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Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Ruy Belo

Ruy Belo

O último inimigo

A pêra após a pêra entretanto amadurece
a uva após a uva após o figo o figo
E eu que canto? Canto talvez a lua vagabunda e os eclipses do sol
ou a rota do âmbar escalando os entrepostos do mar Báltico
talvez o fim (ou o princípio) dos homens e dos seres

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
ao peso de todos os anos que teriam
os mortos se houvessem morrido
Nenhuma outra idade lhe convém
e distraidamente eu o convoco
por cada criança que perdeu a inocência
E dir-me-à: "Esquece o teu nome a casa dos teus pais
pelo que não é teu terás um nome novo
Também Pilur
outrora recebeu o nome de Nilur"

Alguém - Febe, Cloé, Ápia, Lídia, Priscila... quem? -
se move repentinamente nas derramadas casas
aonde é mais real a sucessão das estações
e nem o filho pródigo nos vem já redimir
de tudo quanto tem uma cidade que se preza
se não nos esquecermos da carreta funerária
por cada voz extinta na garganta da cidade
O corpo é superior a vítimas e oblações
Não vem à flor do sonho o símbolo mulher
e há um ramo de oliveira e luz e campos entre dois ou vários rostos
e o fumo em que se esvaem tantos dias
e as crianças e as árvores e o mar
Como haveremos de salgar o sal?
Eu sempre fui estrangeiro nesta terra
eu não fiz mal a Deus por nada deste mundo
Só vi cair as árvores em julho
e conheci também a extrema solidão do vento
cravada como um escrúpulo na carne

A muitos anos-luz da infância inverosímil
enquanto nada acabou de todo ainda
nem no solo de Tróia cresce a sombra de uma lança
preparo cuidadosamente a minha morte
seguindo a linha norte-sul do litoral do medo
e acompanhando a progressiva imposição de línguas mais que indo-europeias
a noroeste das penínsulas do sonho
Volto-me para a morte e chamo como só Deus se chama
A morte é um vizinho que se ama

Não és ainda tu
Nunca nenhum de nós
É que não há ninguém
Deus é distante como o vento ou a vida
e no cúmulo da sede nenhuma fonte nasce
Naqueles que morreram confiávamos
mas não mais se erguerão no dia a dia desta terra
onde se colhe em cada rosto a flor imperecível do instante
Afunde então a melhor mão na mais profunda dor
entre as convulsas caravelas do teu pranto
e não mais saberás onde a haverás de pôr
Eu digo-te que é Jonas o único sinal
e Argos afinal a cidade onde devíamos voltar
levando em cada mão as tácteis flores de Santa Maria
para vivermos lá como dez anos antes
Não choraremos com as filhas de Jerusalém?

Permanecer sentados tantos dias sem nenhuma ideia
ou distraído olhar para a mosca de súbito importante
à frente um simples prato Moscavide e a manhã
sereno mundo líquido num copo
contrário desacordo com o corpo
e as árvores de pé como um insulto
ou na areia de qualquer perdida e pequenina praia ousar o gesto de imolar
às planas e quebradas mãos do mar a flor do que sabemos
e assim à líquida embaixada ensinar a soletrar
a orla do país que nesse instante fomos
talvez a ocidente do melhor que somos
- que as palavras remirão estes ou outros movimentos do olvido?

O inverno veio e não o recebemos
havia tanta coisa a receber
talvez nem fosse propriamente o inverno
mas tu, o grande distraído, que nos ouves
Quare ergo rubra vestimenta tua,
vindo de vestes rubras desde Bosra
na sempre repetida impiedade de Jacob?
Generationem eius quis narrabit?
A tua face, ó meu amigo, é alta como as coisas que se perdem
e demoramos nela os nossos melhores olhos
Aonde estás, Emmanuel, aonde?
Eu tive-te na boca e não te conhecia
e desejava ter aquilo que mais tinha
no próprio acto de o ter (e de o perder),
ó alegria inerente ao começo das coisas
Como desceste, ó desejado, das colinas eternas
para quebrares as pernas contra tantas portas fechadas sobre ti?
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?
Ó grande distraído, que fizeste esta manhã?

Alguma coisa é a casa mais séria da vida
Não mais outras palavras que punhais
cravados como rios no flanco do mar
lá onde for mais íntimo o abraço
que gera o horizonte e sacrifica o espaço
Curae non ipsa in morte relinquimus
O homem é ainda o maior erro
e que melhor vingança que estender
a sua ausência toda sobre a terra devastada
O homem é um homem derrotado
um ser para chorar e nunca assaz chorado
um ser para cair excessivamente levantado
e Roma continua sobre as veias de Lucano

A morte é a verdade e a verdade é a morte
Ao homem não foi dado nenhum outro dia
e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar
É humano nascer
é humano tomar e apodrecer
oculta e lentamente
qualquer pedra última pedra
duobus duabus crianças diabos
pequeno almoço grande belt pequeno lord
o túnel Dante pace este relógio não anda
Coimbra onde é inumerável pedra
O homem Adão vindo do chão é um animal doente
ser permanentemente moribundo
coisa para esconder sob um pouco de terra
- em que lar faltará esta mulher? -
e vale a pena chorar


Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 120 a 123 | Círculo de Leitores, Dez 2000
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Grutas

O esplendor poisava solene sobre o mar. E — entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido — quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é só solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.
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