Literatura e Palavras
Filipa Leal
Do medo em diante
de descer a rua e atravessar a sombra
dos prédios atirada como arma
de granito, como festejo de civilização.
Perdera subitamente o medo do seu século,
do século que se vivia naquela rua
onde alguns se morriam à injecção,
do século das luzes dos seus vizinhos
a apagarem se ao mesmo tempo
sem nunca terem trocado nada que não
essa distância de garagem, essa coincidência
dos horários civilizacionais.
Trazia a consciência de ser europeia
(África doera-lhe nos olhos como holofotes)
e de não querer escrever sobre esse assunto.
Mas não ter medo de descer aquela rua,
não ter medo de apagar sozinha a luz àquela hora,
não ter medo de nunca estacionar o carro na garagem
e de estar por isso sempre mais só do que os vizinhos,
pensava,
era suficientemente novo
para o poema.
Filipa Leal
Traindo o poema
este poema. Não gosto de supermercados
nem de poetas de supermercado, mas hoje enchi
a casa de manteiga e não pude evitar uma sensação
de metáfora, uma ironia a escorregar-me nos dedos
como anúncio de contemporaneidade. Juro: eu não preciso
de tantas embalagens, nem preciso deste poema,
mas há tantos dias que não posso tomar o pequeno-almoço
na minha casa sem manteiga, sem poema, que hoje enchi-me
de coragem para tudo isto.
E juro: apesar da traição, sinto-me hoje mais
contemporânea
do que nunca.
Filipa Leal
Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
Filipa Leal
O peso dos livros
Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.
Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.
Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando
não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando
não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,
tive uma vaga noção de título.
E um hálito branco a querer ser página.
Amália Bautista
No fundo
que nos doem de verdade, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos comovem o coração, e menos
ainda as que o comovem muito tempo.
No fundo, são pouquíssimas as coisas
que importam de verdade na vida:
poder amar alguém e que nos amem,
nunca morrer depois dos nossos filhos.
Filipa Leal
O leitor de poesia não é menos leitor
do que o leitor de romance.
O leitor de poesia não é menos
culto do que o leitor de romance.
Ser leitor de poesia não é um
defeito.
Ser leitor de poesia não é ter lido
menos.
A literatura não é um concurso
de palavras.
A literatura não se faz com
fita métrica.
Não obriguem o leitor de poesia
a ler o que não quer. A não ser que
se comprometam a ler poesia também.
E nem assim.
O leitor de poesia tem o direito
de não ler os romances na integra,
como o leitor de romance lê um
poema aqui, outro ali.
O leitor de poesia tem o direito
de só ter lido Tolstoi. Ou Thomas
Mann. Ou Clarice Lispector. Ou
Philiph Roth. Ou nenhum deles.
O leitor de poesia tem o direito
de não conhecer as novidades.
A poesia também é literatura
Filipa Leal
O problema de ser norte
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que
um
raro
silêncio ainda
me interrompa?
Filipa Leal
Entrevista de emprego
prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro, ao nosso relacionamento
profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras, sim,
e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos cuidado com elas,
e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com respeito,
o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas certas,
desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,
e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,
sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas, sim,
mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente pensei
que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da palavra língua,
sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco
e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres, podia soar a sedução,
na verdade só procurava saber se o senhor era machista, desculpe, fui indelicada,
sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das notícias que não vêm
nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há algumas bem cruéis,
não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos pés da câmara,
não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse cama podia voltar a
baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum interesse em si,
tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse aspecto no currículo,
não pensei que escrever poemas fosse uma condenação curricular,
mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor não há-de precisar
de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu horas a frio,
não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo adequado a este diálogo,
e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu tempo, desculpe,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.
Filipa Leal
Vale Formoso
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.
No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.
No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.
Martha Medeiros
Relações virtuais
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele. Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado, escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá conta de certas sutilezas.
Marcelo Montenegro
Desassossegos
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro
Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul
Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade
Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade
Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou
Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
Marcelo Montenegro
Literatura comparada
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
Marcus Vinicius Quiroga
COMPOSIÇÃO EM PRETO E BRANCO
com tonalidades preta e branca
para que habitassem, mesmo opostas,
o espaço da tela
fossem as figuras ovaladas,
como as fez um dia mestre Grego
nem tão santas, nem tão profanas,
lado a lado postas
fosse o predomínio do tom preto
como do profundo sobre o plano
para que só uma fresta,
uma réstia de luz se insinuasse,
espécie de anunciação,
às avessas, e queimasse o quadro
com fogo discreto, mas permanente,
e se desse a fuga
por aquela réstia de luz,
na tela sobrasse a ausência
e no canto a assinatura de um poeta
Marcelo Montenegro
Forte apache
seu quarto. Elvis Costello disse que o rock‘n’roll
não morrerá porque sempre vai ter um garoto
trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém
nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava
da pretensão de “escrever sobre um assunto/
que tocasse todos os assuntos/ Com a pressão
compacta do quarto/ Lotando o mundo entre meus
cotovelos”. Já François Truffaut considerava-se
pertencente a uma família de cineastas que
praticava uma espécie de “cinema do quartinho
dos fundos, que recusa a vida como ela é” —
como“nas brincadeiras de crianças, quando
refazíamos o mundo com nossos brinquedos”.
Como escreveu Ferreira Gullar no Poema sujo,
“que me ensinavam essas aulas de solidão”?
Aliás, é Pascal quem avisa: todos os males
derivam do fato de que não somos capazes
de permanecer tranquilos em nossos quartos.
Marcus Vinicius Quiroga
NAVEGAÇÃO À DERIVA
sabe que há vida além dos mares nos mapas
além das bússolas, astrolábios, diários de bordo
além das lendas dos monstros marinhos, dos mitos
quem navega à deriva
acredita que há nos mares miragens, portos
inesperados, ilhas flutuantes, botes e salva-vidas
água potável, aves voando sobre terra, vertigem
quem navega à deriva
aprende que há mares dentro do mar à vista
profundidade secreta, origem do mundo, poesia
escrita cifrada à espera de quem lhe dê sentido
quem navega à deriva
se perde da costa, do farol na torre, dos olhares
atentos, dos radares, das cartas de navegação
imigra para mares de imprevista dicção
Marcelo Montenegro
Cabaré
E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
Marcelo Montenegro
Sanatório Montenegro
deixar informações adicionais, e aparentemente
despretensiosas, num canto do assunto, como
quem não quer nada, só para impressionar.
Quando você se sente como naqueles filmes
em que o panaca é confundido com alguém
importante. Sua marcha atlética ridícula entrando
por engano na pista dos 100 metros rasos.
Quando se pega mijando no poste porque o
banheiro está sempre lotado. Quando rouba
um olhar constrangido – lindo – da mulher
que ajeitava os cabelos na porta de vidro do metrô.
Quando imagina aquele amigo do Kafka falando
com ele: – “Não, não vou queimar seus gritos.
Seu riso tímido de nicotina na garrafa térmica
da repartição”. Quando acabou de ver as horas,
mas não lembra que horas são. Quando,
esperando para atravessar a rua, você fica vendo
as janelas dos carros fatiarem seu reflexo.
Marcelo Montenegro
Ensaios
Nelson Cavaquinho é o Ingmar Bergman do samba;
AC/DC, os James Browns do metal;
Marcelo Nova foi o Toquinho do Raul;
o seu Francisco (a duas quadras daqui de casa)
é o Shakespeare dos pastéis; Ramones
são Beatles arruaceiros; Faulkner, um pedreiro
experimental; Lou Reed é um Frank Sinatra
roto; Carver é Hooper (em formato conto);
Tom Zé é um misto de Marcel Duchamp
com Jackson do Pandeiro; Seinfeld é Homero.
2.
Beatles é uma perfeição
a que a humanidade
raramente chega.
É Tchékhov, Rilke, Pelé
e Coutinho, Nonas
Sinfonias, Ilíadas, Catherine
Deneuves, pirâmides
egípcias de três minutos.
Marcelo Montenegro
Katia
Californication, implora
ao telefone para que sua
mulher volte. Diz que,
sem ela, não sabe diferenciar
o sublime do ridículo.
De outra forma, o poeta,
neste poema, quer dizer
que em sua mulher
moram todos os seus
textos em modo futuro.
Como Patti Smith em
Só garotos. Ela escreve
que seu companheiro,
Robert Mapplethorpe,
costumava dizer a ela
sobre os seus trabalhos:
“Nada está terminado
até você olhar”.
Friedrich Hölderlin
Ás parcas
Apenas um outono de maduro canto,
Que de bom grado, o coração já farto
Do suave jogo, morrerei então.
.
A alma que em vida nunca desfrutou os seus
Direitos divinos nem no Orco acha repouso;
Mas se eu lograr o que é sagrado, o que
Trago em meu coração, a Poesia,
.
Serás bem-vinda então, paz do mundo das sombras!
Contente ficarei, mesmo que a minha lira
Não leve comigo; uma vez, ao menos,
Vivi como os deuses, e é quanto basta.
An die parzen
Nur Einen Sommer gönnt, ihr Gewaltigen!
Und einen Herbst zu reifem Gesange mir,
Daß williger mein Herz, vom süßen
Spiele gesättiget, dann mir sterbe.
.
Die Seele, der im Leben ihr göttlich Recht
Nicht ward, sie ruht auch drunten im Orkus nicht;
Doch ist mir einst das Heilige, das am
Herzen mir liegt, das Gedicht, gelungen,
.
Willkommen dann, o Stille der Schattenwelt!
Zufrieden bin ich, wenn auch mein Saitenspiel
Mich nicht hinabgeleitet; Einmal
Lebt ich, wie Götter, und mehr bedarfs nicht.
– Friedrich Hölderlin. “An die Parzen”/”Ás parcas”, [tradução José Paulo Paes]. in: in: HÖLDERLIN, Friedrich. Poemas. [seleção, tradução, introdução e notas José Paulo Paes]. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p.87.
Marcelo Montenegro
Eu costumava grifar meus livros
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
Isabel Mendes Ferreira
barco dos milagres
a música é a planície a casa a fonte o mar a chegada.
chego.nos. devota de Joyce.
caligraficamente vazia.
na metade do dia. do amor.
Ana Marques Gastão
Alvo
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
Daniel Francoy
LATITUDES
ou melhor, de uma latitude
que ultrapassada impede
qualquer regresso –
como se o destino de um homem
fosse descer por uma luz vacilante
degrau após degrau.
Sujamo-nos, não há outro caminho
que não seja ter as mãos sujas.
Sujamo-nos e são as mãos sujas
o último elo a romper-se.
Por elas passa o ouro conseguido
a um custo indizível,
o perfume de amores enlouquecidos,
as flores que colhemos quando
muito jovens ou muito cansados.
O último elo a romper-se porque
da luz mais gasta permanece o pólen.