Poemas neste tema
Música
Pinto de Monteiro
Peleja de Pinto com Milanês
Severino Milanês da Silva
Milanês estava cantando em vitória de Santo Antão chegou Severino Pinto nessa mesma ocasião em casa de um marchante travaram uma discussão.
M - Pinto, você veio aqui
se acabar no desespero
eu quero cortar-lhe a crista
desmantelar seu poleiro
aonde tem galo velho
pinto não canta em terreiro
P - mas comigo é diferente
eu sou um pinto graúdo
arranco esporão de galo
ele corre e fica mudo
deixa as galinhas sem dono
eu tomo conta de tudo
M - Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que agüente
P - Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.
M - Pinto, cantador de fora
aqui não terá partido
tem que ser obediente
cortês e bem resumido
ou rende-me obediência
ou então é destruído
P - Meu passeio nesta terra
foi acabar sua fama
derribar a sua casa
quebrar-lhe as varas da cama
deixar os cacos na rua
você dormindo na lama
M - Quando vier se confesse
deixe em casa uma quantia
encomende o ataúde
e avise a feguezia
que é para ouvir a sua
missa do sétimo dia
P - Ainda eu estando doente
com uma asa quebrada
o bico todo rombudo
e a titela pelada
aonde eu estiver cantando
você não torna chegada
M - O pinto que eu pegar
pélo logo e não prometo
vindo grande sai pequeno
chegando branco sai preto
sendo de aço eu envergo
sendo de ferro eu derreto
P - No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço
M - No dia que dou um grito
estremece o ocidente
o globo fica parado
o fruto não dá semente
a terra foge do eixo
o sol deixa de ser quente
P - Eu sou um pinto de raça
o bico é como marreta
onde bate quebra osso
sai felpa que dá palheta
abre buraco na carne
que dá pra fazer gaveta
M - Eu pego um pinto de raça
e amolo uma faquinha
faço um trabalho com ele
depois pesponto com linha
ele vivendo cem anos
não vai perto de galinha
P - Milanês, você comigo .
desaparece ligeiro
eu chego lá tiro raça
me aposso do poleiro
e você dorme no mato
sem poder vir no terreiro
M - Pinto, agora nós vamos
cantar em literatura
eu quero experimentá-lo
hoje aqui em toda altura
você pode ganhar esta
porém com grande amargura
P - pergunte o que tem vontade
não desespere da fé
do oceano, rio e golfo
estreito, lago ou maré
hoje você vai saber
pinto cantando quem é
M - Pinto, você me responda
de pensamento profundo
sem titubear na fala
num minuto ou num segundo
se leu me diga qual foi
a primeira invenção do mundo
P - Respondo porque conheço
vou dar-lhe minha notícia
foi o quadrante solar
pelo povo da Fenícia
os babilônios também
gozaram a mesma delícia
M - Como você respondeu-me
não merece disciplina
hoje aqui não há padrinho
que revogue a sua sina
se você souber me diga
quem inventou a vacina?
P - Não pense que com pergunta
enrasca a mim, Milanês
foi a vacina inventada
no ano noventa e seis
quem estuda bem conhece
que foi Jener Escocês
M - Sua resposta foi boa
de vocação verdadeira
mas queira Deus o colega
suba agora essa ladeira
me diga quem inventou
o relógio de algibeira?
P - No ano mil e quinhentos
Pedro Hélio com façanha
em Nuremberg inventou
essa obra tão estranha
cidade da Baviera
que pertence a Alemanha
M - Pinto, cantando não gosto
de amigo nem camarada
se conhece a história
Roma onde foi fundada?
o nome do fundador
e a data comemorada?
P - Em l7 e 53
antes de Cristo chegar
nas margens do Rio Tibre
isso eu posso lhe provar
Rômulo ali fundou Roma
a 15 milhas do mar
M - Pinto, eu na poesia
quero mostrar-lhe quem sou
relativo o avião
perguntando ainda vou
diga o primeiro balão
quem foi que inventou?
P - Em mil seiscentos e nove
Bartolomeu de Gusmão
no dia oito de agosto
fez o primeiro balão
hoje no mundo moderno
chama-se o mesmo avião
M - Pinto estou satisfeito
já de você eu não zombo
mas não pense que com isto
atira terra no lombo
disponha de Milanês
pra ver se ele agüenta o tombo
P - Milanês, você comigo
ou canta ou perde o valor
você me responda agora
seja que de forma for
de quem foi a invenção
do primeiro barco a vapor?
M - Eu quero lhe explicar
digo não muito ruim
a 16 a 87
você não desmente a mim
o inventor desse barco
foi o sábio Diniz Papim
P - Em que ano inaugurou-se
da Europa ao Brasil
a linha pra esse barco
a vapor e mercantil?
Se não souber dê o fora
vá soprar em um funil
M - Foi um navio inglês
que levantou a bandeira
em 18 a 51
veio a terra brasileira
sendo a nove de janeiro
fez a viagem primeira
P - E qual foi a 1a guerra
feita a barco a vapor?
Você ou diz ou apanha
da surra muda de cor
quebra a viola e deserta
nunca mais é cantador
M - Em l8 e 65
a esquadra brasileira
dentro do Riachuelo
içou a sua bandeira
na guerra do Paraguai
foi a batalha primeira
P - Milanês, você comigo
ou canta muito ou emperra
não pode se defender
salta, pula, chora e berra
qual foi a primeira estrada
de ferro, na nossa terra?
M - Foi quando Pedro II
tinha aqui poderes mil
em 18 e 54
no dia trinta de abril
inaugurou-se em Mauá
a primeira do Brasil
P - Milanês, você é fraco
não agüenta o desafio
eu ainda estou zombando
porque estou de sangue frio
me diga quem inventou
o telégrafo sem fio?
M - Pinto, você não pense
que meu barco vai a pique
em mil seiscentos e oito
na cidade de Munique
Suemering inventou
este aparelho tão chique
P - Eu já vi que Milanês
não responde cousa à toa
se ainda quiser cantar
hoje um de nós desacoa
puxe por mim que vai ver
um pinto de raça boa
M - Pinto, o seu pensamento
pra todo lado manobra
mas eu não conheço medo
barulho pra mim não sobra
é fogo queimando fogo
é cobra engolindo cobra
P - Do pessoal do salão
levantou-se um cavalheiro
dizendo: quero que cantem
pelo seguinte roteiro
Milanês pergunta a Pinto
como passa sem dinheiro
M - Oh! Pinto, você precisa
dum palitó jaquetão
uma manta, um cinturão
uma calça, uma camisa
está de algibeira lisa
não encontra um cavalheiro
que forneça ao companheiro
pra fazer-lhe um beneficio
olhe aí o precipício
como compra sem dinheiro?
P - Eu recomendo a mulher
que compre na prestação
um palitó jaquetão
a camisa se tiver
quando o cobrador vier
ela estej
Milanês estava cantando em vitória de Santo Antão chegou Severino Pinto nessa mesma ocasião em casa de um marchante travaram uma discussão.
M - Pinto, você veio aqui
se acabar no desespero
eu quero cortar-lhe a crista
desmantelar seu poleiro
aonde tem galo velho
pinto não canta em terreiro
P - mas comigo é diferente
eu sou um pinto graúdo
arranco esporão de galo
ele corre e fica mudo
deixa as galinhas sem dono
eu tomo conta de tudo
M - Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que agüente
P - Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.
M - Pinto, cantador de fora
aqui não terá partido
tem que ser obediente
cortês e bem resumido
ou rende-me obediência
ou então é destruído
P - Meu passeio nesta terra
foi acabar sua fama
derribar a sua casa
quebrar-lhe as varas da cama
deixar os cacos na rua
você dormindo na lama
M - Quando vier se confesse
deixe em casa uma quantia
encomende o ataúde
e avise a feguezia
que é para ouvir a sua
missa do sétimo dia
P - Ainda eu estando doente
com uma asa quebrada
o bico todo rombudo
e a titela pelada
aonde eu estiver cantando
você não torna chegada
M - O pinto que eu pegar
pélo logo e não prometo
vindo grande sai pequeno
chegando branco sai preto
sendo de aço eu envergo
sendo de ferro eu derreto
P - No dia que eu tenho raiva
o vento sente um cansaço
o dia perde a beleza
a lua perde o espaço
o sol transforma-se em gelo
cai de pedaço em pedaço
M - No dia que dou um grito
estremece o ocidente
o globo fica parado
o fruto não dá semente
a terra foge do eixo
o sol deixa de ser quente
P - Eu sou um pinto de raça
o bico é como marreta
onde bate quebra osso
sai felpa que dá palheta
abre buraco na carne
que dá pra fazer gaveta
M - Eu pego um pinto de raça
e amolo uma faquinha
faço um trabalho com ele
depois pesponto com linha
ele vivendo cem anos
não vai perto de galinha
P - Milanês, você comigo .
desaparece ligeiro
eu chego lá tiro raça
me aposso do poleiro
e você dorme no mato
sem poder vir no terreiro
M - Pinto, agora nós vamos
cantar em literatura
eu quero experimentá-lo
hoje aqui em toda altura
você pode ganhar esta
porém com grande amargura
P - pergunte o que tem vontade
não desespere da fé
do oceano, rio e golfo
estreito, lago ou maré
hoje você vai saber
pinto cantando quem é
M - Pinto, você me responda
de pensamento profundo
sem titubear na fala
num minuto ou num segundo
se leu me diga qual foi
a primeira invenção do mundo
P - Respondo porque conheço
vou dar-lhe minha notícia
foi o quadrante solar
pelo povo da Fenícia
os babilônios também
gozaram a mesma delícia
M - Como você respondeu-me
não merece disciplina
hoje aqui não há padrinho
que revogue a sua sina
se você souber me diga
quem inventou a vacina?
P - Não pense que com pergunta
enrasca a mim, Milanês
foi a vacina inventada
no ano noventa e seis
quem estuda bem conhece
que foi Jener Escocês
M - Sua resposta foi boa
de vocação verdadeira
mas queira Deus o colega
suba agora essa ladeira
me diga quem inventou
o relógio de algibeira?
P - No ano mil e quinhentos
Pedro Hélio com façanha
em Nuremberg inventou
essa obra tão estranha
cidade da Baviera
que pertence a Alemanha
M - Pinto, cantando não gosto
de amigo nem camarada
se conhece a história
Roma onde foi fundada?
o nome do fundador
e a data comemorada?
P - Em l7 e 53
antes de Cristo chegar
nas margens do Rio Tibre
isso eu posso lhe provar
Rômulo ali fundou Roma
a 15 milhas do mar
M - Pinto, eu na poesia
quero mostrar-lhe quem sou
relativo o avião
perguntando ainda vou
diga o primeiro balão
quem foi que inventou?
P - Em mil seiscentos e nove
Bartolomeu de Gusmão
no dia oito de agosto
fez o primeiro balão
hoje no mundo moderno
chama-se o mesmo avião
M - Pinto estou satisfeito
já de você eu não zombo
mas não pense que com isto
atira terra no lombo
disponha de Milanês
pra ver se ele agüenta o tombo
P - Milanês, você comigo
ou canta ou perde o valor
você me responda agora
seja que de forma for
de quem foi a invenção
do primeiro barco a vapor?
M - Eu quero lhe explicar
digo não muito ruim
a 16 a 87
você não desmente a mim
o inventor desse barco
foi o sábio Diniz Papim
P - Em que ano inaugurou-se
da Europa ao Brasil
a linha pra esse barco
a vapor e mercantil?
Se não souber dê o fora
vá soprar em um funil
M - Foi um navio inglês
que levantou a bandeira
em 18 a 51
veio a terra brasileira
sendo a nove de janeiro
fez a viagem primeira
P - E qual foi a 1a guerra
feita a barco a vapor?
Você ou diz ou apanha
da surra muda de cor
quebra a viola e deserta
nunca mais é cantador
M - Em l8 e 65
a esquadra brasileira
dentro do Riachuelo
içou a sua bandeira
na guerra do Paraguai
foi a batalha primeira
P - Milanês, você comigo
ou canta muito ou emperra
não pode se defender
salta, pula, chora e berra
qual foi a primeira estrada
de ferro, na nossa terra?
M - Foi quando Pedro II
tinha aqui poderes mil
em 18 e 54
no dia trinta de abril
inaugurou-se em Mauá
a primeira do Brasil
P - Milanês, você é fraco
não agüenta o desafio
eu ainda estou zombando
porque estou de sangue frio
me diga quem inventou
o telégrafo sem fio?
M - Pinto, você não pense
que meu barco vai a pique
em mil seiscentos e oito
na cidade de Munique
Suemering inventou
este aparelho tão chique
P - Eu já vi que Milanês
não responde cousa à toa
se ainda quiser cantar
hoje um de nós desacoa
puxe por mim que vai ver
um pinto de raça boa
M - Pinto, o seu pensamento
pra todo lado manobra
mas eu não conheço medo
barulho pra mim não sobra
é fogo queimando fogo
é cobra engolindo cobra
P - Do pessoal do salão
levantou-se um cavalheiro
dizendo: quero que cantem
pelo seguinte roteiro
Milanês pergunta a Pinto
como passa sem dinheiro
M - Oh! Pinto, você precisa
dum palitó jaquetão
uma manta, um cinturão
uma calça, uma camisa
está de algibeira lisa
não encontra um cavalheiro
que forneça ao companheiro
pra fazer-lhe um beneficio
olhe aí o precipício
como compra sem dinheiro?
P - Eu recomendo a mulher
que compre na prestação
um palitó jaquetão
a camisa se tiver
quando o cobrador vier
ela estej
1 598
1
Otávio Ramos
Bar do Lulu
(à maneira de Fernando Pessoa e Noel Rosa)
O bar do Lulu solta fogo pelas ventas.
Madrugada insinua ânsias lentas.
A juke-box desfila Perfume de Gardênia
- me alegro ao som do bolero plangente -
beijo na boca uma negra do Kênia
(nada do que é humano me é indiferente).
Calorosos aplausos da claque -
e eu peço ao garçom mais um conhaque.
Me esqueço de ti no bar do Lulu.
Säo tantas coisas tantos rires
viveres sonhares quereres
me sinto múltiplo de mim mesmo a nu,
que por näo estares acabas por näo seres.
Mas vai fechar o bar do Lulu
-metafísico alvorecer de claro-escuro -
empilham mesas, varrem o chäo duro
e eu pago a conta e subo a rua,
pra ir dormir junto com a lua.
(1995)
O bar do Lulu solta fogo pelas ventas.
Madrugada insinua ânsias lentas.
A juke-box desfila Perfume de Gardênia
- me alegro ao som do bolero plangente -
beijo na boca uma negra do Kênia
(nada do que é humano me é indiferente).
Calorosos aplausos da claque -
e eu peço ao garçom mais um conhaque.
Me esqueço de ti no bar do Lulu.
Säo tantas coisas tantos rires
viveres sonhares quereres
me sinto múltiplo de mim mesmo a nu,
que por näo estares acabas por näo seres.
Mas vai fechar o bar do Lulu
-metafísico alvorecer de claro-escuro -
empilham mesas, varrem o chäo duro
e eu pago a conta e subo a rua,
pra ir dormir junto com a lua.
(1995)
1 000
1
Milena Azevedo
Tributo aos 4 rapazes de Liverpool
Apenas os quatro
pintados num retrato
que pela vida tocaram
e deixaram seu rastro.
Canções que falam de paz e amor
foram um furor
fizeram a cabeça de multidões
e corações de várias gerações.
Foram simples rapazes
que com sua sagacidade
e força de vontade
conquistaram a humanidade.
Foi um João, um Paulo,
um George e um Ringo.
Foram simples jovens que cantaram
em uma só voz e mostraram
que vale a pena sonhar!
pintados num retrato
que pela vida tocaram
e deixaram seu rastro.
Canções que falam de paz e amor
foram um furor
fizeram a cabeça de multidões
e corações de várias gerações.
Foram simples rapazes
que com sua sagacidade
e força de vontade
conquistaram a humanidade.
Foi um João, um Paulo,
um George e um Ringo.
Foram simples jovens que cantaram
em uma só voz e mostraram
que vale a pena sonhar!
759
1
Núbia Marques
Itinerário
Se tua cabeça de repente
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la
Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo
Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo
Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la
Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los
Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la
Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo
Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo
Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la
Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los
Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.
963
1
Luís Guimarães Júnior
A Sertaneja
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês;
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Vinde ver, ó boiadeiros,
Meus vestidos domingueiros,
Meus braços limpos e nus:
Ah! vinde ver-me enfeitada
Com minha sala engomada,
Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos,
Pedis debalde os meus beijos,
Em vão pedis meu amor!
Eu sou a agreste cutia,
Que se expõe à pontaria
E ri-se do caçador!
A sertaneja morena
Bonita, forte, pequena,
Não cai na armadilha, não:
A jaçanã corre e voa
Quando vê sobre a lagoa
A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre,
Vistosa telha não cobre
O lar que herdei de meus pais:
Que importa? Vivo contente:
Ser moça, bela e inocente
É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho,
Quem defende o passarinho,
Quem das mãos espalha o bem,
Quem fez o sol e as estrelas,
Dando a virtude às donzelas,
Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece
Da mais tosca e simples prece
Que voa ao seio de Deus;
Por cada infeliz que chora
Abre na terra uma aurora,
Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos,
Podeis morrer de desejos,
Que eu não me temo de vós!
A sertaneja faceira
É mais que a paca ligeira
Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,
Bem como a onça raivosa
Pronta ao mais leve rumor!
No meu cabelo selvagem
Sente-se a morna bafagem
Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira ,
Melhor, melhor que a trigueira
Maravilha dos sertões?
Que peito mais brando anseia,
Quem mais gentil sapateia,
Quem pisa mais corações?
Ai! Gentes! Ai! Boiadeiros!
Não sois decerto os primeiros
Que o meu olhar cativou:
Desta morena a doçura
É como frecha segura:
Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada,
Como a folha machucada
Da verde malva-maçã:
Nela me embalo sonhando,
E dela salto cantando,
Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas,
Com as madrugadas formosas
Deste formoso sertão:
Meu sonho é como a canoa,
Que voa, que voa e voa
Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado
O rosário abençoado
Que minha mãe me deixou:
Ai! Gentes! Ai! Pastorinhas!
Se estão alvas as continhas
Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra?
Quem mais delícias encerra,
Quem mais feitiços contém?
Vem moreno boiadeiro,
Desafiar meu pandeiro
Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa!
Que barulho na floresta!
Quanto rumor no sertão!
Que céu! que matas cheirosas
Quanto perfume nas rosas,
E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra:
Não há nas brenhas cigarra
Que me acompanhe, — não há!
Trazei, trazei, boiadeiros,
As violas, os pandeiros,
Os búzios, o maracá!
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês:
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês;
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Vinde ver, ó boiadeiros,
Meus vestidos domingueiros,
Meus braços limpos e nus:
Ah! vinde ver-me enfeitada
Com minha sala engomada,
Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos,
Pedis debalde os meus beijos,
Em vão pedis meu amor!
Eu sou a agreste cutia,
Que se expõe à pontaria
E ri-se do caçador!
A sertaneja morena
Bonita, forte, pequena,
Não cai na armadilha, não:
A jaçanã corre e voa
Quando vê sobre a lagoa
A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre,
Vistosa telha não cobre
O lar que herdei de meus pais:
Que importa? Vivo contente:
Ser moça, bela e inocente
É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho,
Quem defende o passarinho,
Quem das mãos espalha o bem,
Quem fez o sol e as estrelas,
Dando a virtude às donzelas,
Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece
Da mais tosca e simples prece
Que voa ao seio de Deus;
Por cada infeliz que chora
Abre na terra uma aurora,
Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos,
Podeis morrer de desejos,
Que eu não me temo de vós!
A sertaneja faceira
É mais que a paca ligeira
Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,
Bem como a onça raivosa
Pronta ao mais leve rumor!
No meu cabelo selvagem
Sente-se a morna bafagem
Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira ,
Melhor, melhor que a trigueira
Maravilha dos sertões?
Que peito mais brando anseia,
Quem mais gentil sapateia,
Quem pisa mais corações?
Ai! Gentes! Ai! Boiadeiros!
Não sois decerto os primeiros
Que o meu olhar cativou:
Desta morena a doçura
É como frecha segura:
Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada,
Como a folha machucada
Da verde malva-maçã:
Nela me embalo sonhando,
E dela salto cantando,
Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas,
Com as madrugadas formosas
Deste formoso sertão:
Meu sonho é como a canoa,
Que voa, que voa e voa
Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado
O rosário abençoado
Que minha mãe me deixou:
Ai! Gentes! Ai! Pastorinhas!
Se estão alvas as continhas
Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra?
Quem mais delícias encerra,
Quem mais feitiços contém?
Vem moreno boiadeiro,
Desafiar meu pandeiro
Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa!
Que barulho na floresta!
Quanto rumor no sertão!
Que céu! que matas cheirosas
Quanto perfume nas rosas,
E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra:
Não há nas brenhas cigarra
Que me acompanhe, — não há!
Trazei, trazei, boiadeiros,
As violas, os pandeiros,
Os búzios, o maracá!
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês:
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
1 951
1
Gláucia Lemos
Poema para um Domingo
Um roupão amarelo, um abajur
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
um anjo de bronze sustentando a luz.
Um livro aberto e um blues.
A noite de um domingo.
E o show da solidão se repetindo.
Um cobertor de madras escocesas
uma lembrança de um beijo nos lábios
e uma certeza.
Este sempre espetáculo domingueiro
com luzes de néon ferindo o vidro
caindo no travesseiro.
Ao som do vento as esquadrias gemem.
Quando acontoecerá a última cena?
...Se os ponteiros não param essa ciranda.
(07.06.96)
1 268
1
Frei António das Chagas
Ao Cavalo do Conde de Sabugalque fazia Grandes Curvetas
Galhardo bruto, teu bizarro alento
Música é nova, com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento.
Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão, que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som, e o andar concento.
Cantam teus pés, e o teu meneio pronto,
Nas fugas, não, nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma m cada ponto.
Pois em falsas airosas suspendido,
Ergues em cada quebro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Música é nova, com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento.
Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão, que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som, e o andar concento.
Cantam teus pés, e o teu meneio pronto,
Nas fugas, não, nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma m cada ponto.
Pois em falsas airosas suspendido,
Ergues em cada quebro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
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1
Geraldo Carneiro
os fogos da fala
a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
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1
Chico Buarque
A Banda
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
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1
Cleonice Rainho
Canção
Chove e da janela
vejo as andorinhas
no poleiro dos fios
grossos da água
de muitos dias.
De asas molhadas
sacodem-se,
bicam e se encolhem
tristinhas.
Estou com duas blusas,
queria jogar-lhes uma
e sem poder
conto os fios.
São cinco — uma pauta
e as gotas dágua
caem como notas
de uma canção.
vejo as andorinhas
no poleiro dos fios
grossos da água
de muitos dias.
De asas molhadas
sacodem-se,
bicam e se encolhem
tristinhas.
Estou com duas blusas,
queria jogar-lhes uma
e sem poder
conto os fios.
São cinco — uma pauta
e as gotas dágua
caem como notas
de uma canção.
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Caio Valério Catulo
1º Ato
S. Pedro
Que é isto?! Aqui? No Céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
S. Pedro
Mas na casa de Deus?!... E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a Música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa Natureza,
os versos do meu canto representam
a divina Poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!
Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnando
vaguei por toda a Terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.
Que é isto?! Aqui? No Céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
S. Pedro
Mas na casa de Deus?!... E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a Música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa Natureza,
os versos do meu canto representam
a divina Poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!
Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnando
vaguei por toda a Terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.
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1
Castro Alves
Lucas
QUEM FOSSE naquela hora,
Sobre algum tronco lascado
Sentar-se no descampado
Da solitária ladeira,
Veria descer da serra,
Onde o incêndio vai sangrento,
A passo tardio e lento,
Um belo escravo da terra
Cheio de viço e valor...
Era o filho das florestas!
Era o escravo lenhador !
Que bela testa espaçosa,
Que olhar franco e triunfante!
E sob o chapéu de couro
Que cabeleira abundante!
De marchetada jibóia
Pende-lhe a rasto o facão...
E assim... erguendo o machado
Na larga e robusta mão...
Aquele vulto soberbo,
— Vivamente alumiado, —
Atravessa o descampado
Como uma estátua de bronze
Do incêndio ao fulvo clarão.
Desceu a encosta do monte,
Tomou do rio o caminho...
E foi cantando baixinho
Como quem canta pra si.
Era uma dessas cantigas
Que ele um dia improvisara,
Quando junto da coivara
Faz-se o Escravo — trovador.
Era um canto languoroso,
Selvagem, belo, vivace,
Como o caniço que nasce
Sob os raios do Equador.
Eu gosto dessas cantigas,
Que me vem lembrar a infância,
São minhas velhas amigas,
Por elas morro de amor...
Deixai ouvir a toada
Do — cativo lenhador —
E o sertanejo assim solta a tirana,
Descendo lento pra a servil cabana...
Sobre algum tronco lascado
Sentar-se no descampado
Da solitária ladeira,
Veria descer da serra,
Onde o incêndio vai sangrento,
A passo tardio e lento,
Um belo escravo da terra
Cheio de viço e valor...
Era o filho das florestas!
Era o escravo lenhador !
Que bela testa espaçosa,
Que olhar franco e triunfante!
E sob o chapéu de couro
Que cabeleira abundante!
De marchetada jibóia
Pende-lhe a rasto o facão...
E assim... erguendo o machado
Na larga e robusta mão...
Aquele vulto soberbo,
— Vivamente alumiado, —
Atravessa o descampado
Como uma estátua de bronze
Do incêndio ao fulvo clarão.
Desceu a encosta do monte,
Tomou do rio o caminho...
E foi cantando baixinho
Como quem canta pra si.
Era uma dessas cantigas
Que ele um dia improvisara,
Quando junto da coivara
Faz-se o Escravo — trovador.
Era um canto languoroso,
Selvagem, belo, vivace,
Como o caniço que nasce
Sob os raios do Equador.
Eu gosto dessas cantigas,
Que me vem lembrar a infância,
São minhas velhas amigas,
Por elas morro de amor...
Deixai ouvir a toada
Do — cativo lenhador —
E o sertanejo assim solta a tirana,
Descendo lento pra a servil cabana...
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1
Castro Alves
A Minha Irmã Adelaide
Q UANDO SOZINHO e triste... em horas de amargura,
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
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1
Castro Alves
Consuelo
A D. AGNESE,
NUNCA LESTE — Consuelo —, a página fulgente
Que George Sand, a loura, encheu de encanto e luz?
Este sonho onde o céu, da terra passa rente...
Onde o amor, a harmonia e a graça brincam nus?...
Vem! Dá-me tua mão... voemos a Sorrento!
Por barco — a fantasia! Por flâmula — teu véu!
Seja o cabelo negro — a vela solta ao vento...
Vem comigo sonhar a Itália... a noite... o céu! ...
A Itália! a Itália santa! a pátria peregrina...
Do Artista e do Poeta o mágico país.
Onde na terra o amor chamou-se — Fornarina,
Lá onde o amor no céu chamou-se Beatriz!
Terra que deu à luz a cavatina e a dália.
A espádua de alabastro e o laranjal em flor;
Onde o sopro da noite em pleno céu espalha
As lavas do Vesúvio e as explosões do amor.
...............................................
Vem comigo Formosa! A sombra vai profunda
Dos astros o cardume a trecho aclara o mar
O tardo gondoleiro o remo nágua afunda...
Veneza — o cisne eterno — engolfa-se a sonhar!
Do nicho da Madona o frouxo alampadário
Dos Doges alumia o lúgubre frontal.
Silêncio. Quebra a paz a voz do estradivário
E uma gôndola passa em águas do canal...
Dentro o grupo do amor! Fusão de primaveras;
Dois risos soletrando o verbo do beijar.
Ventura que produz a inveja das esferas,
E que faz de ciúme os anjos descorar.
O crente — ao pé da Santa! o riso — junto à boca.
Um anelar — sem termo! um fulgurar — sem fim!
Ela?!... bela a fazer a terra inteira louca
Alma feita de um astro!... e o corpo de um jasmim.
Ó divina Consuelo! a vaga do Adriático
Fez-te talvez nascer dum beijo dado ao sol.
A espuma foi teu berço, Alcíone simpático...
Tens por irmãos - o cisne, o amor e o rouxinol.
O amor, que açula o riso ao lábio da Francesa,
Que dá filtros fatais à filha de Madri,
Que mais lânguida torna a pensativa Inglesa,
A Grega mais audaz! mais indolente a Huri!
O amor na Italiana estala em harmonia...
Sobe ao lábio tremente... espalha-se no céu!
Amor não é palavra, amor é melodia!
Não há música assim como dizer: "Sou teu!"
E o seio que palpita a rebentar a seda...
E a garganta do cisne a desmaiar o alvor...
E a trança a descair... e a mão que a trança arreda...
Anzoleto a seus pés... as trevas em redor...
A divina Consuelo, em face à noite imensa,
No gesto dominando as fúrias do escarcéu
Na voz clara, sonora, ardente, larga, extensa,
— Escada de Jacó — prendia a terra ao céu! ...
II
Horas de amor, por que voais tão cedo?
Êxtases santos, por que assim passais?
Plantam-se risos no fatal rochedo,
Vinga a seara dos sombrios ais.
Um dia a fronte já não surge vívida...
Aperta o seio em desespero a mão...
— Que foi? — pergunta-se à criança lívida.
Ai! não respondas, Consuelo, não!
Apanha a essência destas fundas mágoas
Concentra o fogo nos teus seios nus.
Na gruta — mudam-se em cristal as águas,
No abismo — a lava se transforma em luz.
Palor e pranto, desespero e choro!...
Como no gênio esta coroa diz!...
Desta cicuta vais fazer um louro!...
Caíste mártir! e te ergueste... atriz!
III
Passou pela terra, tão casta e nitente,
Qual raio de lua que bate no gelo,
O Sânzio invejara-lhe a fronte inocente,
Por isso chamavam-na:
A pura Consuelo!
E tinha nos olhos fulgor de meteoros,
Um céu de procela no escuro cabelo,
Da aurora lavada nos pálidos raios,
A musa da Itália
Tu eras, Consuclo!
Cantava! Sua alma saía-lhe em notas...
Mistério! Milagre... quem pode sabê-lo?
As ninfas outrora mudavam-se em flores,
Em lira tornara-se
A triste Consuelo.
Cruzavam-Ihe o canto sussurros de arcanjo,
Suspiros de Laura, delírios de Otelo...
Se os raios da lua de sons se fizessem,
Talvez que lembrassem
A voz de Consuelo.
Mas, ai! que não acha na estrofe o poeta
Lampejos de um gênio tão fúlgido e belo.
Que versos espelham-te, é flor de Veneza?
Quem pode lembrar-te,
Divina Consuelo.
Só vós, bela diva! da música aos trenas,
Meu pádido sonho podeis aquecê-lo.
Afogue-se a musa nas árias brilhantes!...
E, se inda tu queres
Sonhar Consuelo ...
Coas mão no piano, co’os olhos no espaço,
Trementes os seios, revolto o cabelo...
Num mar de harmonia nos leva a Sorrento!...
Desperta-me a Itídia!
Revive Consuelo!
NUNCA LESTE — Consuelo —, a página fulgente
Que George Sand, a loura, encheu de encanto e luz?
Este sonho onde o céu, da terra passa rente...
Onde o amor, a harmonia e a graça brincam nus?...
Vem! Dá-me tua mão... voemos a Sorrento!
Por barco — a fantasia! Por flâmula — teu véu!
Seja o cabelo negro — a vela solta ao vento...
Vem comigo sonhar a Itália... a noite... o céu! ...
A Itália! a Itália santa! a pátria peregrina...
Do Artista e do Poeta o mágico país.
Onde na terra o amor chamou-se — Fornarina,
Lá onde o amor no céu chamou-se Beatriz!
Terra que deu à luz a cavatina e a dália.
A espádua de alabastro e o laranjal em flor;
Onde o sopro da noite em pleno céu espalha
As lavas do Vesúvio e as explosões do amor.
...............................................
Vem comigo Formosa! A sombra vai profunda
Dos astros o cardume a trecho aclara o mar
O tardo gondoleiro o remo nágua afunda...
Veneza — o cisne eterno — engolfa-se a sonhar!
Do nicho da Madona o frouxo alampadário
Dos Doges alumia o lúgubre frontal.
Silêncio. Quebra a paz a voz do estradivário
E uma gôndola passa em águas do canal...
Dentro o grupo do amor! Fusão de primaveras;
Dois risos soletrando o verbo do beijar.
Ventura que produz a inveja das esferas,
E que faz de ciúme os anjos descorar.
O crente — ao pé da Santa! o riso — junto à boca.
Um anelar — sem termo! um fulgurar — sem fim!
Ela?!... bela a fazer a terra inteira louca
Alma feita de um astro!... e o corpo de um jasmim.
Ó divina Consuelo! a vaga do Adriático
Fez-te talvez nascer dum beijo dado ao sol.
A espuma foi teu berço, Alcíone simpático...
Tens por irmãos - o cisne, o amor e o rouxinol.
O amor, que açula o riso ao lábio da Francesa,
Que dá filtros fatais à filha de Madri,
Que mais lânguida torna a pensativa Inglesa,
A Grega mais audaz! mais indolente a Huri!
O amor na Italiana estala em harmonia...
Sobe ao lábio tremente... espalha-se no céu!
Amor não é palavra, amor é melodia!
Não há música assim como dizer: "Sou teu!"
E o seio que palpita a rebentar a seda...
E a garganta do cisne a desmaiar o alvor...
E a trança a descair... e a mão que a trança arreda...
Anzoleto a seus pés... as trevas em redor...
A divina Consuelo, em face à noite imensa,
No gesto dominando as fúrias do escarcéu
Na voz clara, sonora, ardente, larga, extensa,
— Escada de Jacó — prendia a terra ao céu! ...
II
Horas de amor, por que voais tão cedo?
Êxtases santos, por que assim passais?
Plantam-se risos no fatal rochedo,
Vinga a seara dos sombrios ais.
Um dia a fronte já não surge vívida...
Aperta o seio em desespero a mão...
— Que foi? — pergunta-se à criança lívida.
Ai! não respondas, Consuelo, não!
Apanha a essência destas fundas mágoas
Concentra o fogo nos teus seios nus.
Na gruta — mudam-se em cristal as águas,
No abismo — a lava se transforma em luz.
Palor e pranto, desespero e choro!...
Como no gênio esta coroa diz!...
Desta cicuta vais fazer um louro!...
Caíste mártir! e te ergueste... atriz!
III
Passou pela terra, tão casta e nitente,
Qual raio de lua que bate no gelo,
O Sânzio invejara-lhe a fronte inocente,
Por isso chamavam-na:
A pura Consuelo!
E tinha nos olhos fulgor de meteoros,
Um céu de procela no escuro cabelo,
Da aurora lavada nos pálidos raios,
A musa da Itália
Tu eras, Consuclo!
Cantava! Sua alma saía-lhe em notas...
Mistério! Milagre... quem pode sabê-lo?
As ninfas outrora mudavam-se em flores,
Em lira tornara-se
A triste Consuelo.
Cruzavam-Ihe o canto sussurros de arcanjo,
Suspiros de Laura, delírios de Otelo...
Se os raios da lua de sons se fizessem,
Talvez que lembrassem
A voz de Consuelo.
Mas, ai! que não acha na estrofe o poeta
Lampejos de um gênio tão fúlgido e belo.
Que versos espelham-te, é flor de Veneza?
Quem pode lembrar-te,
Divina Consuelo.
Só vós, bela diva! da música aos trenas,
Meu pádido sonho podeis aquecê-lo.
Afogue-se a musa nas árias brilhantes!...
E, se inda tu queres
Sonhar Consuelo ...
Coas mão no piano, co’os olhos no espaço,
Trementes os seios, revolto o cabelo...
Num mar de harmonia nos leva a Sorrento!...
Desperta-me a Itídia!
Revive Consuelo!
2 452
1
Castro Alves
Depois da Leitura de Um Poema
(Em sessão literária)
(IMPROMPTU)
Lá vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo - o precipício enorme!
Responde em cima - o firmamento ingente!
Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda - como é fundo o pego!
Teu gênio é alto - como é alto o céu!
(IMPROMPTU)
Lá vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo - o precipício enorme!
Responde em cima - o firmamento ingente!
Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda - como é fundo o pego!
Teu gênio é alto - como é alto o céu!
2 202
1
Castro Alves
Manuela - (Cantiga do Rancho)
Companheiros! já na serra
Erra.
A tropa inteira a pastar...
Tropeiros! ... junto à candeia
Eia!
Soltemos nosso trovar ...
Té que as barras do Oriente
Rente
Saiam dos montes de lá...
Cada qual sua cantiga
Diga
Aos ecos do Sincorá.
No rancho as noites se escoam.
Voam,
Quando geme o trovador...
Ouvi, pois! que esta guitarra...
Narra
O meu romance de amor.
...........................................
Manuela era formosa
Rosa,
Rosa aberta no sertão...
Com seu torço adamascado
Dado
Ao sopro da viração.
Provocante, mas esquiva,
Viva
Como um doudo beija-flor...
Manuela - a moreninha
Tinha
Em cada peito um amor ...
Inda agora quando o vento
Lento
Traz-me saudades de então
Parece que a vejo ainda
Linda
Do fado no turbilhão
Vejo-lhe o pé resvalando
Brando
No fandango a delirar.
Inda ao som das castanholas
Rolas
Diante do meu olhar ...
Manuela... mesmo agora
Chora
Minhalma Pensando em ti...
E na viola relembro
Lembro
Tiranas que então gemi.
"Manuela, Manuela
Bela
Como tu ninguém luziu...
Minha travessa morena,
Pena
Pena tem de quem te viu!...
Manuela... Eu não perjuro!
Juro
Pela luz dos olhos teus...
Morrer por ti Manuela
Bela,
Se esqueces os sonhos meus.
Por teus sombrios olhares
- Mares
Onde eu me afogo de amor...
Pelas tranças que desatas
- Matas
Cheias de aroma e frescor ...
Pelos peitos que entre rendas
Vendas
Com medo que os vão roubar...
Pela perna que no frio
Rio
Pude outro dia enxergar ...
Por tudo que tem a terra,
Serra,
Mato, rio, campo e céu...
Eu te juro, Manuela,
Bela
Que serei cativo teu ...
Tu bem sabes que Maria,
Fria
É pra outros, não pra mim...
Que morrem Lúcia, Joana
E Ana
Aos sons do meu bandolim ...
Mas tu és um passarinho
- Ninho
Fizeste no peito meu ...
Eu sou a boca - és o canto
Tanto
Que sem ti não canto eu.
Vamos pois A noite cresce
Desce
A lua a beijar a flor
À sombra dos arvoredos
Ledos
Os ventos choram de amor
Vamos pois ó moreninha
Minha
Minha esposa ali serás
Ao vale a relva tapiza
Pisa
Serão teus Paços-reais!
Por padre uma árvore vasta
Basta!
Por igreja - o azul do céu...
Serão as brancas estrelas
- Velas
Acesas pra o himeneu".
Assim nos tempos perdidos
Idos
Eu cantava mas em vão
Manuela, que me ouvia,
Ria,
Casta flor da solidão!
Companheiros! se inda agora
Chora
Minha viola a gemer,
É porque um dia... Escutai-me
Dai-me
Sim! dai-me antes que beber!. . .
É que um dia mas bebamos
Vamos
No copo afogue-se a dor!
Manuela, Manuela,
Bela,
Fez-se amante do senhor!
Erra.
A tropa inteira a pastar...
Tropeiros! ... junto à candeia
Eia!
Soltemos nosso trovar ...
Té que as barras do Oriente
Rente
Saiam dos montes de lá...
Cada qual sua cantiga
Diga
Aos ecos do Sincorá.
No rancho as noites se escoam.
Voam,
Quando geme o trovador...
Ouvi, pois! que esta guitarra...
Narra
O meu romance de amor.
...........................................
Manuela era formosa
Rosa,
Rosa aberta no sertão...
Com seu torço adamascado
Dado
Ao sopro da viração.
Provocante, mas esquiva,
Viva
Como um doudo beija-flor...
Manuela - a moreninha
Tinha
Em cada peito um amor ...
Inda agora quando o vento
Lento
Traz-me saudades de então
Parece que a vejo ainda
Linda
Do fado no turbilhão
Vejo-lhe o pé resvalando
Brando
No fandango a delirar.
Inda ao som das castanholas
Rolas
Diante do meu olhar ...
Manuela... mesmo agora
Chora
Minhalma Pensando em ti...
E na viola relembro
Lembro
Tiranas que então gemi.
"Manuela, Manuela
Bela
Como tu ninguém luziu...
Minha travessa morena,
Pena
Pena tem de quem te viu!...
Manuela... Eu não perjuro!
Juro
Pela luz dos olhos teus...
Morrer por ti Manuela
Bela,
Se esqueces os sonhos meus.
Por teus sombrios olhares
- Mares
Onde eu me afogo de amor...
Pelas tranças que desatas
- Matas
Cheias de aroma e frescor ...
Pelos peitos que entre rendas
Vendas
Com medo que os vão roubar...
Pela perna que no frio
Rio
Pude outro dia enxergar ...
Por tudo que tem a terra,
Serra,
Mato, rio, campo e céu...
Eu te juro, Manuela,
Bela
Que serei cativo teu ...
Tu bem sabes que Maria,
Fria
É pra outros, não pra mim...
Que morrem Lúcia, Joana
E Ana
Aos sons do meu bandolim ...
Mas tu és um passarinho
- Ninho
Fizeste no peito meu ...
Eu sou a boca - és o canto
Tanto
Que sem ti não canto eu.
Vamos pois A noite cresce
Desce
A lua a beijar a flor
À sombra dos arvoredos
Ledos
Os ventos choram de amor
Vamos pois ó moreninha
Minha
Minha esposa ali serás
Ao vale a relva tapiza
Pisa
Serão teus Paços-reais!
Por padre uma árvore vasta
Basta!
Por igreja - o azul do céu...
Serão as brancas estrelas
- Velas
Acesas pra o himeneu".
Assim nos tempos perdidos
Idos
Eu cantava mas em vão
Manuela, que me ouvia,
Ria,
Casta flor da solidão!
Companheiros! se inda agora
Chora
Minha viola a gemer,
É porque um dia... Escutai-me
Dai-me
Sim! dai-me antes que beber!. . .
É que um dia mas bebamos
Vamos
No copo afogue-se a dor!
Manuela, Manuela,
Bela,
Fez-se amante do senhor!
4 098
1
Abrahão Cost'Andrade
Mulãria da Macambária
JOANA foi embora.
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria
Embora não soubesse o lugar
em suas veias.
Havia uma ponte esquiva tocando duas margens de
um rio de pedra, rio de pedra, de pedra rio.
Joana não sabia que a pedra
era bebível.
Atravessou a ponte de fibras, tensa
com passos dormentes, surdo-mudos.
A primeira palavra
aprendida por Joana
foi água.
Com treze anos, água.
Da água fez uma canção...
A canção de Joana fazia chover.
Ela imitava o som do violão:
"água água água e o som do violão".
Quando Joana foi embora
os braços de João ficaram mais femininos.
Ela tinha tendência para o bem, com todo aquele olhar malígno.
Joana pequenina chorava:
Mulãria da Macámbaria
860
1
Ingeborg Bachmann
Dizer Trevas
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
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1
Luís Amaro
A Teixeira de Pascoais
1
Tudo a noite transforma.
A verdade das coisas está perto
E, o silencio fala
Com as sombras da nossa alma, iguais
As sombras dum jardim lunar
Com árvores e flores
Que refletem nossa paisagem íntima.
Imagem do silêncio,
Ó fonte do meu sonho, recolhida
E imersa na penumbra ...
Longe, uma tristeza irmã abre-me os braços
Onde tudo me diz
O sentido da vida!
2
Lá vem a noite... As sombras
Invadem já meu coração sozinho,
Tocado de mistério e de silêncio,
Ferido de remorso e nostalgia.
Lá vem a noite, e traz consigo
O abandono absoluto, o esquecimento,
O contato mais íntimo das coisas
Que nos povoam e sobressaltam.
Lá vem a noite... E eu, desamparado,
Defronto enigmas e desfio lembranças
Da vida vã, dispersa... Mas súbito
Uma outra voz acalma o coração,
Cresce da sombra, iluminada e pura!
3
Um fio de música
Que me liberte
Do peso escuro
Que trago em mim!
Um fio de música
Que me transmita
(E a alma inunde),
Mãe, teu perdão!
Um fio de música
Que vã ao fundo
Do ser dorido,
Qual uma bênção
E sagre e embale
Meu coração
Das trevas preso:
Um fio de luz
Que me redima
Daquele instante
E varra, afaste
A vil lembrança!
Um fio de música
A dar-me alento
De olhar de frente
A luz do dia!
4
Ave ferida, minha alma
Necessita de silêncio
Para voar liberta da aridez dos dias,
E vai morrendo ausente
Da luz do alto onde quisera
Pairar sem nome e sem destino ...
Ave ferida e deserta
De esperanças, vai ficando
Saudosa dos longes, da distância,
E suas asas retraem-se, doridas,
De encontro às grades frias, lisas,
Dum cárcere obscuro!
Ave ferida e sedenta
Dos livres horizontes, das palavras
Que crepitam nos astros e fluem
Dos corações amantes, das montanhas
— Minha alma necessita de silencio
E, refletindo na noite a sua imagem,
Ir ao fundo das coisas, desprendida!
5
Nos confusos recantos onde o sonho
Se espraia e vive, sem dizer seu nome.
Pulsa num coração o ritmo do mundo.
Ignorado, longe, intranqüilo,
Do grande mar, rasgando a imensidade,
Voga no vento um clamor, um grito
Que a noite guarda abandonadamente
E o coração anônimo adivinha
Além da névoa persistente, triste...
E do silêncio emerge urna voz pura,
Já liberta de lágrimas, cantando,
Na luz oculta, o despontar da vida!
Tudo a noite transforma.
A verdade das coisas está perto
E, o silencio fala
Com as sombras da nossa alma, iguais
As sombras dum jardim lunar
Com árvores e flores
Que refletem nossa paisagem íntima.
Imagem do silêncio,
Ó fonte do meu sonho, recolhida
E imersa na penumbra ...
Longe, uma tristeza irmã abre-me os braços
Onde tudo me diz
O sentido da vida!
2
Lá vem a noite... As sombras
Invadem já meu coração sozinho,
Tocado de mistério e de silêncio,
Ferido de remorso e nostalgia.
Lá vem a noite, e traz consigo
O abandono absoluto, o esquecimento,
O contato mais íntimo das coisas
Que nos povoam e sobressaltam.
Lá vem a noite... E eu, desamparado,
Defronto enigmas e desfio lembranças
Da vida vã, dispersa... Mas súbito
Uma outra voz acalma o coração,
Cresce da sombra, iluminada e pura!
3
Um fio de música
Que me liberte
Do peso escuro
Que trago em mim!
Um fio de música
Que me transmita
(E a alma inunde),
Mãe, teu perdão!
Um fio de música
Que vã ao fundo
Do ser dorido,
Qual uma bênção
E sagre e embale
Meu coração
Das trevas preso:
Um fio de luz
Que me redima
Daquele instante
E varra, afaste
A vil lembrança!
Um fio de música
A dar-me alento
De olhar de frente
A luz do dia!
4
Ave ferida, minha alma
Necessita de silêncio
Para voar liberta da aridez dos dias,
E vai morrendo ausente
Da luz do alto onde quisera
Pairar sem nome e sem destino ...
Ave ferida e deserta
De esperanças, vai ficando
Saudosa dos longes, da distância,
E suas asas retraem-se, doridas,
De encontro às grades frias, lisas,
Dum cárcere obscuro!
Ave ferida e sedenta
Dos livres horizontes, das palavras
Que crepitam nos astros e fluem
Dos corações amantes, das montanhas
— Minha alma necessita de silencio
E, refletindo na noite a sua imagem,
Ir ao fundo das coisas, desprendida!
5
Nos confusos recantos onde o sonho
Se espraia e vive, sem dizer seu nome.
Pulsa num coração o ritmo do mundo.
Ignorado, longe, intranqüilo,
Do grande mar, rasgando a imensidade,
Voga no vento um clamor, um grito
Que a noite guarda abandonadamente
E o coração anônimo adivinha
Além da névoa persistente, triste...
E do silêncio emerge urna voz pura,
Já liberta de lágrimas, cantando,
Na luz oculta, o despontar da vida!
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1
Giselda Medeiros
Tua Voz
Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
1 087
1
Gilka Machado
Esboço
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
(in Sublimação, 1928)
3 487
1
Fernando Pessoa
Música... Que sei eu de mim?
Música... Que sei eu de mim?
Que sei eu de haver ser ou estar?
Música... sei só que sem fim
Quero saber só de sonhar...
Música... Bem no que faz mal
A alma entregar-se a nada...
Mas quero ser animal
Da insuficiência enganada.
Música... Se eu pudesse ter,
Não o que penso ou desejo,
Mas o que não pude haver
E que até nem em sonhos vejo,
Se também eu pudesse fruir
Entre as algemas de aqui estar!
Não faz mal. Flui,
Para que eu deixe de pensar!
1934
Que sei eu de haver ser ou estar?
Música... sei só que sem fim
Quero saber só de sonhar...
Música... Bem no que faz mal
A alma entregar-se a nada...
Mas quero ser animal
Da insuficiência enganada.
Música... Se eu pudesse ter,
Não o que penso ou desejo,
Mas o que não pude haver
E que até nem em sonhos vejo,
Se também eu pudesse fruir
Entre as algemas de aqui estar!
Não faz mal. Flui,
Para que eu deixe de pensar!
1934
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1
Fernando Pessoa
16 - LULLABY
LULLABY *
My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!
There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!
* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!
There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!
Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.
When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!
I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!
Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.
Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!
Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!
* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
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Fernando Pessoa
Melodia triste sem pranto,
Melodia triste sem pranto,
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
Diluída, antiga, feliz
Manhã de sentir a alma como um canto
De D. Dinis.
Vem do fundo do campo, da hora,
E do modo triste como ouço,
Uma voz que canta, e se demora.
Escuto alto, mas não posso
Distinguir o que diz; é música só,
Feita de coração, sem dizer:
Murmúrio de quem embala, com um vago dó
De o menino ter de crescer.
24/08/1930
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