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Literatura e Palavras

Germano Machado

Germano Machado

Castro Alves - A filosofia na poesia

in Jornal A Tarde, 15/03/97

Em todo movimento literário, dentro de diversas correntes de literatura, subsiste sempre uma filosofia. Se as ciências técnicas e humanas se interligam, por que não se ver a filosofia na literatura, a filosofia na poesia, a própria e intrínseca poesia na filosofia mesmo?
Evidentemente não se afirma que, poeta e gênio poético, em face da idade um fenômeno, seja Castro Alves filósofo, formal ou técnico. Combinaram-se sempre, mesmo quando a combatem, poesia e filosofia, seja em Platão ou Agostinho, um Plotino, um Spinoza, cuja maneira de expor sua filosofia vai a par da poesia. Afirma-se, antes, que a Filosofia perpassou sua poética e deu o sentido que apresenta.
Castro Alves, filósofo? Não. Filosofia na poética de Castro Alves? Sim. Por que não? Não existisse e seria mero copiador de estilos literários de sua época ou decalcador da poesia que dominou o tempo que lhe foi próprio. Ainda seria pior: um poemar sem finalidade. Seu talento poético moralista (no sentido filosófico e não apenas de dicionário), analisadas suas poesias articipantes com o especular pensamental, mostra a influência filosófica envolvendo-o por inteiro na sua dimensão de poetizar, confluindo na filosofia social, política, libertária, humanística.
Eugênio Gomes afirma: “Colocava-se, portanto, em plena e estrepitosa órbita do romantismo liberal, no qual o eco sonoro do verbo hugoano convocava adeptos, iniciando-os numa espécie de evangelização político-social, fortemente nutrida pela fraseologia filosófica do século: Justiça, Ideal, Liberdade, Humanidade, Progresso”.
Importa ver ainda Castro Alves como romântico, em duplo ou triplo sentido, e até por definição. Homem de seu tempo e de sua época e seus reflexos, ao contrário dos seus antecessores a se amarrarem ao passado e em suas nostalgias, ele, ao contrário, antes volta-se para o futuro, para o porvir, o amanhã com toda força de seu coração jovem e pelo íntimo e intrínseco sentir-sonhar-refletir que o que não permanece em um tipo de tendência literária há de ser superado.
Aí, a marca do gênio: saber transcender, pela ‘intuição’ mais do que pela ‘razão’ (e, então, filosofia atual, para o que há de vir), ‘superar’, embora ‘contendo’ o imediato. Era, assim, um místico, tanto quanto um sensual, conhecedor de Bocage e talentos poéticos iguais.
Se Victor Hugo era ‘Poeta Vidente’ (vê para adiante ou entremostra o que há de vir), Castro Alves, adolescente e jovem apenas, menino quase, apesar do tempo pouco de vivência, também o era. Demonstra-se igual ao velho Hugo, embora destinos desiguais, em parte. Igual ou superior, se notarmos as circunstâncias de idade, ambiente, vivências. Neste sentido pode-se afirmar ser o Poeta dos Escravos contemporâneo do futuro, companheiro do amanhã e inebriado da manhã, o hoje que não se torna passado, mas futuro, portanto, um poetar de permanência, o que constitui o substrato e a essência do filosofar.
Permanência do que o tempo deixa, pois, subsistir, pretérito destinado ao presente-futuro: finalidade da história e da filosofia. O permanente na poética castroalvina, sentido eterno do amor à mulher, à flor, à natureza, ao coração, ao próprio amor em si e de Deus (sua poesia toda posta em termos assim situa-o como homem de seu tempo e do que virá), a luta social humana.
Abolicionista, grita, clama, transforma-se em flama pelo negro, escravo explorado; nacionalista e patriota vê a tendência de liberdade dos povos coloniais e ainda também aqueles povos antigos agora subjugados; coração ferido de amor e de dor pelo ser humano, em sua existencialidade.
Particulariza o intuitivo mais do que o social e o humano, sabe-se que, quando cantou O Século, na Faculdade de Direito do Recife, as idéias que a embasavam, a política de redenção e libertação do homem, dentro, aliás, do espírito do liberalismo político das revoluções Francesa e Americana, foram vistas de viés. Um professor avesso às idéias das estrofes político-filosóficas, o reprovou no final do ano.
A filosofia sócio-política do seu século, vinda desde a Revolução de 1789, incomodava os privilegiados. Dificilmente as transformações sociais atingem o coração dos homens concretos do poder e das estruturas. Não querem esses ceder lugar ao novo, ao que muda e lhes tira os privilégios.
A poesia político-social sabe a nacionalismo, aquele que se alarga às fronteiras da terra, não o xenófobo, o que odeia outras pátrias e nações, a embasar os regimes totalitários da direita-e-da-esquerda. O mesmo nacionalismo patriota que o poeta reivindica em sua poética para que o Brasil se liberte de escravos e dê sentido à sua trajetória nacional. Castro Alves político, participante do drama do mundo, inserido na filosofia da época, portanto não alienado, não alheio, porque poeta, ao fator politicista.
Em Recife, devido ao contato com Tobias Barreto, se poeta mais filósofo, na sua Faculdade de Direito tem o senso universitário, apesar de, no tempo, não haver universidade, ficando Direito como um centro de pensamento e ação. Superemos os meros aconteceres amorosos poéticos conhecidos entre os dois e vejamos que o seu contacto mútuo enriqueceu e desprovincianizou ambos daquele sentido de aldeia ainda predominante. Em São Paulo e sua faculdade. No Rio. E pela sensibilidade poética, universaliza-se, a partir da Bahia. Eugênia Câmara, também, dá ao poeta amor, leva-o mais ainda ao teatro, arte por excelência participativa e transformadora.
Logo, em Castro, só neste exemplo de O Século, a política social e política existe em função da poesia participativa (o que implica filosofia com vistas ao humano redimido) dentro do panorama de filosofia liberal e libertária da trajetória do século XIX, com o antecedente dos séculos XVIII e XVII.
O Século é, deste modo, poema de filosofia política, a crença na história libertária. Termina o poema com um dos motivos-chaves de sua poemática, o amor à juventude, a juventude como idéia-força, a juventude do mundo (mundialização da idéia) e a juventude do Brasil (nacionalização e patriotismo da idéia).
Eugênio Gomes exprime com a competência peculiar: “Em suma, nesse poema (O Século) já estava o pensamento central, que Alves iria desenvolver de outras do mesmo teor humano e social, alguns em forma de odes ou de pequenas epopéias hugoanas...
Como era usual em tais composições, evidenciando a ascendência da sociologia sobre o Romantismo, o insólito poema traz abundante nomenclatura histórica... A idéia de que a morte seria o caminho certo à liberdade dominava então mais do que nunca o pensamento de Castro Alves e influiu sobre a concepção de A Cachoeira de Paulo Afonso, ultimada na mesma época, quando o poeta, embora menos combalido, tinha o pressentimento de um fim próximo...”
Sim, o viver de Castro, como lírico, romântico, condoreiro, social-político, humanista, envolve, logicamente, filosofia de existência onde os temas do tempo (e outros de todos os tempos) se deixam apresentar.
A idéia da morte (tão própria da dolência e sofrência românticas) agudiza no poeta, porque pressente que sua doença, a tuberculose, seria fatal e tinha a consciência, ainda aqui um pensador de profundidade apesar dos poucos anos de vivência e sofrência, embora intensos, de que somente a morte, apesar da juventude do poeta, vai a par das idéias de Deus, juventude, alma, amor, livro, mulher, natureza em geral, escravo e libertação, grandes nomes históricos, heróis, sentido bíblico (pois era biblista no significado de conhecer a Bíblia, talvez mais o Antigo Testamento do que o Novo, o que já é uma revelação de uma revolução, pois como católico de tradição, mais se tratava dos Evangelhos nas famílias religiosas da sua época).
Há em toda a poemática de Castro Alves a descida à interioridade, o que, em termos de literatura do século XX, chamaríamos de intimista. Ouso denominá-lo intimista, típico e próprio.
E, aqui chegand
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Georges Emmanuel Clancier

Georges Emmanuel Clancier

Surrealismo: Revolta e Conquista

O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
902
Francisco Orban

Francisco Orban

1975

Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia

33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado

33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.

Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975

-Anônimos membros do
degredo unânime-

Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,

músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.

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António Ferreira

António Ferreira

Carta

Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.

Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?

Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.

A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.

Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.

Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.

Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?

Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis

Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!

A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.

Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam

Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.

Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.

Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.

Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.

Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.

Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.

Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.

Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.

Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?

Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.

Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.

A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.

Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.

Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.

Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.

É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?

Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.

Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.

Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.

Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.

Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.

Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.

Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.

Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.

Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.

A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.

Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.

Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.

Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.

Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.

Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.

Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.

O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.

Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.

Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.

Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.

Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.

Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?

Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.

Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.

Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.

Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.

Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".

O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.

Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.

Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.

Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.

Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
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Fabrício Augusto Souza Gomes

Fabrício Augusto Souza Gomes

Parte Da Minha Vida(ou Olhos da Noite)

PARTE DA MINHA VIDA
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.

A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.

São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.

Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .

Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!

Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!

Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .

Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler

Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!

Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .

Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.

Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.

Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração

Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!

O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.

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