Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 642
Luís António Cajazeira Ramos
Ai, Cais!
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.
Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.
Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.
Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.
Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...
1 066
Luís António Cajazeira Ramos
O Canto do Cisne
Quando me vi no instante derradeiro,
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.
Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.
Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.
Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.
Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.
Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.
Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!
1 214
João Ferry
Valença do Piauí
200 anos! Como está velhinha!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
1 324
José Maria Nascimento
A Casa de Palha
A coberta da casa tinha
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.
O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.
Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.
Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.
A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.
O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.
O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.
Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.
Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.
A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.
O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!
1 472
João Fortunato
Estela
Para Manuel Ribeiro de Paiva
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
782
José Fernandes Fafe
Testamento, entre os pinheiros e o mar
Se eu morrer primeiro do que tu,
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...
E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...
945
J. B. Sayeg
O Velho
O velho disse vamos
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.
( de Os Comedores do Museu, 1979)
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.
( de Os Comedores do Museu, 1979)
907
José Carlos Souza Santos
Cavalgada I
Cavalgada I
Ontem
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
Ontem
te encontrei
nas minhas veredas anfíbias
de encantos e descaminhos
e de relance
vi o rosto
de trezentas rosas morenas
brincando de recordar
foi fugaz e relancino
o tempo meu inimigo
escondeu-a numa curva
e por mais que galopasse
a crina azul do meu cavalo
a distância ciumenta me roubava de você
mandei dizer pelo vento
velho companheiro
de brincar nos teus cabelos
te espero na guirlanda do meu verso
vamos cobrar do tempo
o saldo que ele nos deve
vamos no verde do musgo
brincar de cama macia
e o canto dos meus galos
em quatro corpetes cingidos
farão círios e dosséis
na roca do meu tear.
(do livro Estrelas Ausentes)
1 040
João Carlos Teixeira Gomes
Ante o Mar
Ávido de sol poente,
me planto na extensão do rude cais
a ver o mar que sonha à minha frente
— tão longo como é longo o nunca mais.
As ondas me propõem ecos de um tempo
em que me desavim nas travessias,
porque nauta já fui, ao léu dos ventos,
premido entre tufões e calmarias.
E assim também me lanço pela vida
num jogo de fortunas alternadas,
buscando a dúbia rota presumida
entre as coisas presentes e passadas.
me planto na extensão do rude cais
a ver o mar que sonha à minha frente
— tão longo como é longo o nunca mais.
As ondas me propõem ecos de um tempo
em que me desavim nas travessias,
porque nauta já fui, ao léu dos ventos,
premido entre tufões e calmarias.
E assim também me lanço pela vida
num jogo de fortunas alternadas,
buscando a dúbia rota presumida
entre as coisas presentes e passadas.
1 115
José Eduardo Mendes Camargo
Você Chegou
Você chegou com esse seu jeito de menina moça,
corpo bonito, andar elegante
e gestos cheios de encanto.
Você chegou com um olhar de tristeza,
momentos de ausência e intensa presença
Você chegou com esse seu modo
franco, suave, espalhando e despertando
afeto e carinho.
Você chegou com esse seu cheiro gostoso,
pele macia e lábios carnosos de tanta volúpia.
Você chegou como que retomando de uma longa ausência
povoada das melhores lembranças.
corpo bonito, andar elegante
e gestos cheios de encanto.
Você chegou com um olhar de tristeza,
momentos de ausência e intensa presença
Você chegou com esse seu modo
franco, suave, espalhando e despertando
afeto e carinho.
Você chegou com esse seu cheiro gostoso,
pele macia e lábios carnosos de tanta volúpia.
Você chegou como que retomando de uma longa ausência
povoada das melhores lembranças.
778
José Eduardo Mendes Camargo
Despertar
Acorda e recorda, mulher!
Que recordar é viver outra vez.
Que vibrar é viver e fenecer é morrer.
Acorda e desperta, mulher, outra vez!
Que o amor, a dor e o prazer é viver!
Que recordar é viver outra vez.
Que vibrar é viver e fenecer é morrer.
Acorda e desperta, mulher, outra vez!
Que o amor, a dor e o prazer é viver!
969
José Eduardo Mendes Camargo
Fugaz
Fugaz é o momento do encontro.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.
1 241
José Carlos Souza Santos
Do livro Estrelas Ausentes
A Tarde que Me Cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
876
Idalina de Carvalho
Sem Título
Quando a tarde
caía sobre nós
enegrecendo o céu
era como se a vida
nos fosse tirada
por momentos
que a crueldade
fazia eternos.
Mas amanhecia
sempre
e tínhamos o sol
o quintal
recheado de cenouras
e o balanço
na goiabeira
insistentes em nos
fazer crer que
sobrevivíamos.
caía sobre nós
enegrecendo o céu
era como se a vida
nos fosse tirada
por momentos
que a crueldade
fazia eternos.
Mas amanhecia
sempre
e tínhamos o sol
o quintal
recheado de cenouras
e o balanço
na goiabeira
insistentes em nos
fazer crer que
sobrevivíamos.
906
Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
1 409
J. Anderson
Invenção do Vento
No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.
1 083
Humberto Fialho Guedes
Contemplação da Aurora
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.
Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.
Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.
Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.
Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.
(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)
Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.
E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:
ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.
Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.
Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.
Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.
Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.
Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.
(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)
Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.
E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:
ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.
884
Hemetério Cabrinha
Convicção
Tenho a certeza de já ter vivido
Através de outros mundos, de outras eras;
Na rude embriogenia das moneras,
Microcósmicamente impercebido.
Grão de pó entre abismos e crateras,
Nos turvos elementos confundido.
Hei por milhões de séculos sofrido
Entre minérios, vegetais e feras.
Rolei no caos da natureza bruta,
Conseguindo, através de intensa luta,
Chegar à borda dêste humano abismo.
Partícula do Todo simplesmente,
Mas já sentindo no evolver da mente
A razão dêste eterno transformismo.
Através de outros mundos, de outras eras;
Na rude embriogenia das moneras,
Microcósmicamente impercebido.
Grão de pó entre abismos e crateras,
Nos turvos elementos confundido.
Hei por milhões de séculos sofrido
Entre minérios, vegetais e feras.
Rolei no caos da natureza bruta,
Conseguindo, através de intensa luta,
Chegar à borda dêste humano abismo.
Partícula do Todo simplesmente,
Mas já sentindo no evolver da mente
A razão dêste eterno transformismo.
866
Helena Parente Cunha
Retrato
de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui
quem aparece
onde pareço?
pouso de passagem
na fotografia
atrás do quadro
que me contorna
desapareço
quem comparece
na própria face?
poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)
de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato?
o meu retrato
ainda estará aqui
quem aparece
onde pareço?
pouso de passagem
na fotografia
atrás do quadro
que me contorna
desapareço
quem comparece
na própria face?
poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)
de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato?
1 500
Gonçalo Soares da Franca
Soneto
Hoje que, remontada ao firmamento,
Fênix pertende do Brasil a história,
das flamas emplumar-se da memória,
sacudindo os carvões do esquecimento.
A vossa proteção o seu intento
com justa confiou digna vanglória,
que onde as armas, e as letras têm vitória,
têm os anos, e os tempos rendimento.
Não tema pois, a história a cinza obscena,
se eloqüente uma mão, e outra alentada,
põem na estampa dos Céus qualquer Camena:
que era glória lograsse eternizada,
para os vôos, arrojos nessa pena,
para os rasgos, impulsos nessa espada.
Fênix pertende do Brasil a história,
das flamas emplumar-se da memória,
sacudindo os carvões do esquecimento.
A vossa proteção o seu intento
com justa confiou digna vanglória,
que onde as armas, e as letras têm vitória,
têm os anos, e os tempos rendimento.
Não tema pois, a história a cinza obscena,
se eloqüente uma mão, e outra alentada,
põem na estampa dos Céus qualquer Camena:
que era glória lograsse eternizada,
para os vôos, arrojos nessa pena,
para os rasgos, impulsos nessa espada.
658
Humberto Fialho Guedes
Poema — Canto
Cantarei a forma exata do teu gesto
projetado na memória;
a tua sombra,
na presença de detalhes onde habito.
Cantarei as nuas palmas
(onde moram os ventos)
na certeza dos teus sonhos nos espaços.
Cantarei mares e ilhas
portos
adeuses em gestos e saudades.
O teu silêncio cantarei nos olhos
revendo o pôr do sol num cais de pedra.
E me farei tranqüilo na escuta
dos sons que anunciem teu retorno.
Cantarei, mais do que nunca, a tua imagem
preenchendo auroras e desejos;
as mãos em formas pressentidas,
o rosto esculpido em falas e sorrisos.
Cantarei a forma exata do teu gesto
projetado na memória;
teu corpo branco envolto em brumas
de sonoras lembranças onde eu me recolho.
projetado na memória;
a tua sombra,
na presença de detalhes onde habito.
Cantarei as nuas palmas
(onde moram os ventos)
na certeza dos teus sonhos nos espaços.
Cantarei mares e ilhas
portos
adeuses em gestos e saudades.
O teu silêncio cantarei nos olhos
revendo o pôr do sol num cais de pedra.
E me farei tranqüilo na escuta
dos sons que anunciem teu retorno.
Cantarei, mais do que nunca, a tua imagem
preenchendo auroras e desejos;
as mãos em formas pressentidas,
o rosto esculpido em falas e sorrisos.
Cantarei a forma exata do teu gesto
projetado na memória;
teu corpo branco envolto em brumas
de sonoras lembranças onde eu me recolho.
1 083
Helena Parente Cunha
Quem
quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
1 080
Geir Campos
Safra
Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
— assim viver a vida, instante a instante.
1 268