Poemas neste tema
Nascimento
Clóvis Ramos
Humilde Estrebaria
Um fenômeno estranho acontecia
nas terras de Judá. Eis que os pastores
ouviram vozes de anjos em louvores
ao pequenino filho de Maria.
A noite era de místicos fulgores,
noite serena, noite de poesia.
Sobre as palhas de humilde estrebaria,
dormitava Jesus por entre flores.
Uma estrela de brilho nunca visto,
aparecera nessa noite e os Magos
vieram de longe em caravanas de ouro...
"Glória a Deus nas alturas!" Glória ao Cristo!
Maria — Mãe — porém, em pranto e afagos,
temia a sorte do seu filho louro.
nas terras de Judá. Eis que os pastores
ouviram vozes de anjos em louvores
ao pequenino filho de Maria.
A noite era de místicos fulgores,
noite serena, noite de poesia.
Sobre as palhas de humilde estrebaria,
dormitava Jesus por entre flores.
Uma estrela de brilho nunca visto,
aparecera nessa noite e os Magos
vieram de longe em caravanas de ouro...
"Glória a Deus nas alturas!" Glória ao Cristo!
Maria — Mãe — porém, em pranto e afagos,
temia a sorte do seu filho louro.
860
Carlos Nóbrega
Matéria de Consumo
Quando a primeira luz
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma
836
Bernardim Ribeiro
Cantiga
da Menina e Moça
Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos dágua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.
Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos dágua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.
2 549
Barros Alves
O Nascimento do Salvador
Era triste e dorida a madrugada.
Nenhum gesto do tempo, nenhum som
Que pré-anunciasse algo de bom
Naquela estrebaria abandonada...
Não se via andarilho pela estrada
Que levava à cidade de Belém.
Nenhuma alma vivente. Ali, ninguém.
Somente um carpinteiro e sua amada.
E em meio aos animais da estrebaria,
Do ventre puro e excelso de Maria
Surgiu a Luz do Amor, a Claridade...
O mundo se encantou naquele dia.
Hosana nas alturas!, se ouviria.
Nascera o Salvador da Humanidade.
Nenhum gesto do tempo, nenhum som
Que pré-anunciasse algo de bom
Naquela estrebaria abandonada...
Não se via andarilho pela estrada
Que levava à cidade de Belém.
Nenhuma alma vivente. Ali, ninguém.
Somente um carpinteiro e sua amada.
E em meio aos animais da estrebaria,
Do ventre puro e excelso de Maria
Surgiu a Luz do Amor, a Claridade...
O mundo se encantou naquele dia.
Hosana nas alturas!, se ouviria.
Nascera o Salvador da Humanidade.
510
Anibal Beça
A genealogia do amor
E assim se fez verbo
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.
Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.
O primeiro grito
– parto da palavra –
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.
Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.
O primeiro grito
– parto da palavra –
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.
1 165
Luiza Neto Jorge
Venho de dentro,abriu-se a porta
Venho
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
1 510
Nuno Guimarães
O Pão
Não
é ainda um seio
Mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
A branca levedura.
Um mecanismo incerto
De ferro e madrugada.
A fome e o excesso
Futuros. Na seara.
A fome e a carência
De sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
De areia. Ou terra solta.
Um campo descampado
Um canto com bolor.
É arte que se move
Minéria como a água.
Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
De sol. Oxigénio
Não é ainda um círculo
Branco por toda a mesa
Manchado na toalha
De sombra e aspereza.
Não é ainda uma ave
Descendo sobre a pele:
Um mecanismo triste
Movendo a boca breve.
é ainda um seio
Mas quase. Na brancura.
Porém, onda de leite
A branca levedura.
Um mecanismo incerto
De ferro e madrugada.
A fome e o excesso
Futuros. Na seara.
A fome e a carência
De sol(o) para a boca.
Não é ainda um campo
De areia. Ou terra solta.
Um campo descampado
Um canto com bolor.
É arte que se move
Minéria como a água.
Engenho de palato.
Alvéolo de pulmão.
Respira-se o exemplo
De sol. Oxigénio
Não é ainda um círculo
Branco por toda a mesa
Manchado na toalha
De sombra e aspereza.
Não é ainda uma ave
Descendo sobre a pele:
Um mecanismo triste
Movendo a boca breve.
1 334
Nuno Guimarães
Um Fruto Anunciado
Um fruto anunciado
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
1 106
Juscelino Vieira Mendes
Puros Olhos
Para Emil Sinclair
"Os filhos são herança do Senhor,
e o fruto do ventre o seu galardão."
Salmos 127:3
Tudo mudou
agora como nunca
nunca como agora.
Olhos negros — castanhos talvez — desconfiados me olham.
Fitam-me como se um estranho eu fosse,
repletos de ternura — puro amor candura...
Olhos que me deixam desatinado.
Puros olhos que olham:
impuros olhos repletos de tristeza e melancolia;
de ódio e rancor, às vezes repletos de amor...
Na alegria, no afeto e na esperança.
Tudo mudou! Você chegou! Amado antes de vir:
quando respirava por outros meios, que não os de agora, que não os de fora.
Filho desentranhado no calor, olhar-nos-emos sempre com amor?...
Campinas, anoitecer ensolarado de quinta-feira, 6 de janeiro de 1977.
"Os filhos são herança do Senhor,
e o fruto do ventre o seu galardão."
Salmos 127:3
Tudo mudou
agora como nunca
nunca como agora.
Olhos negros — castanhos talvez — desconfiados me olham.
Fitam-me como se um estranho eu fosse,
repletos de ternura — puro amor candura...
Olhos que me deixam desatinado.
Puros olhos que olham:
impuros olhos repletos de tristeza e melancolia;
de ódio e rancor, às vezes repletos de amor...
Na alegria, no afeto e na esperança.
Tudo mudou! Você chegou! Amado antes de vir:
quando respirava por outros meios, que não os de agora, que não os de fora.
Filho desentranhado no calor, olhar-nos-emos sempre com amor?...
Campinas, anoitecer ensolarado de quinta-feira, 6 de janeiro de 1977.
1 135
Pedro Sena
Life goes on and a new Christmas comes
Life goes on and a new Christmas comes
and we go under the sun, the earth turns
continually, ... praying for his holy birth
forget our own, mother, such rotten girth.
In the eyes of the noblest ones of them all
we wonder,...
will he die for my sins, or his own fall?
The life of a child, the son of holy union
( how about you )
the largest symbol, to many heathens, opinion
( surely you believe )
yet, as we remenber this day of his coming
( as you and I )
many more will surely be coming, atoning
( right )
many silly notions of our lowly, sad, life
when it matters not his real truth or spite
for your day for the deliverance of your heart
will stand one day, look around, also smart
( for real this time )
and wish for things already gone very far
hoping for a new start, everglowing star
of hopes, wishes, dreams, visions and faiths
that have never wanted you around
except when you can justify your being
through a gross process of your mind
where the cynic eyes choose your law
as simple, and above that of the flaw
which we have created for ourselves.
Awake!!! All you noble souls, realize, celebrate
the very birth of your own heart, you ingrate,
into my arms, the ones you have eer hoped
while you prayed, you cried, learnd, invoked
for a freedom on this earth
( your own )
with its carefully crafted dearth
( nature )
where so many can be created
devoid of heart and nurture
ready to fight another war
and die in splendour,
once again,
...
let them be born,
again,
those with the courage,
but never shall you try
to tell them why,
and how,
you just dont know,
you really dont know,
and why should you know...
and we go under the sun, the earth turns
continually, ... praying for his holy birth
forget our own, mother, such rotten girth.
In the eyes of the noblest ones of them all
we wonder,...
will he die for my sins, or his own fall?
The life of a child, the son of holy union
( how about you )
the largest symbol, to many heathens, opinion
( surely you believe )
yet, as we remenber this day of his coming
( as you and I )
many more will surely be coming, atoning
( right )
many silly notions of our lowly, sad, life
when it matters not his real truth or spite
for your day for the deliverance of your heart
will stand one day, look around, also smart
( for real this time )
and wish for things already gone very far
hoping for a new start, everglowing star
of hopes, wishes, dreams, visions and faiths
that have never wanted you around
except when you can justify your being
through a gross process of your mind
where the cynic eyes choose your law
as simple, and above that of the flaw
which we have created for ourselves.
Awake!!! All you noble souls, realize, celebrate
the very birth of your own heart, you ingrate,
into my arms, the ones you have eer hoped
while you prayed, you cried, learnd, invoked
for a freedom on this earth
( your own )
with its carefully crafted dearth
( nature )
where so many can be created
devoid of heart and nurture
ready to fight another war
and die in splendour,
once again,
...
let them be born,
again,
those with the courage,
but never shall you try
to tell them why,
and how,
you just dont know,
you really dont know,
and why should you know...
935
Luís Represas
Pedra no charco
Caiu uma pedra no charco,
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.
Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.
É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.
Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.
E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.
Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.
É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.
Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.
E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.
1 208
Fernando Pessoa
XX - But these are thoughts or promises or but
But these are thoughts or promises or but
Half the purpose of rut,
And this is lust thought-of or futureless
Or used but lust to ease.
Do ye the circle true of love pretend,
And, what Nature, intend!
Do ye actually ache
The horse of lust by reins of life to bend
And pair in love for love's creating sake!
Bellow! Roar! Stallions be or bulls that fret
On their seed's hole to get!
Surge for that carnal complement that will
Your flesh's young juice thrill
To the wet mortised joints at which you meet
The coming life to greet,
In the tilled womb that will bulge till it do
The plenteous curve of spheric earth renew!
Half the purpose of rut,
And this is lust thought-of or futureless
Or used but lust to ease.
Do ye the circle true of love pretend,
And, what Nature, intend!
Do ye actually ache
The horse of lust by reins of life to bend
And pair in love for love's creating sake!
Bellow! Roar! Stallions be or bulls that fret
On their seed's hole to get!
Surge for that carnal complement that will
Your flesh's young juice thrill
To the wet mortised joints at which you meet
The coming life to greet,
In the tilled womb that will bulge till it do
The plenteous curve of spheric earth renew!
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