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Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Canto fúnebre a Garcia Lorca

Quando os cavalos negros não chegaram
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.

No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.

E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.

E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.

Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

O abandono do campo, horto e casa

Por fim sopraram forte os favoráveis
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.

E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.

Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.

Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.

Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.

Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos

Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Prince Caspian

Quantas vezes subimos para ele se porventura é ele como a raiz da terra sequiosa?
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?

As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados

Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.

Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural

Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde

E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.

Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar

Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis

Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim

Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
  

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000

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Ruy Belo

Ruy Belo

Haceldama

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
capaz de perseguir uma criança pelas ruas à infância reservadas
alheio e silencioso e tão distante como alguma ideia

Alguém – mas quem? – caiu de bruços ante o santuário
de insídias e ciladas vinha cego
manso senhor dos templos à mercê dos lábios
primeiro e derradeiro como Adão
abolidor da humana deficiência de alma
controlador dos mais subtis movimentos interiores
firme como quem visse o invisível
sol nascente do alto de olhar incendiado e rosto irresistível
senhor indescritível da palavra capaz de destruir
arrancar arruinar e assolar
e levantar e plantar e edificar
nos ombros manto de seus cuidados o outono
na fronte o coração durante imensos dias
as mãos erguidas como sacrifício à tarde
os braços repetidos pelo tempo inumerável
além do mar ou mesmo além do mundo
Será o Alentejo e o que em seus campos vejo
ou o resto de tudo, o que ninguém procura
Mas nesse alguém – quem quer que seja – são reais
o prazer da maçã mordida ocultamente
a casa entreaberta nas veladas vestes da memória
ou Trindade Coelho lido alguma vez à noite
ou simplesmente antigos dias de oliveiras
ou água sobre alguns recém-passados passos
um sábado uma lua ou uma festa

E a palavra – o prometido e adiado coração –
nos é  já sem parábolas proposta
lá onde sobre o vulto trigo insistentemente corre
e um só nome oscila nas eleitas frontes
num movimento lento como o vento
e onde ainda vagamente é sábado
e os homens perseveram nos antigos rigorosos rostos
de encontro ao prometido amanhecer de Deus.

 Outrora vinha Deus e nós dizíamos:
ouve-se o mar
Ou: há na vida ou no quintal a nosso lado
crianças a brincar
Agora nenhum gesto nesse alguém começa ou morre
brilhos tristes ternos gatos mornos mortes males
Já não há ruas para os vários e pequenos sofrimentos
nem ali estamos temos filhos ou envelhecemos
sofremos chuva ou frio a ocidente
não mais somos injustos para com muito mais que os nossos pais
nem a menor ausência nos magoa enormemente
E tudo inalteravelmente soma e segue
Mas vede-o entretanto vir da vida velho do regresso
por muitos rostos gestos longes dispersado
as inúmeras mãos caídas sem remédio ao lado
comprometido o brilho do olhar em excesso

Grande era a história que trazia para contar
Ele quis – oh! quantas vezes – transmiti-la aos outros
mas poucos o ouviram começar retroceder recomeçar
Passai-lhe no entanto o sono pela face e pelos membros
dominicalmente originariamente como com mãos de mãe
vesti-o longos dias meses anos de silêncio
dai-lhe a beber vinagre atai-lhe os movimentos
roubai-lhe pelas feridas o sonho e a saúde
Ungi-o mais – oh! muito mais – humano do que nós
que saberá levar bem mais do que uma enxada às costas
e até determinar as qualidades físicas dos sons

Donde veio ele agora? Quem o tornou possível
e estas nossas mãos abundantes em dias?
Foi visto – dizem – na cidade ia sozinho
preso a uma dor lavada como rua ao sol
perdido e trespassado entre o número dos olhos
levemente submerso nos mais altos rostos
aonde a solidão é mais visível
e a dor perfeitamente navegável a muitas milhas da foz

E há um grande coração em construção

 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 107 a 109 | Círculo de Leitores, Dez 2000

 

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Ruy Belo

Ruy Belo

Homeoptoto

Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)

Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem

Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
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