Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
964
Gilberto Diener
Introdução
Éramos meninos ainda,
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982
985
Gilson Nascimento
Noite de São João
A festa qui nóis fizemo
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou
São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada
São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João
Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João
São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá
Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou
São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada
São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João
Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João
São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá
Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João
1 006
Francisco Orban
1975
Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
1 092
Fernando J. B. Martinho
Fronteira Azul
Esta manhã vai subir
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.
Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.
Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.
Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.
Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.
Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.
Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
como um lírio estrangulado
lentamente na garganta.
Esta manhã vai ter nas mimosas
e no ar a alta vibração
de um caminho para a Morte
decidido firme e incorrupto.
Vai passar o silêncio
a fronteira azul onde os gerânios estremecem
a mais pura gota de água
a que nega o gosto a gravidade
a que cai no céu e o embacia.
Dizer do vento a primeira sílaba
a primeira semente
quando a terra ainda
se não tinha desprendido
do caos
referir da lembrança
o que mais dói
nos seus recessos
como custa suportar
a luz crua
das salinas
que eleva nas margens
do nosso desespero.
Quando a morte
se não podia ainda
olhar de frente
e os morcegos nos feriam
com o latejar de um sangue
mais fulminante que qualquer luz
acontecia na terra
o que nunca mais ousou repetir-se
um lírio dava cor e dava forma
à simplicidade
bravia
entre o silêncio
e o que prometia ser a noite derradeira.
Uma montanha
ao alcance das veias
um dia
deu mais força aos membros
mais volume
à voz
e quando já no rio
toda uma vontade
de nela ser um cardo
crescia
se me recusou
abruptamente.
Onde foi
que um dia
a limpidez
teve o sangue do ultraje
no rosto
e não houve ninguém
um lenço sequer
para lho limpar?
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
485
Francisco Orban
Rio de Janeiro
Noite densa de falas e pontes
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
916
Francisco Carvalho
Testamento Real
Fui nascido rei
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.
Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.
Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.
Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.
Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.
Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei
vive para sempre
à sombra do herói.
1 022
Florisvaldo Mattos
Dezembro
Menino ainda, costumava
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.
Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!
Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
romper o cristal da manhã
e do macio horizonte
cavalgar o aromado pêlo
haurindo a seiva do dia, tanto me
comoviam os animais no campo.
Na adolescência,
ave, passei às mãos das incertezas:
como a mim permitiam decidi
a vida cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta
na água dos riachos me banhava
da pedra me enxugava nas durezas
que ao vento domavam e refaziam
meu secreto saber.
Eu era agora um homem,
tanto me diziam, tanto me provava
o contato com os homens ou algo mais.
A lua cheia matava-me no silêncio,
invariável lua que jamais cantei
por pouco ser e muito dizer.
Amanhecia por vezes sobre um couro,
transido de frio, sem pecados.
Amava a terra, doação da manhã,
mesmo quando armas rudes me cortavam
a fímbria da existência: eu era
um pouco das safras transportadas,
da poeira que tropeiros levantavam
misturada a rastro de sangue nas ladeiras
"Um cavalo cortado ao meio", me diziam,
e isso valia como identificação
ao que vem e suporta seus tropeços.
Os companheiros de infância,
muito bem mortos, lá estão
esculpidos em ecos, regressando,
do afã diário aos búzios vesperais,
ignorando armadilhas do sol-posto,
tanto falam-me os gestos, os ruídos.
E como vêm falar do que não foram!
Agora é dezembro, e pouco vale
um coração cruzado de datas,
mesmo punhais de lâminas fecundas,
rebrilhando ao sol do meio-dia,
de flores, de frutos na campestre senda.
Humilho-me por não ser o que mais fui,
consciente mas expondo-me aos assédios
de ventos ruminosos, águas várias
— águas de aboio insopitado e lento.
Agora é dezembro: com seu penacho
de luz acende o caminho, incinerando
as fétidas lembranças, colorindo
ausências de sonora geometria.
Antes triste que perdido
ao sol que nos confunde,
à chuva que nos vence.
Agora é dezembro, um mês guerreiro,
que doma sombras ao calor de espadas.
996
Fernando Fábio Fiorese Furtado
A Casa
na rua da casa não passe.
o futuro será póstumo
a fachada da Casa não olhe.
os olhos serão outros
na calçada da Casa não pise.
a terra será queda
os frutos da Casa não coma.
dentro as paixões disparam
aos viventes da Casa não fale.
qualquer palavra é rendição
os cômodos da Casa não visite.
os gatos enlouquecem de tanta beleza
na Casa eu vivo.
os ausentes são minha família
o futuro será póstumo
a fachada da Casa não olhe.
os olhos serão outros
na calçada da Casa não pise.
a terra será queda
os frutos da Casa não coma.
dentro as paixões disparam
aos viventes da Casa não fale.
qualquer palavra é rendição
os cômodos da Casa não visite.
os gatos enlouquecem de tanta beleza
na Casa eu vivo.
os ausentes são minha família
980
Florisvaldo Mattos
Quarto Monólogo
(O Fel das Roupagens)
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
Sobre areia largados utensílios,
à vigilância (naus enraivecidas)
dos cães. Os homens já são água e vento.
Retomemos o rastro dos cavalos,
O tempo regressivo, o sortilégio.
Sopram búzios os corpos esfolados.
Um grito sai das veias. Mutilados
pescoços emigrantes, olhos gastos
revisam espetáculo dos rios:
a guerra está no sangue sem verdades
submissos sem marfim — os absolutos.
Ei, parem. É comigo que eles falam,
os mortos, os prantos dominados.
Ardem de escravidão os nervos mudos.
Para os campos de el-rei, para os poentes,
os trabalhos acendem lábios duros,
os sonhos se aluíram na memória.
É comigo que duelam dedos murchos,
e sou eu quem trafega em suas noites,
piso chão de resgate e pesadelos.
Todos sabem que sou. Os que morreram
guardam o dever retido na montanha,
os ódios recomeçam e há retorno.
Mortos crivam no vidro a fúria toda
do principal momento não vivido.
Humanos gritos (sempre humanos) deixam
nas paredes a intacta geografia
do tempo aprisionado — resistência
do apodrecido chão que os mortos pisam
Meu tempo é medieval: um barão doente
vomita girassóis. Os dentes velhos
removem a canção dos muros frios,
por onde deslizasse mão ossuda,
que dos olhos nascida, florescera
em nave corrompida ou vãos tijolos.
Os bens adormeceram indivisos,
tão feitos do marfim dos patriarcas.
A palavra escondeu as previsões,
súbito amanhecida de mudanças:
o barão é um barão, sempre barão,
doira-se entre soluços e águas mortas.
Olhos pendem acesos da muralha,
riscando negro limo da memória,
e medem a extensão — antessonhado
mundo. Reina ao mesmo tempo inviolado.
Onde o espelho, o relho? Quero um espelho
onde veja o possuído tempo unânime.
o tempo meu, cortando extintos rostos,
apagados gemidos, como lâminas.
Quem vem lá, distante, avançando?
Quem ameaça meu solo, minha fauna?
Quem já próximo está violando o templo?
O espaço jaz imerecido.
Flui a verdade entre caminhos mortos.
Olho em redor: sumiram do terraço
guardas e lavradores — todos hoje
avançam na planície. As armas foram-se.
Devolvido o silêncio, as torres dormem.
958
Fernando Guedes
O Caule
Cinzentas procuras interceptam
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa.
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingênua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
o paralelismo recusado.
Sem preferência de ritmo
as fotografias dividiram entre si
os intervalos do tempo. Duas.
No caminho vãos destinos se buscam.
Só a molécula resiste, a flor aberta,
o caule perfumado, a raiz vigorosa.
onde a raposa construiu o seu covil,
a folhagem criada para o abrigo do mocho,
a inteira floresta, espinheiros e buxo,
o labirinto,
o eco da canção antiga,
ingênua e tão distante.
E do eco, do bosque, do labirinto, da flor aberta
se nutre de novo o movimento.
Os símbolos perfilam outro símbolo.
1 208
Flávio Sátiro Fernandes
Ofício da escrita
Sento-me à máquina
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
811
Fernando José dos Santos Oliveira
A Meu Pai
A Meu Pai
O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.
Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?
Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!
Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!
Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.
Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.
Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.
O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.
Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?
Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!
Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!
Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.
Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.
Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.
1 114
Francisco Karam
Coração Viajante
Chegam e vão entrando em mim
Como por um caminho aberto.
Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.
Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.
O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.
O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.
Como por um caminho aberto.
Passam e vão
Levando da poeira de minha carne
Na carne do seu corpo.
Ficam em mim, como na estrada,
As marcas dos seus pés
E o murmúrio distante dos seus cânticos.
O meu corpo tem saudades.
Ele as iluminou,
Como o braseiro dos serões,
Dando sangue, dando calor.
O meu corpo tem nostalgia.
Ele vive,
Na carne que elas levaram dele.
Na alma que elas arrancaram,
Aos punhados, dos meus olhos.
1 139
Fernando Cereja
Qdo a cabeça
qdo a cabeça
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.
798
Félix Aires
Trovas
Longe, a gaivota voando,
é um til perdido nos ares...
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!
Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.
Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.
Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.
Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!
Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!
é um til perdido nos ares...
E eu viajo, me recordando
da bênção dos teus olhares!
Por tua beleza tanta
se enflora meu pensamento,
e a boca da noite canta
as melodias do vento.
Da mais pura filigrana,
com esse encanto de lenda,
tu és uma trova humana
vestida de seda e renda.
Quando ela chega, seu riso
é um lírio abrindo a corola
e então nascem de improviso
flores ao pé da viola.
Que lindo o mar! Nestas rotas
vejo as velas nos folguedo!
Alva toalha de gaivotas
sobre a mesa dos rochedos!
Da caboclinha bonita
armam-se os seios seguros,
que são dois frutos maduros
dentro de um ramo de chita!
951
Urhacy Faustino
Inversão de valores
Na minha infância
não conheci moeda,
senão o celeiro cheio
e as vacas gordas.
Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Carecia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.
não conheci moeda,
senão o celeiro cheio
e as vacas gordas.
Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Carecia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.
837
Fernanda Benevides
Afagando Sonhos
Meu coração afaga sonhos.
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...
817
Fernanda Benevides
Rememorando
Revejo saudosa
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
813
Fábio Afonso de Almeida
Sebastiana e a Pedrap
Todo o dia que amanhece
Com chuva ou com sol, sempre acontece
Sebastiana devagarinho, como um anjo
Chega `a nascente da água mineral
Rác, rác, rác, rác
Sebastiana raspa o pé na pedra
O pé raspa a pedra de Sebastiana
(Será que a pedra tem espírito?)
Sebastiana, sim, tem a pedra preferida
Áspera, redonda e oferecida
Pedaço de rocha primitiva e úmida
De uma razão qualquer que desconheço
Testemunho o encontro todos os dias
Nas brumas das manhãs tão frias
E fico cismando, como de hábito
Sobre fatos pretéritos e misteriosos
Quando na terra primeva do planalto central
Entre raios e abalos sísmicos de força brutal
Feios dinossauros passearam pelo parque
E a água fria brotou da rocha
Cristalina e pura, correu por milhões de anos
No santuário mágico do poço dos anjos
Alvoradas e arrebóis sem conta se sucederam
O tempo hipnotizado se liquefez em eras...
No fundo do poço desde sempre e agora
A pedra, fico pensando, esperou a hora
De passar a magia destas eras
A quem, no fundo, sempre soubesse
Alguém como Sebastiana, de outras vidas
(Imagino que tão antigas e sofridas)
Para trazer a manhã sempre calma
Deste suceder infinito, presente para mim
Sebastiana rala o pé na pedra
O pé rala a pedra de Sebastiana
O tempo vira água pura e pedra
Como se não existisse
Ou como se fosse Sebastiana...
Rác, rác, rác, rác....
Com chuva ou com sol, sempre acontece
Sebastiana devagarinho, como um anjo
Chega `a nascente da água mineral
Rác, rác, rác, rác
Sebastiana raspa o pé na pedra
O pé raspa a pedra de Sebastiana
(Será que a pedra tem espírito?)
Sebastiana, sim, tem a pedra preferida
Áspera, redonda e oferecida
Pedaço de rocha primitiva e úmida
De uma razão qualquer que desconheço
Testemunho o encontro todos os dias
Nas brumas das manhãs tão frias
E fico cismando, como de hábito
Sobre fatos pretéritos e misteriosos
Quando na terra primeva do planalto central
Entre raios e abalos sísmicos de força brutal
Feios dinossauros passearam pelo parque
E a água fria brotou da rocha
Cristalina e pura, correu por milhões de anos
No santuário mágico do poço dos anjos
Alvoradas e arrebóis sem conta se sucederam
O tempo hipnotizado se liquefez em eras...
No fundo do poço desde sempre e agora
A pedra, fico pensando, esperou a hora
De passar a magia destas eras
A quem, no fundo, sempre soubesse
Alguém como Sebastiana, de outras vidas
(Imagino que tão antigas e sofridas)
Para trazer a manhã sempre calma
Deste suceder infinito, presente para mim
Sebastiana rala o pé na pedra
O pé rala a pedra de Sebastiana
O tempo vira água pura e pedra
Como se não existisse
Ou como se fosse Sebastiana...
Rác, rác, rác, rác....
772
Emílio Moura
Os que se Foram
Pouco a pouco vou compreendendo esta verdade tão
simples:
Agora é que realmente existem
os que se foram.
Só agora é que todos eles se movimentam
livres, imensamente livres.
Só agora é que falam
o que sempre calaram e era precisamente o que me
levaria
à única verdade que traziam.
Saem de velhos retratos, ou de ressuscitadas palavras
soltas,
e caminham comigo que os não sabia tão transparentes
e comunicativos
tão lógicos,
tão completos.
Completos e definitivos.
simples:
Agora é que realmente existem
os que se foram.
Só agora é que todos eles se movimentam
livres, imensamente livres.
Só agora é que falam
o que sempre calaram e era precisamente o que me
levaria
à única verdade que traziam.
Saem de velhos retratos, ou de ressuscitadas palavras
soltas,
e caminham comigo que os não sabia tão transparentes
e comunicativos
tão lógicos,
tão completos.
Completos e definitivos.
1 074
Elisa Lucinda
Penetração do Poema das Sete Faces
A Carlos Drumond de Andrade
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
1 861
Ernani Sátyro
Recife
(Recordando)
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio da aurora
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades que tenho
De meus sonhos tão branquinhos
Lavando as águas barrentas,
Das águas levando os sonhos
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades meu Deus
De meus passos na calçada
Acordando aquela estátua
Do Conde de Boa Vista,
Eu querendo ser estátua
Só não querendo morrer.
Oh que saudades também
Do meu amor em Olinda.
Navegava em pensamento
Nos navios que passavam
Mas nadava de verdade
Dando braçadas nas águas
E no corpo da amada.
Oh que saudades, já quantas,
Do Diário e do Comercio
Que só são bons de ser lidos
Bem quentinhos com o café
Numa pensão de estudantes
Vendidos por gazeteiros.
Oh que saudades que tenho
Da minha ama de leite
Joana Pé de Papagaio
Que não conheceu Recife
Mas cujo leite escorria
Nas águas daquele rio
Levado pelos meus olhos
Onde nunca ele secou
E ainda hoje umedece
Um certo modo de olhar.
A outra saudade grande
É dos sonhos bem sonhados
Bem pouco realizados.
E das frases preparadas
Pra serem ditas ao povo
a multidões inflamadas
Pela força do meu verbo
Mas que foi bom não ter dito
Porque eram ruins demais.
Minha saudade maior
É daquelas esperanças
De ser um bom promotor
Lá bem dentro do sertão
Discursando para o júri
Namorando as moças todas
Depois casando orgulhoso
Com a filha do coronel.
Se outras coisas alcancei
Tão boas e até melhores
Não são as coisas sonhadas
Com os passos firmes no chão
Os olhos bem para cima
Desfiando as estrelas
Que não sabiam de nada.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio na aurora
Que as águas não trazem mais.
Saudades são mil saudades
Do rio que corre agora
Pra outros que não o vêem
Mas termina sempre em mim
Que eu é que sou seu mar.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio da aurora
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades que tenho
De meus sonhos tão branquinhos
Lavando as águas barrentas,
Das águas levando os sonhos
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades meu Deus
De meus passos na calçada
Acordando aquela estátua
Do Conde de Boa Vista,
Eu querendo ser estátua
Só não querendo morrer.
Oh que saudades também
Do meu amor em Olinda.
Navegava em pensamento
Nos navios que passavam
Mas nadava de verdade
Dando braçadas nas águas
E no corpo da amada.
Oh que saudades, já quantas,
Do Diário e do Comercio
Que só são bons de ser lidos
Bem quentinhos com o café
Numa pensão de estudantes
Vendidos por gazeteiros.
Oh que saudades que tenho
Da minha ama de leite
Joana Pé de Papagaio
Que não conheceu Recife
Mas cujo leite escorria
Nas águas daquele rio
Levado pelos meus olhos
Onde nunca ele secou
E ainda hoje umedece
Um certo modo de olhar.
A outra saudade grande
É dos sonhos bem sonhados
Bem pouco realizados.
E das frases preparadas
Pra serem ditas ao povo
a multidões inflamadas
Pela força do meu verbo
Mas que foi bom não ter dito
Porque eram ruins demais.
Minha saudade maior
É daquelas esperanças
De ser um bom promotor
Lá bem dentro do sertão
Discursando para o júri
Namorando as moças todas
Depois casando orgulhoso
Com a filha do coronel.
Se outras coisas alcancei
Tão boas e até melhores
Não são as coisas sonhadas
Com os passos firmes no chão
Os olhos bem para cima
Desfiando as estrelas
Que não sabiam de nada.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio na aurora
Que as águas não trazem mais.
Saudades são mil saudades
Do rio que corre agora
Pra outros que não o vêem
Mas termina sempre em mim
Que eu é que sou seu mar.
991
Elisa Lucinda
A Esse Papo Indo-lente
Quando me perguntam depois de
"Ó que lindos olhos"...
Esses olhos são seus?"
Me sinto como se perguntassem
se o sol é rei mesmo
ou uma espécie de lâmpada de mil
Me sinto constrangida como se tivesse
sido possível a alguém alguma vez
confundir lata de goiabada com fruta de pé.
me sinto velha virada há milênios
Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci.
Me sinto madura madeira escaldada
pra lá destas idades do agora.
Sou dos longínquos tempos de goiabeiras
mangueiras, formigas cabeçudas
tanajuras de umidade, baratas cascudas
e canaviais nos quintais
Sou ainda mais
na magia do que havia nesses anais,
sou do tempo em que era bom
nascer com olhos de esmeralda
e a artista a ser cumprimentada
era a mãe-natureza
pela proeza de olhos ser olhos
e lente ser lente.
Sou do tempo em que eu era
toda realeza
e com certeza não se compravam olhos
em shoppings, meus deus.
Sou do tempo em que meus olhos
Só podiam ser meus.
"Ó que lindos olhos"...
Esses olhos são seus?"
Me sinto como se perguntassem
se o sol é rei mesmo
ou uma espécie de lâmpada de mil
Me sinto constrangida como se tivesse
sido possível a alguém alguma vez
confundir lata de goiabada com fruta de pé.
me sinto velha virada há milênios
Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci.
Me sinto madura madeira escaldada
pra lá destas idades do agora.
Sou dos longínquos tempos de goiabeiras
mangueiras, formigas cabeçudas
tanajuras de umidade, baratas cascudas
e canaviais nos quintais
Sou ainda mais
na magia do que havia nesses anais,
sou do tempo em que era bom
nascer com olhos de esmeralda
e a artista a ser cumprimentada
era a mãe-natureza
pela proeza de olhos ser olhos
e lente ser lente.
Sou do tempo em que eu era
toda realeza
e com certeza não se compravam olhos
em shoppings, meus deus.
Sou do tempo em que meus olhos
Só podiam ser meus.
1 540