedro II, ensinava-se gramática pela literatura. Uma professora, particularmente, marcou minha vida: Maria Helena Silveira, de quem nunca mais tive notícias. Ela tinha um defeito físico, aquela corcunda com protuberân-cia no osso externo, o que chamam de peito-de-pombo. Foi, talvez, a personalidade mais linda que conheci na adolescência, exemplo de ho-nestidade intelectual e integridade ética". No quarto ano, para ensinar História do Brasil, che-gou o mais famoso poeta brasileiro da época, J.G. de Araújo Jorge. Com ele Luiz aprendeu, quem sabe, a cantar em poesia as paixões que, é claro, são um capítulo à parte, na vida de todos (ou quase todos) os poetas: "Minha primeira paixão era uma garotinha do primário, colega de classe, com quem jamais troquei uma palavra sequer. E
Assim escreveu Luiz de Aquino, sobre as raízes da frondosa e generosa árvore em que busca transformar-se, como ser humano, e como criador: "Meu pai tem mãos de amaciar violão (feito as de Rabelo e Reny, Marcelo e João Bosco). Minha mãe tem mãos-carinho (como as de Mel e Iliana, de Zaira e Mariana). Tenho mãos de escrever poemas de amor e coisas afins. O mundo tem mãos que espancam e afagam, esculpem e coloram. As de Reny fazem sons, as de meu pai criam acordes, despertam amores, acalentam dores, adormecem temores e saudades. As minhas molham-se em molhos sensuais. Tenho mãos que amansam vãos". É assim, emotiva, e saudosa de suas raízes, a poe-sia de Luiz, que hoje recebemos, jubilosos. E como o poeta conhece e decifra, sem medo, a linguagem do amor, sabe, como a poetisa Re-nata Pallotini, que para amar, de verdade, é pre-ciso ter a suprema coragem de atirar nossas coi-sas para o mar, e partir sem bagagem. Quem, como Luiz de Aquino, teve a coragem kamikaze de vender poesias de amor, de bar em bar, aos casais de namorados, sabe que a vida, a literatu-ra e o amor, só valem se fizerem parte de um único projeto. Por absurdo que pareça, disse Guimarães Rosa, três dias antes de morrer (acabara de tomar posse na Academia Brasileira de Letras), a gente nasce, vive e morre. E, como se estivesse a adivinhar o fim próximo, de sua vida e obra, assinalou: "Esta vida horária não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos".
Mas o que tem a ver, tanto devaneio poético, com as sisudas e bem comportadas pala-vras, que devem constar de uma saudação aca-dêmica?, poderão alguns indagar. Se é verdade que as melhores palavras de um poeta são os seus próprios poemas, entendo que a linguagem mais apropriada, para saudar um poeta, é a que vibra, e se manifesta em seus próprios poemas. Se o que nós amamos verdadeiramente perma-nece, sendo entulho, todo o resto, então, para quem decifra a aventura de viver aprendendo a ária de silêncio das palavras, só o que couber na dimensão mágica da poesia tem razão e sentido. Assim sendo, não me escuso por brandir, aqui, mais a minha lira do que meus frágeis saberes acadêmicos; até porque, como bem disse o po-eta Gabriel Nascente, "A poesia não pede licen-ça pra chegar".
Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Caldas Novas, na praça da Matriz, em uma ca-sinha já demolida, onde se construiu, há mais de 20 anos, uma confortável morada, onde hoje funciona uma butique. Coisa da especulação turística. Era sábado, 15 de setembro de 1945, um pouco mais de um mês após os americanos detonarem, sobre Hiroshima e Nagazaki, as du-as primeiras bombas atômicas, que atiraram a humanidade nos horrores e no dantesco espetá-culo da guerra nuclear. O poeta acha que, aba-lado pela explosão do mundo, nasceu turrão. "Sou alegre e maleável até que alguém pise, distraidamente ou por querer, no nervo que os-tento na cauda". A Caldas Novas seu pai che-gou em 1940, buscando trabalho. Dois de seus tios maternos moravam lá e já desfrutavam de certa influência inexpressiva na corrutela que, 26 anos depois, despontaria como o mais pro-missor pólo turístico do Brasil Central. Ele vi-nha de Pirenópolis e — isto é curioso — pelo lado materno descende de Martinho Coelho de Siqueira, o descobridor das águas termais no findar do século XVIII.
O clima, em sua casa, no período de 45 a 56, fazia jus à raiz musical, vinda de seu avô. O pai de Luiz, Israel de Aquino, trouxe, de Pire-nópolis, a habilidade para executar, ao violão, valsas e modinhas bem ao gosto da época. Ali, aos 17 anos, encontrou um rapaz de sua idade, moço, dotado de rara inteligência e que, apaixo-nado por música e artes, conseguiu a façanha de estudar música por correspondência: José Pinto Neto, que já está do outro lado da vida. Com Zé Pinto, seu pai formou a mais marcante dupla da vida boêmia de Caldas Novas. Aos quatro anos de idade, Luiz de Aquino acompanhou os seresteiros, em sua primeira serenata. As letras das músicas (sempre antigas), eram transcritas em letra bonita, em cadernos de capa dura. Ele se lembra de ver José Pinto afastar o sax para vomitar, tanto tinha bebido. Mas a responsabili-dade do instrumentista não lhe permitia, com toda a cachaça, vomitar no instrumento. As se-renatas, tirando o período de dez aos dezessete anos, foram marcantes, em sua vida, até quando, aos 33 anos, teve a voz afetada por papilomas vocais. Por esta ocasião, o poeta empunhava, todo lampeiro, um cavaquinho que, então, teve de aposentar. "Eram comuns, as rodas musicais em minha casa. Eram viajantes que apreciavam música, eram juízes ou promotores com voca-ções musicais, que vinham buscar a companhia do meu velho, Zé Pinto sempre ao lado. E meu pai era convidado permanente para as festas de família, ou mesmo as quermesses da igreja, ape-sar de maçom. Cresci, pois, aprendendo letras de valsas e modinhas. A leitura, conheci-a nas práticas de minha mãe. Quando aprendi a ler, antes dos cinco anos, apaixonei-me pelos gibis e os lia todos, da coleção do primo Rogério. Não demorou para que eu fosse cortado dos jogos de bola ao lado da igreja, porque jamais podiam contar comigo. Era descuidarem, e eu me es-condia na casa de tia Dorinha para ler gibis".
Foram belos e difíceis, seus anos de giná-sio, no Rio. Em português, adotava-se o mesmo livro para todos os quatro anos do ginásio: an-tologia, organizada pelo professor Clóvis Mon-teiro, diretor do colégio, que viria a falecer justo naquele ano de 1958, seu primeiro ano ginasial. Foi nesse livro que tomou contato definitivo com textos literários, tanto em prosa como em verso: "No Pedro II, ensinava-se gramática pela literatura. Uma professora, particularmente, marcou minha vida: Maria Helena Silveira, de quem nunca mais tive notícias. Ela tinha um defeito físico, aquela corcunda com protuberân-cia no osso externo, o que chamam de peito-de-pombo. Foi, talvez, a personalidade mais linda que conheci na adolescência, exemplo de ho-nestidade intelectual e integridade ética". No quarto ano, para ensinar História do Brasil, che-gou o mais famoso poeta brasileiro da época, J.G. de Araújo Jorge. Com ele Luiz aprendeu, quem sabe, a cantar em poesia as paixões que, é claro, são um capítulo à parte, na vida de todos (ou quase todos) os poetas: "Minha primeira paixão era uma garotinha do primário, colega de classe, com quem jamais troquei uma palavra sequer. E
1 284
Marcelo Batalha
Orgulho Meu
Hoje a menina olhou pra mim
Pra mim e para um povaréu abismado
E cativou
Como quem nos tivesse hipnotizado
Ela, ai meu deus, visão do infinito
Eu, além do horizonte, meio fora de controle
Hoje a menina cantou pra mim
Pra mim e para um povaréu entusiasmado
E encantou
Como quem lá sempre tivesse pisado
Ela embalada pelos tons do bem-querer
Eu envolvido pelos sons do paraíso
Hoje a menina sorriu pra mim
Pra mim e para um povaréu inebriado
E ousou
Como quem comete um pecado
Ela esbanjando alegria e sedução
Eu irremediavelmente no éden
Hoje a menina olhou,
Sorriu, cantou
Hoje a menina cresceu,
Brilhou, venceu
Verdadeiro orgulho meu
E de um povaréu apaixonado.
Pra mim e para um povaréu abismado
E cativou
Como quem nos tivesse hipnotizado
Ela, ai meu deus, visão do infinito
Eu, além do horizonte, meio fora de controle
Hoje a menina cantou pra mim
Pra mim e para um povaréu entusiasmado
E encantou
Como quem lá sempre tivesse pisado
Ela embalada pelos tons do bem-querer
Eu envolvido pelos sons do paraíso
Hoje a menina sorriu pra mim
Pra mim e para um povaréu inebriado
E ousou
Como quem comete um pecado
Ela esbanjando alegria e sedução
Eu irremediavelmente no éden
Hoje a menina olhou,
Sorriu, cantou
Hoje a menina cresceu,
Brilhou, venceu
Verdadeiro orgulho meu
E de um povaréu apaixonado.
917
Bernardo Guimarães
Hino à Tarde
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
1 833
Birão Santana
INSISTO: tenho alma
Urge
consolar
minha alma
ferida nos temporais da vida,
insuflada de lágrimas e dores
perambulando em busca
de dias primaveris.
Urge acalentar
minha alma,
ela é flor tenra
medrando no mundo das ilusões
ansiosa por terra fértil.
Urge
alentar
minha alma,
ela é criança risonha,
inocente criança
oferecendo-se em riso,
graça e ternura
a desconcertados tiranos.
Urge
reinventar o homem
antes que morram
todos os homens
que insistem em ter alma.
consolar
minha alma
ferida nos temporais da vida,
insuflada de lágrimas e dores
perambulando em busca
de dias primaveris.
Urge acalentar
minha alma,
ela é flor tenra
medrando no mundo das ilusões
ansiosa por terra fértil.
Urge
alentar
minha alma,
ela é criança risonha,
inocente criança
oferecendo-se em riso,
graça e ternura
a desconcertados tiranos.
Urge
reinventar o homem
antes que morram
todos os homens
que insistem em ter alma.
839
Aymar Mendonça
A Casa
A casa era de seda
sorrisos e alecrim
Na casa ecoavam
cantigas de roda
tinir de talheres
arrastar de chinelos
vozes de bichos
Tinha quadros de santos
retratos sisudos
miado de gatos
moringa de barro
A casa era tépida
cheirava a pêssego
amora
goiaba
manga-espada
No porão escuro
a casa escondia relíquias:
bordados de renda
passados do tempo,
tempo das moças
hoje grisalhas
A casa era um mito
Na mesa da casa
um gosto de festa:
arroz branco, lombo frito
couve-flor, caruru
o melado adoçando lembranças
o leite branqueando a noite
A casa era um livro
de vida e de vidas:
enchendo os espaços
os gritos da infância
o cheiro do café coado
A casa era acesa:
no fogão de lenha
o avô aquecia os pés frios,
mãos quentes de proteção
A casa prendia verdades
dentro do aconchego:
gradeava afetos
segredos
desafetos
medos
A casa não era estática
viajava conosco
Que saudade da casa
com portões de madeira
e de ferro
trancando risos mágoas
escondendo o pudor da família
......................................
A casa não é mais a casa
é uma casa
e eu sou uma saudade
da casa.
sorrisos e alecrim
Na casa ecoavam
cantigas de roda
tinir de talheres
arrastar de chinelos
vozes de bichos
Tinha quadros de santos
retratos sisudos
miado de gatos
moringa de barro
A casa era tépida
cheirava a pêssego
amora
goiaba
manga-espada
No porão escuro
a casa escondia relíquias:
bordados de renda
passados do tempo,
tempo das moças
hoje grisalhas
A casa era um mito
Na mesa da casa
um gosto de festa:
arroz branco, lombo frito
couve-flor, caruru
o melado adoçando lembranças
o leite branqueando a noite
A casa era um livro
de vida e de vidas:
enchendo os espaços
os gritos da infância
o cheiro do café coado
A casa era acesa:
no fogão de lenha
o avô aquecia os pés frios,
mãos quentes de proteção
A casa prendia verdades
dentro do aconchego:
gradeava afetos
segredos
desafetos
medos
A casa não era estática
viajava conosco
Que saudade da casa
com portões de madeira
e de ferro
trancando risos mágoas
escondendo o pudor da família
......................................
A casa não é mais a casa
é uma casa
e eu sou uma saudade
da casa.
937
Amasilde Rehwagen
O Banco da Praça
Com peraltice e graça,
ouvi meu filho cantando
aquela música da Praça!
Era um gorjeio de ave
na sua vozinha suave
o banco da solidão...
Cantava alegre o menino,
como se fosse um hino
aquela linda versão!
Mas, na sua ingenuidade,
só conhece alacridade
seu pequeno coração!
Que no decorrer dos anos
não lhe venham desenganos
roubar-lhe a bela canção!
ouvi meu filho cantando
aquela música da Praça!
Era um gorjeio de ave
na sua vozinha suave
o banco da solidão...
Cantava alegre o menino,
como se fosse um hino
aquela linda versão!
Mas, na sua ingenuidade,
só conhece alacridade
seu pequeno coração!
Que no decorrer dos anos
não lhe venham desenganos
roubar-lhe a bela canção!
902
Antonio Roberval Miketen
Lesson of Light
I
Suddenly the silence turns into light,
as if strains of music, as if a subject in blue.
II
To find light within phrases,
the harmony, the sound of the universe,
so that we can hear the silence,
our own human silence,
so that we can, poet,
step on a page of blood.
III
Almost visible touchable pink of the poem,
an ogive, bewitched, on the shoulders of a dove.
IV
We forsake many things
because we grow towards the sun.
Amongst what we leave behind,
without piety, without remorse,
exists the innocence, the child;
like a sad little bird,
which sings in the bare light
the elegy of conscience.
V
What music, what music fades away in the distance,
ruled by the wings of the bird on the horizon?
VI
Write only what is brief,
in the short light of our life,
that never disturbs the children
and does not wet the margins of one’s vision.
So we need your notebooks,
to dive among the seaweeds,
within the deepest roots
that will light the green of the sea.
VII
Comes from the lucidness, the shine, the breast,
the slow puberty, within the center of scare.
VIII
The pupil of a gazelle
tears the rocks in the horizon.
Violet, the reflexion of the light,
to the east side of the sky,
where the deepest blue hides within the womb.
IX
In Autumn: the flicks of dry pulps;
on the remains of the life blood, the richness of the fruit.
X
In the silence which opens among the bell knell,
there is a dead little bird, to replace the child.
Suddenly the silence turns into light,
as if strains of music, as if a subject in blue.
II
To find light within phrases,
the harmony, the sound of the universe,
so that we can hear the silence,
our own human silence,
so that we can, poet,
step on a page of blood.
III
Almost visible touchable pink of the poem,
an ogive, bewitched, on the shoulders of a dove.
IV
We forsake many things
because we grow towards the sun.
Amongst what we leave behind,
without piety, without remorse,
exists the innocence, the child;
like a sad little bird,
which sings in the bare light
the elegy of conscience.
V
What music, what music fades away in the distance,
ruled by the wings of the bird on the horizon?
VI
Write only what is brief,
in the short light of our life,
that never disturbs the children
and does not wet the margins of one’s vision.
So we need your notebooks,
to dive among the seaweeds,
within the deepest roots
that will light the green of the sea.
VII
Comes from the lucidness, the shine, the breast,
the slow puberty, within the center of scare.
VIII
The pupil of a gazelle
tears the rocks in the horizon.
Violet, the reflexion of the light,
to the east side of the sky,
where the deepest blue hides within the womb.
IX
In Autumn: the flicks of dry pulps;
on the remains of the life blood, the richness of the fruit.
X
In the silence which opens among the bell knell,
there is a dead little bird, to replace the child.
972
Antonio Roberval Miketen
Lição da Luz
I
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
959
Antonio Roberval Miketen
It is Late to be Morning
For Simone
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
933
Antonio Roberval Miketen
Es Tarde para la Mañana
A Simone
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
636
Antônio Massa
Réquiem
desta feita
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
820
Antonio Roberval Miketen
Lección de Luz
I
De súbito el silencio se tornó luz,
en tejido de música, en súbdito azul.
II
Haya en las sílabas la luz,
la armonía, el sonido del universo,
para que oigamos el silencio,
este nuestro humano silencio,
para que podamos, poeta,
pisar la página de sangre.
III
Casi visible rosa tocable del pomo,
una ojiva, en el asombro, en los hombros de la paloma.
IV
Nosotros abandonamos las cosas
porque crecemos para el sol.
Entre lo que dejamos atrás,
sin piedad, sin remordimiento,
existe la inocência, el niño;
existe el pajarito triste,
que canta de la desnudez de la luz
la elegía de la conciencia.
V
Qué música, quê música se apaga a lo lejos,
regida por las alas del ave en el horizonte?
VI
Escribe solamente lo que es breve,
en la breve luz de nuestra vida,
que nunca aborrece a los niños
y no moja márgenes en el mirar.
Así queremos tus cuadernos,
para sumergirnos en las algas,
en aquellas raíces más hondas
que encienden el verde del mar.
VII
Basta de lucidez, de claridad, de busto,
de pubertad lenta, en el seno del susto.
VIII
La pupila de una gacela
rasga las rocas del horizonte.
Violeta, la ventana de la noche,
para el lado este del azul,
donde en el añil se esconde el vientre.
IX
En el otoño: el brujuleo de pulpas enjutas;
en el vestigio de la sangre, la lujuria de la fruta.
X
En el silencio que se abre entre doblar de campanas,
hay un pajarito muerto, en lugar de un niño.
De súbito el silencio se tornó luz,
en tejido de música, en súbdito azul.
II
Haya en las sílabas la luz,
la armonía, el sonido del universo,
para que oigamos el silencio,
este nuestro humano silencio,
para que podamos, poeta,
pisar la página de sangre.
III
Casi visible rosa tocable del pomo,
una ojiva, en el asombro, en los hombros de la paloma.
IV
Nosotros abandonamos las cosas
porque crecemos para el sol.
Entre lo que dejamos atrás,
sin piedad, sin remordimiento,
existe la inocência, el niño;
existe el pajarito triste,
que canta de la desnudez de la luz
la elegía de la conciencia.
V
Qué música, quê música se apaga a lo lejos,
regida por las alas del ave en el horizonte?
VI
Escribe solamente lo que es breve,
en la breve luz de nuestra vida,
que nunca aborrece a los niños
y no moja márgenes en el mirar.
Así queremos tus cuadernos,
para sumergirnos en las algas,
en aquellas raíces más hondas
que encienden el verde del mar.
VII
Basta de lucidez, de claridad, de busto,
de pubertad lenta, en el seno del susto.
VIII
La pupila de una gacela
rasga las rocas del horizonte.
Violeta, la ventana de la noche,
para el lado este del azul,
donde en el añil se esconde el vientre.
IX
En el otoño: el brujuleo de pulpas enjutas;
en el vestigio de la sangre, la lujuria de la fruta.
X
En el silencio que se abre entre doblar de campanas,
hay un pajarito muerto, en lugar de un niño.
755
Álvares de Azevedo
Pálida Inocência
Cette image du ciel - innocence et beauté!
Lamartine
Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?
E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?
Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!
Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!
Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!
Lamartine
Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?
E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?
Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!
Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!
Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!
2 029
Antonio Roberval Miketen
É Tarde para a Manhã
A Simone
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
823
Amir Calixto Sabbag
Reminiscências
Vento que vem do Sul,
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
1 031
Antero Coelho Neto
A Criança do meu Passado
A criança chorou longe,
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
1 494
Gabriela Mistral
CONTANTO QUE DURMAS
A rosa vermelha
colhida à tarde;
o fogo e a canela,
esse fogo, o cravo.
O pão de forno
de anis com mel;
a redoma de ouro
com peixe dentro;
Ai! terás tudo,
coração meu,
contanto que durmas
de uma vez.
A rosa, digo,
o cravo, também;
a fruta, digo
e digo o mel;
o peixe de luzes,
tudo quanto sonhas
contanto que durmas
até de manhã.
(Tradução
de Henriqueta Lisboa)
colhida à tarde;
o fogo e a canela,
esse fogo, o cravo.
O pão de forno
de anis com mel;
a redoma de ouro
com peixe dentro;
Ai! terás tudo,
coração meu,
contanto que durmas
de uma vez.
A rosa, digo,
o cravo, também;
a fruta, digo
e digo o mel;
o peixe de luzes,
tudo quanto sonhas
contanto que durmas
até de manhã.
(Tradução
de Henriqueta Lisboa)
1 976
Arthur Rimbaud
AS CATADORAS DE PIOLHOS
Quando a fronte do infante, vermelha das tormentas,
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.
Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.
Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?
Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.
Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.
(Tradução
de Rubens Torres Filho)
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.
Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.
Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?
Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.
Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.
(Tradução
de Rubens Torres Filho)
3 931
Gabriela Mistral
RONDA DA PAZ
As mães, recordando batalhas,
sentadas se encontram no umbral.
Os meninos foram ao campo
colher as frutas do ananás.
Ao pé de seu cerro alemão
com o eco se põem a brincar.
Meninos de França respondem
sem rosto no vento do mar.
Palavra e refrão não entendem
mas logo buscam se avistar.
E não haverá mais segredo
quando nos olhos se mirarem.
Agora no mundo o suspiro,
O sopro se pode escutar.
E a cada estribilho as cirandas
se aproximam um pouco mais.
As mães, subindo a vereda
de odores que leva ao pinhal,
chegando à ciranda, começam
colhidas pelo vento a voar.
Os homens procuram por elas
e, sentindo a terra girar
e o canto dos montes ouvindo,
a volta do mundo vão dar.
sentadas se encontram no umbral.
Os meninos foram ao campo
colher as frutas do ananás.
Ao pé de seu cerro alemão
com o eco se põem a brincar.
Meninos de França respondem
sem rosto no vento do mar.
Palavra e refrão não entendem
mas logo buscam se avistar.
E não haverá mais segredo
quando nos olhos se mirarem.
Agora no mundo o suspiro,
O sopro se pode escutar.
E a cada estribilho as cirandas
se aproximam um pouco mais.
As mães, subindo a vereda
de odores que leva ao pinhal,
chegando à ciranda, começam
colhidas pelo vento a voar.
Os homens procuram por elas
e, sentindo a terra girar
e o canto dos montes ouvindo,
a volta do mundo vão dar.
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