Infância
Manuel Bandeira
Debussy
Para cá, para lá...
Um novelozinho de linha...
Para cá, para lá...
Para cá, para lá...
Oscila no ar pela mão de uma crianç
(Vem e vai...)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psiu... —
Para cá, para lá...
Para cá e...
— O novelozinho caiu.
Viriato da Cruz
Serão de Menino
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta das estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...
na noite de breu,
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...
"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
..........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Não tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão - dê-se à corça."
Mas quando lá fora
o vento irado nas frestas chora
e ramos xuxualha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:
- Eué
- É casumbi...
E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitende -
a gente grande com gosto ri...
Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres busca, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...
Manuel Bandeira
Balõezinhos
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
— "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.
No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.
Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.
Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.
Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.
O vendedor infatigável apregoa:
— "O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um círculo inamovível de desejo e espanto.
Fernando Sylvan
Meninas e Meninos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos!
E então?
Florbela Espanca
A Vida e a Morte
Aquela infernal inimiga
A vida é o sorriso
E a morte da vida a guarida
A morte tem os desgostos
A vida tem os felizes
A cova tem a tristeza
E a vida tem as raízes
A vida e a morte são
O sorriso lisonjeiro
E o amor tem o navio
E o navio o marinheiro
Autora Florbella Espanca
Em 11-11-903
com 8 anos d’Idade
Herberto Helder
Poemacto - Ii
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
E sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espirito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
— Era uma casa — como direi? — absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no meu esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
— Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta — como
direi? — um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
— Prefiro enlouquecemos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
— Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste
tocadas
num trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Olavo Bilac
A Escravidão
É bem certo que os dias se sucedem e não se parecem. No maravilhoso tear em que uma alta Vontade desconhecida vai urdindo a teia das eras, há fios claros, de ouro e de sol, e fios negros, da cor da noite e do desespero. Depois das grandes crises, a vida repousa e adormece, refazendo forças; e há então esses largos períodos de paz e modorra, que dão aos espíritos otimistas, à moda de Pangloss, a ilusão de que foram contados e extintos os dias de sofrimento humano.
Esses meninos, que aí andam jogando peteca, não viram nunca um escravo... Quando eles crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. Saberão tudo isso, quando já tiverem vivido bastante para compreender a maldade humana, quando a vida já lhes houver apagado da alma o esplendor da primitiva inocência; e, decerto, um frêmito de espanto e de cólera há de sacudi-los.
Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopéia, o longo gemer da raça mártir, — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas...
A distância, tanto no espaço como no tempo, atenua a violência das impressões.
Ainda há pouco tempo, em fevereiro, os astrônomos dos observatórios da Europa viram aparecer uma nova estrela, na constelação do Aquarium.
O astro novo brilhou alguns dias, com um intenso fulgor, e apagou-se logo. A explicação que a ciência encontra para esse fenômeno causa admiração e espanto. O que parecia um astro novo era realmente um velho astro, até então invisível para nós e subitamente incendiado, em uma horrenda catástrofe, por uma combustão química. Assim, o que aos nossos olhos se afigura o natal radiante de um astro, o desabrochar esplêndido de uma flor planetária, é, de fato, o funeral de um mundo, talvez igual, talvez superior ao nosso, e devorado e destruído por milhões e milhões de séculos de vida, naufragando agora no inevitável e irreparável desastre. Mas, a nós, que nos importa essa tragédia celeste, passada, tão longe da terra, que a inteligência humana nem pode calcular a distância que nos separa do seu cenário? Estremecemos durante um minuto, e passamos adiante, sem mais pensar no astro defunto que se abisma no aniquilamento...
A distância no tempo tem o mesmo benéfico efeito da distância no espaço. Nós não podemos ter hoje uma idéia nítida do que foram, por exemplo, os pavores da inquisição: o ulular das vítimas do Santo Ofício atenuou-se e morreu, sem um eco. E o horror que hoje nos causa a leitura daquela infinita narração de atrocidades, é um horror puramente literário. Longe dos olhos, longe do coração, — diz o velho prolóquio; a distância é o pintor miraculoso que faz aparecer, no fundo do quadro, vagamente esfumadas numa névoa indecisa, cousas que, vistas de perto, só causariam repugnância e aflição.
Esses meninos, que nasceram depois de 13 de maio, pertencem a uma geração amada dos deuses. Quando saem de casa a caminho do colégio, com os livros na maleta e uma risonha primavera nos olhos e na alma, já não encontram pelas ruas, como nós encontrávamos, o doloroso espetáculo que nos estatelava de surpresa e assombro: — as levas de escravos maltrapilhos e chagados, que saíam das casas de comissão, manadas de gado humano consignadas à ferocidade dos eitos, pobres mulheres e pobres homens, que traziam no rosto uma máscara de ferro, como prevenção e castigo da intemperança; míseros anciãos cambaios e trêmulos, tendo a alvura da carapinha em contraste com a escuridão da pele, e já meio mortos de velhice e sofrimento, e ainda mourejando de sol a sol, com o cesto sujo à cabeça para o trabalho do ganho, molecotes nus e esqueléticos que chupavam seios sem leite; toda a vasta procissão, enfim, dos abandonados de Deus...
Aqueles de nós, que iam passar as férias nas fazendas, ainda estudavam de mais perto e com mais proveito a sinistra engrenagem do aparelho negreiro.
Lá, no esplendor perpétuo da natureza em festa, sob um céu todo feito de carícia e paz, na face da terra aberta em flores e frutos, — estendiam-se os eitos devoradores de vidas, e a crueldade inventava requintes satânicos. Ao rumorejo suave das ramadas, e ao festivo clamor dos pássaros, casava-se, do romper do sol ao cair da tarde, uma cantilena melancólica que dava calefrios... Era o queixume dos que retalhavam a terra, enquanto os vergalhos dos carrascos lhes retalhavam as costas; era o guaiar da raça miserável que cantava o seu infinito desconsolo. E, no chão que o esforço dos escravos lavrava e fertilizava, corria o sangue dos mártires, pedindo misericórdia, clamando vingança, caindo sem cessar, gota a gota, dos corpos supliciados...
Ah! que felizes sois vós, meninos de agora! Já ao vosso inocente folgar se não vem unir a revolta instintiva, que nos envenenava a alma, naqueles duros tempos da nossa meninice... Quando nascestes, já essa nossa revolta explodira, terrível, rompendo contra todas as conveniências, contra tradições de família e de casta, para extinguir a aviltante vergonha; e agora podeis sorrir vendo o trabalho irmanar pretos e brancos, na terra amada que já não tem pústulas malignas no seio...
Mas das grandes desgraças sociais, como das grandes moléstias que longo tempo devastam o organismo humano, sempre resta alguma cousa que convém combater e afastar.
Em boa hora, lembrou-se alguém de pedir ao presidente do Estado do Rio o perdão dos ex-escravos que cumprem sentença na penitenciária de Niterói.
Já se pode declarar vencida a campanha, porque o homem que está dirigindo o Estado do Rio foi, pelo fulgor da sua pena e pela nobreza do seu exemplo, um dos mais ardentes apóstolos da abolição. Mas não basta que se use de misericórdia para os infelizes da penitenciária de Niterói. Por esse vasto Brasil, quantas vítimas da escravidão não estarão, ainda, no fundo dos calabouços negros, pagando crimes a que foram unicamente levados pelo rebaixamento moral e pelo irrefletido desespero a que os reduzia o egoísmo sórdido dos senhores?
Há uma lenda da Bretanha, cujo suave encanto vem agora à lembrança do cronista.
Diz a doce lenda que um dia, no fulgor incomparável da sua majestade, o Senhor Deus dos cristãos viu chegar à barra do seu tribunal supremo uma alma carregada de crimes torpes. O Senhor Deus franziu o sobrolho e começou a invectivar a alma daninha:
— Tu roubaste, tu intrigaste, tu caluniaste, tu violaste donzelas, tu saqueaste as minhas igrejas, tu profanaste a terra com a tua presença, tu renegaste o meu nome!
A pobre alma, debaixo desse temporal de acusações tremendas, quedava calada e triste. E o senhor Deus clamou, com uma voz que abalou os céus:
— Que alegas tu em tua defesa, ó alma perversa?! Então, a alma perversa disse, chorando:
— Senhor! eu nunca conheci mãe!
E o senhor Deus, comovido e aplacado, acolheu em seu seio o pecador... Assim também, diante da justiça dos homens e da justiça de Deus, podem e devem comparecer sem receio aqueles que, quando escravos, cometeram crimes.<
António Nobre
Menino e Moço
da haste a flor da minha infância alada.
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.
Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo com torres de marfim!
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se à distancia!
Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do vento os aias que a alma chora,
Elas, porém, senhor, elas não voltam mais...
Cecília Meireles
A Pombinha da Mata
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com fome",
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.
"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."
Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.
"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer."
Mário Cesariny
O jovem mágico
Vivia longe
longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos
fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou
por acaso que nem se chamava assim
(segundo também contou) tinha vivido há muito
ele, que estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos
de nós a não ser que chegamos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há
noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não
me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto
surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
com as maõs na cintura livre natural
ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem
mesmo se chamava assim
o jovem mágico nu de todos os sítios da Terra
Alice Gomes
Na idade dos porquês
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.
É a luta professor
a luta em vez de amor.
Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.
Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...
E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
Fernando Pessoa
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era Primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...).
Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)
E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...).
Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...).
Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...
23/05/1916
Manuel António Pina
Natal
Como a infância, o Natal é algo que só podemos ter quando o perdemos. Quando somos crianças, o Natal é próximo de mais, e real de mais, para ser verdadeiro. Só a memória (e a memória construímo-la como construímos um presépio: com pedaços) o torna verdade. E só a memória nos permite saber, enfim, algo essencial: que o Menino da manjedoura éramos nós.
Casimiro de Abreu
Risos
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!
A vida é triste — quem nega?
— Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!
Como o dia, a nossa vida
Na aurora é — toda venturas,
De tarde — doce tristeza,
De noite — sombras escuras!
A velhice tem gemidos,
— A dor das visões passadas —
A mocidade — queixumes,
Só a infância tem risadas!
Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!
Rio, 1858
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro III.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Ary dos Santos
As Férias
Era uma rosa azul de água amarrada
um palácio de cheiros um terraço
e uma jarra de amigos derramada
da casa até ao mar como um abraço.
Era a intensa e clara madrogada
com cigarras dormindo no regaço
e a ampulheta do sono defraudada
no tempo cada dia mais escasso.
Era um país de urses e lilases
de tardes sonolentas espreguiçando
um aroma de nardos pele chão
e bandos de meninas e rapazes
correndo amando rindo e adiando
a minha inexorável solidão
Cora Coralina
Imaginários de Aninha
e jamais esquecido brinquedo de roda.
E eu, ali parada; olhando.
Esquecida no chão a cesta com sua roupa de volta para mãe lavar.
Tinha nos olhos e na atitude tal expressão,
tanto desejo de participar daquele brinquedo
que chamei a atenção da irmã Úrsula que era a vigilante.
Ela veio para o meu lado,
me empurrou carinhosamente para o meio da roda,
antes que o grupo quintasse nova coleguinha.
O coro infantil entoou a cópia sempre repetida:
"A menina está na roda
Sozinha para cantar.
Se a menina não souber,
Prisioneira vai ficar..."
Com surpresa de todos levantei alto minha voz,
que minha mãe gostava de ouvir nas minhas cantorias infantis,
ajudando a ensaboar a roupa:
"Estou presa nesta roda
Sozinha pra cantar.
Sou filha de lavadeira,
Não nasci para brincar.
Minha mãe é lavadeira,
lava roupa o dia inteiro.
Busco roupa e levo roupa
Para casa vou voltar."
Era o fim do recreio.
Irmã Úrsula sacudiu a campanhia
visivelmente emocionada.
Pelas janelas que abriam para o pátio,
tinham aparecido algumas cabeças de religiosas.
Professoras e alunas maiores, atraídas pelo timbre cristalino
de minha voz adolescente,
magricela a quem ninguém dava a idade certa,
tinha nesse tempo onze anos.
A roda se desfez em correrias.
A irmã Úrsula me ajudou a ajeitar a cesta alongada
na cabeça, equilibrou a trouxa
que minha mãe devia lavar, passar e engomar.
Perguntou pela minha idade e se frequentava escola.
Eu disse que não tinha tempo, porque ajudava mãe a lavar roupa.
Ela abriu a boca, ia dizer alguma coisa, pensou,
e disse: "Depois".
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 1987. Poema integrante da série A Roda
Casimiro de Abreu
Três Cantos
Ao despontar da existência
Nos folguedos de inocência,
Nos delírios de criança;
A alma, que desabrocha
Alegre, cândida e pura —
Nesta contínua ventura
E' toda um hino: — esperança!
Depois... na quadra ditosa,
Nos dias da juventude,
Quando o peito é um alaúde,
E que a fronte tem calor:
A alma que então se expande
Ardente, fogosa e bela —
Idolatrando a donzela
Soletra em trovas: — amor!
Mas quando a crença se esgota
Na taça dos desenganos,
E o lento correr dos anos
Envenena a mocidade;
Então a alma cansada
Dos belos sonhos despida,
Chorando a passada vida —
Só tem um canto: — saudade!
Fevereiro, 1858
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro III.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Fernando Pessoa
Encostei-me para trás
para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah,
balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não
ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.
Ah,
afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui
outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e ys de sentimento.
Ah,
todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
---
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem
inteligência para o compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
Manuel Bandeira
Epígrafe
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.
Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,
Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó —
Ah, que dor!
Magoado e só,
— Só! — meu coração ardeu:
Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
— Esta pouca cinza fria...
1917
Ruy Belo
VAT 69
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro - gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos - nós outra vez crianças -
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte - nunca mais - pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
-orate frates - ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder
Fernando Pessoa
08 - Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
Fernando Pessoa
Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madruga.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca me basta.
Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que é nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta ser de quem mo deu.
Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim...
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.
1930
Ruy Belo
A rua é das crianças
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 185 | Editorial Presença Lda., 1984
Herberto Helder
Cobra
defronte do ar exaltado. Também se enredava o Outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera.
E a lua unia a cúspide das artérias
às ventosas mais fundas, às rosas nos tentáculos
desde os abismos da terra. Que acordava, a lua,
as víboras nos alvéolos ou adormecia
os bichos-da-seda nas cápsulas ou punha
os dedos a luzir diante
da boca, abrindo e fechando o poema como um leque
de obsidiana.
Estive agora na memória com seus fulcros de oxigénio
e a energia das patas e as radiações
das flores paradas. Um mês
nodulunar
activo crivando todo o poema ensombrecido pelas veias do mel.
Estive em toda a parte onde pulsa o corpo com as órbitas
de amianto sob a força pensada,
virgem e severa. Desde as águas palpitando entre as bocas
e as guelras, desde o sangue
sorvido através das válvulas. Nas crateras, o fulgor
dos óvulos de faiança.
— E é o tempo, o tempo todo:
o salto dos sóis no corpo arrancado.
— Nesta criança aumenta um arbusto de cálcio.
As sementes graves revolvem-se
como um pranto. E o medo,
este favo cerebral que levo, fermenta debaixo
das radiações como um açúcar vivo
e gelado. A rotação atómica agarra,
entre os frios cabelos e a teia dos ossos e as coxas implacáveis
e o sistema planetário de pés e mãos
delgados, agarra agora
as esponjas rutilando como abelhas nas furnas ou um gás
nas câmaras da morte.
Estou deitado, e os lençóis fluem e refluem nessa ressaca
sob o ar
arqueado. As mãos no poema, o pénis
gravitando
a prumo como um corno de mármore.
A lua mexe nas estações e nas salas.
Passa á mesa sobre um litro de anis, sobre
pequenos jardins de cristal
engarrafados. E o ar gira e explode
no rosto rápido.
Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
da dança com as labaredas
a mergulhar
em baixo. Ou á frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
se debruçam na atmosfera,
e as colinas irradiam com os astros
cravados e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
fulgurante.
Vou morrer.
O ouro está perto.
A força do medo verga a constelação do sexo.
Pelos canais nocturnos entra o mel, sai
o veneno branco.
O sono estrangula as chamas da cabeça nos veios atados.
As costas crepitam numa linha lunar
de clarabóias. Rutila
a flor do alimento, talhada: o ânus.
E brilha rebrilha, uma luva puxada pelo avesso,
o corpo
puxado pelo avesso
com as estrelas desfechadas.
As casas ateiam-se.
Com linha negra a tecedeira lavra a sua flor,
com os martelos
os canteiros trazem do fundo do granito
um meteoro de púrpura afogado.
— A paixão é pura maneira de inteligência.
Deus recompensa o crime com a voracidade e a energia, a cegueira
inspira o cérebro
violento — no plexo solar do espelho.
Uma criança abisma-se no génio analfabeto: o pavor
que a arranca de tudo. Qualquer doçura lhe alimenta os esplendores
da alucinação:
pelas altas águas descontínuas, as vozes,
as frutas tecidas, movimentos, labaredas
parietais, a profundidade dos quartos como pomares
atmosféricos.
- Oh crianças de negros rostos ressurrectos.
Elas adivinham. E tombadas as luas,
No cúmulo dos dias, nuvens de mármore sobem
dos vulcões dos parques. Há crianças paradas nas cavidades
como os olhos das casas.
Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno.
Passo por jardins zodiacais, entre
flores cerâmicas e rostos zoológicos
que fosforescem. Lavra-me uma doença fixa.
Ilumina polarmente os quartos.
Todos os dias faço uma idade
bubónica. Quem vem por fora vê
camisas apoiadas à luz, a doçura, partes
vidradas do corpo. Perto, deslumbra-se com o pénis como um chifre
de coral intacto. Às vezes não sei gritar com a boca
toda luzindo.
E queima-se em mim nervo a nervo
a flor do diamante.
Fulgura o oxigénio na sua caixa de vidro e a cerveja gelada
como uma estrela num copo. Não
falo com ninguém quando o sangue
é arrancado pelas
luas, à porta, o ar sibilante cheio de paisagens.
As víboras sonham no ninho,
turquesas, pedras, mas eu estou
com um braço de ouro sobre a cama.
E vou deixar a terra eléctrica na sua renda concavamente
leve. O mundo — este arrepio concêntrico:
olho fixo por onde toda a matéria contempla o espaço
descentrado. E um jorro desencadeia-se pela coluna
com uma rosa mental arrastada
para o alto. Nenhum lugar
é ouvido nos silêncios que tem
de dentro para fora. Posso
atar um laço em volta de cada coisa, com um sussurro
estreito. Os meus pés resplandecem sepultados nos sapatos.
— Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo,
sem sonhos,
movendo-se nos aros do seu próprio corpo, um feixe
de chamas de cada lado.
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos.
E vou deixar o mundo, eu, cometa expulso
dos buracos da pedra. De dedo
para dedo
os anéis luzem, terríveis, de ouro forte, fechados como serpentes
fio a fio.
Pela força dessa ressaca, a limalha salta
entre a boca e o sexo. Abisma-se o mistério
animal até ao centro da caça. Atraio Deus.
Leão vermelho
a brilhar nas clareiras à frente das incessantes
mãos do caçador. Porque eu nunca falo,
de noite,
com ninguém. A minha arte de ser é venenosa, quieta
e aterrada. Mexem no leite, as salas
recuam pela casa, nos alvéolos do corpo desatam-se
os pequenos astros. E o silêncio torrencial da atmosfera
televisionada
irrompe pelos quartos amontoados.
A parede contempla a minha brancura no fundo:
paisagem
resvalada. E com o olhar redondo
de ouro ríspido, da parede me fita
o cometa, entre
as omoplatas,
onde começa o nervo da flor toda unida ao cimo
da labareda. E rola à noite a luz
sobre os lençóis, e os nós
do rosto absorvem
todos os átomos. Porque sobe um soluço dos centros
gravitacionais
de um bicho. Um soluço, um tétano.
A água escoa-se pelas esponjas dos órgãos e dos fatos.
São corpos celestes nos recantos
dos salões engolfados, ressumando
luz própria
— e dos intensos poros da madeira exalam-se
os bosques completos. Ou são estrelas
negras, os corpos, se a noite se chega para diante,
assim depressa, pedra que se desloca
varada pelos astros. E as flores nunca baixam as pálpebras
sobre os olhos.
O umbigo brilha, cego. O púbis brilha,
alto
como talha.
Todo o corpo é um espelho torrencial com as fibras
dentro das grutas. Cobra
que acorda no fundo
de si mesma, o halo
ovovivíparo
levantado anulo a anulo;
ou grande raiz fria sustentando o seu ovo soprado;
ou as guelras de uma rosa ferozmente
em arco.
Pela ciência e a paixão do medo, arranco à parede
esse nó cristalográfico com a luz
estrangulada.
Corpo celeste antípoda.
Os chifres de ouro afloram na treva.
Deus caça-me com uma lança
radiosa. Na selva dos meus quartos húmidos, orbitais, volumosos,
com uma flecha sonora.
As folhas ressumam da luz, os cometas escoam-se
pelos orifícios
vivos das casas. E fundem-se as ramas de ouro
nos músculos vorazes, os dedos
nas massas dos espelhos.
E vibra a bolha expelida da carne curva, um rosto
a que ceifaram o caule.
Não ames roupas, azáleas, água cortada, louça
— a leveza. Ama — digo —
o que é carregado: as frutas, ou a noite
e o calor, e os negros laços atados
dos animais.
E gravava-se o ouro nos centros
ávidos
e o ar no espaço e a seda
no tacto. O sexo brilhava sobre as mãos
no fundo expansivo dos quartos,
crepitando com a lepra.
Senti nas falangetas o leite manso e a madeira alumiada
pelos poros ferozes: o centrípeto feixe das coisas.
Senti o mundo tenso como o halo de um
dióspiro. Vi a serpente concentrada como um nó de cobalto.
— O sonho tão severo e a labareda
dentro e o trabalho dos dedos e dos olhos.
Pulsava o ar nas costas
da pedra
deitada ao dia com as crateras fortes:
— as narinas e a boca e o ânus. Dia vazado
de ponta a ponta branco. Entrava o oxigénio pelas artérias
agravadas, a insónia
pelas aurículas sombriamente do crânio.
A casa cheia tremia vergada pelas
luas frontais e veementes a os sóis astrológicos.
E estas aram as visões, os maus símbolos
Perigosos: a demência, a nudez, o dom,
O hipnotismo, o terror, o transe, a graça terrestre
e hermética.
Sob o choque do ouro estagnado no tórax
com a camélia radial explodindo,
a brancura ameaçava cada morte.
— Violência, claridade, sobressalto.
o espelho é uma chama cortada, um astro.
E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
ás janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata,
a própria seda do lenço
o desata. E o rosto que jorra do espelho
volta aos centros
arteriais.
Todos os anos fundos, essa extensa criança
sente brotar da terra como as árvores
do petróleo
a peste bubónica, fina na temperatura, alastrada nos bordados
das paredes ou nas crateras da cama. Os lençóis
nascem do linho que trepida
no abismo da terra, das sementes abraçadas pelas ramas
das nebulosas.
É perfeito o espelho quando apanha
um rosto nuclear.
Morre-se muito mais em cada doença, nesses
apartamentos que as noites sufocam
nos braços de mármore.
A energia das jóias.
O nó do sexo no espelho, as chamas agarradas
entre o umbigo e o ânus.
Esse trabalho da claridade quando as válvulas
se destapam.
Correntes atómicas passam de lado a lado.
E ficam os buracos furiosos por onde o mundo
sopra
um meteoro a jacto, uma cara.
Os jardins deslocam-se através de si próprios
com as centelhas, defronte
das planas constelações dos espelhos.
E então, na assimetria severa, ela amaria
transformar-se, súbita e solar — equinocialmente no espelho o relâmpago
côncavo de um girassol
espacial. Que sai assim do corpo: os filões arrancados
desse mesmo espelho.
E ela imagina na teia de fogo a argila que se transmuda
em porcelana: a curva labareda de uma chávena
expelida dos fornos.
E entre guardanapos, da mesa à boca,
arde em seu anel de estrela metalúrgica
a colher em órbita
— a assombrosa força terrestre da chávena.
E a infância desaparece nas funduras das casas,
nos jardins envoltos em nebulosas. O corpo
com os electrões fechados.
o rosto espera no seu abismo animal.
Vejo agora os estúdios enclavinhados na luz. Depois,
serão aspirados pelas ressacas
das trevas.
E a serpente dorme e fulgura entrançada nos braços.
O génio das coisas é baixo como o ouro
amarrado
em torno do sexo.
E nas cavernas de coral vivente pulsam
os animais dos horóscopos
— andróginos, lunáticos —
de cabeças trepanadas por radiações de urânio, movendo-se
com as lentas sedas dos corpos
pelos sóis à frente e as luas
deitadas. E as pupilas ferozes dos mortos contemplam
o brilho dos meus poros, o pénis
entre as centelhas da minha pele de vitelo
brando.
A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.
Desenvolvem-se nas noites descentradas
estes quartos engrandecidos
pelo jorro incendiário. Tocam o meio do mundo
com os raios.
São opacos, vulcânicos.
De anel para anel, a garganta por onde o corpo
Se arranca de dentro.
Rosas expiram pelo intenso orifício no meio. As massas de cristal dos
quartos
planetários
Ele queria coar na cabeça da mulher aprofundada
uma labareda,
a luz fundida nas clareiras.
Tocava-lhe abismadamente o rosto directo, o sexo
de ouro bivalve, a jóia do ânus aberto
— negra garganta de uma camélia baixando.
Queria que ela absorvesse a radiação dos astros centrais,
o oxigénio a entrelaçar-se no interior das constelações da carne.
E que o membro do corpo inteiro se embrenhasse
no sangue
que a ligava dentro de estrela a estrela
por grandes fibras
vibrantes.
Os sexos fechados pelas bocas claras, que tudo
luzisse anelarmente
— e o poder corresse neles, incessante, num insondável
quarto,
as imagens alinhando-se
num incêndio:
gárgulas, máquinas redondas, os rostos giratórios.
E que em noites soldadas pela respiração nó a nó,
sobre lençóis brilhando no seu arrepio de ouro,
num sítio de toda a idade com seus animais
enredados, estremecessem
as roseiras de onde as rosas sorvem o suspiro
subterrâneo, o intrínseco movimento
atónito.
E então a antiga criança estelar pulsava nele com o oxigénio
No extremo dos cordões maternos, soprada interiormente
pela claridade dos órgãos
afinados
na dor e na paixão —
suas casas astrológicas movidas pelo fogo baixo
e em cima
pelo ar muito alto.
A doçura, a febre e o medo sombriamente agravam
um forte jardim nos limites
da luz olhada. O mel dói, o sangue
assalta, o espelho recua até às costas. Também no interior
do mundo pesa e palpita um punhado
de pérolas. Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio.
Não é doce usar a paixão do medo, esta
maneira de tocar no ouro escurece as mãos.
Há crianças que apanham completamente a maçã
caída no sono: morrem
no coração fotográfico.
Porque as labaredas se despenharam nos espelhos.
O fogo moveu essa fruta fechada, estrelas
congenitais
voltaram-se por dentro
das crisálidas.
Entra uma nuvem se as crianças se afastam,
ou reflui a ofuscante madeira
dos armários, ou são os lençóis que se arrepiam
arrastados
pela voltagem dos astros. De baixo para o alto,
um incêndio artesiano,
um enxame de rosas ferozes.
A infância é central como os ramais da água
circulando na pedra.
Ou a ilha atravessada pela volta
Dos ecos. Ou a primavera escoada. Ou a espuma que rebenta
Na fotografia retendo o mundo
direito.
Através da infância vêem-se os dias botânicos
aumentados
e os planetas de mármore ascendendo nos quartos e os fotões
das abelhas.
É um modo límpido de voltar a cabeça
para as grutas de ouro, ou expor
o ânus branco,
ou aproximar ainda o coração dos ávidos
sorvedouros da noite.
Os mortos reluzem nas cavernas, os nossos mortos
de corpo fechado pela perfeição das lágrimas.
Seus órgãos sustidos têm o peso
das jóias.
Porque a infância é uma visão terrífica, hipnótica.
Um transe, os olhos que se tornam secretos, o extremo lunar da casa
— pedra queimada no centro
da terra.
Tomo o poder nas mãos dos animais — quer dizer:
a força quando se soltam as labaredas
dos abismos dos quartos.
Tudo se agarra no instante em que
a casa
dorme no centro ateado. Chegar
muito lentamente e arrancar a maçã,
a mais limpa chama coada pela árvore.
A energia das lunações reflui nos nervos
do espelho,
e a queimadura brilha
a pique — flor pulmonar moldada, e em baixo
as estrelas pontiagudas
das mãos.
Assim se reserva nos apartamentos agachados,
entre roupas deitadas, o tesouro de um rosto
soberano.
E a claridade evapora-se do cérebro, ao alto
do candelabro:
o olho activo de uma flor sonhada.
Ascendem dos abismos da elegância os mamíferos
arrebatados pela violência
astrológica. Ficam de bruços, entre pressões,
rotativos, poderosos:
fotografias cheias de ar e fogo. E usa-se a morte,
uma lembrança genial ou um absoluto
inquilinato.
- O movimento das casas com os castiçais contínuos como artérias,
Como terríveis ceptros.
Amo este verão negro com as furnas de onde se arrancam
as constelações, um jardim espasmódico
quando
se atravessam as membranas dos quartos.
Resplandeço como um cristal talhado estelarmente
na voragem entre a boca e o ânus, como os arcos de um espelho.
Toco
o nó dos favos — e ferve o mel ao cimo da haste
vertebral. Eu amo o tremor das veias que enxameiam
as tábuas, amo as colinas de aço nas paisagens.
A água sopra nas esponjas que luzem no frio caudal
secreto.
Vibra a roupa aberta ao longo das cavernas
das casas. Com seus passos de pantera
a noite avança e bate as pálpebras.
— Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai
os bichos. Deus é atraído pelas canções venosas
com os diamantes inteiros.
Amo as cabeças, esses laços de pedra.
Respira no verão largo a flor com um feixe
de artérias.
Que eu atinja a minha loucura na sua estrela expelida
pela força dos ventrículos
por uma crua boca
animal. Nas salas reflectindo os jardins
a reluzir
com as cadeiras e as mesas sobre as patas de madeira,
nos precipícios das casas.
— E atrás, a queimadura do rosto
repentinamente
selado.
Eu brilho nos corredores,
entre os renques das folhagens e a fogueira de bestas
terrestres. Encandeia-me a fundura dos armários
que se ateiam
pela tensão das roupas encurvadas. Eu amo
o ouro baixo nas chamas do dançarino aberto
entre a boca e o ânus.
As pedras fizeram agora os seus laços.
E as luvas vermelhas do escafandrista explodem nas câmaras.
— Um bicho em lágrimas, a casa atravessada pelas correntes
da paisagem de água, a criança
aurífera
direita nos recantos dos quartos com um olho radial,
um espinho de mármore implantado
na testa sumptuosa.
E sobe a estrela terrestre
com a placenta assente
nos feixes desde o umbigo até aos cornos.
Eu trouxe serpentes de onde a luz mais ferve,
arranquei-as ao mel, eu, criança
de boca truculenta, alumiada, bivalve. Nunca vi água
que não varasse as casas
de lado a lado. Pulsam em mim os fulcros
do sal, os cactos.
Quando a paisagem sopra pelas janelas, durmo
olhando
os centros memoriais. Deu-me a inteligência
aquilo que toquei: o pénis que vem desde os astros das costas,
os ovos no fundo dos alvéolos, as pálpebras
negras. Somente o mundo
é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
aos laços
das constelações. E das cavernas, onde
suas garras se prendem como pólipos,
e através da minha roupa,
fitam
o espelho: sangue e ouro
e cálcio e mel
brilhando. Porque o corpo é uma gruta de onde saltam
os sóis, uma insónia que liga
o dia ao dia,
pelos jardins trespassando os estúdios
ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
astros brancos.
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Detidos: hei-de de partir quando as flores chegarem
a sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me ás janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
Cada noite é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.